“O CONFORTO É O SEU INIMIGO”
Entrevista
com o Dr. Drauzio Varella
Elisa Campos
«Você considera que o esforço físico é uma desvantagem,
mas é o conforto que é o seu inimigo. Ao contrário de outras máquinas, o corpo
humano não se desgasta com o exercício físico, ele se aprimora.»
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Dr. Drauzio Varella - oncologista |
Drauzio Varella, aos 69 anos, é hoje o
médico mais conhecido do Brasil. É também escritor best-seller, com Estação Carandiru. Não bastasse, foi um
dos fundadores do cursinho Objetivo, um dos pioneiros no combate à aids no
Brasil e por 20 anos dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer, em
São Paulo. Nesta entrevista, o cancerologista
fala sobre o estresse permanente no
ambiente corporativo, os avanços da
medicina, o trabalho voluntário nas
prisões e seu próximo livro.
O
brasileiro está cuidando bem da saúde?
Drauzio Varella: Não. Cuidar bem da saúde
quando você fica doente não é cuidar da sua saúde. Nós temos uma visão da saúde
como obrigação dos outros. O cara engorda 30 quilos, bebe, fuma e, quando passa
mal, acha que os médicos precisam resolver.
Quais
são hoje os piores problemas dos brasileiros?
Drauzio Varella: A obesidade e o
sedentarismo. Atualmente, 48% da população adulta está acima do peso. Qual o
resultado? Metade dos brasileiros aos 50 anos é hipertensa. Aos 70 anos, são
70%. É gente dependendo da saúde pública para tratar de pressão arterial e dos
problemas que ela gera: ataque cardíaco, insuficiência renal, derrame, diabete
e cegueira. Não há sistema de saúde que aguente.
Quais
os prejuízos à saúde quando se trabalha demais?
Drauzio Varella: A maioria das pessoas que
trabalha muito vive em estresse permanente. Falta tempo para descontrair e para
fazer exercício. E a vida sedentária é uma tragédia. Um cara que trabalha 15
horas mal tem tempo de chegar ao trabalho e voltar para casa. Tem gente que me
pergunta: como eu faço para fazer exercício? Problema seu. Se você não consegue
tirar 30 minutos por dia para fazer exercício, está vivendo errado.
Como
os executivos podem cuidar da saúde?
Drauzio Varella: Tem de achar um jeito de
fazer exercício. Subir a escada, pelo menos. Qualquer escritório tem uma
escada. Parar o carro longe, para andar um pouco mais. Lutar contra a preguiça.
Você considera que o esforço físico é uma desvantagem, mas é o conforto que é o
seu inimigo. Ao contrário de outras máquinas, o corpo humano não se desgasta
com o exercício físico, ele se aprimora. A circulação fica mais eficiente,
oxigena melhor os tecidos, o coração, o cérebro. Ajuda a ter uma função
cognitiva mais completa. O segundo conselho é não comer tudo o que lhe
oferecem.
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Alguns tipos de exercícios e a sua sequência (1ª Parte) |
Como
aliviar o estresse?
Drauzio Varella: Fazer meditação e ioga pode
ajudar alguns. Para quem não quer isso, a única alternativa é exercício. O
estresse é um mecanismo sem o qual nós não estaríamos conversando agora. Se
você dá de cara com um animal no meio da floresta, reage por causa do estresse.
O problema do estresse moderno é que você não encontra um animal na floresta. O
estresse é permanente. Ao fazer exercício, você libera diversas substâncias que
dão a sensação de paz e tranquilidade que falta no mundo moderno.
O
trabalho pode se tornar um vício?
Drauzio Varella: Ele pode se tornar uma
compulsão. Acontece muito. Você vê gente para quem a vida só tem sentido no
trabalho. Tem aqueles que têm compulsão por compras, por jogo, pela internet.
As compulsões têm mecanismos muito semelhantes, que são mecanismos de
recompensa, em que você aposta e tem a recompensa imediata. É isso que causa
dependência.
Isso
pode ser tratado com remédio?
Drauzio Varella: A medicina não sabe como
tratar compulsões. Não sabe tratar usuário de droga, nem alcoólatra. Quem mais
cura alcoólatra no Brasil? Os Alcoólicos
Anônimos. Se um grupo de autoajuda cura mais do que a medicina, é porque a
medicina está mal.
Que
grandes avanços da medicina veremos no futuro?
Drauzio Varella: O que teremos serão
tratamentos muito mais específicos. Não tem cabimento fazer quimioterapia que
funciona só em 40% dos casos. Teremos medicamentos adaptados ao organismo dos
pacientes e especialmente ao mecanismo que está na origem da doença. Será
possível tratar com o mesmo remédio enfermidades muito diferentes, como câncer,
artrite reumatoide e lúpus, porque o mecanismo a ser atacado é o mesmo.
O
senhor faz trabalho voluntário em prisões há 23 anos. Como isso começou?
Drauzio Varella: Foi no Carandiru, quando
fui fazer um filme sobre aids, em 1989. Quando entrei lá fiquei muito
interessado por aquele ambiente. Testamos os presos e verificamos que 17,3%
estavam infectados pelo HIV, principalmente porque usavam cocaína injetável. Eu
me interessei por fazer um trabalho educativo com eles, me envolvi, acabei
atendendo doentes e fui ficando. Quando o Carandiru fechou, passei para outras
penitenciárias.
O
senhor já publicou o best-seller Estação
Carandiru, acaba de lançar o livro Carcereiros
e está escrevendo mais um.
Drauzio Varella: Ele vai se chamar As Prisioneiras. Quero mostrar como
funciona uma cadeia de mulheres. Quando uma mulher é presa, o marido larga, o
namorado esquece e a mãe desaparece. Se a mãe tem um filho e uma filha presos, ela
vai visitar o filho, mas não a filha.
O
senhor foi um dos fundadores do Objetivo...
Drauzio Varella: Eu cursava a faculdade de
medicina da USP [Universidade de São Paulo] e dava aula num cursinho. Naquela
época, os cursinhos terminavam em dezembro e só voltavam em fevereiro. Eu e o Di Genio [João Carlos, atual dono do
Objetivo], que também estudava na USP e dava aulas, tivemos a ideia de fazer um
cursinho de férias. Eu dei o nome de Objetivo,
porque era para o curso ser objetivo. No dia em que abrimos as inscrições,
cheguei às 8h00 e tinha uma fila de umas 400 pessoas. Nós tínhamos só duas
salas para 50 alunos. Eu liguei para o Di Genio e perguntei: “somos só dois,
como vamos dar aula para tantos?”. Ele me disse: “matricula todo mundo e depois
damos um jeito”. Daí você vê a cabeça do empresário. Foi assim que começou o Objetivo. Continuei dando aula lá por 16
anos, mas fiz bem em sair. Não teria dado certo, eu teria me frustrado. Nunca
pensei em fazer outra coisa além da medicina.
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