O amor e a rigidez da lei
Kenneth Serbin*
Um papa misericordioso e uma avó lésbica feminista
redirecionam o foco sobre assuntos de família
Quando,
na semana passada, o Papa Francisco
anunciou que autorizaria os padres a perdoarem o pecado do aborto, um filme americano lançado recentemente
também despertou grande atenção por causa do tratamento não dogmático, até com
humor, da questão do aborto. Normalmente apenas os bispos podem perdoar uma
mulher por fazer um aborto, mas durante o Ano
Santo da Misericórdia que Francisco declarou para o período de 8 de
dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016, os padres também poderão absolver os
indivíduos que se arrependeram de suas ações.
Numa
obra de arte aparentemente incompatível com os ensinamentos católicos, o filme Grandma
(Vovó) retrata o relacionamento entre uma lésbica feminista em torno dos 70
anos e sua neta de 18. Elle, a avó, é interpretada pela
atriz veterana Lily Tomlin, lésbica
e feminista na vida real que em 2013 se casou com sua companheira de quatro
décadas. Interpretada por Julia Garner,
Sage,
a neta, decide fazer um aborto porque não quer viver com o namorado e pretende
seguir a faculdade. Elle decide ajudar a arrecadar dinheiro para pagar o
procedimento.
Do
mesmo modo que o Papa quis revigorar a fé católica com uma maior ênfase na
tolerância e a valorização das complexidades da vida, Grandma apresenta o
aborto em suas várias nuanças, com uma dose de humor inteligente oferecida pela
rabugenta Tomlin (já circulam
rumores de que ela será indicada ao Oscar de melhor atriz).
Em
contraste com o Brasil, onde o aborto é ilegal e com frequência perigoso, Grandma
tem como premissa o direito da mulher americana de decidir abortar (garantido
pela Suprema Corte em 1973) e ser protegida. Contudo, o filme não apresenta o aborto como uma opção fácil sem nenhuma
consequência. “Você pensou bem a respeito?” Elle pergunta a Sage. “Porque é algo que você provavelmente
pensará, pelo menos uma vez, diariamente o resto da sua vida”. Na verdade,
mais tarde é revelado no filme que a própria Elle fez um aborto quando jovem.
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Lily Tomlin - atriz norte-americana - interpreta o papel da avó Elle no filme Grandma, recentemente lançado |
Podemos
imaginar os padres inspirados tanto pelo
Papa como pelo filme dialogando com mulheres (e outros envolvidos no processo)
sobre o aborto, em vez de rigorosamente aplicar a lei.
A
dura realidade é que milhões e milhões de mulheres católicas e de outras
religiões cristãs no Brasil e nos Estados Unidos realizaram abortos nas últimas
décadas. Os católicos brasileiros e
americanos há muito tempo agem de modo muito diferente do que a hierarquia
prega com respeito não só ao aborto, mas também ao controle da natalidade.
Francisco tem deixado
bastante claro que não quer ser exclusivo, mas inclusivo. O Ano Santo da
Misericórdia repercute fortemente sua hoje famosa frase quando retornou à
Itália de sua viagem ao Brasil - “Quem sou eu para julgar?” - respondendo a uma
pergunta sobre sua opinião sobre os padres gays.
Aparentemente,
esta posição tolerante ficaria sob ataque nos Estados Unidos com a recusa de
uma tabeliã de Kentucky, Kim Davis,
a acatar decisão da Suprema Corte que assegurou o direito do casamento entre
pessoas do mesmo sexo. Em três de setembro, um juiz federal puniu a tabeliã por
desrespeito à Corte, ordenando sua prisão. Uma vigorosa mensagem de apoio à
lei. Kim Davis baseou sua recusa nas
suas crenças como cristã apostólica, protestante.
A
mídia, como de hábito, concentrou-se na disputa entre Davis e os tribunais. O
que é realmente surpreendente, contudo, é que Kim Davis até agora é a única oficial de cartório a desobedecer a lei.
Os Estados Unidos têm mais de três mil condados. E apesar de muitas pessoas
desaprovarem o casamento entre pessoas do mesmo sexo, elas vêm respeitando a
lei e se comportando na sua vida quotidiana normalmente.
O Ano Santo, o filme Grandma
e o caso Davis realçam o fato de que
religião, política, sexualidade e reprodução humana estão mais entrelaçados do
que nunca.
Neste meio, Francisco emerge talvez como o primeiro papa a lidar com problemas
de gênero. Sua ênfase no perdão, no caso
do aborto, também é uma outra posição de abertura quando a Igreja Católica
prepara o Sínodo dos Bispos sobre a Família, em outubro.
Embora
as primeiras notícias sugiram que o Sínodo poderá resultar apenas em uma
reafirmação das tradições da Igreja, Francisco
provavelmente usará o encontro, que presidirá, para liberalizar as práticas da
Igreja no tocante à família, como autorizar os padres a darem a eucaristia para
católicos divorciados e acolhendo os indivíduos divorciados em geral.
Grupos
liberais dentro da Igreja vêm insistindo numa abertura ainda maior em questões
como o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a eliminação da exclusão oficial
de gays da vida da Igreja. Independente do caminho que a Igreja seguirá, enquanto Francisco ocupar o trono papal
provavelmente continuaremos a presenciar o predomínio do amor sobre a rigidez
da lei.
Traduzido do inglês por Terezinha Martino.
*
KENNETH SERBIN é professor titular de História na Universidade
de San Diego (Califórnia, Estados Unidos) e autor de Padres, celibato
e conflito social: uma história cultural e social da Igreja Católica no Brasil
(editora Companhia das Letras).
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