Enfraquecer o PMDB é uma necessidade do país
Janio de
Freitas
“O PMDB faz com Dilma o que fez com Sarney, em
situações política e econômica também semelhantes... Dilma é vítima apenas
circunstancial, do PMDB como do PSDB, porque a verdadeira vítima é o país.”
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O trio que comanda o PMDB atualmente (da esquerda para a direita): Dep. Fed. Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Vice-Presidente da República Michel Temer (PMDB-SP) e Sen. Renan Calheiros (PMDB-AL). |
Ainda
que paradoxal, na existência já de mais de 30 partidos, a criação de outro – a
ser decidida hoje – é capaz de levar a um necessário tumulto no panorama
partidário. Se autorizado pela Justiça Eleitoral e cumpridos os acordos para
adesão de deputados, o Partido Liberal
resultará, mais do que no fortalecimento de Dilma Rousseff, no enfraquecimento
do PMDB. E enfraquecer o PMDB é uma
necessidade do país.
Desde a volta ao regime
civil, o PMDB tem usado a sua preponderância parlamentar como fator desestabilizante. Esta é uma afirmação
contrária à ideia estabelecida, mas coincidente com os fatos rememoráveis.
Saído da ditadura com a aura de representante da luta e da reconstrução
democráticas, o PMDB se posicionou como força orientadora e incontrastável. Cabe-lhe a responsabilidade por grande
parte dos fracassos administrativos e da intranquilidade política no governo
Sarney, sem que isso fosse reconhecido na época nem depois.
Ulysses Guimarães, instigado pelas correntes
da divergência interna no PMDB, e sempre desejoso de ser o líder de todas, foi
o portador impositivo de reivindicações e ambições peemedebistas incessantes. A
estas juntaram-se as manobras de Sarney
para criar áreas de domínio seu no governo, de tudo decorrendo um governo
inviável. Com penosas consequências para o país como um todo e sobretudo para
as classes carentes. O PMDB não
governou, porque não era governo, mas também não fez oposição consequente,
porque se supunha e agia como o verdadeiro governo. O poder tinha que ser
do PMDB.
Foi de Collor. Graças ao
PMDB. A imposição do plano anti-inflacionário tresloucado só foi possível
porque o PMDB garantiu-o no Congresso. Todos os desatinos que se seguiram foram apoiados
ou consentidos pelo PMDB. Mesmo quando a exacerbação dos problemas de Collor,
em torno dele e no governo suscitou animosidade nacional, o PMDB tergiversou o
quanto pôde, acompanhado pelo PFL (hoje DEM). O país não teria passado pela maior parte do acontecido no período
Collor, não fosse a garantia inicial dada pelo PMDB, com seu longo
comprometimento.
Fernando Henrique hoje posa, uma
especialidade, de vestal udenista. Em
seu governo entregou-se ao PMDB, mas não só: também se entregou ao PFL. O
método pesado de Sérgio Motta, com
as mãos nos bolsos, e, depois, a eficiência sutil de Luís Eduardo Magalhães não evitaram a sucessiva entrega ao PMDB de
ministérios, de pedaços do governo, de muitas verbas altas e outras vantagens
pacificadoras. Dos muitos bilhões do
Proer às privatizações, ou aos bloqueios à CPI da compra de votos para
reeleição e a outras CPIs, o governo Fernando Henrique pagou altos preços pelo
apoio ou pelo consentimento do PMDB. Sem os quais Fernando Henrique e o
governo não se aguentariam com tais escândalos, mesmo sob a proteção midiática.
O primeiro mandato de Lula
foi um entregar dos pontos para todos os lados. Menos para aqueles com os
quais o próprio Lula e o PT tinham o seu compromisso existencial. A CPI do
mensalão e o subsequente processo apenas alargaram as portas para o alheio. No centro desse enclave invasor, o PMDB – antecipando
o que seria a forte "base aliada" do segundo mandato.
O
governo Lula não foi erodido por crises, passado o mensalão. Mas, em grande
parte, porque o toma-lá/dá-cá com o PMDB
foi executado com muito mais habilidade, talvez como contribuição da
experiência de Lula nas batalhas sindicais. Mas a herança de Lula para
Dilma começou e terminou na entrega da faixa presidencial. O PMDB faz com Dilma
o que fez com Sarney, em situações política e econômica também semelhantes. Não é preciso mencionar o que o PMDB das
pautas-bombas [aprovando projetos de
lei que aumentam, irresponsavelmente, os gastos do governo] tem feito. É suficiente chamar atenção
para o verdadeiro sentido da ação do PMDB: Dilma é vítima apenas
circunstancial, do PMDB como do PSDB, porque a verdadeira vítima é o país.
Se
o Partido Liberal nasce e recebe as adesões já combinadas, tornará possível uma
aliança partidária que se equipare em número ao PMDB. Sem efeito direto sobre a
crise – que a fraternidade PMDB-PSDB, com auxílio dos demais seguidores de
Eduardo Cunha, é bastante para manter. Mas a
nova aliança quebraria a perniciosa predominância parlamentar com que o PMDB se
faz operador de crises, tanto políticas como de governabilidade. Contra o país.
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