ESTAMOS, MESMO, SEM RUMO!!!
Reações de um governo relapso
Editorial
Como relapso incorrigível, o governo terá de improvisar
um programa,
ou algo parecido, para pelo menos encenar um
esforço de arrumação de suas contas e diminuir o risco
de mais uma agência cortar a nota de crédito do País.
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Fachada do edifício-sede da Agência de Classificação Standard & Poor's que rebaixou a nota do Brasil, colocando-o entre países com risco de investimento |
Também
como todo relapso, o governo chefiado pela presidente Dilma Rousseff reagiu
como se a consequência de seus erros e de seu desleixo fosse uma surpresa.
Na
sexta-feira, dois dias depois de anunciado o rebaixamento do Brasil pela Standard & Poor’s (S&P), os
cidadãos interessados na administração nacional – e o mercado, naturalmente –
ainda esperavam algum sinal concreto de resposta ao novo desafio. Só vagas
promessas e algumas informações extraoficiais sobre medidas em estudo haviam
aparecido. Na sexta de manhã a presidente foi ao Piauí, em busca de aplauso em
mais um evento preparado.
Se houver encenação de
ajuste fiscal, terá de ser curta e logo substituída por ação efetiva. Abusar da boa vontade dos
avaliadores de crédito soberano, se ainda houver alguma, poderá ampliar o
desastre iniciado na quarta-feira, quando a S&P informou a reclassificação
do Brasil para o grau especulativo, reservado aos menos confiáveis. Como consequência da mudança de status do
crédito soberano, 60 empresas foram rebaixadas.
A
lista inclui, além de estatais controladas pelo Tesouro Nacional, empresas
privadas de vários setores. Grandes bancos foram também submetidos à revisão. A irresponsabilidade da presidente Dilma
Rousseff prejudicou, portanto, muito mais que o crédito do governo e das
estatais vinculadas ao poder federal.
Não está claro
se a presidente já percebeu o tamanho do estrago causado por sua inépcia [estupidez] como administradora. Soube do rebaixamento
e cobrou providências dos ministros, mas absteve-se, como sempre, de reconhecer
publicamente seus erros e de pedir desculpas.
Se
a S&P tivesse estendido o rebaixamento só às estatais, o dano já seria
considerável, especialmente por causa da situação da Petrobrás. Saqueada por muitos anos, durante os governos petistas,
a maior empresa brasileira já reconheceu prejuízos, cortou seu plano de
investimentos e iniciou um difícil programa de recuperação. Superendividada por
erros da gestão petista, já teria de se esforçar muito para reencontrar a
segurança financeira. O rebaixamento de
seu crédito pela S&P tornará esse trabalho mais complicado e mais lento.
Também por isso a hipótese de um corte da nota brasileira por mais uma agência
de classificação é assustadora.
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Ministro da Fazenda Joaquim Levy com a Presidente Dilma Rousseff: ambos anunciando mais impostos e sacrifícios ao povo brasileiro! |
Escalado
para dar entrevista depois do rebaixamento do País, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, reafirmou a importância
de uma política ambiciosa de ajuste das contas públicas e de reformas de longo
alcance. Como solução de emergência
defendeu um aumento de tributos. Esse aumento, segundo ele, seria um bom
investimento para os cidadãos, porque facilitaria a volta à prosperidade. Mas,
para falar de investimento, nesse caso, é preciso introduzir um corte na
história e apagar os desmandos cometidos pelo menos a partir de 2010.
A
narrativa real passa longe dessa retórica. De fato, o governo convoca o povo, neste momento, para cobrir, com impostos e
contribuições ainda mais pesados, o buraco financeiro criado pelo mau uso e
pelos desvios dos tributos coletados durante muitos anos. Nenhuma palavra foi dita sobre:
- a distribuição de favores com dinheiro público,
- sobre o desperdício de recursos com uma política econômica de quinta categoria,
- sobre as enormes transferências para o BNDES ou
- sobre o inchaço e o loteamento da administração.
A nova sangria do cidadão
talvez seja inevitável. Só se saberá como será o novo sacrifício quando o governo conseguir,
apesar da própria bagunça, apresentar um plano de ajuste. A presidente e sua equipe mantêm a esperança de recriar, talvez sob
algum disfarce, o malfadado imposto do cheque, a CPMF. Se isso ocorrer, a
desgraça fiscal terá ressuscitado uma aberração tributária, com a cumplicidade
do ministro Levy.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Notas e Informações – Domingo, 13 de setembro de 2015 – Pg. A3 – Internet: clique aqui.
A maldição da herança
Dora Kramer
A canoa virou; foi por causa de Lula e Dilma, que não
souberam remar
O
governo Dilma Rousseff fica cada vez mais parecido com o fim dos governos
Figueiredo e Sarney. A diferença crucial é que o atual mandato da presidente
está no começo. João e José saíram aos farrapos; Dilma, aos frangalhos, talvez
não consiga prosseguir.
Em
qualquer situação, completando o mandato
ou não, deixará ao sucessor uma herança maldita. Não o legado imputado ao
governo Fernando Henrique Cardoso pelo populismo oportunista de Luiz Inácio da
Silva, mas um espólio objetiva e concretamente malévolo que acaba de se
materializar na volta do Brasil ao clube dos países desprovidos de
credibilidade internacional, arrastando junto a Petrobrás, para citar apenas a
maior das várias empresas agora consideradas investimento de risco.
Por ocupar a Presidência,
Dilma personifica o desastre, mas evidentemente não é a única responsável por
ele.
Atribuir responsabilidade só a ela significa ignorar todo o conjunto de uma
obra coletiva construída com a finalidade de submeter o Brasil à dominação de
um partido.
Projeto
que, por força da boa saúde das instituições e do despertar (tardio) da
sociedade, não deu certo, embora tenha provocado desacertos profundos e nos
levado a retroceder 20 anos no processo de recuperação da credibilidade do
País.
Os
governos do PT puseram esse trabalho a perder. Por orientação do chefe, Luiz Inácio da Silva, uma perfeita encarnação
do herói sem caráter descrito por Mário de Andrade. Quando assumiu a Presidência, Lula adotou a política econômica do
antecessor. Foi, por isso, muito elogiado, saudado pela escolha do bom
caminho.
Nessa
visão otimista faltou, contudo, analisar o dado essencial da motivação: nada foi feito por convicção, mas pela
percepção de que ou incorporava as posições do adversário ou não governaria.
De onde não hesitou em incorporá-las na
economia e explorá-las na política ao expropriar o patrimônio dos governos
Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, atribuindo a si a autoria da
estabilização e ao antecessor a maldição de uma herança, na realidade bendita.
Lula
e o PT herdaram uma casa senão totalmente em ordem, muito bem encaminhada com
os pressupostos da reorganização implantados e muitos obstáculos devidamente
removidos ao custo de intensas negociações externas e internas. Aos herdeiros caberia completar o trabalho,
dando prosseguimento às reformas de estrutura e usando os princípios defendidos
por eles desde sempre para, com a força do apoio popular e a presença de um
líder, formar maioria no Congresso mediante parâmetros programáticos.
Como
nem a convicção na economia nem o princípio da ética na política eram genuínos,
evidente que mais dia menos dia a casa cairia. Os escombros soterraram o PT,
mas o conceito do vale-tudo, traduzido na expressão
da presidente Dilma de que é legítimo fazer “o diabo” para ganhar eleições,
levou o País inteiro ao inferno.
Parafraseando
a cantiga infantil, a canoa virou e foi por causa dos governos que não souberam
remar. Agora, nosso descendente de
Macunaíma [Lula] joga a sucessora ao mar jactando-se de ter solucionado uma
crise econômica “cuidando dos pobres”, em mais uma demonstração do cinismo que
presidiu o retrocesso ético que assola o País.
Dilma
fracassou? Já havia sido um fiasco gerencial antes, nos anos 90, quando levou à
falência duas lojas de produtos R$ 1,99 em Porto Alegre. Foi Lula quem garantiu que a dona dos estabelecimentos poderia governar
o Brasil.
Foi
ele também o avalista das alianças políticas financiadas com dinheiro público.
Por essas e possíveis outras que a Polícia Federal pede agora que dê
explicações à Justiça no âmbito da Operação Lava Jato.
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