ESTÁ CANSANDO...
Fazendo o País de bobo
Editorial
Compreende-se
que o governo de Dilma Rousseff esteja desnorteado e tenha de apelar a medidas
desesperadas para afastar a presidente do cadafalso, mas supera todos os limites da desfaçatez a defesa entregue ao Tribunal de
Contas da União (TCU) pelo advogado-geral da União, Luis Inácio Adams, no caso
das chamadas “pedaladas” fiscais.
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LUIS INÁCIO ADAMS Advogado-Geral da União - defendendo o indefensável, isto é, as contas do Governo Dilma junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) |
Sem
ter mais como justificar a série de artifícios contábeis que permitiram ao
governo apresentar superávit fiscal no momento em que as contas já indicavam
acentuado desequilíbrio desde pelo menos 2013, Adams argumentou que houve a necessidade de “mudança de meta” em razão
da evolução “imprevisível” da realidade econômica no final de 2014.
“Quem
projetava um impacto de redução [de preços] de commodities, aumento do dólar,
de mudança do quadro econômico do jeito que aconteceu no final de 2014?”,
perguntou Adams. Segundo ele, esse
quadro pegou de surpresa “todos os analistas”.
Mais
uma vez, o governo aposta que o distinto público seja bobo, pois já em meados do ano passado estava claro
para todos que as contas nacionais estavam sendo maquiadas pela trupe do então
ministro da Fazenda, Guido Mantega, para esconder o fato de que o País
adentrara o pantanoso terreno da irresponsabilidade fiscal.
Tanto
é assim que, ainda em agosto de 2014,
a própria Caixa Econômica Federal
pediu à Advocacia-Geral da União (AGU) que mediasse um conflito com o Tesouro em razão dos frequentes atrasos nos repasses
para o pagamento de programas sociais. A Caixa estava usando recursos próprios para bancar gastos que teriam de
ser inteiramente assumidos pelo Tesouro, o que pode ser visto como um financiamento
– manobra que fere a Lei de Responsabilidade Fiscal e que, se condenada pelo
TCU, pode fundamentar um processo de impeachment
contra Dilma. Essa “pedalada”, que
melhorava a aparência das contas públicas enquanto sangrava os bancos estatais,
se repetiu na relação do governo com outras instituições.
As “pedaladas” já eram
praticadas desde pelo menos o final de 2013. Na ocasião, técnicos do Tesouro se
rebelaram contra o então secretário, Arno Augustin, em razão da maquiagem
contábil, que feria a credibilidade do órgão. Além disso, conforme revelou o
jornal O Globo, a Caixa entrou na Justiça no final de 2013 para reaver R$ 274,4 milhões
em taxas de administração que não foram pagas pelos Ministérios das Cidades e
da Agricultura. “A alta demanda por recursos públicos por vezes acarreta
certo descontrole de contas, situação passageira e que rapidamente é
organizada”, defendeu-se a AGU, singelamente, no processo.
Portanto,
ainda que fosse verdadeira a afirmação de Adams de que ninguém sabia que a
economia nacional sofreria forte deterioração no final de 2014, o fato é que o
governo começou a “pedalar” suas contas muito tempo antes, de forma
generalizada, e não como medida emergencial e pontual.
Mas
as mais de mil páginas da nova defesa do governo apresentada ao TCU não servem
para esclarecer, e sim para confundir. Dilma
e seus colaboradores querem realmente fazer o País acreditar que foi uma
surpresa a degradação da economia em 2014. Ora, como não lembrar que a desvalorização das commodities, citada por Adams,
já era notável desde 2013? Como não lembrar que, na campanha de Dilma à
reeleição, seus marqueteiros criaram um personagem, o “Pessimildo”, para caracterizar a oposição, que expunha com clareza
os riscos que o Brasil corria com a temerária administração petista da
economia?
Finalmente, como não lembrar que, em julho de 2014,
uma analista de um banco advertiu os clientes de que, se Dilma fosse reeleita,
a situação econômica sofreria forte deterioração? Na ocasião, recorde-se, o
líder petista Luiz Inácio Lula da Silva exigiu a demissão da analista: “Essa
moça não entende p… nenhuma de Brasil e do governo de Dilma. Pode mandar embora
e dar o bônus dela para mim”, esbravejou. O
banco demitiu a analista, mas na semana passada foi condenado a lhe pagar uma polpuda
indenização por danos morais. Ela entendia tudo de Brasil e sua análise
estava certa.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Notas e Informações – Domingo, 20 de setembro de 2015 – Pg. A3 – Internet: clique aqui.
Denúncia vazia
Dora Kramer
Muito peculiar o “golpe” denunciado por Dilma:
ocorre em praça pública e à luz da Constituição
A presidente Dilma Rousseff
está ficando cansativa. Por repetitiva. Insistente no discurso vazio em que aponta intenções
golpistas na discussão sobre a interrupção de seu mandato via impeachment ou renúncia.
Duas hipóteses absolutamente
legais. Se
Dilma as repudia é outra história. Ambas estão claramente descritas nos artigos 79, 80 e 81 da Constituição,
que tratam da vacância do cargo e dos procedimentos para substituição. Não quer
renunciar? Um direito que lhe assiste. Não está premida por justificativa
jurídica? Melhor para ela.
Isso não lhe dá autorização
para interditar um debate e muito menos para imputar crimes aos debatedores. Que, aliás, debatem à luz
do dia.
Seria
um caso peculiar de conspiração em praça pública e nos conformes da lei. A presidente da República banaliza o
conceito de golpismo e põe em xeque o próprio dever conferido pelo posto de
atuar contra tal natureza de infração e tais tipos de infratores a cláusulas
pétreas da Carta.
Ela
tem instrumentos na legislação para isso. O que não tem são motivos providos de
substância.
Aponta ilegalidade onde
vigora a plena legalidade. No que tange ao raciocínio lógico – terreno estranho à presidente – coloca-se, assim, na defesa de uma tese à
margem da lei.
Não há “uso” da crise. Há
uma crise, cuja saída depende de quem está no comando. Não apenas pelo fato de
ser a responsável pela situação crítica, mas principalmente porque foi eleita
para resolver os problemas, levar o País a superar as dificuldades.
Portanto, conviria à presidente perceber as
circunstâncias. Estas apontam para a necessidade premente de uma solução
efetiva, consistente. Se ela se mostrar
capaz de conduzir o Brasil na direção da saída da crise, terá readquirido
legitimidade para completar o mandato para o qual foi eleita. Se não, perderá
as condições políticas para governar.
Não
será adotando o modelo caça golpista que vai reconquistar a confiança não diria
nem da maioria absoluta, mas ao menos daquela maioria da população que a
considerou apta para exercer um segundo mandato e hoje se mostra arrependida,
conforme demonstram as pesquisas.
O
discurso do golpe poderia até servir como palavra de ordem ao PT. Caso o PT
ainda existisse como força política competitiva. Não existe mais. Dilma está
desguarnecida do ponto de vista partidário. Bem como não dispõe de guarnições
robustas no governo nas áreas cruciais da política e economia.
A presidente da República
está só, refém de disputas internas e externas pelo espólio do partido ou pela
herança do poder.
A cantilena do golpismo não
leva a lugar algum. Apenas põe a presidente na situação do combatente que se desloca para
a defesa com armas de ataque. Nada combina com nada. Todas as variantes
contrariam as regras básicas da lógica.
As
premissas não se coadunam com a conclusão e, nessa barafunda de ideias, a chefe
da Nação acaba permitindo que seja pega no flagrante delito da má intenção,
quando argumenta que nunca usou o poder para bloquear investigações.
Tal
menção, feita ao molde de orgulho, considera a hipótese de o governante usar de
seu poder para solapar as atribuições dos demais poderes. Quando Dilma diz “não fiz” ao mesmo tempo considera que “poderia ter
feito”, mas “não quis”.
No
desespero final, o mesmo argumento utilizado por Fernando Collor no apelo à
clemência da Câmara quando do julgamento do pedido de abertura do processo de impeachment.
Collor
não interferiu porque não podia. Dilma pode não tê-lo feito pelos motivos
certos, mas justifica o gesto pelas razões erradas.
Hélio Bicudo sugere “governo interino”
até nova eleição
Pedro
Venceslau
Para jurista, que assinou pedido de impeachment
protocolado na Câmara,
crise política não se resolve só com saída de Dilma
Para
o jurista Hélio Bicudo, de 93 anos,
um dos signatários do principal pedido de impeachment
contra a presidente Dilma Rousseff protocolado na Câmara dos Deputados, a crise
política não se resolverá apenas com a saída dela do Palácio do Planalto. “O melhor seria convocar novas eleições
gerais. Mudar toda a Câmara e o Senado seria o remédio mais democrático”,
disse ele ao Estado.
Sua
ideia sobre a antecipação das eleições prevê
um governo interino do vice-presidente Michel Temer que duraria 90 dias. “É
possível antecipar por meio de um decreto partindo do Executivo. Vamos convocar
e ver que bicho dá.”
Cortejado
pela oposição desde que decidiu assinar a petição, Bicudo passou a ser
criticado pelos petistas nas redes sociais, que questionam o fato de ele ser
classificado como “fundador do PT”. Para “corroborar” a tese de que o jurista
estaria sendo “manipulado”, defensores da presidente divulgaram um texto
escrito por um dos sete filhos de Bicudo, José
Eduardo Pereira Bicudo, que afirmou
que o pai “está sendo usado pelos articuladores do golpe”.
“Criei meus filhos
democraticamente. Nunca exigi fidelidade aos meus pontos de vista. Atuo segundo
minha consciência”, afirma. O jurista foi candidato a vice de Luiz Inácio Lula da Silva
em sua primeira disputa eleitoral, para o governo de São Paulo, em 1982. Depois
disso, foi deputado federal pelo PT e ocupou vários cargos na sigla, tendo sido
vice-prefeito de Marta Suplicy na Prefeitura de São Paulo. Seu rompimento com o partido ocorreu em 2005, após a divulgação do caso
do mensalão.
“Essas
pessoas que me criticam hoje nas redes sociais talvez nem me conheçam. Faz dez
anos que deixei o PT.” Apesar de dizer que não se incomoda com críticas de
ex-aliados, Bicudo responde no mesmo tom. “O
PT tornou-se ponto de partida para enriquecimento ilícito.”
Ele
também se irrita quando alguém classifica sua iniciativa como “golpe”. “Impeachment não é golpe coisa nenhuma. É
um processo legal, jurídico. Dizer que é golpismo é escapismo, é fazer
discussão política de baixo nível”, afirmou o jurista.
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Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior assinam pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff em cartório de São Paulo |
Parceria
A
parceria com Miguel Reale Júnior,
que foi ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, no pedido de impeachment reuniu pela primeira vez os
dois juristas no mesmo campo político. Em
um ato simbólico, os dois foram juntos na semana passada a um cartório de São
Paulo para registrar o documento que foi protocolado na Câmara. Na hora da
assinatura, ativistas entoaram palavras de ordem contra o PT e foram aplaudidos
por Bicudo.
Ao
falar sobre a aproximação com Reale, ele recordou de uma passagem curiosa.
“Quando fiz a Faculdade de Direito na São Francisco nos anos 1940, nós
estávamos unidos contra a ditadura do Getúlio Vargas. Havia na época uma reação
muito forte contra o professor Miguel
Reale, pai do Reale Júnior, porque ele era do Partido Integralista. Havia
repulsa por ele ser professor. No dia em que foi dar sua primeira aula de
Filosofia do Direito, em 1946, foi uma gritaria na Faculdade de Direito.”
Segundo Bicudo, naquele tempo, o Largo de São Francisco era uma “praça de
guerra”.
Jurista
atuou contra grupo de extermínio
Formado pela Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo na turma de 1947, Hélio Bicudo, de 93
anos, é uma referência na militância pelos direitos humanos.
Como
procurador de Justiça no Estado de São
Paulo, ficou conhecido internacionalmente por combater o Esquadrão da Morte, durante a ditadura militar, e
conduzir investigações sobre violações dos direitos humanos. Em 1982, foi
candidato a vice de Luiz Inácio Lula da Silva na disputa pelo governo de São
Paulo pelo PT.
Em
1986, disputou o Senado pelo partido, ficando em terceiro lugar, atrás dos
eleitos Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso, então no PMDB. Foi secretário de Assuntos Jurídicos de São
Paulo na gestão de Luiza Erundina de 1989 a 1990. Naquele ano, elegeu-se deputado federal.
Em
2000, foi eleito vice-prefeito de São
Paulo na chapa de Marta Suplicy, que governou a capital até 2004. Em 2016,
Bicudo diz que pretende fazer campanha para que ela volte ao cargo, agora
filiada ao PMDB.
Filiado
ao PT desde a sua fundação, saiu do partido em 2005, depois do escândalo do
mensalão. Em 2010, declarou apoio a Marina Silva (PV) no 1.º turno e a José
Serra (PSDB) no 2.º turno.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Domingo, 20 de setembro de 2015 – Pg. A5 – Internet: clique aqui.
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