Papa: indulgências no Jubileu Extraordinário da Misericórdia
Reflexões sobre uma jogada dupla e ousada do
“Papa da Misericórdia”
“Papa da Misericórdia”
John L. Allen
Jr.
Crux
01-09-2015
Papa Francisco executou uma dupla e ousada jogada
pastoral nessa terça-feira (1º de setembro), estendendo a mão a dois grupos há
muito tempo afastados das estruturas oficiais da Igreja Católica.
Um
dia depois de gravar uma sessão de vídeo com três comunidades dos Estados
Unidos programada para ir ao ar na sexta-feira (4 de setembro), descrita por
aqueles que já o assistiram como uma “produção caseira”, o Papa Francisco
executou uma dupla e ousada jogada pastoral nessa terça-feira (1º de setembro),
estendendo a mão a dois grupos há muito tempo afastados das estruturas oficiais
da Igreja Católica.
Em
uma concessão que se aplica a um “Ano da
Misericórdia” especial, que durará do dia 8 dezembro de 2015 ao dia 20 de
novembro de 2016, Francisco decretou que
qualquer sacerdote católico, sem a necessidade de autorização especial de um
bispo, pode conceder o perdão a alguém que “procure” realizar um aborto.
Embora
a referência em uma carta papal emitida nesta terça-feira dirija-se
principalmente às mulheres que se submeteram a abortos, a decisão pode ser
interpretada para se aplicar igualmente a outras partes, como os médicos que
realizam abortos e qualquer outra pessoa envolvida.
O
pontífice também decidiu que qualquer católico que confessar os pecados durante
o ano jubilar a um sacerdote da Fraternidade
Sacerdotal São Pio X – grupo separatista tradicionalista não aprovado por
Roma – será, não obstante, considerado licitamente perdoado.
Francisco
expressou esperança nesta terça-feira que a ruptura com esta Fraternidade
Sacerdotal possa ser superada “em um futuro próximo”, expressando a sua
abertura a uma reconciliação mais ampla.
À
primeira vista, esta jogada dupla do
pontífice sugere quatro reflexões.
Em
primeiro lugar, é importante notar que tais decisões não representam nenhuma
mudança no ensino católico oficial. Tanto o aborto quanto o desafio à
autoridade papal ainda são considerados pecados graves, provocando o que o
Direito Canônico – que é o compêndio das leis da Igreja – descreve como
excomunhão latae sententiae, que
significa “automático”, no caso: excomunhão automática.
Com
efeito, o que Francisco fez, em vez de
alterar a doutrina, foi estender o âmbito da misericórdia para qualquer um
que buscar o perdão com aquilo que ele descreve como um “coração contrito”.
Em
segundo lugar, fazer estes dois movimentos num mesmo momento poderá ser visto
como mais um esforço do papa no sentido de um equilíbrio político, o que lembra
a sua decisão, em abril de 2014, de beatificar os falecidos papas João XXIII e
João Paulo II em conjunto, pontífices ícones da esquerda e da direita
católicas, respectivamente.
Provavelmente,
a concessão quanto ao aborto será bem recebida por muitos católicos
progressistas que há tempos pediam por uma maior compaixão para com as mulheres
envolvidas nestes casos, enquanto os conservadores podem se alegrar com a
abertura à Fraternidade Sacerdotal São
Pio X, pois eles compartilham algumas das preocupações do grupo
concernentes às reformas progressistas adotadas no Concílio Vaticano II
(1962-1965).
Se o
que o Papa Francisco quer é um equilíbrio, ele poderá, no entanto, obtê-lo sob
a forma de uma resposta negativa de ambos os lados.
Alguns
ativistas contrários ao aborto podem se estremecer com a notícia, o que poderia
ser visto como uma redução do nível de seriedade moral que a Igreja atribui ao
ato. (Por outro lado, alguns podem se alegrar pela lembrança de que o aborto
provoca a excomunhão.)
Enquanto
isso, outras vozes há muito vêm se opondo à aproximação do Vaticano para com a
Fraternidade Sacerdotal São Pio X, queixando-se do histórico turbulento do
grupo no que diz respeito ao antissemitismo e às suas atitudes, em geral, de
desaprovação em questões tais como as do diálogo inter-religioso e liberdade
religiosa.
Reações
desse tipo podem começar a surgir, posto que Francisco até o momento não tem
sido visto como um grande amigo dos tradicionalistas. Alguns poderão se
preocupar que tal concessão é um sinal de mudança de rota, talvez especialmente
em conjunto com a recente visita de Francisco ao altar de Pio X, na Basílica de
São Pedro, e a sua confissão de ser um “devoto” do falecido pontífice.
Em
terceiro lugar, os especialistas poderão precisar de um dia inteiro para
avaliar o significado exato de tais movimentos.
Sobre
o aborto, tem havido um longo debate entre os canonistas a respeito do que exatamente significa “procurar” [realizar] um aborto.
Por exemplo: será que “procurar” se aplica igualmente a um namorado que paga
pelo procedimento ou um pai que o permite quando se trata de uma menor de
idade?
O
Direito Canônico diz que os cúmplices de um crime grave estão sujeitos à mesma
pena, o que tem levantado questões espinhosas sobre se os legisladores que
apoiam o direito ao aborto, por exemplo, devem ser considerados excomungados.
O
que a carta de Francisco busca com certeza não é tentar resolver essas
questões. No entanto, ela as trouxe de volta à cena.
Quanto
à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, as coisas parecem ainda mais sombrias.
No
passado, o Vaticano disse que nem todo mundo que frequenta ocasionalmente uma
das missas da Fraternidade encontra-se, necessariamente, em cisma, mas que o
grupo promove uma “mentalidade cismática” que pode se empedernir ao longo do
tempo.
Roma
também já decidiu que os padres da Fraternidade foram validamente ordenados,
mas são considerados suspensos porque as suas ordenações aconteceram sem a
autorização papal adequada.
Consequentemente,
eles não estão tecnicamente autorizados a realizar quaisquer ministérios,
incluindo o sacramento da Confissão.
Francisco,
no entanto, parece os ter autorizado a fazerem exatamente isso durante o ano
jubilar, o que pode levar alguns a se perguntar se ele não teria “suspendido”
efetivamente as proibições do grupo.
O Pe. Federico Lombardi, porta-voz do
Vaticano, disse a jornalistas na terça-feira que Francisco “não está fazendo um apelo por anistia jurídica”, o que
aparentemente quer dizer que o seu movimento não aborda o status da Fraternidade diante do Direito Canônico.
Alguns
poderão ter dificuldades para entender por que isso é importante, dado que a
estimativa é de que a Fraternidade São Pio X não chegue a um milhão de
seguidores no mundo todo, cifra que representa cerca de um décimo do 1% da
população católica total.
No
entanto, o movimento “lefebvrista”, assim chamado por causa do falecido
arcebispo francês Marcel Lefevbre
que o fundou, é considerado como o único cisma formal após o Vaticano II. O
problema envolvendo os cismas faz parte do DNA do Vaticano, uma vez que eles
vêm sendo profundamente desestabilizadores, dividindo a Igreja e custando ao
catolicismo regiões inteiras do mundo.
Todos
os papas, desde o Vaticano II, tiveram como prioridade acabar com os cismas.
Nesse sentido, esta abertura de Francisco marca simplesmente mais um movimento
numa longa história.
Em
quarto lugar, dado o reconhecimento do Papa Francisco como o “Papa da Misericórdia”, nada disso
deveria ser surpresa.
Francisco
fez da misericórdia algo central em sua pauta. Numa coletiva de imprensa,
durante o voo que o trouxe do Brasil a Roma em julho de 2013, disse: “Penso que este tempo seja um kairós de
misericórdia”, empregando um termo grego tirado do Novo Testamento que
significa um momento privilegiado no plano divino de salvação.
A
mesma ênfase é encontrada no lema de Francisco, Miserando atque eligendo, o que podemos traduzir como “escolhendo
através dos olhos da misericórdia”. Foi em sua primeira homilia dominical como
papa onde ele afirmou: “Para mim, a
mensagem mais forte do Senhor é a misericórdia”.
Nesse
sentido, o novo decreto de Francisco está coerente com o tom que ele definiu
desde o início.
Independentemente
do que se possa fazer com o conteúdo das decisões, qualquer um que conheça a
psicologia e a cultura da Igreja irá reconhecê-las como algo mais do que
meramente cosmético.
O
resultado provavelmente será que a conversa do Papa Francisco sobre a
misericórdia não é apenas retórica. Pelo menos por um ano, ela será traduzida
em política para abordar dois dos desafios mais sensíveis e polarizantes que
todo papa moderno enfrenta.
Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa. Para acessar a versão original deste artigo,
clique aqui.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 2 de setembro de 2015 – Internet: clique aqui.
CARTA DO PAPA FRANCISCO COM A QUAL SE CONCEDE A
INDULGÊNCIA
POR OCASIÃO DO JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA
Ao
Venerado Irmão
D.
Rino Fisichella
Presidente
do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização
A proximidade do Jubileu Extraordinário da Misericórdia permite-me focar alguns
pontos sobre os quais considero importante intervir para consentir que a
celebração do Ano Santo seja para todos os crentes um verdadeiro momento de
encontro com a misericórdia de Deus. Com efeito, desejo que o Jubileu seja uma
experiência viva da proximidade do Pai, como se quiséssemos sentir pessoalmente
a sua ternura, para que a fé de cada crente se revigore e assim o testemunho se
torne cada vez mais eficaz.
O meu pensamento dirige-se, em primeiro
lugar, a todos
os fiéis que em cada Diocese, ou como peregrinos em Roma, viverem a graça
do Jubileu. Espero que a indulgência jubilar chegue a cada um como uma
experiência genuína da misericórdia de Deus, a qual vai ao encontro de todos
com o rosto do Pai que acolhe e perdoa, esquecendo completamente o pecado
cometido. Para viver e obter a indulgência os fiéis são chamados a realizar uma
breve peregrinação rumo à Porta Santa, aberta em cada Catedral ou nas igrejas
estabelecidas pelo Bispo diocesano, e nas quatro Basílicas Papais em Roma, como
sinal do profundo desejo de verdadeira conversão. Estabeleço igualmente que se
possa obter a indulgência nos Santuários onde se abrir a Porta da Misericórdia
e nas igrejas que tradicionalmente são identificadas como Jubilares. É importante que este momento esteja unido,
em primeiro lugar, ao Sacramento da Reconciliação e à celebração da santa
Eucaristia com uma reflexão sobre a misericórdia. Será necessário
acompanhar estas celebrações com a profissão de fé e com a oração por mim e
pelas intenções que trago no coração para o bem da Igreja e do mundo inteiro.
Penso também em quantos, por diversos
motivos, estiverem impossibilitados de ir até à Porta Santa, sobretudo os doentes
e as pessoas
idosas e sós, que muitas vezes se
encontram em condições de não poder sair de casa. Para eles será de grande
ajuda viver a enfermidade e o sofrimento
como experiência de proximidade ao Senhor que no mistério da sua paixão, morte
e ressurreição indica a via mestra para dar sentido à dor e à solidão.
Viver com fé e esperança jubilosa este momento de provação, recebendo a
comunhão ou participando na santa Missa e na oração comunitária, inclusive
através dos vários meios de comunicação, será para eles o modo de obter a
indulgência jubilar.
O meu pensamento dirige-se também aos encarcerados,
que experimentam a limitação da sua liberdade. O Jubileu constituiu sempre a
oportunidade de uma grande anistia, destinada a envolver muitas pessoas que,
mesmo merecedoras de punição, todavia tomaram consciência da injustiça perpetrada
e desejam sinceramente inserir-se de novo na sociedade, oferecendo o seu
contributo honesto. A todos eles chegue concretamente a misericórdia do Pai que
quer estar próximo de quem mais necessita do seu perdão. Nas capelas dos
cárceres poderão obter a indulgência, e todas as vezes que passarem pela porta
da sua cela, dirigindo o pensamento e a oração ao Pai, que este gesto
signifique para eles a passagem pela Porta Santa, porque a misericórdia de
Deus, capaz de mudar os corações, consegue também transformar as grades em
experiência de liberdade.
Eu pedi que a Igreja redescubra neste tempo
jubilar a riqueza
contida nas obras de misericórdia corporais e espirituais. De fato,
a experiência da misericórdia torna-se visível no testemunho de sinais concretos
como o próprio Jesus nos ensinou. Todas as vezes que um fiel viver uma ou mais
destas obras pessoalmente obterá sem dúvida a indulgência jubilar. Daqui o
compromisso a viver de misericórdia para alcançar a graça do perdão completo e
exaustivo pela força do amor do Pai que não exclui ninguém. Portanto,
tratar-se-á de uma indulgência jubilar plena, fruto do próprio evento que é
celebrado e vivido com fé, esperança e caridade.
Enfim, a indulgência jubilar pode ser
obtida também para quantos faleceram. A eles estamos unidos pelo
testemunho de fé e caridade que nos deixaram. Assim como os recordamos na
celebração eucarística, também podemos, no grande mistério da comunhão dos
Santos, rezar por eles, para que o rosto misericordioso do Pai os liberte de qualquer
resíduo de culpa e possa abraçá-los na beatitude sem fim.
Um dos graves problemas do nosso tempo é
certamente a alterada relação com a vida. Uma mentalidade muito difundida já
fez perder a necessária sensibilidade pessoal e social pelo acolhimento de uma
nova vida. O drama
do aborto é vivido por alguns com
uma consciência superficial, quase sem se dar conta do gravíssimo mal que um
gesto semelhante comporta. Muitos outros, ao contrário, mesmo vivendo este
momento como uma derrota, julgam que não têm outro caminho a percorrer. Penso,
de maneira particular, em todas as
mulheres que recorreram ao aborto. Conheço bem os condicionamentos que as
levaram a tomar esta decisão. Sei que é um drama existencial e moral. Encontrei
muitas mulheres que traziam no seu coração a cicatriz causada por esta escolha
sofrida e dolorosa. O que aconteceu é profundamente injusto; contudo, só a sua
verdadeira compreensão pode impedir que se perca a esperança. O perdão de Deus
não pode ser negado a quem quer que esteja arrependido, sobretudo quando com
coração sincero se aproxima do Sacramento da Confissão para obter a
reconciliação com o Pai. Também por este motivo, não obstante qualquer
disposição em contrário, decidi conceder
a todos os sacerdotes para o Ano Jubilar a faculdade de absolver do pecado de
aborto quantos o cometeram e, arrependidos de coração, pedirem que lhes seja
perdoado. Os sacerdotes se preparem para esta grande tarefa sabendo
conjugar palavras de acolhimento genuíno com uma reflexão que ajude a
compreender o pecado cometido, e indicar um percurso de conversão autêntica
para conseguir entender o verdadeiro e generoso perdão do Pai, que tudo renova
com a sua presença.
Uma última consideração é dirigida aos
fiéis que por diversos motivos sentem o desejo de frequentar as igrejas
oficiadas pelos sacerdotes
da Fraternidade São Pio X. Este Ano Jubilar da Misericórdia não
exclui ninguém. De diversas partes, alguns irmãos Bispos referiram-me acerca da
sua boa fé e prática sacramental, porém unida à dificuldade de viver uma
condição pastoralmente árdua. Confio que no futuro próximo se possam encontrar
soluções para recuperar a plena comunhão com os sacerdotes e os superiores da
Fraternidade. Entretanto, movido pela exigência de corresponder ao bem destes
fiéis, estabeleço por minha própria
vontade que quantos, durante o Ano Santo da Misericórdia, se aproximarem para
celebrar o Sacramento da Reconciliação junto dos sacerdotes da Fraternidade São
Pio X, recebam validamente e licitamente a absolvição dos seus pecados.
Confiando na intercessão da Mãe da
Misericórdia, recomendo à sua proteção a preparação deste Jubileu
Extraordinário.
Vaticano,
1 de Setembro de 2015
Franciscus
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