"O papa fascinou os Estados Unidos."

Entrevista com Massimo Faggioli
Historiador do cristianismo da St. Thomas University (EUA)

Pierluigi Mele
Rai News
(Itália)
28-09-2015

A viagem aos Estados Unidos vai marcar o pontificado do 
Papa Francisco.
Quais serão as consequências imediatas para a Igreja Católica?
Multidões acolheram com entusiasmo e alegria o Papa Francisco nesta viagem aos Estados Unidos

Professor, chegamos à fase final da viagem apostólica do Papa Francisco a Cuba e aos EUA. Uma viagem que marca o pontificado de Bergoglio: a confirmação disso veio com o seu discurso na ONU, a sua liderança espiritual e "política" em nível mundial. É assim?

Massimo Faggioli: O Papa Francisco se confirmou na sua identidade teológica, espiritual e também política na viagem aos EUA, que foi a mais difícil pela distância entre a sua cultura de referência e os extremos das culturas políticas e religiosas norte-americanas. O papa é hoje a autoridade mundial sobre pobreza, justiça social e ambiente. Mas outra coisa é transformar essa autoridade em uma mudança de direção das políticas sobre questões concretas.

A viagem aos EUA, que parecia mais "complicada", foi um sucesso. Qual foi a "chave" desse sucesso?

Massimo Faggioli: A chave está no estilo simples e pastoral que o caracteriza também em Roma; uma preparação cuidadosa da viagem e dos discursos; a escolha de se encontrar com a Igreja norte-americana "onde ela está", sem pretender que seja como a italiana ou a sul-americana; ao mesmo tempo, a escolha de uma mensagem que é diferente da retórica combativa e reivindicativa dos bispos norte-americanos, especialmente sobre as questões sensíveis do casamento, da família e da homossexualidade.

O ciclone Bergoglio investiu sobre a Igreja norte-americana, uma Igreja dividida. Ele vai mudar a vida da Igreja norte-americana?

Massimo Faggioli: Veremos em breve por parte dos bispos: dos norte-americanos que estarão no Sínodo, que se abre na próxima semana, e da próxima assembleia da Conferência Episcopal Norte-Americana. Será preciso esperar. O que é certo é que os opositores de Francisco parecem ser um grupo mais abatido e isolado hoje. Aquela grande parte dos bispos norte-americanos que aprecia Francisco virá à tona.

O discurso no Congresso dos EUA foi uma obra-prima política. Como ele foi vivido pela política dos EUA? Terá uma influência na campanha presidencial?

Massimo Faggioli: Eu acho que não: a política norte-americana vive hoje em uma bolha separada, também por causa dos sistemas de financiamento e de corrupção legal. Além disso ambos os partidos hoje estão divididos no seu interior, especialmente o partido mais religioso, o Republicano. Mas o discurso do papa no Congresso lembrou aos católicos e especialmente aos políticos católicos uma série de questões – não apenas as de moral sexual – que estão na base do ensinamento moral e social da Igreja.
 
Massimo Faggioli
Historiador do Cristianismo
St. Thomas University - Estados Unidos
Como a minoria "hispânica" viveu a visita do papa?

Massimo Faggioli: Como uma bênção e uma confirmação no seu papel: é uma minoria forte que em breve se tornará maioria, mas que ainda é invisível em grande parte dos ambientes que importam da Igreja Católica norte-americana.

Qual é a mensagem que vai aos europeus a partir dessa viagem?

Massimo Faggioli: Que a Igreja global também significa uma Igreja pós-europeia e pós-norte-americana. Nisso, a Europa e a América do Norte estão em duas situações semelhantes (mesmo que a Europa esteja mais secularizada). Trata-se de reconhecer que não existe mais um monopólio cultural sobre o catolicismo global por parte de uma cultura só.

Última pergunta: o outro desafio de Bergoglio será o Sínodo... A linha de Bergoglio vai vencer?

Massimo Faggioli: Na visita aos EUA, o papa deixou clara a sua abordagem não ideológica às questões do Sínodo. Resta ver todo o resto. Acredito que o Sínodo será uma etapa importante durante um processo que não vai terminar no dia 25 de outubro.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Para acessar a versão original desta entrevista, clique aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 29 de setembro de 2015 – Internet: clique aqui.


Um discurso e uma visita históricos:
Papa Francisco na sede da ONU, Nova York
Ele uniu meio ambiente com exclusão social

Victoria Ginzberg
Página/12
(Argentina)
26-09-2015

O discurso fez referências à agenda sobre o desenvolvimento sustentável e a futura cúpula do clima que se realizará em Paris. Bergoglio vinculou os problemas do ambiente aos da pobreza, da exclusão e da exploração econômica. 
PAPA FRANCISCO
Acompanhado do Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon adentra à sede das Nações Unidas
e é acolhido com entusiasmo pelos funcionários
Sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Papa Francisco entrou no recinto da Assembleia Geral das Nações Unidas pouco antes das dez da manhã. Caminhou devagar pelo corredor enquanto representantes de todo o mundo o aplaudiam de pé. Os eixos do seu discurso foram os problemas ambientais e a exclusão social. Mas não como dois temas separados, mas interligados. Também vinculado a ambos os assuntos, Jorge Mario Bergoglio assegurou que os organismos financeiros devem “velar pelo desenvolvimento sustentável e pela não submissão asfixiante aos sistemas de crédito que, longe de promover o progresso, submetem as populações a mecanismos de maior pobreza e dependência”. Os primeiros aplausos vieram quando mencionou que todos os países devem ter a mesma participação no Conselho de Segurança da ONU e nas instituições econômicas internacionais.

Foi um dia atípico na Organização das Nações Unidas (ONU). Era o início da Assembleia Geral e também da Cúpula sobre o Desenvolvimento Sustentável. O organismo, suas autoridades e trabalhadores estão acostumados com as medidas de segurança e os visitantes importantes, já que todos os setembros se reúnem aqui dezenas de chefes de Estado. Esta oportunidade, no entanto, foi especial. Quando ainda era noite e os outdoors da Times Square brilhavam, inclusive um gigante com a figura de Francisco, com o qual o governo da cidade de Nova York lhe deu as boas-vindas, já havia gente esperando para entrar na sede do organismo internacional.

Antes de falar na Assembleia, o Papa teve outras atividades no edifício situado entre a Primeira Avenida e o East River: reuniu-se com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon e com outras autoridades e funcionários e depois falou para alguns trabalhadores do lugar. Os que puderam participar deste último evento foram escolhidos por sorteio. Da mesma forma foram escolhidos aqueles que puderam ver o Papa na procissão no Central Park, na missa no Madison Square Garden ou no percurso da quinta-feira pela Quinta Avenida.

O Papa falou aos funcionários da ONU em inglês: “Vocês são trabalhadores especialistas, funcionários, secretárias, intérpretes, cozinheiros, funcionários da manutenção, pessoal de segurança. Estejam tranquilos que seu trabalho contribui para a manutenção da ONU”. Destacou que vinham de diferentes partes do mundo e pediu “que se respeitem mutuamente, que se preocupem uns pelos outros, que estejam próximos”. Finalmente, pediu “que mandem saudações aos seus familiares e aos colegas que não puderam estar conosco por causa do sorteio”. Dentro do edifício, Francisco fez alguns trajetos em um carrinho tipo golfe e foi aplaudido nos corredores. Quando entrou no salão da Assembleia, também foram ouvidos gritos de apoio.

Bergoglio mencionou que não é o primeiro Papa a falar na ONU, embora Bank Ki-moon tenha dito que nenhum papa tenha participado de uma abertura da Assembleia Geral e lhe agradeceu por “fazer história”. No discurso, fez referências à agenda sobre o desenvolvimento sustentável e a futura cúpula do clima que se realizará em Paris. O tema coincide com a preocupação do Papa, que dedicou sua encíclica Laudato si’ aos problemas do ambiente e os vinculou, por sua vez, aos da pobreza, da exclusão e da exploração econômica. Francisco falou em castelhano e em seguida enviou uma mensagem interna ao organismo internacional sobre a necessidade de que todos os países sejam iguais, inclusive no Conselho de Segurança, onde cinco potências (Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China) têm poder de veto. 
PAPA FRANCISCO
profere um discurso histórico para os chefes de Estado e diplomatas presentes
à Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU)

Também falou de equidade em relação ao sistema financeiro e aos organismos de crédito internacional. “A reforma e adaptação dos povos sempre é necessária, para avançar no objetivo último de conceder a todos os países, sem exceção, uma participação real e equitativa nas decisões. É necessária uma maior equidade nos órgãos com efetiva capacidade, como o Conselho de Segurança, os organismos financeiros ou os grupos especialmente criados para enfrentar crises econômicas, para ajudar a mitigar todo tipo de abuso ou usura com os países em desenvolvimento”.

E prosseguiu: “Os organismos financeiros devem velar pelo desenvolvimento sustentável dos países, evitando uma sujeição sufocante desses países a sistemas de crédito que, longe de promover o progresso, submetem as populações a mecanismos de maior pobreza, exclusão e dependência”, disse em uma menção que na Argentina não pode passar despercebida, nem estar desligada do conflito com os fundos abutres, nem do marco regulatório sobre a reestruturação da dívida soberana que foi aprovada pela Assembleia Geral da ONU há três semanas. O tema, tanto a votação que se fez no organismo internacional por iniciativa da Argentina, como a alusão do Papa, será mencionado seguramente pela presidenta Cristina Fernández de Kirchner, que chegou sábado a Nova York e que falará na segunda-feira na ONU.

Em outras partes mais políticas do seu discurso, Francisco respaldou o acordo que os Estados Unidos e cinco potências fizeram com o Irã e que foi rechaçado pelos republicanos e o Estado de Israel. “É uma prova das possibilidades da vontade política. Faço votos para que seja duradouro e eficaz”.

Vestido de branco, usando os óculos e sua cruz pendurada no peito, o Papa mencionou que “a promoção da soberania do direito, sabendo que a justiça é um requisito indispensável para se realizar o ideal da fraternidade” e que “nenhum indivíduo ou grupo humano pode se considerar onipotente, autorizado a pisar a dignidade e os direitos dos outros indivíduos ou dos grupos sociais”. Disse que é necessário “consolidar a proteção do meio ambiente e acabar com a exclusão”, que “qualquer dano provocado ao ambiente é um dano causado à humanidade” e que o dano ao ambiente vem acompanhado da exclusão.

“A exclusão econômica e social é uma negação da fraternidade humana e um gravíssimo atentado à dignidade humana e ao ambiente. Os mais pobres são aqueles que mais sofrem esses ataques por um triplo e grave motivo: são descartados pela sociedade, ao mesmo tempo são obrigados a viver de desperdícios, e devem sofrer injustamente as consequências do abuso do ambiente. Esta é a cultura do descarte”.

Convidou os líderes mundiais a adotar uma agenda para o desenvolvimento sustentável e alcançar resultados sobre a mudança climática. Mas pediu que as ações não sejam apenas declarativas. “O mundo pede vivamente a todos os governantes uma vontade efetiva, prática, constante, feita de passos concretos e medidas imediatas, para preservar e melhorar o ambiente natural e superar o mais rapidamente possível o fenômeno da exclusão social e econômica, com suas tristes consequências de tráfico de seres humanos, tráfico de órgãos e tecidos humanos, exploração sexual de meninos e meninas, trabalho escravo, incluindo a prostituição, tráfico de drogas e de armas, terrorismo e criminalidade internacional organizada”.

Também fez menções aos temas mais tradicionais da Igreja, como o “direito da família a educar e da Igreja a colaborar com as famílias” e a “liberdade religiosa”. E terminou com uma citação de Martín Fierro: “Os irmãos estejam unidos, porque esta é a primeira lei. Tenham união verdadeira em qualquer tempo que seja, porque se litigam entre si, serão devorados pelos de fora”.

O final foi com aplausos, mas ainda havia uma surpresa: um coro o esperava para cantar Dorme, negrinho, a canção de berço tradicional gravada por Atahualpa Yapanqui e popularizada por Mercedes Sosa. Depois veio Shakira com “Imagine”. Mas o Papa teve que sair, porque tinha uma agenda muito apertada para cumprir.

Traduzido do espanhol por André Langer. Para acessar a versão original deste artigo, clique aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 29 de setembro de 2015 – Internet: clique aqui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A necessidade de dessacerdotalizar a Igreja Católica

Dominação evangélica para o Brasil

Eleva-se uma voz profética