"Rebaixamento é resultado do desajuste do ajuste"
Entrevista
com Luiz Gonzaga Belluzzo
Luiz Guilherme
Gerbelli
Para economista, crença de que ajuste fiscal traria de
volta a confiança do setor privado levou à decisão da Standard & Poor's
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Luiz Gonzaga Belluzzo - economista |
O
ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Luiz Gonzaga
Belluzzo diz que houve um erro na
condução da política econômica. Na avaliação dele, um dos motivos que levou o Brasil a perder o grau de investimento foi a
crença do governo federal de que o ajuste fiscal traria de volta a confiança do
setor privado.
Como
o senhor avalia a decisão tomada pela S&P?
Belluzzo: Exatamente a tentativa de
impedir o rebaixamento acabou determinando a decisão da S&P. Na verdade, a situação fiscal piorou depois
do ajuste fiscal. A política monetária está contradizendo a tentativa de
ajustar as contas porque piorou a
relação da dívida/PIB [a dívida pública
está crescendo percentualmente em relação ao Produto Interno Bruto, que é a
soma de tudo o que o país produz]. O déficit nominal também está piorando.
Eu, na verdade, tenho muitas restrições em como as agências de risco se
comportaram durante a crise (internacional). Elas se portaram muito mal.
Cometeram barbaridades. Mas eu não tinha dúvida de que isso (o rebaixamento)
iria ocorrer, pelos critérios das agências e pelo desajuste do ajuste.
Na
avaliação do sr., o que foi esse desajuste do ajuste?
Belluzzo: O desajuste do ajuste nasce
da crença de que a confiança do setor privado seria recuperada fazendo o ajuste
fiscal. Na verdade, foi produzido um efeito negativo sobre a expectativa do
setor privado, sobre o comportamento dos balanços, das receitas esperadas, etc.
E é claro que a economia teve uma
recessão maior em relação àquilo que estava suposto na formulação do ajuste.
A economia brasileira está caindo entre 2,5% e 3% e há uma dinâmica da dívida pública muito ruim, caminhando para mais de
70% do PIB. É claro que os resultados apontam para uma perda do grau do
investimento.
Quais
serão os impactos dessa decisão da S&P?
Belluzzo: Acho que muita coisa já
estava refletida na curva de juros e no comportamento do câmbio. Vai haver um
outro estresse no curto prazo, mas depois tudo deve se estabilizar. Vai haver uma estabilização numa situação
ruim.
O
sr. poderia detalhar como será essa estabilização ruim?
Belluzzo: Seria uma economia que continua a perder força e a avançar na recessão. E
uma dinâmica fiscal perversa com aumento do déficit nominal. É preciso fazer um
gesto. A questão da CPMF, por exemplo. Era o melhor imposto que se poderia
criar porque tem um efeito muito fraco sobre a maioria dos contribuintes, mas o
governo não preparou bem isso. Perdeu a oportunidade de fazer e isso poderia
ajudar bastante a contornar a situação fiscal, que foi provocada sobretudo
pelos equívocos das política monetária e fiscal.
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