Eles, os professores
Evandro
Pelarin*
Quarta
série. Primário. Escola Estadual AA de Resende. Cassilândia, MS. Tia Maria Eva.
Professora rígida, exigente. Havia fila indiana antes da entrada na sala. Ela
passava em revista. Sentávamos depois dela. Copiávamos o ponto em silêncio
absoluto. Aquele que não fazia tarefa ficava em pé. Dez minutos. Como castigo.
Mas ninguém ria. Não havia bullying. Pois haveria penalidade a esses também.
Não
me lembro de reclamação de pais. Ao contrário. Havia disputa para incluir os
filhos naquela sala de aula. Quem não tirava nota suficiente repetia o ano ou,
como a molecada dizia, “bombava”. Não me recordo de algum aluno que tenha
ficado “traumatizado”. Dos que eu reencontrei, meus colegas daquela época estão
todos bem. Aliás, guardam a Tia Maria Eva com amor no coração.
Em
pouco mais de trinta anos, muita coisa mudou no ensino brasileiro. Adotou-se o
socioconstrutivismo. A pedagogia do afeto. A progressão continuada. Mas, pelo
que penso, o que mais se alterou foi a consideração com os professores. Eles
não são mais o centro do sistema educacional. Passaram a coadjuvantes.
O
foco agora é aquilo que o Estado deve doar ao aluno e à família dele. Materiais
escolares, livros e uniformes. Transporte também. Aliás, até bolsa, dinheiro,
para que a criança fique na escola. E a plataforma pedagógica do ensino atual é
formar “cidadãos conscientes”. Tudo isso não existia há trinta anos, pois o que
importava era a aula de matemática, de português, que o professor tinha o dever
de ministrar.
Não
se defende aqui o tempo passado. Não é isso. Até porque, hoje em dia, se um
professor reprimir um aluno que não fez tarefa, como fazia a Tia Maria Eva,
corre o risco de punição administrativa, talvez penal, danos morais,
enquadramento no ECA e o rosto estampado na imprensa, como se fosse um
“agressor” de crianças. Honestamente, acho que o que acabo de escrever não é
exagero. O professor perdeu não apenas a autoridade em sala de aula. Perdeu o
respeito e a presunção de legitimidade de seus atos. Quanto mais, se atuar para
corrigir qualquer aluno.
Visito
escolas há 18 anos, como juiz. Principalmente, as públicas. Já disse isso e
digo novamente. Eu tenho dó dos professores. Entro em algumas salas de aula e
vejo o professor acanhado, com medo, falando baixo. Enquanto a sala está
pegando fogo. Alunos gritando, andando pela sala, quando não pelos corredores.
Ouvi de uma professora, meses atrás, lá na Escola Galante Nora, na Zona Norte,
que ela se sente invisível. Nem é notada na sala. E ela disse isso com
tristeza. Isso mesmo. Os professores estão tristes. Simplesmente, porque não
são respeitados.
Verti
todas as minhas energias, e ainda o faço, para tentar atender aos professores.
Acho que vou terminar minha carreira assim. Esforçando-me por eles. Se a vida
vale a pena quando você se sente útil a alguém, quero ser útil aos professores.
Até porque a lei não mudou. O professor é a autoridade máxima dentro da sala de
aula. E nossa tarefa, do Judiciário, é fazer a lei ser cumprida.
A
Tia Maria Eva, brava, enérgica, levava alunos para a casa dela para aulas de
reforço. Não cobrava nada. Pegava na mão das crianças para ajudar a caligrafia.
A letra bonita. Ela amava os seus alunos. E é por ela que estou aqui.
*
Evandro Pelarin é juiz da Vara da Infância e
Juventude de São José do Rio Preto, interior do Estado de S. Paulo.
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