POLÍTICA E ECONOMIA: ESTÁ TUDO BEM CLARO!!!
“A Dilma é simplesmente uma trapalhona”
Entrevista
com Antônio Delfim Netto
Economista
e professor emérito da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da
Universidade de São Paulo. Ocupou os ministérios da Fazenda, da Agricultura e
do Planejamento. Foi deputado federal por cinco mandatos.
Eliane
Cantanhêde
Delfim diz que a presidente é honesta, mas “tem uma
visão do Brasil que não coincide com o País”, classifica a proposta de
Orçamento como “barbeiragem” e o pacote fiscal como “fraude”
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Antônio Delfim Netto Economista, político e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento |
O
ex-ministro, ex-deputado e afiadíssimo economista Delfim Netto, 87 anos, 24
deles no Congresso, como deputado, desfia uma série de adjetivos demolidores
contra o pacote fiscal do governo e é implacável com a presidente Dilma
Rousseff: “Ela é simplesmente uma trapalhona”.
Em
entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo,
Delfim classificou o envio de um Orçamento com déficit ao Congresso como “a maior barbeiragem política e econômica da
história recente do Brasil” e disse que o pacote é “uma fraude, um truque, uma decepção, não tem corte nenhum, é uma cobra
que mordeu o rabo”.
Quanto
ao coração do plano: “A CPMF é um
imposto cumulativo, regressivo, inflacionário, tem efeito negativo sobre o
crescimento e quem paga é o pobre”. A seguir, os principais trechos da
entrevista.
Como
o sr. vê a situação hoje?
Delfim Netto: Com muita preocupação. As
pessoas sabem que a presidente é uma mulher com espírito muito forte, com
vontades muito duras, e ela nunca explicou porque ela deu aquela conversão na
estrada de Damasco [como sucedeu ao
apóstolo Paulo, em Atos dos Apóstolos]. Ela deveria ter ido à televisão, já
no primeiro momento, e dizer: “Errei. Achei que o modelo que nós tínhamos ia
dar certo e não deu”. Mas, não. Ela mudou sem avisar e sem explicar nada para
ninguém. Como confiar?
Como
define a conversão na estrada de Damasco?
Delfim Netto: Ela mudou um programa
econômico extremamente defeituoso, que foi usado para se reeleger. Em 2011, a
Dilma fez um ajuste importante, aprovou a previdência do funcionalismo público,
o PIB cresceu praticamente no nível do Lula. Mas o vento que era de cauda e que
ajudou muito o Lula tinha mudado e virado um vento de frente.
Os
ventos internacionais?
Delfim Netto: Sim. Então, ela foi
confrontada em 2012 com essa mudança e com a expectativa de que a inflação ia
aumentar e o crescimento ia diminuir e ela alterou tudo. Passou para uma
política voluntarista, intervencionista, foi pondo a mão numa coisa, noutra,
noutra, noutra... Aquilo tudo foi minando a confiança do mundo empresarial e,
de 2012 a 2014, o crescimento vai diminuindo, murchando.
E
o uso na reeleição?
Delfim Netto: A tragédia, na verdade, foi
2014, porque ela usou um axioma da política, que diz que “o primeiro dever do
poder é continuar poder”. No momento em que ela assumiu isso, ela passou a
insistir nos seus equívocos. Aliás, contra o seu ministro da Fazenda, o Guido
Mantega, que tinha preparado a mudança, tanto que as primeiras medidas
anunciadas pelo Joaquim Levy já estavam prontas, tinham sido feitas pelo Guido.
Então,
o sr. discorda da versão corrente de que a culpa foi do Mantega?
Delfim Netto: O Guido não tem culpa
nenhuma. E, para falar a verdade, nenhum ministro da Fazenda da Dilma tem culpa
nenhuma, porque o ministro da Fazenda é a Dilma, é ela. E o custo da eleição é
o grande desequilíbrio de 2014.
Qual
o papel do Levy?
Delfim Netto: Como a credibilidade do
governo é muito baixa, o ajuste que ele fez encontrou muitas dificuldades, não
teve sucesso porque não foi possível dizer que o ajuste era simplesmente uma
ponte.
A
presidente não vive dizendo que é só uma travessia?
Delfim Netto: Travessia sem ponte?
E
o pacote fiscal?
Delfim Netto: O primeiro equívoco mortal
foi encaminhar para o Congresso uma proposta de Orçamento com déficit. Foi a
maior barbeiragem política e econômica da história recente do Brasil. A
interpretação do mercado foi a seguinte: o governo jogou a toalha, abriu mão de
sua responsabilidade, é impotente, então, seja o que Deus quiser, o Congresso
que se vire aí.
A
briga interna do governo não é um complicador?
Delfim Netto: A briga interna ocorre em
qualquer governo, mas o presidente tem de ter uma coisa muito clara: ele opta
por um e manda o outro embora. Um governo não pode ter dentro de si essas
contradições, senão vira um Frankenstein.
Quem
tem de sair, o Levy, o Nelson Barbosa ou o Aloizio Mercadante?
Delfim Netto: Quem tem de sair é problema
da Dilma, mas quem assessorou isso do Orçamento com déficit levou o governo a
uma decisão extremamente perigosa e desmoralizadora e isso produziu um efeito
devastador.
De
tudo o que o sr. diz, conclui-se que o ponto central da crise é que Dilma é uma
presidente fraca?
Delfim Netto: Ela tem uma visão do Brasil
que não coincide com o Brasil.
Por
que o sr. defendia o aumento da Cide, não a recriação da CPMF?
Delfim Netto: O aumento da Cide seria
infinitamente melhor. CPMF é um imposto cumulativo, regressivo, inflacionário,
tem efeito negativo sobre o crescimento e quem paga é o pobre mesmo. Ele está
sendo usado porque o programa do governo é uma fraude, um truque, uma decepção
– não tem corte nenhum, só substituição de uma despesa por outra e o que parece
corte é verba cortada do outro. Dizem que vão usar a verba do sistema S. Ora,
meu Deus do céu! R$ 1 do sistema S [SEBRAE,
SESI, SENAC etc.] e produz infinitamente mais do que R$ 1 na mão do
governo. Alguém duvida de que o governo é ineficiente?
A
presidente Dilma...
Delfim Netto: Acho que não, nem ela. Ela
sabe disso, só não tira proveito.
E
a Cide?
Delfim Netto: A CPMF é coisa do século
19, a Cide é do século 21, porque você corta consumo de combustível fóssil,
reduz emissão de CO2 e vai salvar um setor que você destruiu, o
sucroalcooleiro. Tem 80 empresas quebrando por conta dos erros da política
econômica. Na hora que você fizer isso, toda essa indústria renasce.
Quais
as chances de o pacote passar?
Delfim Netto: Eles vão ter de negociar
com a CUT e com o PT, que é o verdadeiro sindicato do funcionalismo público.
Então, é quase inconcebível e vai ter uma greve geral que vai reduzir ainda
mais a receita. É uma cobra que mordeu o rabo. O aumento de imposto é 55% do programa; o corte, se você acreditar que
há corte, é de 19%; e a substituição interna representa 26%. Ou seja, para
cada real que o governo finge que vai economizar com salários, ele quer receber
R$ 3 com as transferências e o aumento de imposto. No fundo, o esforço é nulo.
O
sr. diz que os grandes problemas começam em 2014, mas muitos analistas
respeitados dizem que começam antes. Qual a responsabilidade do governo Lula?
Delfim Netto: Até 2011, o vento de cauda
era de tal ordem, a entrada da China foi de tal ordem, que dava a sensação de que
você tinha entrado no paraíso e o Lula aproveitou bem para um crescimento mais
inclusivo, mais equânime. Depois, eu estou convencido de que foi a intervenção extravagante, extraordinária,
exagerada no sistema econômico que gerou tudo isso. Mexeu na eletricidade,
mexeu nos portos, foi criando um estado de confusão que matou o “espírito
animal” dos empresários, com uma queda dramática do nível de investimento e do
nível de crescimento.
A
diferença é que o Lula nunca fez questão de ser de esquerda, mas a Dilma, que
vem do velho PDT brizolista, nacionalista e estatizante, tem esse compromisso?
Delfim Netto: O Lula é um pragmático, uma
inteligência extraordinária. Já a Dilma tem, sim, o velho problema do
engenheiro, o engenheiro Brizola,
que por onde passou destruiu tudo,
destruiu de tal jeito o Rio Grande do Sul que ninguém mais salva. Ela tem
uma ideia intervencionista, realmente não acredita no sistema de preços. Veja
essa escolha dela no pré-sal, é inteiramente arbitrária. Foi dar para a
Petrobrás uma tarefa muito acima do que ela é capaz. Nada mais infantil no
Brasil do que a sua esquerda, facilmente manobrável.
Quem
é a esquerda no Brasil hoje?
Delfim Netto: No Brasil de hoje, esquerda
e direita são sinais de trânsito. O fato é que a Dilma é uma intervencionista e
foi a crença de que ela não mudou, e de que a escolha do Joaquim foi
simplesmente um expediente para superar uma dificuldade, que não deu
credibilidade ao plano de ajuste.
Além
de perder credibilidade junto aos empresários, a presidente também está
perdendo apoios na base social do PT.
Delfim Netto: Como ela não explicou que
errou e por que iria mudar a política econômica, o 1/3 que votou nela se sentiu
traído de verdade e o 1/3 que votou contra ela disse: “Viu? Eu não disse?”.
Sobraram para ela só 8%.
Em
quem o sr. votou?
Delfim Netto: Na Dilma. Mas acho que o
Aécio era perfeitamente “servível”. Teria as mesmas dificuldades que a Dilma
enfrenta, porque consertar esse negócio
que está aí não é uma coisa simples para ninguém, mas ele entraria com uma
outra concepção de mundo, faria um ajuste com muito menos custo e a recuperação
do crescimento teria sido muito mais rápida.
Se
a presidente está com 8% de popularidade, pior até que o Collor, o impeachment seria uma solução?
Delfim Netto: Se houver algum desvio de
conduta materialmente provado, o impeachment é um recurso natural dentro da
Constituição. Então, não há nenhuma quebra de institucionalidade, não tem
nenhum problema. Agora, o Brasil não é nenhuma pastelaria e não é nenhuma
passeata cívica de verde e amarelo nem panelaço que decide se vai ter ou não impeachment. Não há recall de
presidentes. A sociedade votou, que
pague os seus erros para aprender e volte em 2018. Está em segunda época,
volte em 2018 para fazer nova prova.
Então,
o sr. não votaria na Dilma novamente em 2018, se ela pudesse ser candidata?
Delfim Netto: Não, primeiro porque ela
não pode ser candidata. É preciso dizer que eu acho a Dilma absolutamente
honesta, com absoluta honestidade de propósito, e que ela é simplesmente uma
trapalhona.
Numa
eventualidade, o vice Temer seria adequado para a Presidência como foi o Itamar
Franco?
Delfim Netto: Acho que sim. Nós somos
muito amigos. O Temer tem qualidades, é uma pessoa extraordinária, um gentleman e um sujeito ponderado, tem
tudo, mas eu refugo essa hipótese enquanto não houver provas, e vou te dizer:
ele também.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Economia –
Domingo, 20 de setembro de 2015 – Pg. B5 – Internet: clique aqui.
“Governo moribundo?”
Eliane
Cantanhêde
Oposição, ex-aliados e ainda aliados não falam mais em “se”,
mas em “quando” será votado o processo de impeachment
de Dilma
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DILMA ROUSSEFF Presidente da República está, praticamente, isolada e incapaz de conduzir o País para fora da crise econômica e política que ela própria provocou! |
É
muito difícil e até doído escrever isso, mas as coisas estão se precipitando
rapidamente em Brasília. O isolamento da
presidente Dilma Rousseff está cada vez mais preocupante e que já se discute em
corredores e gabinetes não é mais “se”, mas “quando” será votado o processo de impeachment. Não pela capacidade da
oposição de pressionar, mas pela incrível capacidade de Dilma de errar.
Um velho aliado do governo, desses que não admitia nem
falar da hipótese, achava que tudo não passava de jogo político da “ilha da
fantasia” e exigia “uma prova material” contra Dilma, me ligou ontem às 8 da manhã (juro que já estava acordada...) para dizer que tinha mudado de ideia: “Acabou, não tem mais jeito”.
Ainda
há uma forte resistência à troca da presidente, mas essa resistência está
deixando de ser política para enveredar por um campo quase psicológico. Há
grande temor diante do que possa acontecer depois, dos efeitos na economia e da
ameaça belicosa dos movimentos aliados ao PT que ainda tentam proteger o
governo do próprio governo. Mas isso está diminuindo na mesma proporção que Dilma se mostra incapaz de reagir na
política, na economia, na gestão.
“Este ano, agosto vai ser em novembro”,
disse ontem o tucano Aécio Neves, avaliando que o cronograma passa pela convenção do PMDB que vai decidir se o partido vai ou não
abandonar um governo em que ocupa seis ministérios e a Vice-Presidência da
República. Parece que vai. Dilma fez apelos ao vice Temer e aos presidentes
da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, para que o PMDB
indicasse nomes para a reforma ministerial. Ouviu um triplo “não”. O partido
está endurecendo só para barganhar mais espaço ou está preparando o desembarque
em novembro?
Outros partidos, como o PTB,
já pularam fora. Mais uns tantos pularão. Ontem, as bancadas do PSB na Câmara e no
Senado já discutiram abertamente o rompimento e a explicação do presidente do
partido, Carlos Siqueira, foi
arrasadora: “Entendemos que é um governo
moribundo, temos que encontrar um meio de o País não sangrar por muito tempo”,
disse ele, após reunião da qual participaram os governadores Rodrigo Rollemberg
(DF), Paulo Câmara (PE) e Ricardo Coutinho (PB).
De
fato, chegamos a setembro assim: a
presidente não preside, o Executivo não executa e o Legislativo não legisla, enquanto
o dólar vai a R$ 4, um recorde histórico, e a Lava Jato pega o PT de jeito.
Já foram condenados pelo juiz Sérgio Moro o ex-deputado André Vargas, o
primeiro político da Lava Jato, o ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto e
o “operador” petista na Petrobrás, Renato Duque. E Henrique Pizzolatto, do
mensalão, vem aí!
Dilma se debate muito, mas
sem sair do lugar: enviou ontem ao Congresso o projeto de recriação da CPMF sem algumas
medidas importantes já anunciadas; tentou adiar a votação de 32 vetos
presidenciais porque temia perder; não consegue definir os cortes de
ministérios; vê o PMDB e os aliados escorrerem pelos dedos; não ouve os apelos
de Lula para chacoalhar tudo e começar de novo.
Aliás,
Dilma Rousseff não conseguia nem mesmo definir se e quando vai para Nova York,
para cumprir um ritual que compete historicamente aos presidentes brasileiros,
o de abrir a Assembleia Geral da ONU todos os anos, em setembro. Quarta?
Quinta? Sexta? Ou nunca? Uma viagem dessas, numa hora dessas, tende a criar um
constrangimento internacional. Dilma não pode falar do passado, não tem o que
dizer sobre o presente e não sabe o que apontar para o futuro. A expectativa é
de uma plateia atônita, com um pensamento fixo: até quando ela vai manter o
mandato?
No
exercício da Presidência, Michel Temer
tem a obrigação de ficar mudo, cego e surdo, sem fazer qualquer movimento ou
dizer qualquer palavra que possa comprometê-lo. Só esperando novembro chegar.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Quarta-feira, 23 de setembro de 2015 – Pg. A8 – Internet: clique aqui.
Juro do rotativo do cartão de crédito
sobe em agosto e ultrapassa
400% ao ano pela 1ª vez
Segundo dados do Banco Central, a taxa cobrada da
pessoa física ficou em 403,5% ao ano em agosto; este é o maior juro desde o
início da série histórica em março de 2011
A
taxa de juros cobrada no rotativo do cartão de crédito de pessoas físicas
voltou a subir em agosto e pela primeira vez ultrapassou 400% ao ano, segundo
dados do Banco Central [BC]. Em agosto,
a taxa ficou em 403,5% ao ano, contra o juro de 394,7% ao ano em julho. É a
maior taxa desde o início da série histórica do BC em março de 2011.
Só neste ano, o juro do
rotativo avançou 71,9 pontos porcentuais. Em 12 meses, a alta é de 92,2 pontos porcentuais.
O juro do rotativo é cobrado se o consumidor deixa de pagar o total da fatura
do cartão de crédito. No caso da pessoa jurídica, o juro é menor, mas não deixa
de ser caro. Em agosto, ficou em 250,2% ao ano contra 246% no mês anterior.
O cheque especial, outro instrumento caro
de crédito, registrou um aumento da taxa
de 246,9% ao ano em julho para 253,2% ao ano no mês passado. Ao longo de
2015, as taxas cobradas por esta linha subiram 52,2 pontos porcentuais. Em
dezembro de 2014 o juro médio dessa modalidade estava em 201,0% ao ano.
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