PAPA VAI À CUBA E AOS ESTADOS UNIDOS
Papa defenderá imigrantes nos Estados Unidos
Cláudia Trevisan
Latinos, em especial os mexicanos, serão tema central
da viagem do
pontífice ao país; Francisco terá encontro com grupo em
Nova York
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PAPA FRANCISCO |
A
defesa dos imigrantes estará no topo da agenda do papa Francisco em sua
primeira visita aos Estados Unidos da América (EUA), a partir do dia 22 de
setembro, o que colocará o pontífice no centro de uma das mais controvertidas
questões da campanha para a eleição presidencial de 2016. A proposta de
deportação das 11 milhões de pessoas que vivem sem documentos em solo americano
é um dos fatores que levaram Donald
Trump à liderança entre os eleitores republicanos.
Francisco
deverá abordar o assunto no encontro que terá com o presidente Barack Obama, no
dia 23, e no discurso que fará ao Congresso no dia seguinte – o primeiro de um
papa ao Parlamento dos EUA. A situação dos imigrantes e dos refugiados também
deverá ser tratada no pronunciamento que o pontífice fará na ONU, no dia 25.
Mas
o papa não manifestará suas posições apenas em discursos. A seu pedido, sua visita a Nova York incluirá encontro com 150
imigrantes e refugiados. Francisco chegou a cogitar um gesto simbólico
contundente: entrar nos EUA pela fronteira com o México, mesmo percurso traçado
por milhões de indocumentados que vivem no país. A ideia foi descartada por
dificuldades logísticas.
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Elvis Garcia Callejas - hondurenho que vive nos Estados Unidos após fugir da miséria e violência em seu país |
FÉ
Foi
pelo México que Elvis Garcia Callejas
chegou aos EUA, há dez anos, vindo de Honduras. Na época, ele tinha 15 anos e
fugia da pobreza e da violência de San Pedro Sula, cidade com o maior índice de
homicídios do mundo. Como muitos menores desacompanhados que entram nos EUA,
ele viajou a pé, de ônibus, de carona e em cima de trens – um périplo que durou
um mês. Mais tarde, dois de seus quatro irmãos tentaram se juntar a ele, mas
foram detidos na fronteira e deportados.
No
dia 25, ele estará no grupo que se encontrará com o papa. “Ainda não acredito”,
disse ao jornal O Estado de S. Paulo
por telefone. “Esse é um papa da América
Latina, que fala a mesma língua que eu. Um papa que quer mudanças na Igreja, na
política e na economia. Um papa que luta pelos direitos dos pobres, dos
imigrantes e dos refugiados. É um papa muito diferente dos outros.”
Com
ajuda de uma família dos EUA, Callejas
se tornou cidadão americano e se formou em Espanhol, Sociologia e
Desenvolvimento Internacional. Hoje, trabalha em uma instituição de caridade
católica em Nova York, onde dá assistência a menores desacompanhados que chegam
ao país.
O
ano passado registrou uma onda de imigração
de crianças e adolescentes da América Central para os EUA. Nos 12 meses
encerrados em outubro, 68 mil menores
foram detidos na fronteira e enviados a abrigos ou postos sob a guarda de
parentes.
CAMPANHA
Callejas
espera que os pronunciamentos do papa sirvam como uma antítese [oposição] às posições de Trump em relação aos imigrantes.
“Muitas das coisas que ele diz não são verdadeiras e estimulam o ódio contra a
comunidade latina imigrante”, avaliou. O pré-candidato republicano disse que
mexicanos que entram no país são estupradores e traficantes. Entre suas
promessas, está a construção de um muro entre os dois países, que seria pago
pelo México.
Hoje
com 21 anos, Hazel Bonilla foi
levada pela família aos EUA quando tinha 6 anos. O pai acabou voltando ao país
de origem, El Salvador, e Hazel vive
com a mãe e o irmão mais velho. Nenhum deles tem situação regular nos EUA.
“Minha mãe trabalha como caixa em uma loja e seus chefes tiram proveito de sua
situação. O salário é baixo e muitas vezes ela não tem horário de almoço. Além
disso, não temos seguro-saúde”, relatou Hazel à reportagem. No dia 25, ela
estará entre os 150 imigrantes e refugiados que encontrarão o papa.
A
salvadorenha não acredita que as propostas e a candidatura de Trump possam ser
levadas a sério. “Ele é um político que tenta chamar atenção para si.” Apesar da retórica do republicano, Hazel
afirma que o apoio nos EUA a pessoas como ela cresceu.
A
aprovação de uma reforma migratória que abrisse caminho para obtenção de
cidadania pelos 11 milhões de
indocumentados nos EUA era uma das prioridades do presidente Barack Obama. Projeto nesse sentido foi
aprovado no Senado em 2013, mas nunca avançou na Câmara, em razão da oposição
republicana. Em novembro, o democrata decidiu agir sem o aval do legislativo e
assinou decreto que suspendeu a deportação de milhões de pessoas.
Quando
Obama receber o papa Francisco na Casa Branca, a situação dos imigrantes será um dos temas da agenda, confirmou a
assessoria do presidente. Outros assuntos que farão parte da conversa são o combate às mudanças climáticas, a atenção aos pobres e marginalizados, a garantia
de liberdade religiosa e a promoção
de oportunidades econômicas para todos.
Agenda do Papa
em Cuba e nos EUA
Dia 19
O papa
Francisco chega às 16 horas a Havana (capital de Cuba)
Dia 20
Realiza
missa na Praça da Revolução; visita o presidente Raúl Castro; se reúne com
religiosos na Catedral de Havana
Dia 21
Missa em
Holguín; se reúne com bispos em Santiago de Cuba
Dia 22
Chega às 16
horas a Washington (capital dos Estados Unidos)
Dia 23
Encontro
com Barack Obama; missa de canonização
Dia 24
Visita
Congresso; encontro com religiosos em Nova York
Dia 25
Discursa na
ONU; visita imigrantes no Harlem; missa no Madison Square Garden
Dias 26 e 27
Eventos na
Filadélfia; cerimônia de despedida e partida rumo a Roma
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Internacional
– Domingo, 13 de setembro de 2015 – Pg. A16 – Internet: clique aqui e aqui.
“Posições de Francisco irritam republicanos”
Entrevista
com Pe. Thomas Reese
Cláudia
Trevisan
Defesa dos imigrantes, pobres e combate ao aquecimento
global
incomodam políticos conservadores dos Estados Unidos
Em
sua primeira visita aos Estados Unidos da América (EUA), o papa Francisco
deverá incomodar os conservadores do Partido
Republicano com sua defesa dos imigrantes, dos pobres e de medidas de
combate ao aquecimento global. Ao mesmo tempo, poderá frustrar os democratas se der ênfase à família
integrada por um homem e uma mulher e condenar o aborto. A avaliação é do padre Thomas Reese, jesuíta e
integrante da ala progressista da Igreja Católica dos EUA. Para ele, um dos papéis do papa é ser um profeta, que
“conforta os aflitos e aflige os que estão confortáveis”. Os conservadores
americanos já se incomodaram com o discurso de Francisco na Bolívia, no qual
ele criticou o capitalismo sem amarras. Segundo ele, há uma grande discussão na
Igreja sobre o “efeito Francisco”, que se traduziria no aumento de fiéis em
razão da popularidade do papa. Mas o impacto
será limitado se não houver mudanças na atitude dos clérigos [bispos,
padres e religiosos].
Em
2014, Reese foi convidado pelo presidente Barack Obama para integrar a Comissão sobre Liberdade Religiosa
Internacional dos EUA, um organismo independente que faz recomendações
sobre o assunto ao Executivo e ao Congresso. Em 1998, foi nomeado editor-chefe
da de respeitada revista semanal católica America, publicada pelos jesuítas.
Sete anos mais tarde, renunciou ao cargo. Na visão de integrantes da ala
liberal da igreja, o gesto foi motivado por pressão do Vaticano, insatisfeito
com a linha editorial pouco ortodoxa de Reese. Atualmente, ele é analista do
jornal National Catholic Reporter. A seguir, trechos da entrevista.
Quais
serão os principais temas da visita do papa aos EUA?
Pe. Thomas Reese: Há uma série de tópicos que
o papa levantará em sua visita aos EUA e eles são consistentes com coisas sobre
as quais fala desde o início de seu papado. Ele tem um grande amor e preocupação em relação aos pobres e também é
muito preocupado com o meio ambiente. Esses são dois tópicos que abordará
quando falar com o país mais rico e poderoso do mundo. Vai dizer “vocês foram
abençoados e têm uma responsabilidade de cuidar dos pobres e do meio ambiente”.
A crise dos refugiados certamente será tratada no discurso na ONU. A
preocupação com refugiados e imigrantes que vêm aos EUA será algo que ele
levantará. Um dos papéis do papa é ser um profeta. Eu descreveria um profeta
como alguém que conforta os aflitos e aflige os que estão confortáveis. O profeta é uma pessoa que fala a verdade
aos poderosos. Sabemos que, como arcebispo de Buenos Aires, ele fez isso
com os líderes econômicos e políticos da Argentina e com frequência os deixou
incomodados.
Muitas
das posições do papa coincidem com posições do presidente Obama e do Partido
Democrata – como na questão climática, imigração, restabelecimento de relações
com Cuba, apoio o acordo com o Irã. Isso deixa os conservadores irritados?
Pe. Thomas Reese: Sim, muito (risos). Há comentaristas conservadores
no rádio e na TV que gostariam de ver a Igreja Católica e os evangélicos como o
Partido Republicano na oração. Eles querem que a Igreja fale apenas sobre
aborto, casamento gay, controle de natalidade ou liberdade religiosa, questões
que estão sintonizadas com o Partido Republicano. Eles não querem que a Igreja
fale sobre receber bem os imigrantes, proteger o meio ambiente, cuidar dos
pobres, pois essas questões são próximas dos democratas. Alguns dos
conservadores acham que a Igreja estava do seu lado na política partidária e
agora estão insatisfeitos com o papa Francisco. Na verdade, a Igreja Católica não se enquadra em nenhum dos dois
partidos. Ela tem posições fora de sintonia com ambos.
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Prédio do Congresso dos Estados Unidos da América: o discurso de Papa Francisco neste local (24/09) está sendo muito aguardado, mesmo porque, é a primeira visita de um papa ao local |
Os
conservadores também ficaram insatisfeitos com a crítica do papa ao capitalismo
sem amarras, em seu discurso na Bolívia.
Pe. Thomas Reese: Sim, ele tem uma crítica
muito forte do capitalismo sem regulação, ou capitalismo libertário, o que
muitas pessoas nos EUA simplesmente não aceitam. O papa Bento XVI tinha as
mesmas posições, mas ele não as articulava em uma linguagem clara. O papa atual
é muito mais explícito. O Bento falava como um acadêmico. O papa Francisco fala
como escritor de um artigo de opinião. Na encíclica Caritas in Veritate, o papa
Bento falou que havia um papel para o governo na regulamentação da economia e
na redistribuição da riqueza. Nos EUA, mesmo uma liberal-democrata como Nancy Pelosi (líder do partido na Câmara)
nunca usaria as palavras “redistribuição de riqueza”. O papa Bento estava à
esquerda dos democratas em relação a temas econômicos. Mas ninguém prestava
atenção. Como o papa Francisco usa linguagem explícita, as pessoas estão
prestando atenção.
Quão
política será a visita?
Pe. Thomas Reese: Aguardo com expectativa o
discurso do papa na sessão conjunta do Congresso. O que eles farão,
especialmente os republicanos? Se o papa falar “vocês devem receber bem os
imigrantes, se preocupar com os pobres, proteger o meio ambiente”? Os
democratas irão à loucura, aplaudirão, gritarão. O que os republicanos farão?
Sentar em cima das mãos? Ao mesmo tempo, se ele falar que toda a criança merece
um pai e uma mãe e a vida deve ser protegida (condenação do aborto), os
republicanos darão pulos e os democratas não saberão o que fazer. Será uma peça
extraordinária de teatro político.
A
imigração transformou-se em uma questão extremamente controvertida nas eleições
presidenciais, especialmente com Donald Trump. Qual o peso que o tema terá na
visita?
Pe. Thomas Reese: A imigração é grande
preocupação da Igreja Católica nos EUA. Muitos dos novos imigrantes são
católicos e os bispos nos EUA estão preocupados com eles. O papa Francisco se
encontrará com alguns deles em Nova York. Tanto em suas palavras quanto em suas
ações, mostrará sua preocupação com os imigrantes e refugiados.
Qual
o apelo do catolicismo nos EUA, especialmente para os jovens?
Pe. Thomas Reese: O papa Francisco tem um
grande apelo, entre católicos e não católicos, jovens e velhos. Mas a Igreja não tem o apelo que ele tem. A
expectativa é que o papa traga pessoas de volta à Igreja e a um debate sobre o
“efeito Francisco”. Apesar de as pessoas
se sentirem atraídas pelo papa Francisco, quando vão à sua paróquia não
encontram o papa Francisco. Elas encontram o padre. A menos que os clérigos abracem as prioridades do papa, o “efeito
Francisco” será mínimo. Mesmo sendo extremamente importante para a Igreja,
o papa não é a Igreja. Nosso catolicismo é celebrado nas paróquias locais. Se as pessoas não encontram padres que
tenham amor e compaixão vão se afastar de novo.
Os
clérigos nos EUA são particularmente conservadores ou há uma mistura?
Pe. Thomas Reese: É uma mistura. Uma das dificuldades é que os padres jovens
são mais conservadores que os mais velhos. Os mais velhos passaram pela
experiência do Concílio Vaticano Segundo e tendem a ser um pouco mais liberais.
Os mais jovens foram atraídos pela agenda e as prioridades dos papas João Paulo
II e Bento XVI. Agora eles têm um papa que está mudando a agenda e as
prioridades, o estilo da Igreja de uma maneira que não entendem e com a qual se
sentem incômodos.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Internacional
– Domingo, 13 de setembro de 2015 – Pg. A16 – Internet: clique aqui.
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