PAPA NOS ESTADOS UNIDOS
“Vivemos um momento crítico”,
diz papa nos EUA sobre o clima
Giovana
Girardi
Tema foi o que recebeu mais atenção de Francisco na
Casa Branca;
ele pediu urgência: “Não podemos deixar para as futuras
gerações”
![]() |
PAPA FRANCISCO Discursa nos jardins da Casa Branca, em Washington - Estados Unidos diante do Presidente Barack Obama e mais de 15.000 convidados |
O
tema a que o papa Francisco dedicou mais tempo nesta quarta-feira em seu
discurso na Casa Branca, em Washington, foi a urgências das mudanças
climáticas.
Em
meio a menções a questões como pobreza e as migrações, Francisco elogiou as
ações do presidente Barack Obama em relação ao problema. “Eu acho encorajador
que você esteja propondo uma iniciativa para reduzir a poluição do ar.
Aceitando sua urgência, me parece claro
também que a mudança do clima é um problema que não mais podemos deixar para as
futuras gerações. Quando se trata de cuidar da nossa casa comum, nós
estamos vivendo um momento crítico da nossa história”, disse retomando a
mensagem principal de sua encíclica “Laudato Si’”, lançada em junho.
O
papa disse que ainda há tempo para curar o planeta para suas crianças. “Para usar uma frase do reverendo Martin
Luther King, podemos dizer que nós falhamos em pagar uma nota promissória e
agora é hora de honrá-la.”
Obama,
por sua vez, agradeceu o foco de Francisco nessa questão. “Nós apoiamos seu
chamado para que todos os líderes apoiem as comunidades mais vulneráveis às
mudanças climáticas e atuem juntos para preservar nosso precioso mundo para as
futuras gerações.”
Na
quinta-feira Francisco vai se dirigir ao Congresso americano, onde a questão
climática deve voltar a aparecer, mas dessa vez diante de um público bem menos
afeito a ela. O Partido Republicano
vem historicamente se opondo a ações para conter o problema, negando o aquecimento
global seja culpa humana. A forma como o
papa vai falar com os parlamentares vem sendo esperada ansiosamente por
cientistas do clima e ambientalistas.
Na
sexta-feira, o tema ganha força mais uma vez quando Francisco abre a
conferência das Nações Unidas que vai lançar 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável, que visam colocar
o mundo em um caminho para terminar a pobreza, proteger o planeta e assegurar a
prosperidade a todos.
Obama agradece mediação do papa na
retomada da relação com Cuba
Cláudia
Trevisan
Presidente americano elogiou a postura do pontífice em
temas como
a inclusão de imigrantes e críticas à desigualdade
social
![]() |
Barack Obama discursa diante do Papa Francisco Jardins da Casa Branca, em Washington Quarta-feira, 23 de setembro de 2015 |
O
presidente Barack Obama agradeceu ao
papa Francisco na manhã desta quarta-feira, 23 de setembro, por seu papel na
reaproximação entre os Estados Unidos da América (EUA) e Cuba e ressaltou a
atuação do pontífice em vários temas nos quais suas posições coincidem: inclusão de imigrantes e refugiados, combate à mudança climática, crítica
à desigualdade social e defesa da
liberdade religiosa.
Ao
receber o papa nos jardins da Casa Branca, Obama
elogiou sua autoridade moral e suas qualidades pessoais de humildade,
simplicidade, gentileza e generosidade. "Em suas gentis, mas firmes recordações de nossas obrigações com Deus e
uns com aos outros, você está nos chacoalhando de nossa complacência",
disse Obama em discurso nos jardins da Casa Branca, onde recebeu o papa na
manhã desta quarta-feira.
O
encontro deu início à agenda da visita
de seis dias de Francisco aos EUA, a primeira em seus 78 anos de vida. O
papa decidiu visitar Cuba na mesma viagem depois de os dois países terem
anunciado, em dezembro, a retomada de suas relações diplomáticas, colocando fim
a 53 anos de isolamento. O pontífice atuou nas negociações e enviou cartas a
Obama e ao presidente de Cuba, Raúl Castro, pedindo a reconciliação entre os
dois lados.
"Santo Padre, nós somos agradecidos por seu
inestimável apoio ao nosso novo começo com o povo cubano, que traz a promessa
de novas relações entre nossos países, maior cooperação em nosso hemisfério e
uma melhor vida para o povo cubano", declarou Obama.
Cerca de 15.000 pessoas
foram convidadas pela Casa Branca para participar da cerimônia de recepção do
papa.
Milhares de outras se espalharam pelo gramado ao sul da Casa Branca para
esperar o cortejo de Francisco no papamóvel, marcado para as 11h00 da manhã.
Muitas das posições
defendidas pelo papa coincidem com prioridades domésticas e internacionais de
Obama e isso ficou claro no discurso do presidente. O dirigente americano
ressaltou a mensagem do papa de que os desconhecidos sejam recebidos com
"empatia e coração aberto - dos refugiados que abandonam terras
destroçadas pela guerra ao imigrante que deixa sua casa em busca de uma vida
melhor".
A proposta de Obama de uma reforma do sistema de imigração que
abra caminho para a cidadania aos 11 milhões de indocumentados que vivem no
país foi barrada pelo Congresso dominado pela oposição republicana.
Outra
coincidência entre ambos é a defesa de
um ambicioso compromisso mundial de combate à mudança climática. Obama
espera que iniciativas nessa área integrem seu legado quando deixar a Casa
Branca, no início de 2017. O papa tratou do assunto em sua encíclica Laudato Si’ e deverá abordá-lo no
discurso que fará na Organização das
Nações Unidas (ONU) na sexta-feira. Os
republicanos se opõem a regulações ambientais e sustentam que o aquecimento
global não é fruto da ação do homem.
O
único ponto do discurso de Obama em relação ao qual existe consenso entre
democratas e republicanos é a defesa da
liberdade religiosa. "Aqui nos Estados Unidos, nós valorizamos a
liberdade religiosa. Mas ao redor do mundo neste exato momento, filhos de Deus,
incluindo cristãos, estão sendo atacados e até mortos por causa de sua
fé", ressaltou Obama.
Depois
do cortejo no papamóvel, o papa terá encontro com 300 bispos americanos. Às 16h15 (17h15 horário de Brasília), ele
celebrará missa de canonização do missionário franciscano Junípero Serra,
que será o primeiro santo latino dos Estados Unidos.
Papa diz que “crimes” de abuso contra
menores nunca devem se repetir
Agências REUTERS
e EFE
Francisco também alertou que os bispos devem se
comportar com coragem e não podem permitir ficarem "paralisados pelo
medo", apesar de reconhecer que os membros da hierarquia da Igreja nos EUA
se encontram, com frequência, em um "território hostil"
O
papa Francisco disse nesta quarta-feira, 23 de setembro, a bispos da Igreja
Católica dos EUA que os crimes de abuso
sexual de menores por parte do clero, chamados por ele de "momentos
obscuros", nunca devem se repetir.
"Sei o quanto de dor tem pesado sobre vocês
(bispos) nos últimos anos, e tenho apoiado seu generoso compromisso em levar
consolo às vítimas... e em trabalhar para garantir que tais crimes nunca vão se
repetir", disse o pontífice, em discurso na Catedral de São Mateus.
O
papa leu seu discurso em italiano e, com um tom quase de sussurro em várias
passagens, como nas quais mencionou a palavra "crimes" e no momento
em que afirmou que não pretendia dar lições aos bispos.
Francisco
também alertou que os bispos devem se
comportar com coragem e não podem permitir ficarem "paralisados pelo
medo", apesar de reconhecer que os membros da hierarquia da Igreja nos
EUA se encontram, com frequência, em um "território hostil".
O
pontífice, que já pediu publicamente perdão pelos abusos sexuais cometidos por
membros do clero e endureceu as normas para castigar esses crimes dentro da
Igreja, fez, além disso, outras várias recomendações gerais aos bispos
americanos. Foi pedido que eles não
preguem "doutrinas complexas", que não caiam no narcisismo e dialoguem com os leigos, com as famílias e
com a sociedade.
Francisco pediu aos bispos
para preservarem a unidade da Igreja, mas também para "enfrentarem com
coragem os desafios de nosso tempo". E também elogiou o dinamismo da Igreja nos EUA, o
que contribuiu para o crescimento do número de fiéis no país, que conta com
mais de 76 milhões de católicos.
[ 1 ] -
«Quando eu era jovem, / tinha asas fortes e incansáveis, / mas não conhecia as
montanhas. / Quando cheguei à velhice, / conheci as montanhas, / mas as asas
cansadas já não acompanharam a visão. / O gênio é sabedoria e juventude» (Edgard Lee Masters, Antologia de Spoon
River).
Leia, abaixo, a íntegra do
pronunciamento que Papa Francisco fez aos bispos norte-americanos:
Discurso
Encontro com bispos dos Estados Unidos
Catedral de São Mateus em Washington D.C
23 de setembro de 2015
Queridos
Irmãos no Episcopado!
Estou
feliz por vos encontrar neste momento da missão apostólica que me trouxe ao
vosso país e agradeço vivamente ao Cardeal
Donald Wuerl e ao Arcebispo Joseph
Edward Kurtz as amáveis palavras que me dirigiram em nome também de todos
vós. Recebei os meus sentimentos de gratidão pela recepção e também pela
generosa disponibilidade com que foi programada e organizada a minha estadia.
Ao
abraçar com o olhar e o coração os vossos rostos de pastores, quero estreitar
ao peito as Igrejas que levais amorosamente aos ombros e peço-vos para lhes
assegurar que a minha solidariedade humana e espiritual envolve, por vosso
intermédio, todo o povo de Deus espalhado por esta vasta terra.
O
coração do Papa dilata-se para incluir a todos. Alargar o coração para
testemunhar que Deus é grande no seu amor, é a essência da missão do Sucessor
de Pedro, Vigário d’Aquele que na Cruz abraçou a humanidade inteira. Que nenhum
membro do Corpo de Cristo e da nação americana se sinta excluído do abraço do
Papa. Em todo o lado onde aflore aos lábios o verdadeiro nome de Jesus, lá
ressoe também a voz do Papa para assegurar: «é o Salvador». Desde as vossas
grandes cidades da costa leste até às planícies do midwest, desde o extremo sul até ao ilimitado oeste, onde quer que
o vosso povo se reúna na assembleia eucarística, o Papa não seja um mero nome pronunciado rotineiramente, mas uma
companhia palpável empenhada a sustentar a voz que se eleva do coração da
Esposa: «Vinde, Senhor!»
Quando
uma mão se estende para fazer o bem
ou tornar próximo o amor de Cristo, para limpar
uma lágrima ou fazer companhia a
alguém na solidão, para indicar a
estrada a um extraviado ou reanimar
um coração já despedaçado, para se
inclinar sobre uma pessoa caída ou ensinar
um sedento da verdade, para oferecer
o perdão ou guiar para um novo
começo em Deus… sabei que o Papa vos acompanha e sustenta e, sobre a vossa
mão, apoia também ele a sua já velha e enrugada mas, por graça de Deus, ainda
capaz de sustentar e encorajar.
A
minha primeira palavra é de ação de graças a Deus pelo dinamismo do Evangelho
que consentiu o notável crescimento da Igreja de Cristo nestas terras e
permitiu a generosa contribuição que ela ofereceu, e continua a oferecer, à
sociedade norte-americana e ao mundo. Vejo
com vivo apreço e agradeço comovido a vossa generosidade e solidariedade com a
Sé Apostólica e com a evangelização em muitas partes atribuladas do mundo.
Alegro-me com o indômito empenho da
Igreja em prol da causa da vida e da família, motivo saliente desta minha
visita. Sigo atentamente o esforço
enorme feito para a recepção e integração dos imigrantes, que continuam a
olhar para a América com a visão dos peregrinos que chegaram aqui à procura dos
seus promissores recursos de liberdade e prosperidade. Admiro a canseira com que levais por diante a
missão educativa nas vossas escolas de todos os níveis e a obra caritativa nas
vossas numerosas instituições. São atividades realizadas frequentemente sem
qualquer estímulo ou apoio e, em todo o caso, mantidas heroicamente com o óbolo
dos pobres, porque tais iniciativas derivam de um mandato sobrenatural a que
não é lícito desobedecer. Estou consciente da coragem com que enfrentastes momentos obscuros do vosso percurso
eclesial, sem temer autocríticas
nem vos poupardes a humilhações e sacrifícios, sem ceder ao temor de vos
despojardes de quanto é secundário, contanto que se recuperasse a credibilidade
e a confiança requerida aos Ministros de Cristo, como o espera a alma do vosso
povo singular. Sei quanto vos pesou a
ferida dos últimos anos e acompanhei o vosso generoso esforço para curar as
vítimas – conscientes de que,
curando, também nós ficamos curados – e para continuar a agir a fim de que tais
crimes nunca mais se repitam.
Falo-vos
como Bispo de Roma, já na velhice, chamado por Deus, duma terra que também é
americana, a fim de guardar a unidade da Igreja universal e encorajar na
caridade o percurso de todas as Igrejas particulares para que progridam no
conhecimento, na fé e no amor de Cristo. Lendo os vossos nomes e sobrenomes,
observando as vossas feições, conhecendo a medida alta da vossa consciência
eclesial e sabendo da veneração que sempre nutristes pelo Sucessor de Pedro,
devo dizer que não me sinto um
estrangeiro no meio de vós. De fato, sou oriundo duma terra – também ela
vasta, ilimitada e por vezes informe – que, à semelhança da vossa, recebeu a fé
da bagagem dos missionários. Conheço bem
o desafio de semear o Evangelho no coração de homens, originários de mundos
diferentes, muitas vezes endurecidos pela estrada dura percorrida antes de se
estabelecerem. Não me é estranha a história da fadiga de implantar a Igreja
entre planícies, montanhas, cidades e subúrbios dum território frequentemente
inóspito, onde as fronteiras sempre são provisórias, as respostas óbvias não
duram e a chave de entrada requer a capacidade de saber combinar o esforço
épico dos pioneiros exploradores com a prosaica sabedoria e resistência dos
sedentários que supervisionam o espaço alcançado. Como cantou um poeta vosso,
«asas fortes e incansáveis», mas também a sabedoria de quem «conhece as
montanhas». [1]
Não
sou o único a falar-vos. A minha voz coloca-se em continuidade com tudo aquilo
que os meus Antecessores vos deram. Com efeito, desde os alvores da «nação
americana», quando após a revolução foi ereta a primeira diocese em Baltimore, a Igreja de Roma esteve sempre
próxima de vós e nunca vos faltou a sua assistência constante e o seu encorajamento.
Nas últimas décadas, visitaram-vos três dos meus venerados Antecessores, confiando-vos
um notável patrimônio de doutrina ainda hoje atual, a que vos tendes inspirado
para orientar os clarividentes programas pastorais com que é guiada esta amada
Igreja.
Não
é minha intenção traçar um programa ou delinear uma estratégia. Não vim para vos julgar ou dar lições.
Confio plenamente na voz d’Aquele que «vos ensinará tudo» (Jo 14,26). Consenti-me apenas de vos poder falar, com
a liberdade do amor, como um irmão entre irmãos. Não me preme dizer-vos o
que fazer, porque sabemos todos o que nos pede o Senhor. Prefiro antes voltar
uma vez mais sobre aquela fadiga – antiga e sempre nova – de nos interrogarmos
acerca dos caminhos a percorrer, dos sentimentos que se devem preservar
enquanto se trabalha, do espírito com que agir. Sem a pretensão de ser
exaustivo, partilho convosco algumas reflexões que considero oportunas para a
nossa missão.
Somos
bispos da Igreja, pastores constituídos por Deus para apascentar o seu rebanho.
A nossa maior alegria é ser pastores,
nada mais do que pastores, de coração indiviso e entrega irreversível de
nós mesmos. É preciso guardar esta alegria, não deixando que no-la roubem. O
maligno ruge como leão procurando devorá-la, desgastando assim tudo aquilo que
somos chamados a ser, não para nós mesmos, mas o oferecer em dom e ao serviço
do «Pastor das nossas almas» (cf. 1Pd 2,25).
A essência da nossa
identidade deve ser procurada no rezar com assiduidade, no pregar (At 6,4) e no apascentar (Jo 21,15-17; At 20,28-31).
Não uma oração
qualquer, mas a união familiar com Cristo, durante a qual cruzemos
diariamente o nosso olhar com o d’Ele para ouvir, dirigida a nós, a sua
pergunta: «Quem é minha mãe? Quem são os meus irmãos?» (cf. Mc 3,31-34). E
poder-Lhe responder serenamente: «Senhor, aqui está a tua Mãe, aqui estão os
teus irmãos! Entrego-os a Ti, são aqueles que me confiaste». É de tal
confidência com Cristo que se alimenta a vida do pastor.
Não uma pregação de
doutrinas complicadas, mas o anúncio jubiloso de Cristo, morto e ressuscitado
por nós.
O estilo da nossa missão suscite em todos os nossos ouvintes a experiência do
«por nós» deste anúncio: a Palavra dê
sentido e plenitude a cada fragmento das suas vidas, os Sacramentos nutram-nos
com aquele alimento que não está ao alcance deles, a proximidade do pastor
desperte neles a saudade do abraço do Pai. Velai para que o rebanho
encontre sempre no coração do pastor aquela reserva de eternidade que,
afanosamente, mas em vão, procura nas coisas do mundo. Encontre sempre nos
vossos lábios o apreço pela capacidade de fazer e construir, na liberdade e na
justiça, a prosperidade de que é pródiga esta terra. Mas não falte a coragem serena de confessar que «é preciso trabalhar,
não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida
eterna» (Jo 6,27).
Não se apascentar a
si mesmo, mas saber esconder-se, diminuir, descentralizar-se, para alimentar de
Cristo a família de Deus. Velar indomitamente, subindo alto para abarcar, com o
olhar de Deus, o rebanho que só a Ele pertence. Elevar-se à altura da cruz de
seu Filho, o único ponto de vista que abre ao pastor o coração do seu rebanho.
Não olhar para
baixo no próprio eu, mas sempre para os horizontes de Deus, que ultrapassam tudo
o que nós somos capazes de prever ou planificar. Velar também
sobre nós para fugirmos da tentação do
narcisismo, que cega os olhos do pastor, torna irreconhecível a sua voz, e
estéril o seu gesto. Nos múltiplos caminhos que se abrem à vossa solicitude pastoral,
lembrai-vos de conservar indelével o núcleo que unifica todas as coisas: «a Mim
mesmo o fizestes» (Mt 25, 31-45).
Certamente
é útil ao bispo possuir a clarividência do líder e a esperteza do
administrador, mas decaímos inexoravelmente quando confundimos a potência da
força com a força da impotência, através da qual Deus nos redimiu. Ao bispo, é necessária a lúcida percepção
da batalha entre a luz e as trevas, que se combate neste mundo. Ai de nós,
porém, se fizermos da cruz um vexilo [emblema, insígnia] de lutas mundanas,
ignorando que a condição da vitória
duradoura é deixar-se trespassar e esvaziar-se de si mesmo (Flp 2,1-11).
Não
nos é alheia a angústia dos primeiros Onze, fechados dentro das próprias
paredes, atônitos e consternados, habitados pelo susto das ovelhas dispersas
porque o Pastor fora ferido. Mas sabemos que nos foi dado um espírito de
coragem e não de timidez. Por isso, não
nos é lícito deixar paralisar pelo medo.
Bem
sei que são numerosos os vossos desafios, muitas
vezes é hostil o campo onde semeais e não são poucas as tentações de fechar-se,
no recinto dos medos, a lenir [aliviar]
as feridas, recordando um tempo que não volta e planificando respostas duras às
resistências já ásperas.
E,
todavia, somos defensores da cultura do
encontro. Somos sacramentos vivos do abraço entre a riqueza divina e a
nossa pobreza. Somos testemunhas do abaixamento e condescendência de Deus que
Se antecipa, no amor, à nossa primeira resposta.
O
diálogo é o nosso método, não por astuciosa estratégia, mas por fidelidade
Àquele que nunca Se cansa de passar e repassar pelas praças dos homens até às
cinco horas da tarde a fim de lhes propor o seu convite de amor (Mt 20,1-16).
Por
isso, o caminho a seguir é o diálogo
entre vós, diálogo nos vossos presbitérios, diálogo com os leigos, diálogo com
as famílias, diálogo com a sociedade. Não me cansarei jamais de vos
encorajar a dialogar sem medo. Quanto mais rico for o patrimônio que tendes
para partilhar desassombradamente, tanto mais eloquente há de ser a humildade
com que o deveis oferecer. Não tenhais
medo de efetuar o êxodo que é necessário em cada diálogo autêntico. Caso
contrário, não é possível entender as razões do outro, nem compreender
profundamente que o irmão que devemos encontrar e resgatar, com a força e a
proximidade do amor, conta mais do que as posições que, apesar de certezas
autênticas, julgamos distantes das nossas. A
linguagem dura e belicosa da divisão não fica bem nos lábios do pastor, não tem
direito de cidadania no seu coração e, embora de momento pareça garantir uma
aparente hegemonia, só o fascínio duradouro da bondade e do amor é que
permanece verdadeiramente convincente.
É
preciso deixar que ressoe perenemente no nosso coração a palavra do Senhor:
«Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de
coração e encontrareis descanso para o vosso espírito» (Mt 11,29). O jugo de Jesus é jugo de amor e, por isso,
é premissa de restauração. Às vezes pesa-nos a solidão das nossas fadigas e
carregamos de tal modo o jugo que já não nos recordamos de o ter recebido do
Senhor. Parece-nos apenas nosso e, consequentemente, arrastamo-nos como bois
cansados no campo árido, ameaçados pela sensação de ter trabalhado em vão,
esquecidos da plenitude de restauração ligada indissoluvelmente Àquele que nos
fez a promessa.
Aprender de Jesus,
melhor ainda, aprender Jesus manso e humilde; entrar na sua mansidão e
humildade através da contemplação do seu agir. Introduzir as nossas Igrejas e o
nosso povo, muitas vezes esmagado pela rígida ansiedade de sucesso, na
suavidade do jugo do Senhor. Recordar
que a identidade da Igreja de Jesus é assegurada, não por um «fogo do céu que
consuma» (cf. Lc 9,54), mas pelo
calor secreto do Espírito que «sara quanto é moléstia, o que há de dureza
abranda, endireita o desvairado».
A
grande missão que o Senhor nos confia, realizamo-la em comunhão, de forma
colegial. O mundo já está tão dilacerado
e dividido; a fragmentação está presente por todo o lado. Por isso a Igreja, «túnica inconsútil do
Senhor», não pode deixar-se desagregar,
tornar-se facção ou objeto de disputa.
A
nossa missão episcopal é, primariamente, a de cimentar a unidade, cujo conteúdo
é determinado pela Palavra de Deus e pelo único Pão do Céu, com os quais cada
uma das Igrejas que nos estão confiadas permanece Católica, porque aberta e em
comunhão com todas as Igrejas particulares e com a de Roma que «preside na
caridade». Portanto, é um imperativo velar por tal unidade, guardá-la, favorecê-la,
testemunhá-la como sinal e instrumento que, para além de qualquer barreira, une
nações, raças, classes, gerações.
O
Ano Santo da Misericórdia, já
iminente, ao introduzir-nos na profundidade inexaurível do Coração divino onde
não habita qualquer divisão, seja para todos uma ocasião privilegiada para
reforçar a comunhão, aperfeiçoar a unidade, reconciliar as diferenças,
perdoar-se uns aos outros e superar qualquer facção, de modo que assim brilhe a
vossa luz como «a cidade situada sobre um monte» (Mt 5,14).
Este
serviço à unidade é particularmente importante para a vossa amada nação, cujos
vastíssimos recursos materiais e espirituais, culturais e políticos, históricos
e humanos, científicos e tecnológicos impõem responsabilidades morais consideráveis
num mundo transtornado que fadigosamente procura novos equilíbrios de paz,
prosperidade e integração. Deste modo faz parte essencial da vossa missão
oferecer aos Estados Unidos da América o fermento humilde e poderoso da
comunhão. Saiba a humanidade que o fato de ser habitada pelo «sacramento de
unidade» (Lumen gentium,1) é garantia
de que o seu destino não é o abandono e a desagregação.
Tal
testemunho é um farol que não pode apagar-se. De fato, na fita escuridão da
vida, os homens precisam de se deixar guiar pela sua luz, para terem a certeza
do porto que os espera, estarem seguros de que as suas barcas não se
despedaçarão contra os escolhos, nem acabarão à mercê das ondas. Por isso
encorajo-vos a enfrentar os problemas desafiadores do nosso tempo. No fundo de
cada um deles, está sempre a vida como dom e responsabilidade. O futuro da
liberdade e dignidade da nossa sociedade depende da forma como soubermos
responder a tais desafios.
A
vítima inocente do aborto, as crianças que morrem de fome ou debaixo das
bombas, os imigrantes que acabam afogados em busca dum amanhã, as pessoas
idosas ou os doentes que olhamos sem interesse, as vítimas do terrorismo, das
guerras, da violência e do narcotráfico, o meio ambiente devastado por uma
relação predatória do homem com a natureza… em tudo isto está sempre em jogo o
dom de Deus, do qual somos administradores nobres, mas não patrões. Por
conseguinte, não é lícito iludir ou
silenciar. De importância não menor é o anúncio do Evangelho da família
que, na iminente Jornada Mundial das
Famílias, em Filadélfia, terei ocasião de proclamar com força juntamente
convosco e a Igreja inteira.
Estes
aspectos irrenunciáveis da missão da Igreja pertencem ao núcleo daquilo que nos
foi transmitido pelo Senhor. Por isso, temos o dever de os guardar e comunicar,
mesmo quando o sentimento do tempo se torna impermeável e hostil a tal mensagem
(Evangelii gaudium, 34-39).
Encorajo-vos a oferecer, com os instrumentos e a criatividade do amor e com a
humildade da verdade, tal testemunho. Este precisa não só de proclamações e
anúncios externos, mas também de conquistar espaço no coração dos homens e na
consciência da sociedade.
Para
isso, é muito importante que a Igreja nos Estados Unidos seja também um lar
humilde que atrai os homens pelo fascínio da luz e o calor do amor. Como
pastores, conhecemos bem a escuridão e o frio que ainda existe neste mundo, a
solidão e o abandono de tantas pessoas – mesmo onde abundam os recursos de
comunicação e as riquezas materiais – o medo face à vida, os desesperos e as
suas múltiplas fugas.
Por
isso, só uma Igreja que saiba reunir-se
à volta do fogo do lar permanece capaz de atrair. Certamente não qualquer
fogo, mas o que se acendeu na manhã de Páscoa. É o Senhor ressuscitado que continua a interpelar os pastores da Igreja
através da voz tímida de muitos irmãos: «Tendes alguma coisa para comer?»
Torna-se necessário reconhecer a sua voz, como fizeram os Apóstolos na margem
do mar de Tiberíades (Jo 21,4-12). E
mais decisivo ainda se torna render-se à certeza de que as brasas da sua
presença, acesas no fogo da paixão, precedem-nos e jamais se apagarão.
Definhando tal certeza, corre-se o risco de nos tornarmos, ao contrário,
cultores de cinzas e não guardiões e dispensadores da verdadeira luz e do calor
que pode aquecer o coração (Lc 24,32).
Antes
de concluir estas reflexões, permiti ainda que vos faça duas recomendações que me estão a peito. A primeira tem a ver com a
vossa paternidade episcopal. Sede
pastores próximos das pessoas, pastores próximos e servidores. Esta proximidade manifeste-se de forma
especial para com os vossos sacerdotes. Acompanhai-os para continuarem a
servir Cristo com coração indiviso, porque só a plenitude enche os ministros de
Cristo. Peço-vos, portanto, que não os
deixeis contentar-se com meias medidas. Cuidai das suas fontes espirituais, para que não caiam na tentação dos
notários e burocratas, mas sejam expressão da maternidade da Igreja que gera e
faz crescer os seus filhos. Velai para que não se cansem de se levantar
para responder a quem bate à porta de noite, mesmo quando se pensa já ter
direito ao repouso (Lc 11,5-8). Treinai-os
a fim de estarem preparados para deter-se, debruçar-se, deitar bálsamo, tomar a
seu cuidado e gastar-se a favor de quem, «por acaso», se encontrou despojado de
quanto julgava possuir (Lc 10,29-37).
A
minha segunda recomendação diz
respeito aos imigrantes. Peço
desculpa se falo em causa que de certo modo vos é própria. A Igreja dos Estados
Unidos conhece, como poucas, as esperanças dos corações dos peregrinos. Desde
sempre aprendestes a sua língua, sustentastes a sua causa, integrastes as suas
contribuições, defendestes os seus direitos, favorecestes a sua busca da
prosperidade, conservastes acesa a chama da sua fé. Mesmo agora nenhuma instituição americana faz mais pelos imigrantes do
que as vossas comunidades cristãs. Neste momento, tendes esta longa vaga de
imigração latina que investe muitas das vossas dioceses. Não só como Bispo de
Roma, mas também como pastor vindo do Sul, sinto a necessidade de vos agradecer
e encorajar. Talvez não vos seja fácil ler a sua alma; talvez vos sintais
desafiados pela sua diversidade. Sabei, no entanto, que também possuem recursos
para partilhar. Por isso, acolhei-os sem
medo. Oferecei-lhes o calor do amor de Cristo e decifrareis o mistério do
seu coração. Estou certo de que, mais
uma vez, estas pessoas enriquecerão a América e a sua Igreja.
Deus
vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!
N
O T A :
Comentários
Postar um comentário