O QUE SIGNIFICA A VIAGEM DO PAPA À CUBA E AOS ESTADOS UNIDOS?
Visitas dos papas a Cuba tiveram recados corteses,
mas claros
José Maria
Mayrink
Francisco
é o terceiro papa a visitar Cuba em peregrinação. Antes dele, passaram pela
ilha seus predecessores João Paulo II (1998) e Bento XVI (2012). Nenhum outro
país latino-americano, com exceção do Brasil, mereceu a mesma deferência. Mais
pelo interesse pessoal dos pontífices do
que pela estratégia da diplomacia do Vaticano.
Os
dois fatores se somaram para realizar essas viagens, mas o que mais pesou foi o
empenho de cada um dos papas. E, em todos os casos, a boa receptividade do
governo cubano, ou seja, dos irmãos Fidel e Raúl Castro, que quiseram
aproveitar politicamente a repercussão da presença do papa em Cuba.
Como
presidentes, receberam João Paulo II e Bento XVI como chefes de Estado e,
embora sejam comunistas, assistiram na primeira fila às missas que celebraram
no país, sempre na Praça da Revolução de cada uma das cidades visitadas.
Os
cinco dias que João Paulo II passou em Cuba foram uma festa inesquecível para
os cubanos, da tarde do dia 21 ao anoitecer do dia 26 de janeiro. Havana, ponto
de chegada e partida, enfeitou-se para receber o papa. As ruas e praças que ele
percorreu ficaram cobertas de faixas e fotos com afetuosas mensagens de
boas-vindas. As pistas ganharam asfalto novo no percurso da comitiva oficial.
As calçadas se encheram de milhares de curiosos num país de 11,2 milhões de habitantes, dos quais apenas 5% são católicos que frequentam igrejas, embora cerca de 60% sejam batizados.
A
multidão aplaudiu os discursos e as homilias de João Paulo II nas quatro
cidades que visitou – Havana, Santa Clara, Camaguey e Santiago. Na
espontaneidade de seus gestos, ele interrompeu várias vezes o texto para
improvisar, em espanhol, brincadeiras e agrados. O povo identificou-se com ele.
“A Igreja de Cuba não está só nem
isolada, já que faz parte da Igreja universal”, afirmou João Paulo II na
missa em Havana, para 600 mil pessoas reunidas ao lado do imenso painel de Che
Guevara. “Trago uma mensagem de amor e de solidariedade que Jesus Cristo, com
sua vinda, oferece a todos os homens de todos os tempos”, continuou o papa,
acrescentando que “não se trata em absoluto de uma ideologia nem de um sistema
econômico ou político novo, mas de um caminho de paz, justiça e liberdade
verdadeiras”.
Depois
de censurar os sistemas ideológicos e econômicos que nos dois últimos séculos
pretenderam reduzir a religião à esfera individual, retirando-lhe a relevância
social, João Paulo II advertiu que “um
Estado moderno não pode fazer do ateísmo ou da religião um de seus ordenamentos
políticos”. Era uma referência clara ao sistema socialista cubano.
O
papa bateu forte também no capitalismo. Suas palavras, no altar da missa de
despedida: “Ressurge em vários lugares uma forma de neoliberalismo capitalista que subordina o homem e condiciona o
desenvolvimento dos povos às forças cegas do mercado, sobrecarregando os países
menos favorecidos de forma insuportável”. O povo irrompeu em aplausos quando João
Paulo II afirmou que o sistema impõe programas econômicos insuportáveis como
condição para concessão de ajuda e, “deste modo, assiste-se no concerto das nações ao enriquecimento crescente de
muitos, de forma que os ricos são cada vez mais ricos e os pobres, cada vez
mais pobres”.
Mais
de uma vez, o papa condenou o bloqueio econômico imposto a Cuba pelos Estados
Unidos. “O povo cubano não pode se ver
privado dos vínculos com outros países, que são necessários para o
desenvolvimento econômico, social e cultural, principalmente quando o isolamento forçado se reflete de modo
indiscriminado na população, aumentando as dificuldades dos mais fracos”.
Fidel e os dirigentes sentados diante do altar gostaram da referência ao
bloqueio, mas tiveram de ouvir também uma advertência que, embora sem citar
ninguém, parecia ter endereço certo.
“Para muitos sistemas
políticos e econômicos hoje vigentes, o maior desafio continua sendo conjugar liberdade e justiça social, liberdade
e solidariedade, sem deixar que nada
disso seja relegado a um plano inferior”, advertiu João Paulo II. “O papa livre quer Cuba livre”, gritou um grupo no meio da multidão
durante a missa, enquanto a palavra “Liberdade” ecoava por todos os cantos. Atento
ao discurso do papa, Fidel não se alterou.
Após
a partida de João Paulo, de quem se despediu com incontida emoção no aeroporto,
o comandante gabou-se de ele ter falado sem nenhuma censura, mesmo quando seus
pontos de vista não coincidiam com o pensamento do governo.
Ao
deixar Havana, após quatro dias de
visita a Cuba, em 28 de março de
2012, o papa Bento XVI, nada
expansivo em comparação com João Paulo II, fez um discurso emocionado no
aeroporto de Havana. O presidente era agora Raúl Castro, que o recebeu com
cortesia e com ele discutiu problemas internacionais e questões religiosas, referentes
à Igreja de Cuba. Uma providencial tempestade que atrasou a decolagem do avião
papal permitiu-lhes prolongar a conversa.
“Dou
graças a Deus por me ter permitido visitar esta linda ilha, que deixou uma
marca tão profunda no coração do meu amado predecessor, o beato João Paulo II,
quando veio a estas terras como mensageiro da verdade e da esperança”, assim
iniciou Bento XVI o discurso de despedida. “Ardente era também o meu desejo de
poder vir estar convosco como peregrino da caridade, para agradecer à Virgem
Maria a presença da sua veneranda imagem do Santuário d’El Cobre”.
Os
dois papas visitaram o Santuário da Virgem do Cobre, padroeira de Cuba, perto
da cidade de Santiago. Bento XVI salientou a importância que a imagem de Maria,
a Virgem do Cobre, tem para o povo cubano. “De lá, há quatro séculos, acompanha
o caminho da Igreja nesta nação e infunde coragem em todos os cubanos, para que
descubram, da mão de Cristo, o verdadeiro sentido dos anseios e desejos que
incubam no coração humano e tenham a força necessária para construir uma
sociedade solidária, onde ninguém se sinta excluído”, disse o papa. “Levo no
mais íntimo do coração todos e cada um dos cubanos, que me envolveram com a sua
oração e carinho, reservando-me uma cordial hospitalidade e partilhando comigo
as suas mais profundas e justas aspirações. Vim aqui como testemunha de Jesus Cristo, firmemente convicto de que
onde Ele chega o desânimo dá lugar à esperança, a bondade afasta incertezas e
uma força vigorosa abre no horizonte perspectivas inusitadas e benéficas”,
disse Bento XVI, com sutis referências à situação da ilha.
Numa
advertência de termos um tanto diplomáticos, mas bem claros, ele encorajou os
cubanos a lutar por um futuro melhor, condenou o embargo americano e defendeu a
liberdade. “Que ninguém se veja impedido
de tomar parte nesta tarefa apaixonante pela limitação das suas liberdades
fundamentais, nem eximido dela por negligência ou carência de recursos
materiais. Situação esta que fica agravada quando medidas econômicas
restritivas impostas de fora ao país pesam negativamente sobre a população.
Concluo aqui a minha peregrinação, mais continuarei a rezar fervorosamente para
que sigam em frente e Cuba seja a casa
de todos e para todos os cubanos, onde convivam a justiça e a liberdade, num
clima de serena fraternidade.”
Bento XVI, agora papa emérito, passou quatro dias em Cuba. Além de
Havana, visitou Santiago. À margem do programa oficial, reuniu-se com Fidel
Castro, que deixou o poder em 2006, transferindo a presidência a seu irmão
Raúl. As visitas de João Paulo II e de Bento XVI contribuíram para melhorar as
relações do governo comunista com a Igreja, embora em ritmo mais lento do que o
desejado.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Internacional
– Domingo, 20 de setembro de 2015 – Pgs. A12-A13. Edição impressa.
“Francisco é hoje o mais importante estadista mundial”
Entrevista com Frei Betto
Teólogo brasileiro
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Carlos Alberto Libânio Christo - conhecido por Frei Betto Religioso dominicano, escritor e teólogo brasileiro |
A
visita de Francisco a Cuba é a terceira de um papa ao país e ganha mais
importância pela aproximação entre Havana e Washington, na qual o pontífice
teve papel fundamental.
"Francisco é, sem
dúvida, o mais importante estadista mundial da atualidade. Ele se empenha na
busca de entendimento e paz entre as nações e não poderia deixar de priorizar
as relações EUA-Cuba", afirma frei Betto, escritor e teólogo brasileiro. Ao jornal O Estado de S. Paulo, ele ressaltou a
"sintonia" da relação do papa com a Teologia da Libertação e avaliou
que a atuação política de Francisco
difere da exercida por Bento XVI e João Paulo II. A seguir, os principais
trechos da entrevista.
Qual
é o principal objetivo da diplomacia papal hoje? Difere da época do papa Bento
XVI?
Frei Betto: Muito diferente. João Paulo
II, em matéria de diplomacia, esteve preocupado em derrubar o Muro de Berlim, e
nisso foi exitoso. Bento XVI não gostava de viajar e muito menos se envolver em
questões diplomáticas. Já Francisco se empenha decididamente em construir
pontes entre as nações, o que justifica seu título de "pontífice",
aquele que faz pontes.
Qual
a importância de um papa latino-americano ter mediado a retomada das relações
diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos?
Frei Betto: Francisco é, sem dúvida, o
mais importante estadista mundial da atualidade. Como americano, demonstra mais
sensibilidade aos problemas de nosso continente do que os antecessores. Ele se
empenha na busca de entendimento e paz entre as nações e não poderia deixar de
priorizar as relações EUA-Cuba, suspensas há mais de 50 anos e retomadas graças
à mediação dele.
Como
o sr. vê a relação de Francisco com a Teologia da Libertação?
Frei Betto: Há plena sintonia entre o
pensamento, as palavras e os gestos de Francisco e os princípios e objetivos da
Teologia da Libertação. Como essa corrente teológica, Francisco prioriza a
"opção pelos pobres", como demonstrou na viagem ao Equador, à Bolívia
e ao Paraguai, e não aponta apenas os efeitos do capitalismo que degrada o meio
ambiente, mas também as causas, como fez na encíclica "Louvado Sejas - sobre o cuidado de nossa
casa comum".
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Livro de Frei Betto contendo suas conversas com o líder cubano Fidel Castro. Publicado em 1985, em Cuba |
Muitas
pessoas passaram a prestar mais atenção ao papa após os discursos de Francisco.
O sr. já conversou com ele? Qual a impressão que teve?
Frei Betto: O papa me recebeu no dia 9
de abril de 2014, durante a audiência pública das quartas-feiras, no setor de
convidados especiais. Agradeci a ele o apoio dado às Comunidades Eclesiais de
Base do Brasil, em carta que ele enviara ao encontro nacional das CEBs; pedi
que valorizasse o papel das mulheres na Igreja (ainda consideradas fiéis de
segunda classe, pois são impedidas de acesso ao sacerdócio); lembrei que a
Ordem Dominicana faz 800 anos em 2016, e solicitei a reabilitação de dois
confrades meus condenados pelo Vaticano, Giordano
Bruno e Mestre Eckhart. Ele me
disse "reze por isso", como quem dá a entender que está de acordo,
mas sabe que não será um processo fácil; e me despedi dizendo Santo Padre, extra pauperis nulla salus - fora dos
pobres não há salvação. Ele reagiu enfático: "Estou de acordo, estou de
acordo".
É
possível comparar a atuação de Francisco na retomada das relações Cuba-EUA com
a de João XXIII ao não cortar relações com o governo de Fidel Castro?
Frei Betto: Francisco comemorará, no
fim de semana que estará em Cuba, 80 anos da relação diplomática entre a Ilha
socialista e a Santa Sé. Jamais se cogitou a ruptura de relações entre os dois
Estados, mesmo nos períodos de conflito entre a Revolução e o episcopado
cubano. Fidel sempre manteve boas relações com os núncios, como sublinha na
entrevista que me concedeu em 1985 e editada sob o título "Fidel e a religião". George W. Bush é que tentou evitar
que João Paulo II visitasse Cuba em 1998, mas fracassou. O papa não só fez a
visita, como também elogiou as conquistas da Revolução nas áreas de saúde e
educação.
O
sr. acredita que o fato de o Vaticano ter reconhecido o Estado da Palestina
pode mudar o rumo do conflito entre Israel e os palestinos?
Frei Betto: Acredito que foi um
importante passo para a defesa dos direitos e a soberania dos palestinos, e
para enfatizar o equívoco da atual política do Estado de Israel em relação ao
Estado Palestino.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Internacional
– Domingo, 20 de setembro de 2015 – Pg. A13 – Internet: clique aqui.
A missão do pontífice em Havana e Washington
Peter Hakim
Presidente
emérito do Diálogo Interamericano
Papa deve usar sua enorme popularidade, sem paralelo
entre outros líderes,
para trazer católicos de volta à fé
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PAPA FRANCISCO chegando à Praça da Revolução em Havana (Cuba) para celebrar a Missa Domingo, 20 de setembro de 2015 |
Realizando
suas primeiras visitas a Cuba e aos Estados Unidos da América (EUA) na mesma
viagem, de uma semana apenas, o papa Francisco deixou claro que procurará
alcançar o mesmo objetivo de João Paulo
II em sua visita à ilha, em 1998, quando pediu que ela "se abrisse para o mundo e o mundo se abrisse para
Cuba". Francisco está perfeitamente a par de quão vital é o esforço de
reconciliação entre EUA e Cuba, no qual desempenhou um papel fundamental.
Francisco,
então recentemente nomeado arcebispo de Buenos Aires, escreveu o livreto O Diálogo
de João Paulo II e Fidel Castro, sobre a visita do papa a Cuba. O
arcebispo argentino ficou fascinado com as conversas entre os dois líderes de
visões e inspirações tão contrastantes, um deles concentrado no indivíduo e
seus direitos, responsabilidades e escolhas, e o outro no papel central da
autoridade do Estado na formação do homem, da mulher e da sociedade.
Não
surpreende que eles, muitas vezes, parecessem entender de maneira equivocada as
respectivas posições, embora também concordaram em algumas coisas. Apesar de sua imagem de anticomunista
aguerrido, João Paulo transmitiu a Fidel - como Francisco posteriormente
externaria - que ele não defendia o
capitalismo sem limites, que ele se opunha às doutrinas neoliberais que se
tornaram populares em muitas partes da América Latina, que achava o embargo
americano a Cuba injusto e causa de sofrimentos desnecessários.
Quando
João Paulo viajou para Cuba, já havia sido aclamado por ter contribuído para
intensificar a resistência polonesa ao governo comunista, ajudando a colocar a
Polônia no caminho democrático, embora, segundo alguns historiadores, seu
impacto tenha sido provavelmente bem mais modesto.
Grandes
também eram as esperança de que ele conseguisse estimular alguma mudança em
Cuba, mas suas realizações na ilha se limitaram a sua preocupação com a
situação da Igreja. O Natal passou a ser
feriado nacional, os católicos não foram mais barrados em empregos no serviço
civil, inclusive nos mais altos escalões, e à Igreja foi concedida alguma
autonomia em relação ao governo, o que a tornou a única organização
independente, embora modestamente, no país.
Os
cubanos chegaram a emendar a Constituição para transformar o seu país num
Estado secular, e não mais ateu, mas não conquistaram novos direitos nem
liberdades. Toda oposição ao governo continuou sendo proibida e punida, além de
praticamente todos os aspectos da economia permanecerem nas mãos do Estado.
Em
contraste com as visões conservadoras anticomunistas, atribuídas a João Paulo
II, Francisco chegará a Cuba com uma
reputação progressista, até mesmo esquerdista. Ele também chega numa época
diferente. O governo cubano está hoje desistindo gradativamente do seu
monopólio do poder sobre a economia e permitindo o surgimento de alguma
iniciativa individual - embora a um ritmo lento demais para sanar os profundos
problemas econômicos da ilha.
Há
até mesmo esperanças, certamente mais do que antes, de certa abertura política.
De fato, alguns cubanos já falam em acesso moderadamente crescente à informação
e um aumento da tolerância na discussão, mesmo da discordância, embora não para
a dissidência, que o governo trata tão duramente quanto antes.
Francisco provavelmente
insistirá e implorará às autoridades cubanas para que concedam aos cidadãos
maior liberdade, não apenas de religião, mas também de expressão e de
associação, e o direito de discordar ou mesmo de dissentir e de se opor. Mas, provavelmente,
expressará também seu empenho na defesa da igualdade e da inclusão, sua
profunda preocupação para que se evite o materialismo excessivo e o consumismo,
o que a liderança cubana considerará um elogio.
Francisco
fará um voo direto de Santiago de Cuba até a Base da Força Aérea de Andrew, nos
arredores de Washington, onde enfatizará seu constante empenho na normalização
dos vínculos entre EUA e Cuba - e na importância dela para o avanço de uma
maior abertura política e econômica de Cuba.
Indubitavelmente,
o papa decepcionará os que, tanto nos EUA quanto em Cuba, querem que ele
condene profundamente os constantes abusos dos direitos humanos na ilha, suas
graves restrições às liberdades fundamentais e exija mudanças mais rápidas do
governo, antes de que sejam dados novos passos para a reconciliação.
Como
tem feito até este momento, Francisco
continuará pragmático e realista na consecução de seus princípios e metas. Ele
sabe muito bem que Cuba não pode se transformar da noite para o dia. Ela
evoluirá, se é que isto seja possível, muito gradativamente, e a paciência
aliada à persistência, a prazo mais longo, é o caminho mais viável para uma
abertura sustentada e para assegurar que a Igreja e o papa continuem
desempenhando um papel maior no processo ao longo do tempo. Os esforços para acelerar a mudança poderiam
resultar numa resistência por parte dos líderes cubanos, que continuam profundamente
desconfiados de toda interferência externa nos assuntos do país.
O
papa tem outros interesses na ilha, além da reaproximação com os EUA. Ele quer
que os governos da América Latina e da Europa se empenhem mais profundamente
com a questão de Cuba e assumam uma maior responsabilidade na ajuda ao país
durante o período de transição econômica, política e social que será difícil. O papa aproveitará sua visita para reforçar
a presença da Igreja no país, aumentar substancialmente o número ainda pequeno
de fiéis católicos, promover a persistente expansão da autonomia e da
influência da Igreja na ilha e possibilitar a comunicação efetiva da mensagem
católica.
Cuba
permanecerá uma preocupação predominante para o papa ao chegar aos EUA, onde
deverá pedir o levantamento do embargo e a retirada de outros obstáculos ao
bem-estar econômico e social da população cubana. Mas, em Washington, Filadélfia e
Nova York, Francisco tratará também
de outras prioridades. Particularmente quando se dirigir ao Congresso americano,
considerando a necessidade de políticas
mais humanitárias em relação à imigração, com certeza estará no topo de sua
lista diante da terrível crise dos
refugiados no Oriente Médio e na Europa, e o discurso desagradável e às
vezes odioso do Partido Republicano sobre os migrantes e a migração. Não surpreenderá se Francisco tratar
energicamente da questão da mudança
climática no Congresso, que é um obstáculo obstinado à ação internacional
para a solução deste problema global.
Além
disso, como sempre, ele levantará sua voz para a necessidade de tratar dos
enormes desafios representados pela desigualdade, pela pobreza e pela exclusão
no mundo todo. O papa está plenamente consciente da necessidade de sutileza e
de moderação na defesa dos direitos humanos, da mudança democrática e da
liberdade de expressão em Cuba. Será muito mais direto ao expor aos líderes
políticos as questões que, na sua opinião, eles não podem mais ignorar.
Finalmente,
nos EUA, o papa terá muitos problemas
relativos à própria Igreja com os quais se preocupar. Embora tenha o apoio
e a admiração da grande maioria dos católicos americanos, deverá enfrentar questões sensíveis, como os vários escândalos de
pedofilia e acobertamento que envolvem sacerdotes e bispos em todo o país.
Não
há dúvida de que a Igreja Católica,
que há muito tempo vem perdendo seguidores, precisa de uma nova carga de energia. Tanto em Cuba quanto nos EUA,
o problema mais complexo para Francisco é descobrir de que maneira poderá usar
sua enorme popularidade, que não encontra paralelo entre os outros líderes
mundiais, para trazer os católicos de volta à fé.
Traduzido por Anna Capovilla.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Internacional
– Domingo, 20 de setembro de 2015 – Pg. A16 – Internet: clique aqui.
Nos Estados Unidos, papa precisa atrair conservadores
Entrevista
com Massimo Faggioli
Teólogo e Historiador da Igreja Católica
Cláudia
Trevisan
Para professor de Teologia, pontífice deve usar visita
para criar laços
entre o Vaticano e a Igreja americana
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MASSIMO FAGGIOLI Teólogo e Historiador de Igreja Católica nos EUA |
A
visita que o papa Francisco fará aos Estados Unidos da América (EUA) a partir
de amanhã terá o objetivo de construir
ligações entre o pontífice e segmentos da população que veem com desconfiança
suas posições, avalia Massimo Faggioli, professor de Teologia da Universidade de St. Thomas, em
Minnesota. “A maioria dos bispos
americanos não gosta dele e muitos católicos americanos não o entendem”,
disse Faggioli, especialista em história da Igreja Católica e autor de livros
sobre o assunto, em entrevista ao jornal O
Estado de S. Paulo. Faggioli acredita que os principais temas da vista aos
EUA serão a questão ambiental, a justiça social e a economia moderna, mas espera que Francisco use uma linguagem
diferente da usada em sua visita à Bolívia. A seguir, trechos da entrevista.
Quais
serão os principais temas da visita do papa aos EUA?
Massimo Faggioli: Criar uma relação de
Francisco com a igreja nos EUA, uma relação que tem sido difícil desde o
começo. Não apenas porque o papa é da América Latina, e americanos tendem a ter
uma perspectiva particular sobre a região, mas porque ele é um católico
latino-americano radical. A maioria dos bispos americanos não gosta dele e
muitos católicos americanos não o entendem, não confiam em seu julgamento em
questões como aborto, sexo e dinheiro. Acredito que ele tentará ser mais compreendido, não colocará ênfase nos temas
tratados normalmente pelos bispos nos EUA, como casamento entre pessoas do
mesmo sexo e aborto. O foco deverá ser a questão ambiental, a economia moderna
e a justiça social.
A
tensão existe porque ele tem uma visão mais tolerante?
Massimo Faggioli: Não diria mais tolerante,
mas ele sabe que nas últimas duas ou três décadas a Igreja Católica se tornou
um agente da moralidade, o que afastou muitas pessoas. Em termos de estratégia,
a Igreja tem de mudar a linguagem.
Também há a ideia de que quando falamos dos temas sexualidade e aborto, não
podemos fazer julgamentos sem entender o contexto. Para o papa, esse contexto é
como a sociedade e a economia moderna se desenvolvem. Na carta do jubileu sobre
aborto, ficou claro que ele sabe as dificuldades de mulheres que não têm outra
escolha além do aborto. Ele não trata
essas questões de maneira abstrata, elas são parte de situações existenciais
complexas – pessoas não têm dinheiro, acesso à assistência médica. Nos EUA,
isso não foi feito pelos líderes da Igreja.
Eles
tendem a ser mais conservadores?
Massimo Faggioli: É a ideia típica da cultura conservadora dos EUA de que tudo gira em torno da responsabilidade
pessoal. Se você é pobre, é porque não trabalha. Se fez um aborto, é porque
não acredita que isso seja ruim. Francisco
tem um entendimento mais social. Se queremos tratar da questão da família,
do casamento e do aborto, temos que falar do sistema social que às vezes obriga
as pessoas a tomarem essas decisões ruins. Isso os bispos dos EUA não fazem. Em grande parte eles usam uma linguagem
conservadora para apresentar essas questões – você tomou essas decisões e só
você é responsável por elas. A linguagem do papa é diferente. Ele não mudou
o que a Igreja diz sobre aborto, mas mudou a maneira como devemos tratar o
problema.
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Católicos norte-americanos em Oklahoma, capital do Estado homônimo |
A
parcela de católicos na população dos EUA está diminuindo?
Massimo Faggioli: Não está reduzindo graças
aos imigrantes da América Latina. Sem eles, a Igreja Católica nos EUA seria
muito menor. Se ainda é grande, isso se deve em grande parte aos imigrantes.
Muitas
posições do papa coincidem com prioridades da agenda política do presidente
Barack Obama. Há o risco de o papa afastar os republicanos?
Massimo Faggioli: O risco existe e ele já
afastou alguns católicos republicanos. Acredito que nos EUA ele tentará
construir pontes entre o Vaticano e a Igreja americana e entre diferentes tipos
de católicos. Obama e Francisco têm uma relação muito boa e o protocolo da
visita enfatizará isso. O presidente irá
com a família ao aeroporto receber o papa, o que não é usual. Francisco
tentará estender a mão aos que não entendem o que ele fez até agora. Ele tentará se apresentar também para os
que se distanciaram e não captaram suas intenções.
Mas
ele tratará de justiça social, meio ambiente... O desafio será fazer isso e ser
inclusivo?
Massimo Faggioli: Exatamente. O papa
demonstrou uma habilidade incrível de fazer diferentes coisas, nos surpreendeu.
Os EUA são mais difíceis por muitas razões. É uma Igreja muito mais polarizada e dividida ideologicamente. Há dois partidos políticos e duas maneiras
diferentes de ser católico. É uma Igreja única, muito viva, mas dividida,
que saiu de uma crise difícil em relação ao escândalo de abusos sexuais.
A
divisão é semelhante à partidária?
Massimo Faggioli: Mais ou menos. Há dois
tipos de católicos que em grande parte coincidem com as culturas políticas: os
católicos democratas e os republicanos.
A
mensagem dele ecoou mais entre os católicos democratas?
Massimo Faggioli: Por enquanto sim. Mas
Francisco não convenceu os defensores do casamento entre pessoas do mesmo sexo
ou as teólogas feministas, por exemplo. A maioria dos democratas gosta dele e a
maioria dos republicanos, não. Mas há exceções.
O
papa fez fortes críticas ao capitalismo e à idolatria do dinheiro. Isso é
percebido de maneira negativa nos EUA?
Massimo Faggioli: Sim. A religião do livre mercado é a verdadeira religião nacional da América.
Quando você critica isso, você faz inimigos. Eu espero que ele fale sobre a
economia moderna e o capitalismo de maneira diferente da que falou na Bolívia.
Eu ficaria surpreso se ele usasse a mesma linguagem. Ele manterá a mensagem,
mas terá em mente que a história dos EUA é muito diferente.
Há
uma desconexão entre a Igreja e a posição dos católicos americanos em relação a
divórcio, casamento entre pessoas do mesmo sexo. Essa é a principal razão da
perda de fiéis?
Massimo Faggioli: É uma delas. Se você ler
artigos de conservadores católicos americanos brancos, eles dizem que a Europa
está perdida e os católicos deixaram a Igreja. O que eles não aceitam é a ideia
de que o cenário do catolicismo na América, quando falamos de católicos
brancos, não é muito diferente do europeu. Isso é difícil para eles aceitarem
porque é parte dessa ideia de que a América ainda é religiosa e a Europa,
pós-religiosa, secular, ateia. Esse papa
está dizendo que a Igreja nos EUA é importante, mas não é a melhor. Não há
nenhuma Igreja Católica melhor que a outra.
Como
ele está dizendo isso?
Massimo Faggioli: Está dizendo coisas duras
para os católicos, especialmente os bispos. Não está tratando a Igreja Católica
americana como especial. Isso se reflete nas indicações que ele fez no Vaticano
e para o Sínodo dos Bispos. O papel que a Igreja Católica americana desempenha
no pontificado de Francisco é o de uma enorme igreja, mas com João Paulo II e Bento XVI, os católicos americanos tinham grande
proeminência e eram muito mais poderosos.
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