Um Papa que "agita consciências" e "chacoalha nossas complacências"
A autoridade de
Francisco
Editorial
Numa
época em que as atuações políticas são sempre precedidas por muitos cálculos
frios e impiedosos, um homem tem mostrado ao mundo outro modo de proceder. Com sua simplicidade e sinceridade, o
papa Francisco vem conseguindo abrir portas que há muito estavam fechadas.
Sua viagem a Cuba e aos Estados Unidos – meses após o restabelecimento das
relações diplomáticas entre os dois países, no qual o papa já havia
desempenhado papel fundamental – evidencia mais uma vez a força de sua
autoridade moral.
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PAPA FRANCISCO Discursa na Assembleia-Geral das Nações Unidas Nova York, 25 de setembro de 2015 |
Certamente,
suas palavras não agradam a todos.
Ao contrário, não é fácil de encontrar quem concorde com o papa em todos os
pontos que ele vem abordando em seus discursos. Mas talvez aí – na sua incontida sinceridade – esteja a força de suas
palavras. Seus discursos não buscam uma artificial sintonia com os valores
vigentes no momento. Francisco
simplesmente fala aquilo que pensa – e pensa naquilo em que acredita.
Ao
receber o papa na Casa Branca, o presidente
Barack Obama reconheceu explicitamente a autoridade moral do pontífice e
suas virtudes de humildade, simplicidade, gentileza e generosidade. “Em suas gentis, mas firmes recordações de
nossas obrigações com Deus e uns com os outros, o senhor está nos chacoalhando
em nossa complacência”, afirmou Obama. De fato, o papa agita consciências por onde passa.
Em
Cuba, Francisco deu um claro recado ao regime castrista. “Serviço nunca é ideológico. Não servimos a ideias, servimos a pessoas”,
afirmou durante uma celebração em Havana. Também expôs que tipo de mundo sonha
deixar para as próximas gerações. “Discute-se
muito hoje sobre o futuro, sobre o tipo de mundo que queremos deixar aos nossos
filhos, que sociedade queremos para eles. Creio que uma das respostas possíveis
(...) é: deixemos um mundo com famílias.”
No Congresso dos EUA, onde pela primeira vez na
história um papa fez um discurso, Francisco
criticou a pena de morte e as leis permissivas ao aborto. Comentou a
responsabilidade de “proteger e defender a vida humana em todas as fases do seu
desenvolvimento. Esta convicção levou-me, desde o início do meu ministério, a
sustentar em vários níveis a abolição global da pena de morte”. Francisco também criticou a venda de armas,
outro tema que divide a opinião pública americana.
Na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em
Nova York, o pontífice falou da
necessidade de os organismos financeiros internacionais zelarem pelo
desenvolvimento sustentável, bem como da importância de uma contínua melhoria
no funcionamento da própria ONU, para “conceder a todos os países, sem
exceção, uma participação e uma incidência nas decisões”.
O
papa conclamou os líderes mundiais a adotarem medidas efetivas contra a
degradação ambiental. Em Washington, ao
referir-se às mudanças climáticas, já havia dito: “Parece evidente que é um problema que não pode ser deixado para a
próxima geração”. Mostrava assim, mais uma vez, que não faz concessões,
dizendo o que sua audiência quer ouvir. Assim, não teve medo de desagradar a
grande parte dos seus ouvintes americanos que nem sequer reconhecem a
existência de qualquer problema nesse campo.
O
papa parece consciente da sua tarefa. “É
meu dever construir pontes e ajudar, por todos os modos possíveis, cada homem e
cada mulher a fazerem o mesmo.” No entanto, pela abertura com que fala de
temas polêmicos, o papa deixa claro que
não vê a construção dessas pontes como fruto da indiferença ou do relativismo.
A sua promoção da paz vai por outros caminhos.
Aos
deputados e senadores americanos, o papa propôs uma nova visão da política,
mais voltada para o serviço que para o poder. “Um bom líder político sempre opta por iniciar processos mais do que
por ocupar espaços.” É o que parece fazer o próprio pontífice, com
resultados muito concretos e muito bons.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Notas e Informações – Sábado, 26 de setembro de 2015 – Pg. A3 – Internet: clique aqui.
Pensamentos sobre o Papa Francisco e seu
"Quarteto Fantástico" americano
John L. Allen Jr.
Crux
24-09-2015
Segundo
uma estimativa, houve cerca de 1,8
bilhão de cidadãos norte-americanos desde a fundação da República, em 1776.
Escolher apenas quatro grandes de todos os tempos, assim, é bastante audacioso,
mas isso não impediu que o Papa Francisco o fizesse nesta quinta-feira no seu
discurso profundamente aguardado ao Congresso dos Estados Unidos da América (EUA).
No
discurso, Francisco elevou quatro
norte-americanos a uma menção especial. Eles incluíram dois não católicos,
Abraham Lincoln e Martin Luther King Jr., e dois católicos, Dorothy Day e
Thomas Merton. Em cada caso, o pontífice notou que 2015 marca um aniversário –
150 anos desde o assassinato de Lincoln, por exemplo, e 100 anos desde o
nascimento de Merton.
Vamos
chamá-los de o "Quarteto
Fantástico" do papa.
Nesse
espírito, aqui estão quatro considerações rápidas sobre quem são esses quatro
norte-americanos que Francisco escolheu. Vamos nos concentrar principalmente em
Day e em Merton, já que Lincoln e M. L. K. são seleções razoavelmente naturais
sobre os quais qualquer não americano provavelmente está consciente.
1.
POBREZA E GUERRA
A
ênfase em Day e em Merton confirma que, na galáxia das questões de interesse
desse papa – mudanças climáticas, tráfico de seres humanos, imigração e crise
dos refugiados na Europa, família e assim por diante –, a pobreza e a guerra têm um lugar de destaque.
Tanto
Day quanto Merton foram figuras complexas que abraçaram uma grande variedade de
preocupações, mas, no imaginário católico norte-americano, cada um está
associado, sobretudo, a uma única causa determinante.
Para
Day, era a dignidade dos pobres, expressada de forma mais famosa na fundação
do Catholic Worker Movement
[Movimento Operário Católico], junto com Peter
Maurin. Para Merton, era a paz, com as suas cartas e diários que
narravam a sua profunda preocupação com a violência, incluindo a Guerra do
Vietnã e a proliferação de armas nucleares.
No
seu discurso ao Congresso, Francisco identificou Day com a paixão pelos pobres
e Merton, com o diálogo e a paz.
Ao
destacar esses norte-americanos, Francisco estava chamando os Estados Unidos e,
especialmente, os seus líderes eleitos, a redescobrirem os seus legados e a
agir como eles. Além de qualquer outra coisa, isso implica um compromisso mais profundo com a defesa dos
pobres e a promoção da paz.
2.
INSTINTOS POLÍTICOS
As
escolhas não mostram apenas que Francisco fez o seu dever de casa sobre os
Estados Unidos, mas também refletem os seus experientes instintos políticos em
ação.
No
período que antecedeu a sua visita aos Estados Unidos, houve muita conversa
sobre se Francisco é ou não, em certo sentido, "antiamericano", ou se
a sua visão é incompatível com os valores norte-americanos.
O
colunista George Will concluiu
recentemente uma coluna detonando Francisco pelas suas posições econômicas e
ambientais com a frase: "Os norte-americanos não podem, simultaneamente,
honrá-lo e celebrar as premissas da sua nação".
É
fácil entender de onde essas percepções vêm – a crítica ocasionalmente afiada
do pontífice aos excessos do capitalismo, as suas afirmações ácidas contra o
"consumismo extremo e seletivo", o fato de ele nunca ter posto os pés
no país antes e a sua óbvia preferência pelas periferias do mundo sobre os seus
supostos centros.
Nessa
manhã, Francisco respondeu indiretamente à pergunta sobre se ele é
antiamericano, dizendo, em essência: "Bem, se eu o sou, então estes quatro
heróis norte-americanos também o são".
Na
verdade, a crítica de Francisco ao
capitalismo e ao consumismo podem parecer terrivelmente leves em comparação com
a maior parte dos textos de Day sobre o assunto. Merton tinha a mesma
paixão profunda pelas periferias como Francisco, expressada tanto na sua vida
quanto na sua visão de mundo.
Poderíamos
fazer pontos semelhantes sobre Lincoln
e King, já que ambos compartilhavam a mesma vontade de desafiar práticas e atitudes
norte-americanas entrincheiradas em nome das suas convicções morais.
A
decisão de destacar essas figuras provavelmente deve ser tomada em conjunto com
a repetida ênfase de Francisco de que ele vem como um companheiro
"americano", no sentido do único continente chamado
"América", e também da sua afirmação de que ele pode se conectar com a experiência desse país porque ele também é
filho de imigrantes.
Em
geral, existem duas formas para criticar qualquer coisa, quer se trate de um
país, de uma Igreja ou de qualquer outra coisa. Uma forma de fazer isso é como
alguém de fora, expressando hostilidade ou desdém; a outra é como alguém de
dentro, incitando uma cultura ou uma instituição que se admira e se respeita a
perceber a melhor versão de si mesma.
Francisco,
nesta manhã, parecia estar tentando dizer que, na medida em que ele tem
críticas para oferecer aos Estados Unidos, elas são do segundo tipo.
3.
OUTRA SANTA?
O
discurso desta manhã, provavelmente, foi uma boa notícia para a causa de
canonização de Dorothy Day.
O
falecido cardeal John O'Connor, de
Nova York, abriu a causa no ano 2000 e recebeu o apoio unânime dos bispos dos
EUA em 2012. O cardeal Timothy Dolan
manifestou seu total apoio, e, recentemente, a Arquidiocese de Nova York
contratou um "coordenador diocesano" para preparar os materiais que
devem ser submetidos a Roma.
Atualmente,
o movimento Catholic Worker está
ajudando esse coordenador na tentativa de identificar testemunhas que
conheceram Day, que morreu em 1980.
Embora
não haja nenhuma indicação de que Francisco planeja apressar a causa,
certamente não é exagero dizer que ele usou o primeiro discurso de todos os
tempos de um papa ao Congresso dos EUA para lhe dar um incentivo.
Talvez
Thomas Merton poderia ser o próximo?
4.
APRENDENDO SOBRE OS EUA
Essas
quatro escolhas mostram um papa que está tentando aprender com os Estados
Unidos, e não simplesmente pregar a ele.
Ao
longo desta viagem, Francisco tentou exibir uma familiaridade com os padrões da
cultura e do pensamento norte-americano. Até mesmo as referências geográficas
do seu discurso aos bispos dos EUA na quarta-feira – "Das suas grandes metrópoles da costa oriental às planícies do
meio-oeste, do sul profundo ao infindável oeste" – ressoaram com a
forma como os próprios norte-americanos pensam sobre o formato da sua terra.
Da
mesma forma, a sua citação de Edgar Lee
Mestres no mesmo discurso foi uma forma de ir ao encontro. É óbvio, alguém
provavelmente sinalizou essa citação para ele, mas o fato de que ele a manteve
no discurso diz algo.
Francisco
poderia ter dirigido o olhar do Congresso para grandes figuras da sua própria
experiência cultural, como Simón Bolívar ou quaisquer outros papas. Ao
contrário, ele escolheu
norte-americanos, uma maneira de dizer que ele se dá conta de que não só tem
algo a ensinar aos Estados Unidos, mas também que ele e o resto do mundo também
podem aprender com o país.
Se
os membros do Congresso apreciaram tudo isso enquanto o papa estava falando
ainda é uma incógnita. Baseados na experiência, no entanto, deve-se tornar cada
vez mais claro que esse "Quarteto Fantástico" realmente diz muito
sobre esse pontífice fraternalmente "norte-americano".
Traduzido do inglês por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original deste artigo, clicando
aqui.
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