ESTAMOS, DE FATO, EM CRISE?
As inadiáveis reformas estruturais eternamente adiadas
Entrevista
com Ladislau Dowbor
Maria Inês
Nassif
Engenharia
em Revista
Ano 92 –
Nº 456 – Junho de 2015 – Páginas 16-21
Para economista, país viveu doze anos de avanços, mas
processo atingiu seu limite – e hesitação do governo frustrou mudanças
estruturais indispensáveis.
O
Brasil andou muito nas últimas duas décadas. Obteve um avanço social histórico
desde o governo Lula, mas entrou no “ciclo travado”, a partir do qual sobram apenas duas alternativas:
- ou a coragem para fazer reformas estruturais, eternamente adiadas,
- ou o recuo.
Jamais
ficar no mesmo lugar.
O
raciocínio é do incansável economista
Ladislau Dowbor, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Do
alto de um invejável currículo acadêmico – graduação em Lausanne, doutorado em
Varsóvia, professor em Coimbra – e profissional, Dowbor carrega consigo uma
vocação de eterno militante.
[ .
. . ]
No
centro de seu pensamento está a constatação de que o rentismo impôs uma ciranda de juros elevados para rolagem da dívida
pública e alto custo do crédito para pessoas físicas e jurídicas. E essa
realidade se traduziu, na prática, em um severo limite ao ciclo de crescimento
baseado no mercado interno, iniciado no governo Lula. É com alma de militante
que Dowbor tem participado de todas as intermináveis reuniões que acontecem em
São Paulo desde o início do ano entre intelectuais, e professa uma “oposição”
que se traduza numa unidade de forças
progressistas capazes de empurrar o governo para a esquerda, garantir os avanços conquistados de
direitos civis, políticos e sociais desde a Constituinte de 1988 e romper
com o que ele chama de “ciclo travado”,
ou seja, as limitações impostas por uma
elite financeira ao desenvolvimento pleno do país.
A
partir de agora, ou o país banca reformas estruturais, inclusive uma reforma
financeira, ou retrocederá de um período de quase três décadas de avanços
contínuos – sociais, econômicos e políticos. Ladislau Dowbor concedeu esta entrevista, em São Paulo, logo depois
de uma rodada de debates sobre o futuro do Brasil entre os integrantes do
chamado “Fórum Brasil 21”, que tem
por objetivo definir uma agenda política comum para as forças progressistas do
país. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu à jornalista Maria Inês Nassif.
Um
acumulado de impasses
O
Brasil hoje vive vários impasses. Um deles tem dimensão internacional e sofre o
impacto de movimentos especulativos, sobretudo no mercado de commodities [produtos minerais, agrícolas e pecuários].
Nos últimos 12 meses, o minério de ferro,
por exemplo, que tem um grande peso na pauta de exportações brasileiras, perdeu
40% do seu valor; a soja, a laranja e outras commodities encolheram
entre 20% e 30%. São cifras bastante significativas. No plano interno, o país vive um limite estrutural. O Brasil
conquistou um conjunto de avanços, em particular nos governos de Lula e no
primeiro governo de Dilma, mas os processos de expansão das políticas sociais
chegaram a um limite, a partir do qual são necessárias mudanças estruturais.
As
eternamente adiadas reformas de base não são mais adiáveis.
A
resistência das elites e a crise política
Nesta
tensão, a resistência das elites mostra-se extremamente forte. É por isso que a
crise que se gera é essencialmente
política. Não há base para falar numa crise de enormes proporções, ou que o
país está quebrado, ou ainda que vá quebrar. Isso não faz o mínimo sentido.
Podem até ocorrer ajustes que levem a uma racionalização de gastos do governo,
mas isto não anula simplesmente a realidade de que o país está num ciclo de
avanços absolutamente impressionante.
Socialmente,
o Brasil mudou a sua cara. Entre 1991 e 2010, o brasileiro, que vivia até 65
anos, passou a viver 74 anos; em 2012, já vive 75 anos; ou seja, estamos
falando de um país onde os brasileiros vivem 10 anos a mais. A mortalidade
baixou de 30 por mil para 15 por mil. Isso resulta de uma convergência de
mudanças: essas pessoas passaram a ter uma casa mais decente, a comer, são
beneficiários da expansão do serviço básico de saúde, o SUS etc. São fatores
que convergem para uma expansão do tempo de vida e para a redução da
mortalidade infantil – e, convenhamos, dividir pela metade a mortalidade
infantil é um gigantesco avanço. Além disso, temos um conjunto de outros
números já conhecidos: a criação de 20 milhões de empregos formais e 40 milhões
de pessoas que saíram da miséria.
Segundo
dados do Atlas das Regiões Metropolitanas
elaborado conjuntamente pelo PNUD, Ipea e Fundação João Pinheiro, houve uma
redução drástica da pobreza em todas essas regiões e um aumento dos Indicadores de Desenvolvimento Básico
(IDB). Mais recentemente foram divulgados os Indicadores de Progresso Social, o IPS, que acompanha 54
indicadores que são o PIB, e coloca o Brasil no 42º lugar entre 130 países,
puxado para baixo essencialmente pelo problema da segurança, que é o ponto
crítico e está diretamente ligado ao problema da desigualdade.
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Rubens Ricupero Jurista, diplomata e economista Diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP - São Paulo), e presidente do Instituto Fernand Braudel |
O
sistema financeiro emperra a locomotiva
Escrevi
um documento chamado Bancos: o peso morto da economia brasileira,
em que eu descrevo como os juros internos da economia esterilizam as ações de
política econômica social. O Rubens Ricupero
e o Bresser Pereira, que foram
ministros da Fazenda e entendem disso, aprovaram as minhas anotações. O
capitalismo financeiro impõe severas limitações ao momento seguinte desses
avanços sociais, ao avanço do Brasil em direção ao futuro. Está em curso um processo de globalização financeira mundial que torna
difícil ao país adotar políticas macroeconômicas independentes e as reformas
financeiras que são necessárias. Quando se cobra nos crediários mais de 100% de juros, a intermediação financeira está se
apropriando da metade da capacidade produtiva da população. O imenso esforço
que o Brasil fez de redistribuição e de inclusão no mercado de dezenas de
milhões de pessoas, os bancos, os comerciantes com crediários, as
administradoras de cartões de crédito capturaram. As instituições de crédito sugaram a capacidade de compra da
população, e dessa forma esterilizaram a dinamização da economia pelo lado da
demanda. Os juros para pessoas jurídicas são absolutamente escorchantes, o
que trava também a economia pelo lado do investimento. Os empresários já tendem
a investir pouco quando a economia está travada. Quando, ainda por cima,
adquirir equipamentos e financiar empresas custa de 40% a 50% de juros, então
esqueça de novos investimentos.
Veja
o poder político que esses grupos têm para obrigar o governo americano, o Banco
Central Europeu, Bruxelas, a encontrar trilhões de dólares em poucos meses,
quando os recursos são escassos para resolver o problema da destruição ou da
pobreza.
“A
financeirização não é abstrata. Grupos financeiros controlam os conselhos de
administração das mais diversas empresas e ditam as políticas das corporações”.
Sobre este tema, clique
abaixo e assista a uma
entrevista do Prof.
Dowbor à TV Gazeta:
A
urgente reforma financeira
Sem
dúvida, são urgentes as reformas
política e tributária, mas é igualmente central uma reforma financeira em profundidade.
O
componente rentista da crise é parte de minha análise. Na minha avaliação, o
fator central dessas limitações ao futuro é que não temos mecanismos de canalização adequada dos recursos do país.
O Brasil tem uma renda per capita de US$ 11 mil – e isso é um nível de renda de
um país rico. O nosso país também domina tecnologias e tem instituições. Não
existem razões plausíveis para a economia não funcionar. Contudo, a
generalização da inclusão social e a redução dos desequilíbrios internos
esbarram em razões estruturais.
O
Brasil andou para frente nas últimas duas décadas
No Atlas Brasil 2013 de Indicadores de Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH), se compararmos os índices de 1991 e 2010, observamos avanços
espantosos. Em 1991 nós tínhamos 85% dos municípios do Brasil que tinham um IDH
muito baixo, inferior a 0,50. Em 2010 apenas 32 municípios estavam nessa
situação, ou seja, 0,6%. Essa é uma mudança extremamente profunda e estrutural.
O Brasil começou a se transformar, na
fase anterior ao governo Lula, com a aprovação da Constituição de 1988, que
criou regras do jogo democrático que permitiram o início dos avanços.
Foi
um avanço também a ruptura com a inflação. Afinal, numa hiperinflação não se
consegue fazer administração do setor público.
Tudo
isso viabiliza uma série de avanços significativos na década de 1990. A partir
do governo Lula isso se sistematiza, e os avanços se tornam extremamente
poderosos.
Mundo
em explosão
Nós
estamos num ano crítico em termos mundiais. Chegamos a limites críticos de destruição do planeta. Em 40 anos, destruímos 52% da vida
vertebrada do planeta. O relatório da WWF [World Wide Found for Nature é uma organização não governamental
internacional que atua nas áreas da conservação, investigação e recuperação
ambiental] é dramático: nós estamos
esterilizando solo e liquidando a cobertura florestal.
Além
desses problemas na área ambiental, persistem também um conjunto deles na área
da desigualdade. O relatório da Oxfam [é
uma confederação de 13 organizações e mais de 3000 parceiros, que atua em mais
de 100 países na busca de soluções para o problema da pobreza e da injustiça,
através de campanhas, programas de desenvolvimento e ações emergenciais.] sobre
a desigualdade é devastador. Nós temos
85 famílias que têm mais patrimônio acumulado do que a metade mais pobre da
população, ou seja, 3,5 bilhões de pessoas. Se você junta o ambiental e o
social, conclui-se que o mundo está explodindo.
Coffee
Party
O Tea Party paralisa os Estados Unidos.
Estes mesmos grupos estão querendo um Coffee
Party no Brasil. Partem do mesmo
fundamentalismo, do mesmo discurso radical conservador sem propostas. O que
eles querem, afinal? Aumentar a desigualdade?
“O
capitalismo financeiro impõe severas limitações ao momento seguinte dos avanços
sociais, ao avanço do Brasil em direção ao futuro”.
O
caminho é olhar para dentro…
Se
entendermos as transformações que ocorrem interna e externamente – estamos numa
crise planetária e numa volatilidade extrema, inclusive dos preços das
commodities –, o caminho que temos de
trilhar torna-se claríssimo. O Brasil
é um país muito grande, de mais de 200 milhões de habitantes, e tem tranquilamente 100 milhões de pessoas
que precisam melhorar a situação de vida. Nós temos, portanto, como crescer
na fronteira interna. E quando a área externa é extremamente insegura, nada
como reforçar a base interna de desenvolvimento. Isso implica manter e
aprofundar as políticas de inclusão e de distribuição de renda, mas garantindo
que isso ocorra simultaneamente às transformações significativas no sistema
financeiro.
Um
futuro em suspenso
O
caminho para frente é o aprofundamento da luta contra a desigualdade por meio
da inclusão produtiva, da expansão dos programas sociais e coisas do gênero. A
oposição que devemos fazer nesse momento não é contra a presidente Dilma
(Rousseff), mas para que ela avance muito mais e retome os processos que tinham
sido anunciados.
Uma
crise para travar o ciclo
A
imbricação entre a situação internacional e a situação econômica interna com o
seu respectivo embasamento político trava as reformas estruturais que são
indispensáveis à continuidade do processo.
É
um ciclo travado, mas não acho que a direita tem qualquer coisa coerente a
propor. Não está conseguindo propor nada de coerente nem nos Estados Unidos,
nem na França, nem na Grã-Bretanha, nem em lugar nenhum. Por todo lado está
surgindo um Podemos [movimento
espanhol], ou um Syriza (partido
grego de esquerda). Os Estados Unidos estão paralisados em termos de capacidade
de governo.
Capital
financeiro contaminou a produção
O
capital financeiro tornou-se hegemônico de uma maneira que desconhecíamos até
2011. Naquele ano, foi divulgado o relatório do primeiro estudo mundial sobre o
sistema corporativo internacional, produzido pelo Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica (ETH), que
corresponde ao MIT [Massachusetts
Institute of Technology em Boston, nos Estados Unidos] da Europa e tem 31
prêmios Nobel de Tecnologia, a começar por Albert Einstein. Uma fonte
absolutamente inatacável.
Segundo
o estudo, 737 grupos do planeta
controlam 80% do valor das empresas transnacionais. Destes, 147 grupos, dos quais 75% são bancos, controlam 40% do sistema
mundial. A financeirização, portanto, não é abstrata, um mecanismo diluído
ou misterioso. Esses grupos financeiros
controlam os conselhos de administração das mais diversas empresas e ditam as
políticas das corporações. Como são grupos financeiros que têm
participações acionárias poderosas em empresas produtivas, eles dizem a essas
empresas o que fazer: “Nós queremos uma rentabilidade de tanto, senão tiramos o
nosso capital e quebramos a empresa”. Se
uma empresa decide adotar uma política ambiental mais sustentável, ou qualquer
outra coisa que pode afetar a rentabilidade da empresa, esquece.
Centenas de exemplos de
fraudes das mais variadas corporações internacionais, como as cometidas por
empresas farmacêuticas, de agrotóxicos ou os próprios bancos, têm o objetivo
central de gerar lucros. Essa estrutura mundial de poder foi suficientemente forte para, na
crise de 2008, levar trilhões de dólares de governos para socorrer os bancos
que haviam se excedido nos processos especulativos e estavam desequilibrados.
Um socorro para os grupos financeiros que criaram a crise.
A
contaminação da Justiça
O
poder das corporações está estampado na votação, pelo Supremo, da ação de
inconstitucionalidade do financiamento empresarial de campanhas políticas. As
corporações não votam nem devem ter interesses políticos próprios. É legítimo a
Federação de Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) ser um instrumento de
participação política das corporações. Mas uma
corporação comprar um mandato para um deputado ou senador, financiando-o,
certamente isso não é certo. Seis juízes do Supremo, portanto a maioria, já
votaram pela inconstitucionalidade do financiamento empresarial e um único, Gilmar Mendes, ligado a interesses
evidentes, pede vistas antes das eleições. Esta única pessoa transformou
radicalmente o perfil do Congresso que foi eleito em seguida, pois se tivesse sido proibido o financiamento
empresarial antes das eleições, os candidatos não poderiam ter mantido o
vínculo com as corporações empresariais. Isso também é uma medida do grau
de aprisionamento da política pelo Judiciário, pelas corporações e pela mídia,
e coloca como objetivo central das forças progressistas resgatar o processo
democrático da órbita do poder econômico.
Crédito
a Fernando Henrique, mas em termos
É
creditado ao governo Fernando Henrique Cardoso a ruptura com o processo
inflacionário, o que é correto. Mas, segundo o The Economist, em 1992 o mundo tinha 44 países com hiperinflação, e
todos eles liquidaram esse problema pela razão simples de que não se abriria a
eles a possibilidade de participar do sistema financeiro que se
internacionalizava se não resolvessem seus processos inflacionários. A globalização financeira, a formação do
sistema especulativo, a chamada financeirização era incompatível com economias
que tinham moedas não conversíveis, que mudavam de valor no decorrer do dia.
A
articulação do rentismo com a mídia
O
maior jornal econômico do país, por exemplo, em fevereiro publicou uma matéria
que contém um quadro com as projeções de inflação, com o título: “O que os economistas esperam”. E são
listadas 21 “apostas” em índices inflacionários feitas por economistas de
instituições. Entre eles, não tem nenhum Amir
Khair, um Luiz Gonzaga Belluzzo,
uma Tânia Bacelar, um Rubens Ricúpero, um Bresser Pereira ou um Márcio Pochmann; sequer um IBGE ou um
DIEESE. Apenas de bancos ou consultorias ligadas ao mercado financeiro – e
ambos ganham com a inflação. Esses
economistas geram expectativas inflacionárias que se autocumprem, pois os
agentes econômicos acompanham as expectativas e elevam preventivamente os
preços.
Existe um trabalho de
chantagem e contaminação pelo aceno do “risco inflacionário” – e todos sabem que a
inflação é um golpe mortal em termos políticos. Esse tipo de chantagem segura o
governo pelo pescoço. A inflação virou
arma ideológica.
Uma
crise civilizatória
Não
há mais pobres como antigamente. As pessoas hoje sabem que podem ter uma saúde
decente para os seus filhos, acesso à educação decente e a outros direitos.
Nesse sentido vivemos uma crise civilizatória. Não é simplesmente uma crise
global que o mundo enfrenta. O volume de
recursos apropriados pelos intermediários financeiros seria suficiente para
enfrentar tanto a reconversão tecnológica que o meio ambiente exige, com os
investimentos de inclusão produtiva que a dinâmica social determina.
Isso
seria conferir uma outra articulação do sistema financeiro, pois ele não é só
moeda, mas o direito de alocar os recursos onde eles são necessários. A função da moeda não é a especulação
financeira. Essa é a reconversão que temos pela frente, que une a oposição
propositiva que queremos criar no Brasil. Daqui saíram US$ 520 bilhões para
paraísos fiscais, ou 25% do PIB, dinheiro que daria para financiar Deus e o
mundo.
Rentismo,
um obstáculo
O rentismo é um conceito que se vincula
ao mercado internacional, que gerou uma
espécie de elite que vive dos juros, não da produção. E isso tem uma enorme
profundidade no país. O Santander,
por exemplo, que é um grande grupo mundial, tem cerca de 30% de seus lucros originários do Brasil. Isto é, o
mercado financeiro impõe drenos e também estruturas políticas de poder que
tornam muito difícil a qualquer governo gerar transformações necessárias para
romper essa lógica. De, 2013 a 2014,
Dilma tentou reduzir a taxa Selic e os juros de acesso de pessoas físicas e
jurídicas ao crédito, e a reação foi de pressões políticas muito fortes. E
é curioso como as reações se manifestam. Quando se baixa os juros, nas
televisões, nas rádios, nos jornais, imediatamente se consulta os chamados
economistas que dizem, “é inevitável, a
inflação vai subir”. Em regra, esses
economistas são todos eles de empresas financeiras.
Crise
internacional não é impedimento, mas oportunidade
É
esse contexto internacional que torna fundamental a adoção de medidas inclusivas, a expansão do horizonte
interno econômico. É vital nos basearmos nos objetivos internos da nossa
economia. Nas condições de hoje, apoiar o país no sistema internacional é
suicídio. Nessa perspectiva, superdimensionar o problema fiscal pode ser um
erro, pois há ralos muito maiores no sistema financeiro. O país tem que resgatar o que vaza por sistemas especulativos e para
paraísos fiscais e financiar a inclusão produtiva da maioria da população.
O
Brasil não está quebrado, mas sob ataque
O (Luiz Gonzaga) Belluzzo
diz que as forças conservadoras estão criando, politicamente, uma crise e eu
concordo. O
Brasil não está quebrado. A origem desta crise não está em uma crise econômica
que gera recessão. É uma crise política
criada por uma elite que quer quebrar o sistema, e em grande parte está
conseguindo isso.
A
rigor, essa é a ação que envolve grandes
interesses, em particular interesses internacionais no Pré-Sal e o interesse
dos grandes bancos internacionais que querem manter a mamata da Selic elevada,
pois é um grande negócio aplicar aqui e ganhar 12% de juros, enquanto os Bancos
Centrais da Europa e dos Estados Unidos estão trabalhando com taxas de juros de
0,5%, quando muito 1%.
A tentativa da Dilma de
reduzir a Selic a 7% e de abrir os bancos oficiais para obrigar a concorrência
foi, para esses interesses, um grito de guerra. Tanto que ela teve que
voltar atrás. Mas nós não podemos
continuar a trabalhar para encher o bolso de dinheiro dos especuladores
financeiros. Acho que esse não é apenas o objetivo da classe trabalhadora,
mas dos empresários efetivamente produtivos. Não é possível desenvolver o país quando todo mundo se vê obrigado a
pagar uma espécie de royalties sobre o dinheiro, aliás um dinheiro que nem é
dos próprios bancos, mas dos nossos depósitos, ou então dinheiro fictício criado
por meio de alavancagem.
Ou
avança, ou recua. Não dá mais para ficar onde está
O
Brasil vive um impasse – e, a partir desse impasse o país avança, e consolida
os ganhos das últimas décadas, ou retrocede, e perde o que ganhou. Por isso considero importante unificar o debate.
E estou convencido de que há muita gente que quer avançar. Muitas famílias,
pela primeira vez, têm os filhos na universidade, muitas delas apenas agora
conseguem alimentar os seus filhos – e todas elas são mobilizáveis. As mudanças
não acabaram porque 200 mil tomaram a Avenida Paulista. Este país tem base.
Eu
acho que o fato de uma parcela desses manifestantes do atraso pedirem a volta
da ditadura [militar] mostra o tipo de ausência de uma visão propositiva da
direita. O que eles querem? Sangrar mais os pobres, aumentar mais a
desigualdade, privatizar mais?
A
contaminação da política pelo poder econômico
Hoje
o país tem um Congresso com uma bancada ruralista, uma bancada dos bancos, uma
bancada das grandes empreiteiras, uma bancada das grandes montadoras, e você
conta nos dedos quem é da bancada cidadã. A
lei aprovada em 1997 que autorizou as corporações a financiarem campanhas foi
um golpe terrível para o processo democrático. Não se pode qualificar de
democracia o que vivemos no Brasil só porque a gente vota, porque o voto é rigorosamente determinado por uma
gigantesca máquina de financiamento que vai se traduzir no tipo de Congresso
que temos. Isso coloca a questão da reforma
política e, em particular, o financiamento
das campanhas, na linha de frente.
Nada
para o planeta, tudo para os bancos
A Rio+20 [conferência promovida pela ONU sobre o meio ambiente e clima] teve
uma grande reunião internacional que firmou como um dos objetivo levantar US$
30 bilhões para salvar o planeta. Não conseguiu. Em 2008, em meses, os governos levantaram trilhões de dólares para
salvar o sistema financeiro, se endividaram e passaram a pagar juros para o
próprio sistema financeiro que foi socorrido com esse dinheiro. Esse
movimento dos governos praticamente destruiu o que restava do legado da social
democracia nesses países, do chamado Welfare
State [o estado de bem-estar social],
ao reduzirem os direitos sociais.
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