Discursos proféticos de um Papa em visita aos Estados Unidos
Papa: São Junípero soube viver aquilo que é
a Igreja em saída
Rádio Vaticano
O
Papa Francisco presidiu, nesta quarta-feira (23/09) à missa de canonização do Beato Pe. Junípero Serra, apóstolo da
Califórnia, no Santuário Nacional da
Imaculada Conceição, em Washington.
“Alegrai-vos sempre no Senhor!
De novo o digo: alegrai-vos!” Um convite que toca fortemente a nossa vida.
Alegrai-vos – diz-nos São Paulo, com a força quase duma ordem. Um convite no
qual ecoa o desejo de que todos experimentemos uma vida plena, uma vida que
tenha sentido, uma vida jubilosa. É como se Paulo tivesse a capacidade de ouvir
cada um dos nossos corações e desse voz àquilo que sentimos, àquilo que
vivemos. Há algo dentro de nós que nos
convida à alegria, não nos contentando com paliativos que procuram simplesmente
tranquilizar-nos”, disse Francisco.
“Por
outro lado, vivemos as tensões da vida diária”, frisou o pontífice. “Muitas são
as situações que parecem pôr em dúvida este convite. A dinâmica, a que muitas
vezes estamos sujeitos, parece levar-nos a uma resignação triste que pouco a
pouco se vai transformando num hábito com uma consequência letal: anestesiar o
coração.”
“Não queremos que a
resignação seja o motor da nossa vida; ou será que queremos? Não queremos que a
rotina se apodere da nossa vida; ou sim? Por isso podemos questionar-nos: como
proceder para que não se anestesie o nosso coração? Como aprofundar a alegria
do Evangelho nas várias situações da nossa vida?”, perguntou o Papa.
Anunciar
“O espírito do mundo nos convida ao
conformismo, à comodidade. Perante este espírito mundano é necessário voltar a
sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com
os outros e o mundo, a responsabilidade de anunciar a mensagem de Jesus.
Porque a fonte da nossa alegria situa-se naquele desejo inexaurível de oferecer
misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua
força difusiva. Ide ter com todos, a fim de anunciar ungindo e ungir
anunciando.”
“A
isto, nos convida hoje o Senhor dizendo: A
alegria, o cristão experimenta-a na missão: ide ter com os povos de todas as
nações. A alegria, o cristão encontra-a num convite: ide e anunciai. A alegria, o cristão renova-a e atualiza-a com uma
vocação: ide e ungi. Envia-vos a todas
as nações, a todos os povos. E, neste todos de há dois mil anos, estávamos
incluídos também nós. Jesus não dá uma lista seletiva com aqueles a quem se
deve ir e a quem não ir, com aqueles que são dignos, ou não, de receber a sua
mensagem, a sua presença. Pelo contrário, abraçou sempre a vida como esta Lhe
aparecia: com cara de tristeza, fome, doença, pecado; com cara de ferimentos,
sede, cansaço; com cara de dúvidas e de fazer piedade.”
“Longe de esperar uma vida
embelezada, decorada, maquiada, abraçou-a como a encontrava; mesmo que fosse
uma vida que muitas vezes se apresentava arruinada, suja, destroçada. A todos –
disse Jesus –, ide e anunciai; a toda esta vida, tal como é e não como
gostaríamos que fosse: ide e abraçai no meu nome.”
Cura
“Ide pelas encruzilhadas dos caminhos,
ide... anunciar, sem medo, sem preconceitos, sem superioridade nem purismos;
a todos aqueles que perderam a alegria de viver, ide anunciar o abraço
misericordioso do Pai. Ide ter com
aqueles que vivem com o peso da tristeza, do fracasso, da sensação duma vida
destroçada, e anunciai a loucura dum Pai que procura ungi-los com o óleo da
esperança, da salvação. Ide anunciar que os erros, as ilusões enganadoras,
as incompreensões não têm a última palavra na vida duma pessoa. Ide com o óleo
que cura as feridas e restabelece o coração.”
“A
missão nunca nasce dum projeto perfeitamente elaborado ou dum manual bem
estruturado e programado; a missão nasce
sempre duma vida que se sentiu procurada e curada, encontrada e perdoada. A
missão nasce de se fazer uma, duas e mais vezes a experiência da unção
misericordiosa de Deus”, disse ainda Francisco.
“A
Igreja, o povo santo de Deus, sabe percorrer as estradas poeirentas da
história, frequentemente permeadas por conflitos, injustiças, violência, para
ir encontrar os seus filhos e irmãos. O
santo povo fiel de Deus não teme o erro; teme o fechamento, a cristalização em
elite, o agarrar-se às próprias seguranças. Sabe que o fechamento, nas suas
múltiplas formas, é a causa de tantas resignações. Por isso saiamos, vamos
oferecer a todos a vida de Jesus Cristo. O povo de Deus sabe envolver-se,
porque é discípulo d'Aquele que Se ajoelhou diante dos seus, para lhes lavar os
pés.”
Tradição
“Hoje encontramo-nos aqui, porque houve
muitos que tiveram a coragem de responder a este chamado; muitos que
acreditaram que na doação a vida se fortalece, e se enfraquece no comodismo e
no isolamento. Somos filhos da
ousadia missionária de muitos que preferiram não se fechar nas estruturas que
nos dão uma falsa proteção, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos,
enquanto lá fora há uma multidão faminta. Somos devedores duma Tradição, duma
cadeia de testemunhas que tornaram possível que a Boa Nova do Evangelho
continue a ser, de geração em geração, Nova e Boa.”
“Hoje,
recordamos uma daquelas testemunhas que souberam testemunhar nestas terras a
alegria do Evangelho: Padre Junípero Serra. Soube viver aquilo que é «a Igreja
em saída», esta Igreja que sabe sair e ir pelas estradas, para partilhar a
ternura reconciliadora de Deus. Soube
deixar a sua terra, os seus costumes, teve a coragem de abrir sendas, soube ir
ao encontro de muitos aprendendo a respeitar os seus costumes e as suas
características.”
Esperança
Francisco
disse que o Apóstolo da Califórnia, “aprendeu a gerar e acompanhar a vida de
Deus nos rostos daqueles que encontrava, tornando-os seus irmãos. Junípero procurou defender a dignidade da
comunidade nativa, protegendo-a de todos aqueles que abusaram dela; abusos
que hoje continuam a encher-nos de pesar, especialmente pela dor que provocam
na vida de tantas pessoas”.
“Escolheu
um lema que inspirou os seus passos e plasmou a sua vida: «Sempre avante».
Soube-o dizer, mas sobretudo viver. Esta foi a maneira que Junípero encontrou
para viver a alegria do Evangelho, para que não se anestesiasse o seu coração.
Foi sempre avante, porque o Senhor espera; sempre avante, porque o irmão
espera; sempre avante por tudo aquilo que ainda tinha para viver; foi sempre
avante. Como ele então, possamos também nós hoje dizer: sempre avante”,
concluiu Francisco.
Fonte:
NEWS.VA – Official Vatican Network –
24/09/2015 – Internet: clique aqui.
Papa fala no Congresso de liberdade,
refugiados e igualdade de direitos
Luciane Marins
Francisco disse que uma grande nação deve defender a
liberdade, promover plenos direitos para todos, lutar pela causa dos oprimidos
e manter o diálogo
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PAPA FRANCISCO É aplaudido quando chega ao plenário do Congresso dos Estados Unidos para fazer seu pronunciamento. Washington D.C., 24 de setembro de 2015 |
O
Papa Francisco foi protagonista nesta quinta-feira, 24 de setembro, de um
evento histórico: pela primeira vez um
Pontífice discursou no Congresso dos Estados Unidos.
Francisco,
que chegou ao Capitólio em um carro simples, como tem sido costume em suas
viagens, apresentou-se como filho do continente americano e iniciou seu
discurso falando sobre a missão do
Congresso de salvaguardar e garantir a dignidade dos americanos na busca
incansável e exigente do bem comum. “Que é o fim de toda a política”, destacou.
Em vários momentos do
discurso, o Santo Padre foi aplaudido de pé pelos congressistas. As palavras de Francisco
não foram dirigidas somente ao Congresso, mas a todo povo americano. Ele centrou seu discurso na figura de
quatro personalidades do país: Abraham
Lincoln, Martin Luther King, Dorothy Day e Thomas Merton, e ressaltou que eles foram capazes de construir um
futuro melhor com trabalho duro e sacrifício pessoal.
“Deram
forma a valores fundamentais, que permanecerão para sempre no espírito do povo
americano. Um povo com este espírito pode atravessar muitas crises, tensões e
conflitos, já que sempre conseguirá encontrar a força para ir avante e fazê-lo
com dignidade. Estes homens e mulheres dão-nos uma possibilidade de ver e interpretar
a realidade.”
Francisco
tocou ainda em temas polêmicos como a pena
de morte e o comércio de armas.
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Abraham Lincoln (1809-1865) 16° presidente dos Estados Unidos, posto que ocupou de 4 de março de 1861 até seu assassinato em 15 de abril de 1865 |
Abraham
Lincoln
Sobre
o presidente Abraham Lincoln,
Francisco destacou o sonho da liberdade.
Nesse aspecto, ele abordou a situação social e política do mundo atual, que
considera “inquietante”.
O Pontífice destacou que o
mundo tem se tornado cada vez mais um lugar de conflitos violentos, ódio e
atrocidades, cometidos até mesmo em nome de Deus e da religião. E chamou atenção para o fundamentalismo
não só religioso, mas de qualquer outro gênero.
A resposta sugerida pelo
Papa é de esperança, cura, paz e justiça. Para a resolução das crises econômicas e
geopolíticas de hoje ele pede coragem e inteligência.
“Os
desafios, que hoje enfrentamos, requerem uma renovação deste espírito de
colaboração, que produziu tantas coisas boas na história dos Estados Unidos. A
complexidade, a gravidade e a urgência destes desafios exigem que ponhamos a
render os nossos recursos e talentos e nos decidamos a apoiar-nos mutuamente,
respeitando as diferenças e convicções de consciência.”
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Martin Luther King (1929-1968) foi um pastor protestante e ativista político estadunidense. Tornou-se um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos |
Martin
Luther King
Sobre
o pastor Martin Luther King,
Francisco destacou o sonho de plenos
direitos civis e políticos para os afroamericanos. Aqui ele abordou o tema
dos imigrantes e refugiados.
O
Papa recordou os milhões de pessoas que
nos últimos séculos chegaram aos Estados Unidos perseguindo o sonho de
construir um futuro em liberdade.
“Nós, pessoas deste continente, não temos
medo dos estrangeiros, porque outrora muitos de nós éramos estrangeiros.
Digo-vos isto como filho de imigrantes, sabendo que também muitos de vós sois
descendentes de imigrantes. Tragicamente, os direitos daqueles que estavam
aqui, muito antes de nós, nem sempre foram respeitados.”
Francisco
exortou que não se deve repetir os erros do passado. O Papa chamou a atenção para a proporção da
crise dos refugiados, algo que não se via desde a II Guerra Mundial. Ele defendeu que esta proporção não deve
assustar e insistiu que cada refugiado
seja olhado como pessoa, apresentou ainda o que chamou de regra de ouro: “O que
quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles.” (Mt 7,12).
“Esta
norma aponta-nos uma direção clara. Tratemos
os outros com a mesma paixão e compaixão com que desejamos ser tratados.
Procuremos para os outros as mesmas possibilidades que buscamos para nós
mesmos. Ajudemos os outros a crescer,
como quereríamos ser ajudados nós mesmos. Em suma, se queremos segurança, demos segurança; se queremos vida, demos vida;
se queremos oportunidades, providenciemos oportunidades.”
Nesse
contexto, Francisco reforçou ainda um
apelo pela abolição da pena de morte.
Dorothy
Day
Sobre
a serva de Deus, Dorothy Day, o Papa destacou o sonho da justiça social e os direitos das pessoas. Aqui ele abordou
o tema da pobreza.
Para
uma economia moderna, inclusiva e sustentável, Francisco citou a criação e distribuição de riqueza, a utilização correta dos recursos naturais
e a aplicação apropriada da tecnologia
além da capacidade de orientar o espírito empresarial.
Francisco
recordou o tema central de sua encíclica Laudato
si’ que é o cuidado com a casa comum. “Na encíclica Laudato si’, exorto a um esforço
corajoso e responsável para «mudar de rumo» (ibid., 61) e evitar os efeitos
mais sérios da degradação ambiental causada pela atividade humana. Estou convencido de que podemos fazer a
diferença e não tenho dúvida alguma de que os Estados Unidos – e este Congresso
– têm um papel importante a desempenhar. Agora é o momento de empreender
ações corajosas e estratégias tendentes a implementar uma «cultura do cuidado»
(ibid., 231) e «uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a
dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza» (ibid., 139).”
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Thomas Merton (1915-1968) foi um escritor católico do século XX. Monge trapista da Abadia de Getsêmani, Kentucky, ele foi um poeta, activista social e estudioso de religiões comparadas. |
Thomas
Merton
Sobre
o monge cisterciense Thomas Merton o
Papa destacou a capacidade de diálogo e
abertura a Deus. “Ele continua a ser uma fonte de inspiração espiritual e
um guia para muitas pessoas”, destacou.
Aqui
o Papa recordou a aproximação dos Estados Unidos e Cuba. “Nesta perspectiva de
diálogo, gostaria de saudar os esforços que se fizeram nos últimos meses para
procurar superar as diferenças históricas ligadas a episódios dolorosos do
passado. É meu dever construir pontes e
ajudar, por todos os modos possíveis, cada homem e cada mulher a fazerem o
mesmo. Quando nações que estiveram em desavença retomam o caminho do
diálogo – um diálogo que poderá ter sido interrompido pelas mais válidas razões
–, abrem-se novas oportunidades para todos.”
Nesse
contexto Francisco fez uma forte exortação sobre o conflito armado. Para ele, estar ao serviço do diálogo e da paz
significa também estar comprometido a por fim ao conflito armado.
“Aqui
devemos interrogar-nos: Por que motivo
se vendem armas letais àqueles que têm em mente infligir sofrimentos
inexprimíveis a indivíduos e sociedade? Infelizmente a resposta, como todos sabemos, é apenas esta: por
dinheiro; dinheiro que está impregnado de sangue, e muitas vezes sangue
inocente. Perante este silêncio vergonhoso e culpável, é nosso dever
enfrentar o problema e deter o comércio de armas.”
Papa Francisco Dirige seu discurso aos congressistas norte-americanos que super-lotaram o plenário da casa. Washington D.C., quinta-feira, 24 de setembro de 2015 |
Conclusão
O
Papa manifestou seu desejo de que o tema
da família seja recorrente a toda sua visita. Ele demonstrou sua preocupação diante das ameaças pelas quais ela
passa, sejam internas ou externas.
“As
relações fundamentais foram postas em discussão, bem como o próprio fundamento
do matrimônio e da família. Posso apenas repropor a importância e, sobretudo, a
riqueza e a beleza da vida familiar.”
Para
concluir Francisco disse que uma nação
pode ser considerada grande, quando defende a liberdade, como fez Lincoln; quando promove uma cultura que permita às pessoas sonhar com plenos
direitos para todos os seus irmãos e irmãs, como procurou fazer Martin Luther King; quando luta pela justiça e pela causa dos oprimidos, como fez Dorothy Day com o seu trabalho
incansável, fruto duma fé que se torna
diálogo e semeia paz no estilo contemplativo de Thomas Merton.
Improviso
Após
a cerimônia, Francisco fez questão de saudar a multidão que o aguardava fora do
Congresso.
Leia, abaixo, a íntegra do
discurso de papa Francisco ao Congresso dos Estados Unidos:
DISCURSO
Viagem do Papa Francisco aos Estados Unidos
Visita ao Congresso dos Estados Unidos – Washington D.C
24 de setembro de 2015
Senhor Vice-Presidente,
Senhor Presidente da Câmara dos
Representantes,
Distintos Membros do Congresso,
Queridos Amigos!
Sinto-me muito grato pelo convite para
falar a esta Assembleia Plenária do Congresso «na terra dos livres e casa dos
valorosos». Apraz-me pensar que o motivo para isso tenha sido o fato de também
eu ser um filho deste grande continente, do qual muito recebemos todos nós e
relativamente ao qual partilhamos uma responsabilidade comum.
Cada filho ou filha duma determinada nação
tem uma missão, uma responsabilidade pessoal e social. A vossa responsabilidade
própria de membros do Congresso é fazer com que este país, através da vossa atividade
legislativa, cresça como nação. Vós sois o rosto deste povo, os seus
representantes. Sois chamados a salvaguardar e garantir a dignidade dos vossos
concidadãos na busca incansável e exigente do bem comum, que é o fim de toda a
política.
Uma sociedade política dura no tempo
quando, como uma vocação, se esforça por satisfazer as carências comuns, estimulando
o crescimento de todos os seus membros, especialmente aqueles que estão em
situação de maior vulnerabilidade ou risco. A atividade legislativa baseia-se
sempre no cuidado das pessoas. Para isso fostes convidados, chamados e
convocados por aqueles que vos elegeram.
O vosso trabalho lembra-me, sob dois
aspectos, a figura de Moisés. Por um lado, o patriarca e legislador do povo de
Israel simboliza a necessidade que têm os povos de manter vivo o seu sentido de
unidade com os instrumentos duma legislação justa. Por outro lado, a figura de
Moisés leva-nos diretamente a Deus e, por consequência, à dignidade
transcendente do ser humano. Moisés oferece-nos uma boa síntese do vosso
trabalho: a vós, pede-se para proteger, com os instrumentos da lei, a imagem e
semelhança moldadas por Deus em cada rosto humano.
Nesta perspectiva, hoje gostaria de
dirigir-me não só a vós mas, através de vós, a todo o povo dos Estados Unidos.
Aqui, juntamente com os seus representantes, quereria aproveitar esta
oportunidade para dialogar com tantos milhares de homens e mulheres que se
esforçam diariamente por cumprir uma honesta jornada de trabalho, para trazer
para casa o pão de cada dia, para poupar qualquer dólar e – passo a passo –
construir uma vida melhor para as suas famílias. São homens e mulheres que não
se preocupam apenas com pagar os impostos, mas – na forma discreta que os
caracteriza – sustentam a vida da sociedade. Geram solidariedade com as suas atividades
e criam organizações que ajudam quem tem mais necessidade.
Quereria também entrar em diálogo com as
numerosas pessoas idosas que são um depósito de sabedoria forjada pela
experiência e que procuram de muitos modos, especialmente através do
voluntariado, partilhar as suas histórias e experiências. Sei que muitas delas
estão aposentadas, mas ainda ativas e continuam a empenhar-se na construção
deste país. Desejo também dialogar com todos os jovens que lutam por realizar
as suas grandes e nobres aspirações, que não se deixam extraviar por propostas
superficiais e que enfrentam situações difíceis, tantas vezes resultantes da
imaturidade de muitos adultos. Quereria dialogar com todos vós, e desejo
fazê-lo através da memória histórica do vosso povo.
A minha visita tem lugar num momento em que
homens e mulheres de boa vontade estão a celebrar o aniversário de alguns
americanos famosos. Apesar da complexidade da história e da realidade da
fraqueza humana, estes homens e mulheres foram capazes, com todas as suas
diferenças e limitações, de construir um futuro melhor com trabalho duro e
sacrifício pessoal – alguns à custa da própria vida. Deram forma a valores
fundamentais, que permanecerão para sempre no espírito do povo americano. Um
povo com este espírito pode atravessar muitas crises, tensões e conflitos, já
que sempre conseguirá encontrar a força para ir avante e fazê-lo com dignidade.
Estes homens e mulheres dão-nos uma possibilidade de ver e interpretar a
realidade. Ao honrar a sua memória, somos estimulados, mesmo no meio de
conflitos, na vida concreta de cada dia, a haurir das nossas mais profundas
reservas culturais.
Quereria mencionar quatro destes
americanos: Abraham Lincoln, Martin Luther King, Dorothy Day e Thomas Merton.
Este ano completam-se cento e cinquenta
anos do assassinato do Presidente Abraham Lincoln, o guardião da liberdade, que
trabalhou incansavelmente para que «esta nação, com a proteção de Deus, pudesse
ter um renascimento de liberdade». Construir um futuro de liberdade requer amor
pelo bem comum e colaboração num espírito de subsidiariedade e solidariedade.
Todos estamos plenamente cientes e também
profundamente preocupados com a situação social e política inquietante do mundo
atual. O nosso mundo torna-se cada vez mais um lugar de conflitos violentos,
ódios e atrocidade brutais, cometidos até mesmo em nome de Deus e da religião.
Sabemos que nenhuma religião está imune de formas de engano individual ou de
extremismo ideológico. Isto significa que devemos prestar especial atenção a
qualquer forma de fundamentalismo, tanto religioso como de qualquer outro
género. É necessário um delicado equilíbrio para se combater a violência
perpetrada em nome duma religião, duma ideologia ou dum sistema econômico,
enquanto, ao mesmo tempo, se salvaguarda a liberdade religiosa, a liberdade
intelectual e as liberdades individuais. Mas há outra tentação de que devemos
acautelar-nos: o reducionismo simplista que só vê bem ou mal, ou, se quiserdes,
justos e pecadores. O mundo contemporâneo, com as suas feridas abertas que
tocam muitos dos nossos irmãos e irmãs, exige que enfrentemos toda a forma de
polarização que o possa dividir entre estes dois campos. Sabemos que, na ânsia
de nos libertar do inimigo externo, podemos ser tentados a alimentar o inimigo
interno. Imitar o ódio e a violência dos tiranos e dos assassinos é o modo
melhor para ocupar o seu lugar. Isto é algo que vós, como povo, rejeitais.
Pelo contrário, a nossa resposta deve ser
uma resposta de esperança e cura, de paz e justiça. É-nos pedido para fazermos
apelo à coragem e à inteligência, a fim de se resolverem as muitas crises econômicas
e geopolíticas de hoje. Até mesmo num mundo desenvolvido aparecem demasiado
evidentes os efeitos de estruturas e ações injustas. Os nossos esforços devem
concentrar-se em restaurar a paz, remediar os erros, manter os compromissos, e
assim promover o bem-estar dos indivíduos e dos povos. Devemos avançar juntos,
como um só, num renovado espírito de fraternidade e solidariedade, colaborando
generosamente para o bem comum.
Os desafios, que hoje enfrentamos, requerem
uma renovação deste espírito de colaboração, que produziu tantas coisas boas na
história dos Estados Unidos. A complexidade, a gravidade e a urgência destes
desafios exigem que ponhamos a render os nossos recursos e talentos e nos
decidamos a apoiar-nos mutuamente, respeitando as diferenças e convicções de
consciência.
Nesta terra, as várias denominações
religiosas deram uma grande ajuda na construção e fortalecimento da sociedade.
É importante que hoje, como no passado, a voz da fé continue a ser ouvida,
porque é uma voz de fraternidade e de amor que procura fazer surgir o melhor em
cada pessoa e em cada sociedade. Esta cooperação é um poderoso recurso na luta
por eliminar as novas formas globais de escravidão, nascidas de graves
injustiças que só podem ser superadas com novas políticas e novas formas de
consenso social.
Penso aqui na história política dos Estados
Unidos, onde a democracia está profundamente radicada no espírito do povo
americano. Qualquer atividade política deve servir e promover o bem da pessoa
humana e estar baseada no respeito pela dignidade de cada um. «Consideramos
evidentes, por si mesmas, estas verdades: que todos os homens são criados
iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que,
entre estes, estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade» (Declaração de
Independência, 4 de Julho de 1776). Se a política deve estar verdadeiramente ao
serviço da pessoa humana, segue-se que não pode estar submetida à economia e às
finanças. É que a política é expressão da nossa insuprível necessidade de
vivermos juntos em unidade, para podermos construir unidos o bem comum maior:
uma comunidade que sacrifique os interesses particulares para poder partilhar,
na justiça e na paz, os seus benefícios, os seus interesses, a sua vida social.
Não subestimo as dificuldades que isto implica, mas encorajo-vos neste esforço.
Penso também na marcha que Martin Luther
King guiou de Selma a Montgomery, há cinquenta anos, como parte da campanha
para conseguir o seu «sonho» de plenos direitos civis e políticos para os
afro-americanos. Aquele sonho continua a inspirar-nos. Alegro-me por a América
continuar a ser, para muitos, uma terra de «sonhos»: sonhos que levam à ação, à
participação, ao compromisso; sonhos que despertam o que há de mais profundo e
verdadeiro na vida das pessoas. Nos últimos séculos, milhões de pessoas
chegaram a esta terra perseguindo o sonho de construírem um futuro em
liberdade. Nós, pessoas deste continente, não temos medo dos estrangeiros,
porque outrora muitos de nós éramos estrangeiros. Digo-vos isto como filho de
imigrantes, sabendo que também muitos de vós sois descendentes de imigrantes.
Tragicamente, os direitos daqueles que estavam aqui, muito antes de nós, nem
sempre foram respeitados. Por aqueles povos e as suas nações, desejo, a partir
do coração da democracia americana, reafirmar a minha mais alta estima e consideração.
Aqueles primeiros contatos foram muitas vezes tumultuosos e violentos, mas é
difícil julgar o passado com os critérios do presente. Todavia, quando o
estrangeiro no nosso meio nos interpela, não devemos repetir os pecados e os
erros do passado. Devemos decidir viver agora o mais nobre e justamente
possível e, de igual modo, formar as novas gerações para não virarem as costas
ao seu «próximo» e a tudo aquilo que nos rodeia. Construir uma nação pede-nos
para reconhecer que devemos constantemente relacionar-nos com os outros,
rejeitando uma mentalidade de hostilidade para se adotar uma subsidiariedade
recíproca, num esforço constante de contribuir com o melhor de nós. Tenho
confiança que o conseguiremos.
O nosso mundo está a enfrentar uma crise de
refugiados de tais proporções que não se via desde os tempos da II Guerra
Mundial. Esta realidade coloca-nos diante de grandes desafios e decisões
difíceis. Também neste continente, milhares de pessoas sentem-se impelidas a
viajar para o Norte à procura de melhores oportunidades. Porventura não é o que
queríamos para os nossos filhos? Não devemos deixar-nos assustar pelo seu
número, mas antes olhá-los como pessoas, fixando os seus rostos e ouvindo as
suas histórias, procurando responder o melhor que pudermos às suas situações.
Uma resposta que seja sempre humana, justa e fraterna. Devemos evitar uma
tentação hoje comum: descartar quem quer que se demonstre problemático.
Lembremo-nos da regra de ouro: «O que quiserdes que vos façam os homens,
fazei-o também a eles» (Mt 7,12).
Esta norma aponta-nos uma direção clara.
Tratemos os outros com a mesma paixão e compaixão com que desejamos ser
tratados. Procuremos para os outros as mesmas possibilidades que buscamos para
nós mesmos. Ajudemos os outros a crescer, como quereríamos ser ajudados nós
mesmos. Em suma, se queremos segurança, demos segurança; se queremos vida,
demos vida; se queremos oportunidades, providenciemos oportunidades. A medida
que usarmos para os outros será a medida que o tempo usará para connosco. A
regra de ouro põe-nos diante também da nossa responsabilidade de proteger e
defender a vida humana em todas as fases do seu desenvolvimento.
Esta convicção levou-me, desde o início do
meu ministério, a sustentar a vários níveis a abolição global da pena de morte.
Estou convencido de que esta seja a melhor via, já que cada vida é sagrada,
cada pessoa humana está dotada duma dignidade inalienável, e a sociedade só
pode beneficiar da reabilitação daqueles que são condenados por crimes.
Recentemente, os meus irmãos bispos aqui
nos Estados Unidos renovaram o seu apelo pela abolição da pena de morte. Não só
os apoio, mas encorajo também todos aqueles que estão convencidos de que uma
punição justa e necessária nunca deve excluir a dimensão da esperança e o objetivo
da reabilitação.
Nestes tempos em que as preocupações
sociais são tão importantes, não posso deixar de mencionar a Serva de Deus Dorothy Day, que fundou o Catholic Worker Movement. O seu
compromisso social, a sua paixão pela justiça e pela causa dos oprimidos
estavam inspirados pelo Evangelho, pela sua fé e o exemplo dos Santos.
Quanta estrada percorrida neste campo em
tantas partes do mundo! Quanto se fez nestes primeiros anos do terceiro milênio
para fazer sair as pessoas da pobreza extrema! Sei que partilhais a minha convicção
de que se tem de fazer ainda muito mais e de que, em tempos de crise e
dificuldade econômica, não se deve perder o espírito de solidariedade global.
Ao mesmo tempo, desejo encorajar-vos a não esquecer todas as pessoas à nossa
volta encastradas nas espirais da pobreza. Há necessidade de dar esperança
também a elas. A luta contra a pobreza e a fome deve ser travada com constância
nas suas múltiplas frentes, especialmente nas suas causas. Sei que hoje, como
no passado, muitos americanos estão a trabalhar para enfrentar este problema.
Naturalmente uma grande parte deste esforço
situa-se na criação e distribuição de riqueza. A utilização correta dos
recursos naturais, a aplicação apropriada da tecnologia e a capacidade de
orientar devidamente o espírito empresarial são elementos essenciais duma
economia que procura ser moderna, inclusiva e sustentável. «A atividade
empresarial, que é uma nobre vocação orientada para produzir riqueza e melhorar
o mundo para todos, pode ser uma maneira muito fecunda de promover a região
onde instala os seus empreendimentos, sobretudo se pensa que a criação de
postos de trabalho é parte imprescindível do seu serviço ao bem comum»
(Encíclica Laudato si’, 129). Este
bem comum inclui também a terra, tema central da Encíclica que escrevi,
recentemente, para «entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum»
(ibid., 3). «Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio
ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto
sobre todos nós» (ibid., 14).
Na encíclica Laudato si’, exorto a um esforço corajoso e responsável para «mudar
de rumo» (ibid., 61) e evitar os efeitos mais sérios da degradação ambiental
causada pela atividade humana. Estou convencido de que podemos fazer a
diferença e não tenho dúvida alguma de que os Estados Unidos – e este Congresso
– têm um papel importante a desempenhar. Agora é o momento de empreender ações
corajosas e estratégias tendentes a implementar uma «cultura do cuidado»
(ibid., 231) e «uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a
dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza» (ibid., 139).
Temos a liberdade necessária para limitar e orientar a tecnologia (cf. ibid.,
112), para individuar modos inteligentes de «orientar, cultivar e limitar o
nosso poder» (ibid., 78) e colocar a tecnologia «ao serviço doutro tipo de
progresso, mais saudável, mais humano, mais social, mais integral» (ibid.,
112). A este respeito, confio que as instituições americanas de investigação e
académicas poderão dar um contributo vital nos próximos anos.
Um século atrás, no início da I Grande
Guerra que o Papa Bento XV definiu «massacre inútil», nascia outro americano
extraordinário: o monge cisterciense Thomas Merton. Ele continua a ser uma
fonte de inspiração espiritual e um guia para muitas pessoas. Na sua
autobiografia, deixou escrito: «Vim ao mundo livre por natureza, imagem de
Deus; mas eu era prisioneiro da minha própria violência e do meu egoísmo, à
imagem do mundo onde nascera. Aquele mundo era o retrato do Inferno, cheio de
homens como eu, que amam a Deus e contudo odeiam-No; nascidos para O amar, mas
vivem no medo de desejos desesperados e contraditórios». Merton era, acima de
tudo, homem de oração, um pensador que desafiou as certezas do seu tempo e
abriu novos horizontes para as almas e para a Igreja. Foi também homem de
diálogo, um promotor de paz entre povos e religiões.
Nesta perspectiva de diálogo, gostaria de
saudar os esforços que se fizeram nos últimos meses para procurar superar as
diferenças históricas ligadas a episódios dolorosos do passado. É meu dever
construir pontes e ajudar, por todos os modos possíveis, cada homem e cada
mulher a fazerem o mesmo. Quando nações que estiveram em desavença retomam o
caminho do diálogo – um diálogo que poderá ter sido interrompido pelas mais
válidas razões –, abrem-se novas oportunidades para todos. Isto exigiu, e
exige, coragem e audácia, o que não significa irresponsabilidade. Um bom líder
político é aquele que, tendo em conta os interesses de todos, lê o momento
presente com espírito de abertura e sentido prático. Um bom líder político não
cessa de optar mais por «iniciar processos do que possuir espaços» (Exortação
apostólica Evangelii gaudium,
222-223).
Estar ao serviço do diálogo e da paz
significa também estar verdadeiramente determinado a reduzir e, a longo prazo,
pôr termo a tantos conflitos armados em todo o mundo. Aqui devemos
interrogar-nos: Por que motivo se vendem armas letais àqueles que têm em mente
infligir sofrimentos inexprimíveis a indivíduos e sociedade? Infelizmente a
resposta, como todos sabemos, é apenas esta: por dinheiro; dinheiro que está
impregnado de sangue, e muitas vezes sangue inocente. Perante este silêncio
vergonhoso e culpável, é nosso dever enfrentar o problema e deter o comércio de
armas.
Três filhos e uma filha desta terra, quatro
indivíduos e quatro sonhos: Lincoln,
a liberdade; Martin Luther King, a
liberdade na pluralidade e não-exclusão; Dorothy
Day, a justiça social e os direitos das pessoas; e Thomas Merton, capacidade de diálogo e abertura a Deus. Quatro
representantes do povo americano.
Concluirei a minha visita ao vosso país em
Filadélfia, onde participarei no Encontro
Mundial das Famílias. É meu desejo que, durante toda a minha visita, a
família seja um tema recorrente. Como foi essencial a família na construção
deste país! E como merece ainda o nosso apoio e encorajamento! E, todavia, não
posso esconder a minha preocupação pela família, que está ameaçada, talvez como
nunca antes, de dentro e de fora. As relações fundamentais foram postas em
discussão, bem como o próprio fundamento do matrimônio e da família. Posso
apenas repropor a importância e sobretudo a riqueza e a beleza da vida
familiar.
Em particular quereria chamar a atenção
para os membros da família que são os mais vulneráveis: os jovens. Para muitos
deles anuncia-se um futuro cheio de tantas possibilidades, mas muitos outros
parecem desorientados e sem uma meta, encastrados num labirinto sem esperança,
marcado por violências, abusos e desespero. Os seus problemas são os nossos
problemas. Não podemos evitá-los. É necessário enfrentá-los juntos, falar deles
e procurar soluções eficazes em vez de ficar empantanados nas discussões.
Correndo o risco de simplificar, poderemos dizer que vivemos numa cultura que
impele os jovens a não formarem uma família, porque lhes faltam possibilidades
para o futuro. Mas esta mesma cultura apresenta a outros tantas opções que
também eles são dissuadidos de formar uma família.
Uma nação pode ser considerada grande,
quando defende a liberdade, como fez Lincoln;
quando promove uma cultura que permita às pessoas «sonhar» com plenos direitos
para todos os seus irmãos e irmãs, como procurou fazer Martin Luther King; quando luta pela justiça e pela causa dos
oprimidos, como fez Dorothy Day com
o seu trabalho incansável, fruto duma fé que se torna diálogo e semeia paz no
estilo contemplativo de Thomas Merton.
Nestas notas, procurei apresentar algumas
das riquezas do vosso património cultural, do espírito do povo americano. Faço
votos de que este espírito continue a desenvolver-se e a crescer de tal modo
que o maior número possível de jovens possa herdar e habitar numa terra que
inspirou tantas pessoas a sonhar.
Deus abençoe a América!
Fonte: Canção Nova –
Especiais – Papa Francisco – Quinta-feira, 24 de setembro de 2015 – 12h27 – Internet: clique aqui;
e às 11h55 – Internet: clique aqui.
Discurso do Papa no encontro com sem-teto
Equipe de
Reportagem
Francisco visita o Centro Caritativo da Paróquia de São
Patrício em Washington
Queridos amigos!
A primeira palavra que quero dizer-vos é
«obrigado». Obrigado por me acolherem e pelo esforço feito para que este
encontro se pudesse realizar.
Aqui recordo uma pessoa que amo e que foi
muito importante na minha vida. Serviu-me de apoio e fonte de inspiração. É uma
pessoa a quem recorro quando estou com algum problema. Vós fazeis-me lembrar São José. Os vossos rostos falam-me do
dele.
Na vida de São José, houve situações
difíceis de enfrentar. Uma delas aconteceu quando Maria estava prestes a dar à
luz Jesus. Diz a Bíblia: «Quando eles se encontravam [em Belém], completaram-se
os dias de [Maria] dar à luz e teve o seu filho primogênito, que envolveu em
panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria»
(Lc 2,6-7). A Bíblia é muito clara: não
havia lugar para eles na hospedaria. Imagino José, com a sua esposa prestes
a ter o filho, sem um teto, sem casa, sem alojamento. O Filho de Deus entrou neste mundo como uma pessoa que não tem casa.
O Filho de Deus sabe o que é começar a vida sem um teto. Imaginemos as
perguntas que José se punha naquele momento: Como é possível? O Filho de Deus
não tem um teto para viver? Por que estamos sem casa? Por que estamos sem um teto?
São perguntas que muitos de vós podem pôr-se cada dia. Como José,
questionais-vos: Por que estamos sem um teto,
sem uma casa? Mas tais perguntas, será bom que no-las ponhamos também todos
nós: Por que estão sem casa estes nossos irmãos? Não têm um teto, por quê?
As perguntas de José perduram até hoje,
acompanhando todos aqueles que, ao longo da história, viveram e estão sem uma
casa.
José era um homem que se punha perguntas,
mas sobretudo era um homem de fé. Foi a
fé que permitiu a José encontrar a luz naquele momento que parecia uma
escuridão completa; foi a fé que o sustentou nas dificuldades da sua vida.
Pela fé, José soube seguir em frente, quando tudo parecia sem saída.
Perante
situações injustas, dolorosas, a fé oferece-nos a luz que dissipa a escuridão.
Como sucedeu com José, a fé abre-nos à presença silenciosa de Deus em cada
vida, em cada pessoa, em cada situação. Ele está presente em cada um de vós, em
cada um de nós.
Não
encontramos qualquer tipo de justificação social, moral ou doutro gênero para
aceitar a carência de habitação. São situações
injustas, mas sabemos que Deus está a sofrê-las juntamente conosco, está a
vivê-las ao nosso lado. Não nos deixa sozinhos.
Sabemos que Jesus não quis apenas ser
solidário com cada pessoa, não quis apenas que ninguém sentisse ou vivesse a
falta da sua companhia, da sua ajuda, do seu amor; mas Ele próprio Se identificou com todos aqueles que sofrem, que choram,
que padecem qualquer tipo de injustiça. Ele no-lo diz claramente: «Tive
fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e
recolhestes-me» (Mt 25, 35).
É
a fé que nos diz que Deus está convosco, que Deus está
no meio de nós e a sua presença incita-nos à caridade; aquela caridade que
nasce do apelo de um Deus que não cessa de bater à nossa porta, à porta de
todos para nos convidar ao amor, à compaixão, a darmo-nos uns aos outros.
Jesus continua a bater às nossas portas, à
nossa vida. Não o faz magicamente, nem o faz com truques, com vistosos placares
ou fogos-de-artifício. Jesus continua a bater à nossa porta no rosto do irmão,
no rosto do vizinho, no rosto de quem vive junto de nós.
Queridos amigos, uma das formas mais
eficazes de ajuda, temo-la na oração. A oração une-nos, irmana-nos, abre-nos o
coração e lembra-nos uma verdade maravilhosa que às vezes esquecemos. Na oração, todos aprendemos a dizer Pai,
papai, pelo que nela nos encontramos como irmãos. Na oração, não há ricos e
pobres; há filhos e irmãos. Na oração,
não há pessoas de primeira classe ou segunda; há fraternidade.
É
na oração que o nosso coração encontra a força para não se tornar insensível,
frio perante as situações de injustiça. Na oração, Deus
continua a chamar-nos e incitar-nos à caridade.
Como nos faz bem rezar juntos! Como nos faz
bem encontrarmo-nos naquele espaço onde nos olhamos como irmãos e nos
reconhecemos necessitados do apoio uns dos outros. Hoje quero unir-me a vós,
preciso do vosso apoio, da vossa proximidade. Quero convidar-vos a rezar juntos
uns pelos outros, uns com os outros. Assim, poderemos prestar este apoio que
nos ajuda a viver a alegria de saber que Jesus está sempre no meio de nós.
Aceitais?
Pai nosso…
Antes de vos deixar, gostaria de dar-vos a
bênção de Deus:
O Senhor vos abençoe e proteja;
O Senhor vos olhe com benevolência e mostre
a sua bondade;
O Senhor vos olhe com amor e conceda a sua
paz (cf. Nm 6,24-26).
E não vos esqueçais de rezar por mim.
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