POR QUE SOMOS ASSIM? [Imperdível]
Brasil no divã: a corrupção do cidadão comum
Denise Gimenez
Ramos*
Se considerarmos o País um doente cujo sintoma é a
corrupção, qual seria então a origem de sua doença? A psicologia explica
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Dra. Denise Gimenez Ramos Professora de Psicologia da PUC-SP |
Notícias
sobre corrupção há anos tem atormentado a vida dos brasileiros. Como parte da
nossa rotina, é um fenômeno complexo, uma sombra endêmica e enraizada na
cultura a qual, para sua compreensão,
exige um estudo multidisciplinar.
Dentro
desse enfoque, poderíamos perguntar quais
os fatores psicológicos que poderiam propiciar esse tipo de comportamento, não
dos grandes corruptos, mas referente a pequenas corrupções tão frequentes em
nosso cotidiano, perpetradas não por bandidos, mas pelo cidadão comum. Se
considerarmos o Brasil um doente cujo sintoma é a corrupção, qual seria então a
origem de sua doença?
Inúmeras
pesquisas revelam a existência de um sentimento
profundo de menosprezo e abjeção do brasileiro em relação a sua identidade
nacional, como expressão de um complexo de inferioridade cultural. As
consequências deletérias desse complexo são refletidas em várias áreas, dentre
elas:
- na perpetuação de desigualdades sociais,
- no caráter excludente da estratificação social e
- nas questões éticas.
Na
busca do conflito original, que estaria no cerne desse complexo de
inferioridade, destacamos os
principais fatores presentes na formação do país:
- mito de origem,
- projeções estrangeiras,
- escravidão e colonização.
Como
em toda neurose, o trauma do nascimento repete-se
compulsivamente em vários tipos de patologia. Assim observamos que o mito
fundante edênico [referente ao Éden, o paraíso] do Brasil colabora para o
estabelecimento de um sentimento de inferioridade desde os primórdios, uma vez
que o único valor atribuído às novas
terras e seus habitantes paira em torno da sensualidade, da atratividade carnal
e das riquezas da natureza. Inúmeras projeções de estrangeiros, desde o
século 16 até o presente, confirmam essa imagem. E o pior é que o brasileiro, na busca de uma identificação positiva,
assimila a projeção, a incorpora como sua e a reproduz. Repete-se, assim,
um mecanismo neurótico na tentativa de se achar uma solução para esse dilema.
A
esse fator, acresce a estruturação dos arquétipos parentais, onde temos a imagem de um pai europeu, que tem
como únicos objetivos a exploração e o enriquecimento rápidos. Fascinado
pela nudez das indígenas, o europeu reprimido abusa da ingenuidade da
população. A mãe índia dá a luz a
uma criança bastarda que é
abandonada pelo pai e rejeitada pela tribo materna. A imagem do mestiço como filho de um pai abusivo tem seus reflexos mais
evidentes no preconceito e na contundente estratificação social vigente.
Portanto, a incapacidade de se basear nas figuras
parentais, para se criar um ideal de desenvolvimento, gera vergonha e mantém
engessadas as articulações de um nacionalismo saudável. Tanto a vergonha
quanto o desamparo indicam aqui outro sintoma do mesmo complexo de
inferioridade. Alguns fogem da vergonha
incorporando e reproduzindo o pai-bandido, assumindo uma persona bravata do
tipo “comigo ninguém pode”, nem mesmo a lei. Reproduzindo inconscientemente
o comportamento exploratório paterno, usa-se a terra de modo predatório. O objetivo é “tirar vantagem”, criando uma
falsa superioridade.
Os
discursos moralistas são engolidos pelo complexo paterno negativo e, portanto,
são ineficientes. A busca de uma saída para esse impasse também é dificultada
pela ausência do mito do herói, como
precursor do desenvolvimento egóico [desenvolvimento do “eu”] e do processo de
individuação. Numa cultura patriarcal, ele contesta o pai e impõe novos valores
conquistados por próprio esforço. Mas, como contestar um pai abandonador que
não reconhece o filho? Diferentemente do
colonizador inglês, respeitado pelos norte-americanos, o pai português é motivo
de escárnio. Ao ridicularizá-lo, o
brasileiro sente-se superior e ao mesmo tempo nega qualquer possibilidade de
tomá-lo como modelo. O afeto ausente no pai é procurado em figuras de
líderes políticos autoritários e corruptos, mas que através de seu “protecionismo afetuoso” inibem a
queixa de um possível denunciante.
Como reclamar daquele que
abusa do poder, mas estende a mão e protege? A história é plena de exemplos de como
regimes ditatoriais preencheram a lacuna do pai ausente. A opção pela
democracia e pela igualdade engendrada pela razão é difícil de ser mantida num
povo carente de identidade parental. A
criança abandonada tem irmãos abandonados e recorre à malandragem para enredar
conluios que lesam o pai, projetado na lei. O complexo de inferioridade
aqui ativa também a polaridade negativa do puer
aeternus (arquétipo da criança eterna)
e cria a imagem de um país eternamente jovem, cheio de riquezas e belezas
tropicais. A ilusão do puer [criança] é de que amanhã será magicamente melhor do que hoje.
A
falsa impossibilidade de realização no presente é compensada por fantasias de
grandiosidade e comportamentos espúrios. O
filho bastardo, ilegítimo, reproduz a ilegitimidade pela oscilação entre baixa
autoestima e fantasias maníacas, expressas na grandiosidade de gigantescas
festas carnavalescas, por exemplo. Assim, cria-se um círculo vicioso, onde
a impossibilidade de realização das fantasias megalomaníacas faz crescer o
sentimento de inferioridade, favorecendo a baixa autoestima.
Sem
a consciência dos fatores inconscientes que geram essa patologia, os esforços
públicos e privados terão um efeito somente repressor, e, portanto, serão
temporários. Uma verdadeira mudança só
ocorrerá com o enfrentamento doloroso do conflito inicial e com o suportar
consciente da tensão entre as polaridades inferioridade/superioridade.
Dessa
forma, a assimilação consciente do conflito original, não é somente um
sofrimento, mas é o caminho da cura, à medida que pode permitir a liberação de grande
energia e a constelação de novas forças na consciência coletiva brasileira. Com a autoestima resgatada, não haverá
lugar para a corrupção como patologia da cultura. Ela ficará restrita
somente ao conflito consciente entre o bem e o mal. Mas, isso já é outra
história.
*
Denise Gimenez Ramos é professora titular do programa de
estudos pós graduados em psicologia clínica da PUC-SP e analista junguiana.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Suplemento ALIÁS – Domingo, 27 de setembro de 2015 – Pg. E4 – Internet: clique aqui.
OLHANDO DE OUTRO
ÂNGULO...
A chuva é para todos
Entrevista
com Michael Sandel
Filósofo,
professor da Universidade de Harvard (EUA) e palestrante
André de
Oliveira
Privilégios sociais e econômicos minam a democracia,
que precisa ser
cultivada por meio de uma educação cidadã, defende
professor
O
filósofo americano Michael Sandel
acredita que os camarotes, as áreas VIPs e os setores exclusivos, privilegiados,
simbolizam perfeitamente um mundo em que
os desníveis de oportunidades só fazem crescer, em que o abismo entre ricos e
pobres é cada vez mais visível, em que a ruína do poder argumentativo dos
cidadãos faz com que a democracia deixe de ser vista como um projeto comum de
partes diferentes. Com essas ideias em mente, Sandel afirma: é preciso trabalhar com um “tipo de
educação cidadã que ajude a cultivar cidadãos democratas”.
Por
mais de duas décadas, foi exatamente o que ele fez ao lecionar, na Universidade
Harvard, nos Estados Unidos, o curso Justiça, que nos últimos anos passou
a ser transmitido também pela internet e já
atraiu mais de 15 mil alunos no mundo. Nas aulas, ele aborda situações e
temas do cotidiano para discutir
conceitos de ética, moral e justiça à luz do pensamento de filósofos como Aristóteles, John Locke, Immanuel Kant,
John Stuart Mill e John Rawls.
Agora,
Sandel traz suas aulas para o Brasil, em uma parceria entre Harvard, Insper, o Estado e edX (site de cursos online das maiores universidades do mundo). Com
duração de 12 semanas, o curso foi especificamente pensando para questões e
realidades vividas no cotidiano brasileiro e será transmitido em plataforma online e interativa, com legendas em português (veja como inscrever-se ao final deste artigo).
De passagem por São Paulo, o filósofo concedeu esta entrevista ao Aliás.
O
senhor acredita que acabar com a desigualdade é uma questão de justiça?
Michael Sandel: Sim. Hoje, um dos
principais desafios para se ter uma sociedade mais justa é aprender a lidar com
o abismo entre ricos e pobres. Isso porque, nos últimos anos, a desigualdade só
aumentou na maior parte dos países. No Brasil, vocês tiveram sucesso em reduzir
a pobreza, mas é importante distinguir desigualdade de pobreza. Ou almejamos
uma sociedade menos desigual ou teremos uma comunidade injusta. E existem
inúmeras políticas que podem reduzir a desigualdade. Uma delas, que tem sido
usada por aqui, são as ações afirmativas
do governo na educação. Existem duas razões para ajudar pessoas que vêm de
extratos desfavorecidos da sociedade.
- A primeira é dar oportunidades iguais para quem está em patamares de desvantagem socioeconômica.
- A segunda é criar um ambiente educacional melhor para todos. Ter estudantes de diferentes origens étnicas, econômicas e sociais em uma mesma sala de aula cria um ambiente de aprendizagem que ajuda a todos.
Isso
porque uma parte do que deveríamos estar
ensinando em nossas universidades é um tipo de educação cidadã que ajude a
cultivar cidadãos democratas capazes de entender, ouvir e discutir com os
outros. As ações afirmativas são um belo exemplo de como se reduz a
desigualdade, mas, é bom lembrar, sozinhas, elas não são capazes de mudar a
sociedade.
Em
meio a crise econômica e política do Brasil, o que vemos nas ruas muitas vezes
é muita discussão e pouco debate de ideias.
Michael Sandel: Esse é um momento crítico
para o Brasil, mas eu acredito que toda
crise também apresenta uma oportunidade de aprofundar a democracia. Eu acho
que o ativismo, expresso em protestos, é saudável. Este é um caminho para
expressar sua voz. Outro é no dia da eleição. Mas acima desses dois existe o exercício cotidiano da democracia.
Ela necessita que os cidadãos debatam através da mídia, de organizações civis,
mas que a conversa não vire uma gritaria, uma discussão sem respeito mútuo. Na democracia, devemos nos engajar com o
outro, mesmo quando não concordamos com ele, porque só assim é possível tentar
encontrar o princípio fundamental de onde está o desentendimento, tenha ele
nascido a partir de uma questão sobre transporte urbano, saúde ou taxação de
renda. Só assim é possível deixar as coisas claras e evoluir.
Encontrar
esse ponto de equilíbrio pode ser difícil quando algumas questões, como a
corrupção, muitas vezes são vistas como uma primazia de determinados grupos. O
que fazer?
Michael Sandel: No caso da corrupção, por exemplo, é necessário enxergá-la não apenas como uma
questão legal, mas como um tema de ética e cultura democrática. Nós costumamos
dizer que a corrupção é sempre o problema de outra pessoa, outro partido
político ou de pessoas em cargos altos da Petrobrás, mas ela está na nossa vida cotidiana. Nesse momento, eu respeito e
admiro a independência do sistema Judiciário brasileiro, que está fazendo algo
sério sobre esse tema. Aliás, a liberdade com que o Judiciário tem trabalhado
também revela a maturidade da democracia brasileira. Agora é importante
valorizar isso, mas sem deixar de trabalhar com a noção de que a corrupção é algo a ser resolvido em longo
termo, algo que depende de uma nova educação cidadã, só encontrável na
convivência diária com o outro, com o diferente. Este é o caminho para a
corrupção se transformar, gradualmente, em integridade.
O
Supremo Tribunal Federal proibiu doações de empresas a partidos e políticos. O
senhor acredita que essa é uma boa forma de se combater a corrupção política?
Michael Sandel: Eu acredito que esse
dinheiro distorce a democracia, porque dá muito poder aos mais ricos e faz com
que os cidadãos comuns acreditem que é impossível ter suas vozes minimamente
representadas na vida democrática. Muitas democracias vivem esse dilema quando
o assunto são as doações em campanhas eleitorais. Os Estados Unidos da América
(EUA) vivem uma versão extrema disso, em que empresas e pessoas muito ricas
influenciam campanhas diretamente. É importante que haja uma limitação da
quantidade de dinheiro que pode ser doado. Nós tínhamos algumas restrições
modestas, mas, infelizmente, nossa Suprema Corte, ao contrário do que está
acontecendo no Brasil, as derrubou. Idealmente, deveria existir alguma
combinação entre um fundo de dinheiro público para campanhas e pequenas
contribuições de pessoas físicas. Isso acabaria com essa distorção que, muitas
vezes, também é fonte de corrupção.
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Antes da "camarotização". No Maracanã pré-arena, se chovia todo mundo ficava molhado; era uma experiência de mistura cívica |
O
senhor fala bastante de resolver a desigualdade por meio de uma “nova educação
cidadã”, na qual a convivência com o diferente é fundamental. É possível
imaginar uma comunidade saudável em que não há convivência em espaços públicos,
em que tudo se dá no âmbito privado, do carro para o trabalho, do trabalho para
o carro?
Michael Sandel: Essa é uma questão
fundamental, porque é impossível ter uma
democracia sadia sem espaços públicos, onde cidadãos, de todas as origens,
possam interagir. Parques, bibliotecas, museus. Tudo isso é necessário para
que haja uma cultura democrática forte. Se
as pessoas viverem seus cotidianos apenas em espaços privados, elas terão
poucas oportunidades de encontrar quem é diferente delas. Uma das
consequências mais terríveis da desigualdade, do abismo entre ricos e pobres, é
que as pessoas vivem separadas, distantes. Desse modo, corre-se o risco de que
as pessoas deixem de enxergar a democracia como um projeto comum, que visa ao
bem comum. Só convivendo com pessoas de
diferentes origens étnicas, sociais e econômicas é possível apender a cultivar
a democracia.
O
senhor disse que a desigualdade aumentou no mundo. Essa separação, essa falta
de convivência, também aumentou?
Michael Sandel: Sem dúvida. E quem perde
com isso é a democracia. Eu tenho um conceito que expressa bem essa separação. Eu chamo isso de “camarotização” da vida.
Quando jovem, antes de existirem setores VIP, eu era um fã de beisebol e ia em
todos os jogos torcer pelo time local. Nessa época, existiam alguns assentos
mais caros, mas não existia uma diferença grande entre preços. Por isso, ir a um estádio era uma experiência de
mistura cívica, era um exercício de cidadania, onde rico e pobre sentavam lado
a lado, onde, para ir ao banheiro, todo mundo usava a mesma fila. Sem
privilégios. Se chovia, todo mundo ficava molhado. Acredito que algo semelhante
à “camarotização” tenha acontecido nas novas arenas de futebol que substituíram
os antigos estádios brasileiros, como o Maracanã. No caso americano, isso
ocorreu durante os anos 1980 e 1990. O camarote é o símbolo máximo da mudança
pela qual nossa sociedade passou e está passando. E, talvez, por ser tão
simbólico, esse seja um dos principais desafios das nossas modernas
democracias: criar espaços em que as pessoas possam conviver sem privilégios.
SERVIÇO
O que: O jornal O Estado de S. Paulo, em parceria com Harvard, Insper e a plataforma de cursos online edX, oferece o curso Justiça
(legendado e adaptado para a realidade brasileira), apresentado pelo filósofo e
palestrante americano Michael Sandel.
Onde: Plataforma online
edx.org
Quando: 1º de outubro de
2015, com duração de 12 semanas
Preço: Gratuito (diploma
será cobrado para quem solicitar – US$ 150,00)
Inscrições: Inscreva-se
gratuitamente aqui –
clique sobre “Enroll now” (inscreva-se
agora) e preencha os espaços com as informações requeridas
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