O QUE HÁ ALÉM DA MORTE DE REFUGIADOS NA EUROPA?
O que não vimos
Gabriel
Zacarias*
Força da foto que chocou o mundo está no que ela
oculta:
Aylan era curdo e morreu porque era curdo
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O pequeno Aylan Kurdi, 3 anos, jaz morto sobre uma praia de Bodrum, na Turquia. Foto: Nilufer Demir / REUTERS |
Qual
força possui a imagem do sofrimento alheio? Mostrar o horror seria mesmo o meio
mais adequado para impedir que ele se repita? Polêmica antiga, presente ao
menos desde que a fotografia passou a documentar os campos de batalha, e que
foi repertoriada com muito talento pela ensaísta americana Susan Sontag no último livro que publicou antes de falecer, Diante da Dor dos Outros, de 2003.
Motivada em parte pelo escândalo das fotos de iraquianos torturados nas prisões
de Abu Ghraib, fotos divulgadas pelos próprios soldados americanos, Sontag se mostrou à época bastante cética
quanto a qualquer possibilidade emancipadora da imagem fotográfica. Posição
mais esperançosa demonstraram aqueles que sustentaram, nos últimos dias, a
importância de se divulgar a fotografia de Aylan
Kurdi, 3 anos, encontrado morto na praia de Bodrum, na Turquia. Difundida
pela agência Reuters, a fotografia
estampou as capas de alguns dos principais jornais do mundo, e se alastrou
pelas redes sociais. Logo se seguiu uma viva polêmica sobre a pertinência ou
não da publicação, julgada por alguns demasiadamente ofensiva. A aparente
polarização elide o fato de que uma mesma premissa subjaz às argumentações de
ambos, implícita e não questionada. Quer
os que são a favor, quer os que são contra a publicação da imagem partem do
pressuposto de que a fotografia mostra algo em excesso. Para os que se
opõem, trata-se de uma exposição obscena da morte alheia - obscenidade
acrescida por se tratar de uma criança. Os que defendem a publicação insistem
na necessidade de mostrar a realidade, por mais dura que seja. Em comum acordo
quanto ao caráter revelador da imagem, ambas as posições erram o alvo. A força da imagem, como tentarei
argumentar, não está naquilo que ela revela, mas naquilo que ela oculta.
O
que vemos, de fato, na fotografia divulgada essa semana pela agência Reuters? A imagem mostra uma criança pequena caída de bruços à beira do mar,
enquanto um homem uniformizado, de costas para a câmera, parece tomar notas.
O rosto da criança é muito pouco perceptível, enquanto o do homem é
praticamente invisível. Não é difícil perceber que se trata de uma criança
morta e de um policial que registra o ocorrido. Porém, que se trate de uma criança curda refugiada, que pereceu na tentativa
de atravessar a fronteira turca com a Grécia, essa já não é uma informação
contida na imagem, e que pode apenas se tornar conhecida por outros meios.
Isso não altera em nada o efeito de choque da imagem, que não depende de seu
contexto. Pelo contrário, a força da fotografia está, em grande parte, ligada a
seu caráter genérico, no sentido forte da palavra, isto é, não apenas genérico
enquanto pouco definido, mas genérico na acepção que se dava a essa palavra em
filosofia, enquanto “essência genérica”,
ou seja, aquilo que remete ao gênero
humano.
A
imagem do garoto caído à beira-mar evoca, em primeiro lugar, a dor da perda de
uma criança, morte que é sempre sentida como mais injusta. Em consequência,
evoca também a empatia com a perda de um filho, sentimento que é fortalecido
particularmente pela posição na qual se
encontra a criança, uma posição em que bebês comumente dormem. É difícil
imaginar um pai ou uma mãe que possam ficar impassíveis diante dessa foto, que
deixem de associar a imagem com a lembrança de seu próprio filho dormindo de
bruços no berço. Muitas pessoas, incomodadas com a divulgação da imagem, mas
sensibilizadas pelo fato, preferiram compartilhar nas redes sociais uma
ilustração que sintetizava de maneira clara essa identificação: nela víamos o garoto curdo representado na
mesma posição da foto, só que deitado em um berço [ver foto abaixo].
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Desenho do menino curdo Aylan Kurdi, morto na Turquia, inspirada na famosa foto que a imprensa mundial divulgou. Autor: Steve Dennis via Twitter |
O
fato de que o rosto do garoto não estivesse visível na foto é um dado
fundamental para compreender sua eficácia, pois torna a identificação tanto
mais fácil. Se nela víssemos um garoto de traços étnicos específicos, uma parte
do público já não mais se identificaria com ela - sobretudo porque o garoto não
era caucasiano. Pode-se questionar se o europeu, principal público visado pela
foto, teria nesse caso demonstrado a mesma comoção, ou se teria reagido da
mesma forma caso o garoto estivesse trajado com uma indumentária típica de uma
etnia não “ocidental” - como tantas outras crianças que perecem periodicamente
em tentativas de travessia do mesmo mar Mediterrâneo, e cujas fotos não chegam
à primeira página dos jornais.
Vemos,
assim, que a própria noção de gênero
humano comporta já implicitamente uma hierarquia, a empatia sendo
proporcionalmente maior para com aqueles que são “como nós” do que para com
aqueles que são diferentes. O que importa aqui, porém, não é fazer uma
acusação de hipocrisia. Pretendo apenas
sublinhar o quanto a força da imagem está relacionada à sua falta de
especificidade, o que vai na contramão da argumentação padrão daqueles que,
ao longo dos últimos dias, defenderam a publicação da fotografia. Para estes,
seria fundamental divulgar a imagem por sua força de revelação: ela daria a ver
uma realidade desconhecida, ou mesmo ocultada.
Essa
argumentação reavivou alguns dos mais antigos lugares-comuns acerca da
fotografia. O primeiro é aquele concentrado no adágio de que “uma imagem vale mais que mil palavras”.
Assim, tudo o que havia sido escrito até então sobre a crise dos refugiados foi
considerado inócuo se comparado a essa imagem, tida como muito mais
significativa do que as frias estatísticas. Mas é necessário frisar essa
palavra: as imagens são, de fato,
significativas; e os significados que elas veiculam dependem da interação de
seus elementos, bem como de seu contexto. Apesar dessa evidência, no debate
público parece predominar ainda a velha crença na imagem como revelação.
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Particular da famosa foto que deu o giro no mundo, retratando Aylan Kurdi de 3 anos morto por afogamento na praia de Bodrum (Turquia) Foto: Nilufer Demir / REUTERS |
O
que essa imagem mostra, porém, é justamente o contrário. Se ela tem de fato uma
capacidade, maior do que a dos textos e das estatísticas, de mobilizar o
público leitor em torno do drama dos refugiados sírios, tal não se deve àquilo
que ela revela, mas sim àquilo que ela oculta. Ela não é uma “imagem forte” no sentido em que se emprega essa
expressão no senso comum. Ao contrário do que afirmam aqueles que se opõem
à publicação da foto, ela não é uma
imagem explícita. Tantas fotos muito mais explícitas de crianças vítimas do
conflito sírio circulam na imprensa e nas redes sociais desde que esse começou,
sem lograr, contudo, o mesmo impacto.
Portanto,
insisto, a fotografia que tomou as capas
dos jornais tira sua força justamente daquilo que ela oculta. Ela oculta o
específico. Ela oculta o fato de que aquele garoto é curdo. Ela oculta o fato
de que Aylan morreu porque era curdo.
Aqueles
que defendem a divulgação da foto com a nobre intenção de mobilizar as pessoas
em torno do drama vivido na Síria parecem não perceber esse lado perverso. A imagem funciona como instrumento de
propaganda - mesmo que para uma boa causa - precisamente porque esvazia a
biografia de Aylan, porque o disfarça de garoto ocidental. A contradição é
justamente que, se Aylan fosse ocidental, não teria morrido na travessia. Cai
assim também outro lugar-comum bastante presente na argumentação dos que
sustentaram a difusão da fotografia, e que postula seu valor epistemológico. A
fotografia seria um meio de conhecimento, ela permitiria às pessoas conhecer
uma realidade que ignoram, ou que não podem compreender devidamente apenas com
textos e estatísticas.
Entretanto,
como vimos, a fotografia é extremamente pobre em informações. Se dependêssemos apenas da imagem, não
saberíamos quase nada sobre o ocorrido, e muito menos sobre a situação
calamitosa na Síria. Não saberíamos que a família de Aylan Kurdi fugiu de Kobani, cidade síria tomada pelo Estado
Islâmico antes de ser reconquistada pelo YPG, a milícia popular ligada ao Partido Trabalhista Curdo (PKK). Nem saberíamos que o YPG, que se provara
até então o mais eficaz inimigo do Estado Islâmico na região, está agora sendo
bombardeado pelo exército turco do primeiro-ministro Recep Erdogan, que,
pretendendo-se um aliado do Ocidente na luta contra o Estado Islâmico,
aproveita-se para, com o aval da Casa Branca, despejar mais uma vez suas bombas
sobre os curdos.
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Gabriel Zacarias - sociólogo Autor deste artigo |
Todas
essas questões são conhecidas e, não obstante, não logram mobilizar a opinião
pública da mesma forma que a foto de Aylan. É preciso, contudo, evitar a
crença, um tanto ingênua, de que esse sucesso se deva a uma força intrínseca da
fotografia, à sua capacidade superior de revelar a verdade, e encarar o lado
menos nobre dessa mobilização. A comoção
em torno da foto não se compreende se não atentarmos para o terrível
esvaziamento que ela opera da alteridade de Aylan. Com efeito, Sontag
propunha, no livro já citado, que as imagens atrozes comunicam pouco,
justamente porque aqueles que as veem, não tendo vivido experiências atrozes,
não podem compreender integralmente aquilo que elas representam.
Se
a fotografia de Aylan Kurdi é tão
provocadora e parece dizer tanto, talvez seja porque, na verdade, ela nos fale
simplesmente da dor genérica da morte, do medo da perda de um filho, sem que
por isso possa comunicar a devastadora experiência da guerra.
*
GABRIEL ZACARIAS é doutor em estudos culturais pelas
universidades de Perpignan (França) e Bergamo (Itália), membro do programa Erasmus Mundus, da União Europeia, e
pós-doutorando em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP).
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Suplemento ALIÁS – Domingo, 6 de setembro de 2015 – Pgs. E2-E3 – Internet: clique aqui.
O mundo fora dos trilhos
Entrevista
com Francis Wolff
Andrei Netto
Enquanto mercadorias atravessam fronteiras com extrema
facilidade,
os muros entre os homens estão cada vez mais
intransponíveis
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Francis Wolff - filósofo francês |
No
10º distrito de Paris, próximo às estações de trem Gare du Nord e Gare de
L’Est, zona conhecida - de forma pejorativa - como Little India, vivem milhares de estrangeiros provenientes de países
como Sri Lanka ou Bangladesh e, em menor escala, da Índia e do Paquistão. Eles
compõem, em sua maioria, uma massa de refugiados e asilados políticos que
encontraram na França, suposta “terra de acolhimento e dos direitos humanos”,
um porto para recomeçar suas vidas em meio ao desenvolvimento econômico
europeu.
Nessa
região “guetoizada” e onde é difícil cruzar com um “francês de origem” vive o
filósofo Francis Wolff. Professor da
Escola Normal Superior (ENS) de
Paris, este discípulo de Louis Althusser fez parte entre 1980 e 1984 de uma
linhagem de pensadores franceses que passaram pela cátedra permanente no Departamento de Filosofia da USP
sucedendo Gilles Gaston Granger e Gérard Lebrun. Especialista em filosofia
antiga e em Aristóteles, Wolff trabalha temas como a metafísica e o político,
alimentando-se da antropologia e do humanismo para construir sua obra. No
Brasil, publicou Sócrates, Aristóteles e
a Política; Dizer o Mundo e Nossa Humanidade - De Aristóteles às
Neurociências e participou em agosto do ciclo Mutações: O Novo Espírito Utópico, no Sesc Vila Mariana, em São
Paulo.
Nessa
conferência, Wolff abordou o tema das Três
Utopias da Modernidade, uma oportunidade para retornar à ideia de utopia,
tema que motivou desde paixões políticas a ideologias cegas a totalitarismos
sanguinários que marcaram o passado recente, em especial na Europa. Dentre essas três utopias, explicou, está
sua preferida: a que chama de “humanismo
cosmopolita”, marcada por um mundo sem fronteiras.
Em
entrevista ao Aliás concedida na
sexta-feira [04/09/2015] em sua residência, Wolff analisou à luz da utopia do
humanismo cosmopolita a tragédia da crise imigratória na Europa, agora
eternizada pela foto de Nilufer Demir,
jornalista de 29 anos da agência turca
DHA. Na imagem, vê-se o corpo do pequeno Aylan Kurdi, uma das vítimas do naufrágio de um barco que trafegava
na faixa marítima entre Bodrum, na
Turquia, e a ilha de Kos, na Grécia.
Segundo
o filósofo, os engajamentos assumidos pela comunidade de nações no pós-guerra,
como a liberdade de circulação e o direito ao refúgio e ao asilo político, são
violados pelos mesmos Estados que os estabeleceram ao incluí-los na Declaração
Universal dos Direitos do Homem. “Os
engajamentos são tão pouco respeitados”, relembra Wolff, “que as
autoridades de todos os países, em especial os europeus, cogitam, publicamente
e sem reservas, com o mais perfeito cinismo, destruir os barcos dos que tentam
exercer seus direitos”. Ou seja: ilegais
não são os imigrantes em fuga de guerras, da fome ou em busca de oportunidades
de trabalho - mas os países que não cumprem tratados internacionais.
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Família de refugiados se protege de policiais na estação ferroviária na cidade de Bicske, Hungria. A composição seguia para a fronteira com a Áustria. Foto: Laszlo Balogh / REUTERS |
A
seguir, a síntese da entrevista.
Qual
a sua reação após ver a foto da criança morta na praia da Turquia?
Francis Wolff: Minha reação é mais uma
reflexão sobre o poder da imagem do que sobre a realidade. É a imagem da
vergonha que a Europa deve sentir neste momento. Mas tudo o que foi dito há
meses sobre a realidade é ainda pior do que essa imagem e não teve o mesmo
efeito. Milhares de palavras, de descrições, de estatísticas… tudo foi
impotente frente ao impacto dessa foto. Uma criança é a encarnação da
fragilidade, da inocência. Nessa imagem ela também encarna a solidão. Espero
que tenha o efeito que milhares de discursos não tiveram.
E
o que a crise imigratória lhe inspira?
Francis Wolff: A minha primeira observação
é que estamos em meio a uma globalização
econômica e financeira:
- As mercadorias nunca atravessaram as fronteiras com tamanha facilidade.
- Em segundo lugar, vivemos uma uniformização cultural profunda, na qual a informação e a grande mídia também são globais. Não digo que essa uniformização seja total, porque a civilização chamada ocidental não é mundial. Mas todas as pequenas culturas estudadas ao longo de muito tempo pela etnografia estão se dissolvendo em um mundo sem fronteiras culturais nítidas.
- Em terceiro lugar, os grandes conflitos são cada vez mais transnacionais. Ou seja: vivemos de certo modo em um mundo sem fronteiras.
Mas,
ao mesmo tempo, algumas fronteiras físicas entre Estados-nação, nascidos em
geral no século 19 ou 20, são cada vez mais altas. Eis o grande paradoxo.
Como
esse paradoxo se traduz?
Francis Wolff: No século 19 era mais fácil
atravessar o Atlântico do que hoje o Mediterrâneo. No início do século 20, em
1903, mais de 12 mil pessoas chegavam por dia ao porto de Staten Island, de Nova York. Hoje sabemos que algumas fronteiras
são mais difíceis de atravessar - para as pessoas, claro, não para as
mercadorias. A invenção do passaporte é recente. A noção de fronteira nítida
também só aparece na modernidade. As pessoas que podem viajar viajam e circulam
cada vez com mais facilidade. Para elas, as distâncias são cada vez mais
curtas. Mas há outras para as quais existem fronteiras. Esse é o paradoxo e o
drama que estamos vivendo, em especial na Europa, embora exista o mesmo
problema em outras partes do mundo, como entre o México e os Estados Unidos. É
um drama absoluto.
Logo
há pessoas que têm o direito de se deslocar, e outras não.
Francis Wolff: Minha revolta é contra essa
dificuldade do humanismo prático nos nossos dias. Existe uma única humanidade.
A maior parte dos sonhos e das reivindicações políticas sempre foi feita em
nome de um Estado. Desde Aristóteles, todos os teóricos da Justiça imaginam a
República com suas fronteiras. Mas hoje não poderíamos mais pensar a Justiça
que não fosse de forma internacional, transnacional, sem fronteiras. Temos
todas as condições para pensar assim, mas será cada vez mais difícil aplicar
esse pensamento. Essa é a grande lição, a meu ver, do que está se passando
nessa crise na Europa.
Na
Europa há o princípio da livre circulação, mas não para quem vem de fora.
Francis Wolff: A noção da construção da
União Europeia desde a 2ª Guerra é um projeto muito bonito à medida que as
nações que foram o foco do mais importantes conflitos da história, França e
Alemanha em especial, decidiram acabar de forma progressiva com as fronteiras.
Mas uma grande parte da população europeia esqueceu que nós o fizemos para
acabar com conflitos seculares. Hoje a maior fronteira que existe é entre a
Europa e seus confins, entre a Hungria e a Sérvia, por exemplo. Essa crise,
além do desastre humanitário, pode ter mais uma consequência nefasta: retornar
ao mundo com fronteiras - o que para mim seria não o fim de uma utopia, nem de
um sonho, mas de uma realidade construída passo a passo após a 2ª Guerra.
Isso
é impulsionado pela reação de grupos identitários, contrários à globalização,
como a Frente Nacional, na França, ou o Ukip, no Reino Unido?
Francis Wolff: Eles não são dois movimentos
contrários; são um só. As populações que se sentem mais inseguras na Europa
reagem assim por não mais perceberem a existência de fronteiras, sejam elas
reais ou metafóricas. É uma insegurança cultural, religiosa, econômica que gera
um populismo de extrema-direita, instrumentalizador da noção de identidade.
Para boa parte da classe operária, por exemplo, os sindicatos, as organizações
sociais de base, as redes de solidariedade, o pertencimento a um partido
político não existe mais. Tudo isso está desaparecendo, e essas pessoas se
sentem nuas frente a uma globalização considerada a grande culpada.
Essa
reação é de uma minoria que grita mais forte por se sentir oprimida?
Francis Wolff: Há casos diferentes em
regiões diferentes. Em países que estão nas fronteiras da Europa, como os
antigos membros do bloco soviético, as opiniões são muito mais contrárias ao
fluxo de imigrantes, em parte por terem o sentimento de serem o primeiro front.
Em outros países, como a França, infelizmente, a Inglaterra, a Holanda, a
Itália, há movimentos de extrema-direita muito fortes, enquanto na Espanha e
Grécia os núcleos são populistas de extrema-esquerda. De uma forma geral, a fraqueza
da Europa é não ter uma política bem definida do que significa a ideia
europeia. Ela tinha um fundamento universalista. Hoje, essa mensagem parece
estar se perdendo.
Talvez
por ser um projeto político inacabado? Uma certa ideia de Europa pressuporia o
caminho em direção a um governo europeu sólido.
Francis Wolff: A União Europeia foi um
pouco construída pelo avesso. Fizeram uma Europa econômica e financeira, com o
euro, antes que as condições de transferência de riqueza de uma região para
outra estivessem criadas. As redes de solidariedade e o sentimento europeu
ficaram para trás na construção europeia.
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Refugiados à espera de trens com destino à Áustria/Alemanha na estação de Budapeste, Hungria. Foto: Attila Kisbenedek / AFP |
A
Europa se perdeu em seu humanismo?
Francis Wolff: Valores foram compartilhados
quando as populações tinham o sentido do progresso, quando o futuro parecia
belo. Mas, a partir do momento em que se estabelece a ideia de que o futuro
será bem pior do que o passado, então já se entra em uma espiral de defesa da
sua identidade, de seus bens, etc.
O
senhor mencionou em uma conferência no Brasil duas utopias que ocupam o vácuo
das grandes utopias do século 19, fracassadas. Estas desmoronaram e abriram um
vazio filosófico e moral?
Francis Wolff: Exatamente. O que podemos
ver com clareza é que alguns movimentos hoje não existem em nome de uma classe
social, por exemplo, mas sim em nome de uma utopia que eu chamei de biosférica. Na Califórnia, a utopia
máxima é o transumanismo. Nos campos
americanos, é a apologia ao animalismo,
ao vegetarianismo - o vegano -, cada
vez mais forte, com uma moral que põe no
mesmo plano o homem e os animais. Essas duas utopias parecem profundamente
morais. Toda moral é por conceito universalista. Mas o que constatamos é que a verdadeira universalização hoje é
econômica, e não moral. A utopia animalística,
que faz do homem um animal como os outros, e a utopia transumanista, que pretende fazer do homem um ser imortal, são
ambas perigosas. Deveríamos pensar uma nova utopia, que eu chamo de utopia humanista, ou seja, a reflexão
sobre o mundo a partir da ideia de homem. Essa é a utopia do sem fronteiras.
A
expressão "utopia" foi no último século muito associada às
ideologias, grande parte delas autoritárias ou totalitárias. Mas o senhor faz
parte de um grupo pequeno de intelectuais que recupera essa expressão. Por quê?
Francis Wolff: A utopia é a maneira de
criticar o presente sem os limites do realismo, ou seja, sem precisar procurar
os melhores meios para chegar ao fim desejado. Não estou defendendo a utopia em
geral ou a ideia de que a partir de agora devemos defender novas utopias. Muito
menos estou defendendo as utopias passadas ou que estão se desenvolvendo hoje.
O que estou dizendo é: se realmente
queremos uma utopia, a coisa mais desejável e mais impossível é o mundo sem
fronteiras. Se desejamos um ideal sem consideração do possível, então a
mais bela, a mais impossível, a mais racional e mais difícil de se atingir
seria o mundo sem fronteiras.
O
senhor define utopia como algo que não tem um projeto de realização. Mas, se
classificarmos um mundo sem fronteiras como utópico, então não seria desejável
construir esse mundo sem fronteiras. É isso?
Francis Wolff: Tomemos o exemplo do Estado
Islâmico. Esse grupo carrega consigo um projeto político sem consideração
alguma pelas fronteiras. Eles não consideram os limites entre a Síria e o
Iraque porque acreditam que a única distinção que faz sentido é entre os muçulmanos
e os não muçulmanos, entre xiitas e sunitas e, entre sunitas, aqueles que fazem
uma leitura literal do Corão. Portanto, é um projeto político, não uma utopia.
Assim como o imperialismo, o colonialismo, o comunismo, o socialismo o foram no
passado, o Estado Islâmico é um projeto
político transfronteiriço, que não reconhece fronteiras nem os Estados
históricos. É um projeto construído em nome de uma certa definição religiosa do
homem, mas eles não estão fundados na ideia do homem. Existem atualmente projetos
políticos totalitários - muito diferentes daqueles do século 19 ou 20 - que
procuram todos os meios de se tornarem reais, e muitas vezes se realizam pela
força. Algo diferente é a utopia. Eu não
defendo nenhuma utopia. Apenas digo que a mais desejável e mais impossível é o
humanismo cosmopolita.
Em
muitos ambientes hostis, em guerras ou em campos de refugiados, fica claro que
não só pessoas desesperadas pelos conflitos ou pela fome estão deixando seus
países em busca de liberdade e segurança, mas também os que o fazem por razões
econômicas, porque querem participar de um certo Ocidente onde buscarão
emprego, desenvolvimento e acesso a bens de consumo.
Francis Wolff: Sim, concordo que ela existe
e é forte. Minha primeira observação sobre isso é de que a pobreza se transforma em miséria quando se tem consciência de que
seria possível viver sem pobreza em outro mundo - que pode ser um outro país ou
um outro continente. Uma situação que não necessariamente seria vivida como
miséria, mas como pobreza, passa a ser vivida como miséria a partir do momento
em que se pensa que poderia existir acesso aos bens de consumo. Na Idade da
Pedra não havia miséria, mas pobreza. Nessa época, havia poucas coisas, mas não
havia o sentimento de que poderia haver muito mais, ou de que algumas pessoas
têm muito mais do que outras. Podemos verificá-lo em pequena escala em
sociedades tribais que nunca haviam vivido em situação de miséria, mas sim de
pobreza. No momento em que se deparam
com os bens de consumo, passam a se sentir em situação de miséria. Esse é um
lado da globalização. Hoje, em quase qualquer lugar do planeta, as pessoas
têm a informação de que seria possível viver em um lugar no qual haveria acesso
a bens de consumo, e isso cria uma consciência de sua miséria. E esse
sentimento de miséria não se limita a um sentimento, mas se transforma em
miséria real, alimentado pelas sensações de desigualdade, de injustiça, de
impotência, da falta de respeito a si mesmo, combustíveis de novos conflitos e
novos movimentos migratórios.
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