O Brasil da violência, brutalidade e corrupção - Visão de um antropólogo
Livro de antropólogo narra
bastidores do governo Lula
Sylvia Colombo
Folha
de S. Paulo
14-09-2015
"Rio de
Janeiro - Histórias de Vida e Morte", do antropólogo Luiz Eduardo
Soares,
traz relatos dos bastidores do poder e da violência
que compõem um cruel e sangrento contraponto
à imagem de cartão-postal que celebrizou a cidade.
Pendurado
por um cinto, com meio corpo para fora de um helicóptero, um policial com um
fuzil gargalha enquanto ameaça atirar na multidão reunida para protestar contra
o assassinato de um menino, na Mangueira.
Noutra
passagem, um assustado jovem de classe média conhece o calor e a corrupção de
uma prisão carioca. E, numa terceira, o líder de uma facção criminosa diz que
quer se entregar, mas sabe que morrerá na cadeia. Afinal, virou um arquivo vivo
e sabe quais policiais e autoridades embolsaram dinheiro do tráfico nos últimos
anos.
"Rio de Janeiro - Histórias de Vida e Morte",
do antropólogo Luiz Eduardo Soares,
traz relatos dos bastidores do poder e da violência que compõem um cruel e
sangrento contraponto à imagem de cartão-postal que celebrizou a cidade. As
narrativas vão da primeira à terceira pessoa, em estilo informal. "São histórias que considero
significativas sobre a vida e a morte no Rio de hoje", disse Soares.
Nos
primeiros capítulos, o ex-secretário nacional de Segurança Pública do governo
Lula em 2003 fala das pressões que recebeu e trata da gênese do escândalo do
mensalão.
Ele
diz que o livro não é um acerto de contas. "O principal desafio da política é resistir ao utilitarismo. Revelo como
ele degrada desde o pequeno personagem do folhetim provinciano até o
protagonista épico da epopeia nacional."
Coautor
dos dois volumes de "Elite da
Tropa", que deram origem aos filmes "Tropa de Elite", Soares afirma que o diretor José
Padilha teria recebido pressão do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, para não filmar um roteiro
escrito por ele sobre os bastidores da política nacional.
Procurado
pela Folha de S. Paulo, Padilha disse acreditar que Dirceu tenha
interferido na captação de recursos para o filme junto ao BNDES.
"Tínhamos
vencido o edital do banco, mas nosso contrato nunca ficava pronto. Depois de um
ano, uma pessoa da comissão me procurou e disse que Dirceu interferira junto à
Presidência. Depois, o Dirceu nos procurou e disse que o filme não ia
acontecer." A reportagem tentou contato com o ex-ministro, por meio de sua
assessoria, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.
No
livro, Soares traça uma linha direta
entre a violência usada pela repressão da ditadura (1964-1985) e a empregada
pela polícia hoje.
Para
isso, reconstrói a trajetória da historiadora Dulce Pandolfi, torturada no período. "O legado da ditadura à democracia foi o fortalecimento de grupos
policiais criminosos que se desgarraram progressivamente das instituições,
sem abandoná-las, e passaram da justiça pelas próprias mãos ao crime como
negócio."
O
antropólogo comenta, ainda, sua frustração com o PT, e considera que o desalento da sociedade produz três efeitos negativos:
- "O
aumento do interesse dos jovens pela extrema
esquerda, fonte de obscurantismo e violência;
- o
crescimento de uma direita racista
que clama pela volta da ditadura; e
- a
ampliação daqueles que fazem leituras maniqueístas e repletas de ódio, ora
acusando exclusivamente o PT, como se fosse a única origem de todos os males,
ora denunciando a "mídia golpista" e o PSDB como a materialização do
mal".
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Terça-feira, 15 de setembro de 2015 – Internet: clique aqui.
Mensalão abriga fim do PT, diz antropólogo
Entrevista
com Luiz Eduardo Soares
Sylvia Colombo
Folha
de S. Paulo
14-09-2015
Entender os detalhes do caso “Mensalão” permite
compreender a
“ruína” do Partido dos Trabalhadores
![]() |
Professora enfrenta policiais militares no Rio de Janeiro |
Qual
a história dos relatos que se referem à chegada do PT ao poder?
Luiz Eduardo Soares: Há no livro dois capítulos
que estiveram próximos de virar filme. Eu os coloquei num roteiro que escrevi
para José Padilha, sob o título: "Nunca
Antes na História deste País". Trabalhei com Padilha em diferentes
versões, sempre em torno do mensalão, mas optamos por não ir adiante.
José
Dirceu entrou em contato com Padilha e o convenceu de que o filme poderia
influenciar o julgamento. Prometeu dar uma entrevista quando tudo tivesse
passado.
Não
sei se ainda está de pé ou se faz sentido, depois
que o escândalo da Petrobras transformou o mensalão num detalhe. Mas os
detalhes interessam. É neles em que mora a ruína do PT.
O
livro é um acerto de contas com personagens que crê que o prejudicaram?
L. E. S.: Não. Vendo algumas pessoas
de passado respeitável presas, sinto uma tristeza grande, mesmo que tenham
agido como meus inimigos e que a prisão cumpra um papel positivo na democratização
do país.
Escrevi
porque o principal desafio da política é
resistir ao utilitarismo e à máxima segundo a qual os fins justificam os meios.
Detesto a visão que prega a primazia da pátria, do partido, da redenção social.
Em primeiro lugar estão os
indivíduos.
Nada justifica atropelar a dignidade individual, não importa quão virtuosa seja
a causa.
Meus
relatos sobre a gênese do mensalão
descrevem o modo pelo qual o indivíduo é reduzido a descartável.
Sua
indignação contrasta com a resignação do chefe do tráfico que não se entrega
porque está certo de que vai morrer.
L. E. S.: Sempre me sentia indignado
quando via alguém querendo abandonar o crime e sendo impedido por instituições
cuja função deveria ser tirar pessoas do crime.
Se
um integrante do crime organizado quer mudar de vida, o passo natural deveria
ser ajustar as contas com a Justiça e recomeçar como qualquer cidadão.
Se
essa pessoa sabe demais sobre corrupção policial, converte-se em uma bomba
ambulante. Caso se entregue, arrisca-se a ser assassinado como queima de
arquivo.
Que
mãe tentará convencer seu filho criminoso a se entregar? Entregar-se a quem?
Com quais garantias?
L. E. S.: Para quem vive na favela, é
negro, pobre e se envolve com a criminalidade, as saídas estão bloqueadas e a
sobrevivência vira hipótese remota. O abjeto naturalizou-se.
Custou
caro ao Brasil construir um Estado de Direito sobre os escombros da ditadura.
Não pode ter sido em vão. Ver a Constituição sendo rasgada todos os dias por
instituições do Estado me revolta.
Qual
a importância do relato sobre a tortura da historiadora Dulce Pandolfi?
L. E. S.: Já se passaram mais de 40
anos, mas a ação devastadora da ditadura marcou a experiência de gerações e
virou parte da paisagem mental que molda o Rio hoje, na contramão do clichê
hedonista.
Seria
possível, de outro modo, compreender a naturalização das execuções
extrajudiciais de jovens negros e pobres nas favelas?
Como
vê o cenário do Rio às vésperas das Olimpíadas?
L. E. S.: Apesar de contarmos com os
melhores quadros da PM na cúpula da instituição, os esforços de reorientação
legalista têm sido vãos. A PM é
ingovernável, apesar de haver ali milhares de profissionais honrados.
A
crise atual tende a estimular crimes contra o patrimônio, a guerra às drogas criminaliza a pobreza e as UPPs são devoradas
pela velha cultura militar belicista. Além disso, os direitos dos policiais têm sido violados dentro da própria
instituição.
O
quadro é desolador. Por outro lado, o Rio sempre se saiu bem nos grandes
eventos, porque nesses momentos o trabalho cooperativo torna-se a regra. O problema não são os grandes eventos, é o
cotidiano.
Qual
a saída para desarmar vínculos ilegais entre governos locais, empresas e
cartéis?
L. E. S.: É a valorização do Estado e
o reconhecimento de que a luta contra o
racismo e as desigualdades é civilizadora.
É a
legalização das drogas e o investimento em educação. É a admissão de que o Estado não pode agir como criminoso, na política
ou na polícia.
L
I V R O :
Rio de Janeiro - histórias de vida e morte
AUTOR: Luiz Eduardo Soares
EDITORA: Companhia das Letras
QUANTO: R$ 31,90 (256 págs.)
Comentários
Postar um comentário