Papa critica organismos financeiros e uso do ambiente em discurso na ONU
A presença do Papa marca a celebração dos 70 anos da
Assembleia Geral.
Francisco também criticou uso indiscriminado na
natureza.
O
Papa Francisco criticou os órgãos
financeiros internacionais e o uso
indiscriminado do planeta que prejudica a natureza e os mais pobres durante
seu discurso nesta sexta-feira (25 de setembro) diante da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova
York, nos Estados Unidos. O discurso foi presenciado por diversos líderes
mundiais, incluindo a presidente brasileira, Dilma Rousseff.
A presença
do Papa marca a celebração dos 70 anos
da Assembleia Geral. Ele fez seu discurso
em espanhol.
“Os
organismos financeiros internacionais devem velar pelo desenvolvimento
sustentável dos países e não a submissão
asfixiante destes por sistemas de crédito que, longe de promover o
progresso, submetem as populações a
mecanismos de maior pobreza, exclusão e dependência”, afirmou o pontífice.
“Nenhum humano, indivíduo ou
grupo pode se considerar onipotente e autorizado a passar por cima do direito
dos outros”,
disse. Ele ainda condenou a “má gestão
irresponsável da economia global”, que não pode ser guiada pela “ambição de riqueza e poder”.
Por
isso, o Papa clamou por “conceder a
todos os países, sem exceção”, uma
participação e incidência real e equitativa nas decisões desses órgãos, no
Conselho de Segurança da ONU e em mecanismos criados para afrontar as crises
econômicas. Para ele, a exclusão
econômica e social é uma "grave ofensa" aos direitos humanos e ao
ambiente.
Francisco
ainda condenou a “colonização
ideológica” na qual países ricos
tentam impor seus “modelos de estilo de vida anômalos” a nações em
desenvolvimento.
MEIO
AMBIENTE
Francisco
também deu destaque em seu discurso ao tema do aquecimento global e mudança
climática, e afirmou que a “sede de
poder e propriedade material sem limites” estão prejudicando o meio ambiente e
os mais pobres, criticando a cultura do descarte em vigor atualmente.
Para
ele, o abuso e o mau uso do meio
ambiente vêm sempre acompanhados de processos de exclusão social.
"Os mais
pobres são os que mais sofrem, são descartados pela sociedade", afirmou.
Para
Francisco, a crise ecológica e a destruição da biodiversidade ameaçam “a
própria existência da espécie humana”. “O
meio ambiente é um bem fundamental. A humanidade não está autorizada a abusar
dele e muito menos a destruí-lo”, disse.
O
Papa disse estar confiante de que “a conferencia de Paris [que será realizada
em dezembro sobre o assunto] alcance acordos fundamentais e eficazes.
Entretanto, não bastam os compromissos assumidos solenemente, ainda que eles
constituam um passo necessário para as soluções.”
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Pela primeira vez na história, a bandeira do Vaticano (à esquerda) foi hasteada em frente ao edifício-sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. |
GUERRAS
E QUESTÃO NUCLEAR
Francisco
disse que a guerra é a negação de todos os direitos e também um imenso ataque
ao ambiente. Ele disse que devemos continuar incansavelmente com a tarefa de
evitar a guerra entre nações e a guerra entre pessoas. Para isso, deve haver o primado do direito e da
negociação.
“Quando a Carta das Nações
Unidas é respeitada e seguida, resultados pacíficos são obtidos”, disse o Papa Francisco na
ONU.
O
pontífice voltou a apelar sobre a “dolorosa
situação” do Oriente Médio, do norte da África e de outros países africanos em
que os cristãos são perseguidos e têm seus locais de culto destruídos.
Em
uma referência indireta ao Estado
Islâmico, ele criticou a perseguição
de minorias religiosas e a destruição do patrimônio cultural.
O
Papa também falou sobre o recente acordo
para o fim da atividade nuclear no Irã, acertado com potências mundiais
neste ano. “O recente acordo sobre a questão nuclear em uma região sensível da
Ásia e do Oriente Médio é uma prova das possibilidades da boa vontade política
e do direito, exercitados com sinceridade, paciência e constância”, afirmou sem
mencionar explicitamente o Irã.
Também
denunciou o narcotráfico que “silenciosamente
cobra a vida de milhões de pessoas” e criticou que não é suficientemente
combatido.
“Gostaria
de fazer menção a outro tipo de conflito que nem sempre é tão explicitado, mas
que silenciosamente vem cobrando a vida de milhões de pessoas. Outro tipo de
guerra em que vivem muitas de nossas sociedades através do fenômeno do
narcotráfico. Uma guerra ‘assumida’ e pobremente combatida”, enfatizou, concluindo seu discurso com uma bênção e
sendo muito aplaudido pelos dirigentes presentes.
HOMOSSEXUALIDADE
Em
relação à polêmica questão da homossexualidade, o Papa pediu o reconhecimento de uma “lei moral inscrita na própria
natureza humana, que compreende a distinção
natural entre homem e mulher”.
Francisco,
que sempre se mostrou menos hostil aos homossexuais, ao contrário de seus
antecessores, evidenciou em seu discurso que não defende os direitos dos transgêneros.
Em
uma possível alusão ao casamento entre pessoas de mesmo sexo, alertou contra “a colonização ideológica
através da imposição de modelos e estilos de vida que são estranhos à
identidade das pessoas e, portanto, irresponsáveis”.
IMPORTÂNCIA
DA ONU
O
Papa abriu seu discurso falando sobre a importância
das Nações Unidas para a humanidade, e falou da importância das pessoas que trabalham para a organização,
principalmente aquelas que “deram suas vidas para a paz e reconciliação entre
os povos”.
“A
história da comunidade organizada dos estados representada pela ONU é uma
história de importantes êxitos comuns, em um período de inusitada aceleração
dos acontecimentos”, afirmou. “É certo que ainda são muitos os problemas a
serem resolvidos, mas é certo que, se não houvesse essa interferência, a
humanidade não teria sobrevivido a suas próprias potencialidades.”
Antes
de seu discurso, o Papa foi saudado pelo
presidente da Assembleia Geral da ONU, Mogens
Lykketoft. Ele ressaltou os esforços do pontífice pela paz, pelo
desenvolvimento sustentável, pela Justiça, pela redução das desigualdades,
afirmando que são ideais compartilhados pela ONU. “Estamos unidos pela mesma preocupação”, disse.
Antes de seu discurso
oficial, o Papa se reuniu com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e fez uma
declaração para os funcionários ONU, na qual afirmou estar preocupado com o futuro do
mundo e como ele será deixado para as próximas gerações, além de agradecer por
seu trabalho.
“Seu devotado trabalho não
só contribui para o aperfeiçoamento da ONU, mas expressa sua dignidade”, disse o Papa Francisco em
discurso aos funcionários da organização.
MUSEU
DO 11 DE SETEMBRO
Após
o discurso desta manhã, Francisco seguiu para o Museu do 11 de Setembro, onde rezou
junto a um dos espelhos de água que formam o monumento e depositou uma rosa
branca em um monumento [ver foto
acima]. Ele participa no início desta tarde de uma cerimônia ecumênica.
Na
agenda do Papa, ainda está prevista a visita
a uma escola no Harlem, liderará uma procissão no Central Park e encerrará
sua visita com uma missa no Madison
Square Garden.
Assista a este histórico discurso de Papa Francisco
na Assembleia da ONU.
Após cerca de 10 minutos, o papa inicia seu
pronunciamento
em língua espanhola.
Clique abaixo para assistir:
Discurso de
Papa Francisco na ONU
DISCURSO
Viagem do Papa Francisco
aos Estados Unidos
Visita à Sede da
Organização das Nações Unidas – ONU
Sexta-feira, 25 de
setembro de 2015
Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores!
Mais uma vez, seguindo uma tradição de que
me sinto honrado, o Secretário-Geral das Nações Unidas convidou o Papa para
falar a esta distinta assembleia das nações. Em meu nome e em nome de toda a
comunidade católica, Senhor Ban Ki-moon, desejo manifestar-lhe a gratidão mais
sincera e cordial; agradeço-lhe também as suas amáveis palavras. Saúdo ainda os
chefes de Estado e de Governo aqui presentes, os embaixadores, os diplomatas e
os funcionários políticos e técnicos que os acompanham, o pessoal das Nações
Unidas empenhado nesta LXX Sessão da
Assembleia Geral, o pessoal de todos os programas e agências da família da
ONU e todos aqueles que, por um título ou outro, participam nesta reunião. Por
vosso intermédio, saúdo também os cidadãos de todas as nações representadas
neste encontro. Obrigado pelos esforços
de todos e cada um em prol do bem da humanidade.
Esta é a quinta vez que um Papa visita as Nações Unidas. Fizeram-no os meus
antecessores Paulo VI em 1965, João Paulo II em 1979 e 1995 e o meu
imediato antecessor, hoje Papa emérito Bento
XVI, em 2008. Nenhum deles poupou expressões de reconhecido apreço pela
Organização, considerando-a a resposta jurídica e política adequada para o
momento histórico, caracterizado pela superação das distâncias e das fronteiras
graças à tecnologia e, aparentemente, superação de qualquer limite natural à
afirmação do poder. Uma resposta imprescindível, dado que o poder tecnológico, nas mãos de ideologias nacionalistas ou falsamente
universalistas, é capaz de produzir atrocidades tremendas. Não posso deixar
de me associar ao apreçamento dos meus antecessores, reiterando a importância
que a Igreja Católica reconhece a esta instituição e as esperanças que coloca
nas suas atividades.
A história da comunidade organizada dos
Estados, representada pelas Nações
Unidas, que festeja nestes dias o seu septuagésimo
aniversário, é uma história de
importantes sucessos comuns, num período de inusual aceleração dos
acontecimentos. Sem pretender ser exaustivo, pode-se mencionar:
- a codificação e o desenvolvimento do direito internacional,
- a construção da normativa internacional dos direitos humanos,
- o aperfeiçoamento do direito humanitário,
- a solução de muitos conflitos e operações de paz e reconciliação, e
- muitas outras aquisições em todos os setores da projeção internacional das atividades humanas.
Todas estas realizações são luzes que
contrastam a obscuridade da desordem causada por ambições descontroladas e
egoísmos coletivos. Apesar de serem muitos os problemas graves por resolver,
todavia é seguro e evidente que, se
faltasse toda esta atividade internacional, a humanidade poderia não ter
sobrevivido ao uso descontrolado das suas próprias potencialidades. Cada um
destes avanços políticos, jurídicos e técnicos representa um percurso de
concretização do ideal da fraternidade humana e um meio para a sua maior
realização.
Por isso, presto homenagem a todos os homens e mulheres que serviram, com lealdade
e sacrifício, a humanidade inteira nestes setenta anos. Em particular,
desejo hoje recordar aqueles que deram a sua vida pela paz e a reconciliação
dos povos, desde Dag Hammarskjöld
até aos inúmeros funcionários, de qualquer grau, caídos nas missões humanitárias
de paz e reconciliação.
A experiência destes setenta anos demonstra
que, para além de tudo o que se conseguiu, há constante necessidade de reforma
e adaptação aos tempos, avançando rumo ao objetivo
final que é conceder a todos os países, sem exceção, uma participação e uma
incidência reais e equitativas nas decisões. Esta necessidade duma maior
equidade é especialmente verdadeira nos órgãos com capacidade executiva real,
como o:
- Conselho de Segurança,
- os organismos financeiros e
- os grupos ou mecanismos criados especificamente para enfrentar as crises econômicas.
Isto ajudará a limitar qualquer espécie de
abuso ou usura especialmente sobre países em vias de desenvolvimento. Os Organismos Financeiros Internacionais
devem velar pelo desenvolvimento sustentável
dos países, evitando uma sujeição sufocante desses países a sistemas de crédito
que, longe de promover o progresso, submetem as populações a mecanismos de
maior pobreza, exclusão e dependência.
A tarefa das Nações Unidas, com base nos
postulados do Preâmbulo e dos primeiros artigos da sua Carta constitucional,
pode ser vista como o desenvolvimento e a promoção da soberania do direito,
sabendo que a justiça é um requisito
indispensável para se realizar o ideal da fraternidade universal. Neste
contexto, convém recordar que a limitação do poder é uma ideia implícita no
conceito de direito. Dar a cada um o que
lhe é devido, segundo a definição clássica de justiça, significa que nenhum
indivíduo ou grupo humano se pode considerar onipotente, autorizado a pisar a
dignidade e os direitos dos outros indivíduos ou dos grupos sociais. A
efetiva distribuição do poder (político, econômico, militar, tecnológico, etc.)
entre uma pluralidade de sujeitos e a criação dum sistema jurídico de regulação
das reivindicações e dos interesses realiza a limitação do poder. Mas, hoje, o panorama mundial apresenta-nos muitos
direitos falsos e, ao mesmo tempo, amplos setores sem proteção, vítimas
inclusivamente dum mau exercício do poder: o ambiente natural e o vasto
mundo de mulheres e homens excluídos são dois setores intimamente unidos entre
si, que as relações políticas e econômicas preponderantes transformaram em
partes frágeis da realidade. Por isso, é necessário afirmar vigorosamente os
seus direitos, consolidando a proteção do meio ambiente e pondo fim à exclusão.
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Antes de mais nada, é preciso afirmar a existência dum verdadeiro «direito do
ambiente», por duas razões.
[1º] Em
primeiro lugar, porque como seres
humanos fazemos parte do ambiente. Vivemos em comunhão com ele, porque o próprio ambiente comporta limites éticos
que a ação humana deve reconhecer e respeitar. O homem, apesar de dotado de
«capacidades originais [que] manifestam uma singularidade que transcende o âmbito
físico e biológico» (Encíclica Laudato
si’, 81), não deixa ao mesmo tempo de ser uma porção deste ambiente. Possui
um corpo formado por elementos físicos, químicos e biológicos, e só pode
sobreviver e desenvolver-se se o ambiente ecológico lhe for favorável. Por
conseguinte, qualquer dano ao meio
ambiente é um dano à humanidade.
[2º] Em
segundo lugar, porque cada uma das
criaturas, especialmente seres vivos, possui em si mesma um valor de
existência, de vida, de beleza e de interdependência com outras criaturas.
Nós cristãos, juntamente com as outras religiões monoteístas, acreditamos que o universo provém duma decisão de amor do
Criador, que permite ao homem servir-se respeitosamente da criação para o
bem dos seus semelhantes e para a glória do Criador, mas sem abusar dela e
muito menos sentir-se autorizado a destruí-la. E, para todas as crenças religiosas, o ambiente é um bem fundamental
(cf. ibid., 81).
O abuso e a destruição do meio ambiente
aparecem associados, simultaneamente, com um processo ininterrupto de exclusão. Na verdade, uma ambição egoísta
e ilimitada de poder e bem-estar material leva tanto a abusar dos meios
materiais disponíveis como a excluir os fracos e os menos hábeis, seja pelo
fato de terem habilidades diferentes (deficientes), seja porque lhes faltam
conhecimentos e instrumentos técnicos adequados ou possuem uma capacidade
insuficiente de decisão política. A
exclusão econômica e social é uma negação total da fraternidade humana e um
atentado gravíssimo aos direitos humanos e ao ambiente.
Os
mais pobres são aqueles que mais sofrem esses ataques por um triplo e grave
motivo:
- são descartados pela sociedade,
- ao mesmo tempo são obrigados a viver de desperdícios, e
- devem sofrer injustamente as consequências do abuso do ambiente.
Estes fenômenos constituem, hoje, a «cultura do descarte» tão difundida e inconscientemente
consolidada.
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"CULTURA DO DESCARTE" É denunciada por Papa Francisco na ONU. Não somente as coisas e a natureza são tratadas como descartáveis, mas também o próprio ser humano! |
O caráter dramático de toda esta situação
de exclusão e desigualdade, com as suas consequências claras, leva-me,
juntamente com todo o povo cristão e muitos outros, a tomar consciência também
da minha grave responsabilidade a este respeito, pelo que levanto a minha voz,
em conjunto com a de todos aqueles que aspiram por soluções urgentes e
eficazes. A adoção da «Agenda 2030 para
o Desenvolvimento Sustentável», durante a Cimeira Mundial que hoje mesmo
começa, é um sinal importante de
esperança. Estou confiante também que a Conferência de Paris sobre as alterações climáticas alcance acordos
fundamentais e efetivos.
Todavia
não são suficientes os compromissos solenemente assumidos,
mesmo se constituem um passo necessário para a solução dos problemas. A
definição clássica de justiça, a que antes me referi, contém como elemento
essencial uma vontade constante e perpétua: Iustitia
est constans et perpetua voluntas ius suum cuique tribuendi [trad.: Justiça
é a vontade constante e perpétua de dar a cada um o que é seu]. O mundo pede vivamente a todos os
governantes uma vontade efetiva, prática, constante, feita de passos concretos
e medidas imediatas, para preservar e melhorar o ambiente natural e superar o
mais rapidamente possível o fenômeno da exclusão social e econômica, com
suas tristes consequências de:
- tráfico de seres humanos,
- tráfico de órgãos e tecidos humanos,
- exploração sexual de meninos e meninas,
- trabalho escravo, incluindo a prostituição,
- tráfico de drogas e de armas,
- terrorismo e criminalidade internacional organizada.
Tal
é a magnitude destas situações e o número de vidas inocentes envolvidas que
devemos evitar qualquer tentação de cair num nominalismo declamatório com
efeito tranquilizador sobre as consciências. Devemos
ter cuidado com as nossas instituições para que sejam realmente eficazes na
luta contra estes flagelos.
A multiplicidade e complexidade dos
problemas exigem servir-se de instrumentos técnicos de medição. Isto, porém,
esconde um duplo perigo: limitar-se ao exercício burocrático de redigir longas
enumerações de bons propósitos – metas, objetivos e indicadores estatísticos –,
ou julgar que uma solução teórica única e apriorística dará resposta a todos os
desafios. É preciso não perder de vista, em momento algum, que a ação política e econômica só é eficaz
quando é concebida como uma atividade prudencial, guiada por um conceito perene
de justiça e que tem sempre presente que, antes e para além de planos e
programas, existem mulheres e homens concretos, iguais aos governantes, que
vivem, lutam e sofrem e que muitas vezes se veem obrigados a viver
miseravelmente, privados de qualquer direito.
Para que estes homens e mulheres concretos
possam subtrair-se à pobreza extrema, é preciso permitir-lhes que sejam atores
dignos do seu próprio destino. O
desenvolvimento humano integral e o pleno exercício da dignidade humana não podem
ser impostos; devem ser construídos e realizados por cada um, por cada
família, em comunhão com os outros seres humanos e num relacionamento correto
com todos os ambientes onde se desenvolve a sociabilidade humana – amigos,
comunidades, aldeias e vilas, escolas, empresas e sindicatos, províncias,
países, etc. Isto supõe e exige o
direito à educação – mesmo para as meninas (excluídas em alguns lugares) –,
que é assegurado, antes de mais nada,
respeitando e reforçando o direito primário das famílias a educar e o direito
das Igrejas e de agregações sociais a apoiar e colaborar com as famílias na
educação das suas filhas e dos seus filhos. A educação, assim entendida, é a base para a realização da Agenda
2030 e para a recuperação do ambiente.
Ao mesmo tempo, os governantes devem fazer
o máximo possível por que todos possam dispor da base mínima material e
espiritual para tornar efetiva a sua dignidade e para formar e manter uma
família, que é a célula primária de qualquer desenvolvimento social. Em nível
material, este mínimo absoluto tem três nomes:
- casa,
- trabalho e
- terra.
E, em nível espiritual, um nome: liberdade do espírito, que inclui a
liberdade religiosa, o direito à educação e os outros direitos civis.
Por todas estas razões, a medida e o
indicador mais simples e adequado do cumprimento da nova Agenda para o
desenvolvimento será o acesso efetivo, prático e imediato, para todos, aos bens
materiais e espirituais indispensáveis: habitação própria, trabalho digno e
devidamente remunerado, alimentação adequada e água potável; liberdade
religiosa e, mais em geral, liberdade do espírito e educação. Ao mesmo tempo, estes pilares do desenvolvimento humano
integral têm um fundamento comum, que é o direito à vida, e, em sentido ainda
mais amplo, aquilo a que poderemos chamar o direito à existência da própria
natureza humana.
A crise ecológica, juntamente com a
destruição de grande parte da biodiversidade, pode pôr em perigo a própria
existência da espécie humana. As nefastas consequências duma irresponsável má
gestão da economia mundial, guiada unicamente pela ambição de lucro e poder,
devem constituir um apelo a esta severa reflexão sobre o homem: «O homem não se cria a si mesmo. Ele é
espírito e vontade, mas é também natureza» (BENTO XVI, Discurso ao Parlamento da República Federal da Alemanha, 22 de
Setembro de 2011; citado na Encíclica Laudato
si’, 6). A criação vê-se prejudicada
«onde nós mesmos somos a última instância (…). E o desperdício da criação começa onde já não reconhecemos qualquer
instância acima de nós, mas vemo-nos unicamente a nós mesmos» (BENTO XVI, Discurso ao clero da Diocese de
Bolzano-Bressanone, 6 de Agosto de 2008; citado na Encíclica Laudato si’, 6). Por isso, a defesa do ambiente e a luta contra a
exclusão exigem o reconhecimento duma lei moral inscrita na própria natureza
humana, que inclui a distinção natural entre homem e mulher (cf. Encíclica Laudato si’, 155) e o respeito absoluto da vida em todas as suas fases e dimensões
(cf. ibid., 123; 136).
Sem o reconhecimento de alguns limites
éticos naturais inultrapassáveis e sem a imediata atuação dos referidos pilares
do desenvolvimento humano integral, o ideal de «preservar as gerações vindouras
do flagelo da guerra» (Carta das Nações Unidas, Preâmbulo) e «promover o
progresso social e um padrão mais elevado de viver em maior liberdade» (ibid.)
corre o risco de se tornar uma miragem inatingível ou, pior ainda, palavras
vazias que servem como desculpa para qualquer abuso e corrupção ou para
promover uma colonização ideológica
através da imposição de modelos e estilos de vida anormais, alheios à
identidade dos povos e, em última análise, irresponsáveis.
A guerra é a negação de todos os direitos e
uma agressão dramática ao meio ambiente. Se
se quiser um desenvolvimento humano integral autêntico para todos, é preciso
continuar incansavelmente no esforço de evitar a guerra entre as nações e entre
os povos.
Para isso, é preciso garantir o domínio incontrastado do direito e o recurso
incansável às negociações, aos mediadores e à arbitragem, como é proposto pela
Carta das Nações Unidas, verdadeira norma jurídica fundamental. A
experiência destes setenta anos de existência das Nações Unidas, em geral, e,
de modo particular, a experiência dos primeiros quinze anos do terceiro milênio
mostram tanto a eficácia da plena aplicação das normas internacionais como a
ineficácia da sua inobservância. Se se
respeita e aplica a Carta das Nações Unidas, com transparência e sinceridade,
sem segundos fins, como um ponto de referência obrigatório de justiça e não
como um instrumento para mascarar intenções ambíguas, obtém-se resultados de
paz. Quando, pelo contrário, se confunde a norma com um simples instrumento
que se usa quando resulta favorável e se contorna quando não o é, abre-se uma
verdadeira caixa de Pandora com forças incontroláveis, que prejudicam
seriamente as populações inermes, o ambiente cultural e também o ambiente
biológico.
O
Preâmbulo e o primeiro artigo da Carta
das Nações Unidas indicam as bases da construção jurídica internacional:
- a paz,
- a solução pacífica das controvérsias e
- o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações.
Contrasta fortemente com estas afirmações –
e nega-as na prática – a tendência sempre presente para a proliferação das armas, especialmente as de destruição em massa,
como o podem ser as armas nucleares. Uma ética e um direito baseados sobre a
ameaça da destruição recíproca – e, potencialmente, de toda a humanidade – são
contraditórios e constituem um dolo em toda a construção das Nações Unidas, que
se tornariam «Nações Unidas pelo medo e a
desconfiança». É preciso trabalhar
por um mundo sem armas nucleares, aplicando plenamente, na letra e no
espírito, o Tratado de Não-Proliferação
para se chegar a uma proibição total destes instrumentos.
O
recente acordo sobre a questão nuclear, numa região sensível da Ásia e do Médio
Oriente, é uma prova das possibilidades da boa vontade política e do direito,
cultivados com sinceridade, paciência e constância.
Faço votos de que este acordo seja duradouro e eficaz e, com a colaboração de
todas as partes envolvidas, produza os frutos esperados.
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Cristãos coptas egípcios que foram trabalhar na Líbia, são decapitados por membros do grupo terrorista Estado Islâmico |
Nesta linha, não faltam provas graves das consequências negativas de intervenções
políticas e militares não coordenadas entre os membros da comunidade
internacional. Por isso, embora desejasse não ter necessidade de o fazer, não posso deixar de reiterar os meus apelos
que venho repetidamente fazendo em relação à dolorosa situação de todo o Médio
Oriente, do Norte de África e de outros países africanos, onde os cristãos,
juntamente com outros grupos culturais ou étnicos e também com aquela parte dos
membros da religião maioritária que não quer deixar-se envolver pelo ódio e a
loucura, foram obrigados a ser testemunhas da destruição dos seus lugares de
culto, do seu patrimônio cultural e religioso, das suas casas e haveres, e
foram postos perante a alternativa de escapar ou pagar a adesão ao bem e à paz
com a sua própria vida ou com a escravidão.
Estas realidades devem constituir um sério
apelo a um exame de consciência por parte daqueles que têm a responsabilidade
pela condução dos assuntos internacionais. Não só nos casos de perseguição
religiosa ou cultural, mas em toda a situação de conflito, como na Ucrânia,
Síria, Iraque, Líbia, Sudão do Sul e na região dos Grandes Lagos, antes dos
interesses de parte, mesmo legítimos, existem rostos concretos. Nas guerras e conflitos, existem pessoas,
nossos irmãos e irmãs, homens e mulheres, jovens e idosos, meninos e meninas
que choram, sofrem e morrem. Seres humanos que se tornam material de descarte,
enquanto nada mais se faz senão enumerar problemas, estratégias e discussões.
Como pedi ao Secretário-Geral das Nações
Unidas, na minha carta de 9 de Agosto de 2014, «a mais elementar compreensão da
dignidade humana obriga a comunidade
internacional, em particular através das regras e dos mecanismos do direito
internacional, a fazer tudo o que
estiver ao seu alcance para impedir e prevenir ulteriores violências
sistemáticas contra as minorias étnicas e religiosas» e para proteger as populações inocentes.
Nesta mesma linha, quero citar outro tipo
de conflitualidade, nem sempre assim explicitada, mas que inclui
silenciosamente a morte de milhões de pessoas. Muitas das nossas sociedades vivem um tipo diferente de guerra com o
fenômeno do narcotráfico. Uma guerra
«suportada» e pobremente combatida. O narcotráfico, por sua própria
natureza, é acompanhado pelo tráfico de
pessoas, lavagem de dinheiro, tráfico de armas, exploração infantil e outras
formas de corrupção. Corrupção, que penetrou nos diferentes níveis da vida
social, política, militar, artística e religiosa, gerando, em muitos casos, uma
estrutura paralela que põe em perigo a credibilidade das nossas instituições.
Comecei a minha intervenção recordando as
visitas dos meus antecessores. Agora quereria, em particular, que as minhas
palavras fossem como que uma continuação das palavras finais do discurso de Paulo VI, pronunciadas quase há
cinquenta anos, mas de valor perene. «Eis
chegada a hora em que se impõe uma pausa, um momento de recolhimento, de reflexão,
quase de oração: pensar de novo na nossa comum origem, na nossa história, no
nosso destino comum. Nunca, como hoje, (…) foi tão necessário o apelo à
consciência moral do homem. Porque o perigo não vem nem do progresso nem da
ciência, que, bem utilizados, poderão, pelo contrário, resolver um grande
número dos graves problemas que assaltam a humanidade» (Discurso aos Representantes dos Estados,
4 de Outubro de 1965, n. 7). Sem dúvida que a genialidade humana, bem aplicada,
ajudará a resolver, entre outras coisas, os graves desafios da degradação
ecológica e da exclusão. E continuo com as palavras de Paulo VI: «O verdadeiro perigo está no homem, que
dispõe de instrumentos sempre cada vez mais poderosos, aptos tanto para a ruína
como para as mais elevadas conquistas» (ibid.).
A
casa comum de todos os homens deve continuar a erguer-se sobre uma reta
compreensão da fraternidade universal e sobre o respeito pela sacralidade de
cada vida humana, de cada homem e de cada mulher;
dos pobres, dos idosos, das crianças, dos doentes, dos nascituros, dos
desempregados, dos abandonados, daqueles que são vistos como descartáveis
porque considerados meramente como números desta ou daquela estatística. A casa comum de todos os homens deve
edificar-se também sobre a compreensão duma certa sacralidade da natureza
criada.
Tal compreensão e respeito exigem um grau
superior de sabedoria, que aceite a transcendência, renuncie à construção duma
elite onipotente e entenda que o sentido
pleno da vida individual e coletiva está no serviço desinteressado aos outros e
no uso prudente e respeitoso da criação para o bem comum. Repetindo
palavras de Paulo VI, «o edifício da civilização moderna deve construir-se
sobre princípios espirituais, os
únicos capazes não apenas de o sustentar, mas também de o iluminar e de o
animar» (ibid.).
O Gaúcho
Martín Fierro, um clássico da literatura da minha terra natal, canta: «Os
irmãos estejam unidos, porque esta é a primeira lei. Tenham união verdadeira em
qualquer tempo que seja, porque se litigam entre si, devorá-los-ão os de fora».
O mundo contemporâneo, aparentemente
interligado, experimenta uma crescente, consistente e contínua fragmentação
social que põe em perigo «todo o fundamento da vida social» e assim «acaba por
colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses» (Encíclica Laudato si’, 229).
O tempo presente convida-nos a privilegiar
ações que possam gerar novos dinamismos na sociedade e frutifiquem em
acontecimentos históricos importantes e positivos (cf. Exortação apostólica Evangelii gaudium, 223).
Não
podemos permitir-nos o adiamento de «algumas agendas» para o futuro.
O futuro exige-nos decisões críticas e globais face aos conflitos mundiais que
aumentam o número dos excluídos e necessitados.
A louvável construção jurídica internacional
da Organização das Nações Unidas e
de todas as suas realizações – melhorável como qualquer outra obra humana e, ao
mesmo tempo, necessária – pode ser penhor dum futuro seguro e feliz para as
gerações futuras. Sê-lo-á se os
representantes dos Estados souberem pôr de lado interesses setoriais e
ideologias e procurarem sinceramente o serviço do bem comum. Peço a Deus
onipotente que assim seja, assegurando-vos o meu apoio, a minha oração, bem
como o apoio e as orações de todos os fiéis da Igreja Católica, para que esta
Instituição, com todos os seus Estados-Membros e cada um dos seus funcionários,
preste sempre um serviço eficaz à humanidade, um serviço respeitoso da
diversidade e que saiba potenciar, para o bem comum, o melhor de cada nação e
de cada cidadão.
A bênção do Altíssimo, a paz e a
prosperidade para todos vós e para todos os vossos povos. Obrigado!
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