"Todo o avanço de duas décadas pode ser perdido se crise não for superada"
Entrevista
com André Lara Resende
Sonia Racy e
Gabriel Manzano
Economista do Plano Real alerta, em novo livro,
para a urgência
de se repensar
o papel do Estado, do mal-estar contemporâneo e pede
“desenvolvimento com qualidade de vida e cidadania”
Não
é o crescimento em alto ritmo, em si, mas a estabilidade, com regras adequadas, que pode conduzir um país ao
desenvolvimento. Receitas inspiradas no “Consenso de Washington” ou no
“neodesenvolvimento estatal” não resolvem. O que pode ser útil, na atual
situação brasileira, é um “reformismo
modernizador” – que passa, sim, pelo
Estado, pela Previdência, pelos tributos. E no mundo de hoje qualidade de
vida não depende mais, necessariamente, de crescimento material. O desenvolvimento tem de incluir “a valorização
da cidadania e do espírito público”.
É
de ideias assim, entre tantas, que se compõem as 200 páginas de Devagar
e Simples, o novo livro do economista André Lara Rezende, recém-lançado pela Cia. das Letras. Avesso a declarações definitivas sobre certos e
errados de um mundo que não para de mudar, ele admite, nesta entrevista a Sonia Racy e Gabriel Manzano, que “não
está claro quão longa e profunda será a crise brasileira, e muito menos como
dela sairemos”. Mas deixa a advertência: “Tudo o que se avançou em duas décadas pode regredir se ela não for
superada o quanto antes.”
De
mudança para Nova York, onde será sênior visiting professor da School of International and Public Affairs
da Universidade Columbia, o filho de Otto
Lara Resende (e, talvez, seu maior admirador) André, carioca de 64 anos,
ex-banqueiro, ex-integrante de governos brasileiros, está hoje voltado às
letras e à reflexão.
O
economista também gosta de disputar corridas de carro, está pedalando 240
quilômetros de bicicleta por semana e já praticou salto a cavalo. Um dos pais dos planos Cruzado e Real,
ex-presidente do BC que também comandou o BNDES, Lara Rezende avisa: “Não
gosto de falar de coisas já feitas e vividas. O que passou, passou. Não sou
mais ator de nada”. O que lhe interessa
– e ele o diz com ênfase – “é o que
temos pela frente”.
Nos
13 capítulos do livro – uma compilação de textos publicados nos últimos 15 anos
– seu olhar sobre a economia se entrelaça com história, sociologia e até
ciência para, no conjunto, harmonizar uma visão de macroeconomia com um amplo
quadro da sociedade e suas circunstâncias.
Muitos
títulos dos ensaios falam por si. Como este: Não há lugar para velhos remédios. Ou ainda O otimismo cético: 15 anos de século 21. Há conceitos recorrentes –
como o de que “é preciso repensar o
papel do Estado”. E o olhar é sempre rigoroso. Ao abordar o medo de se assumir reformas, diz que o
preço é “uma mediocridade cautelosa, uma política de pequenos curativos
sucessivos, que é frustrante”.
Em
um capítulo inédito, Em busca do heroísmo
genuíno, Lara Rezende passeia o olhar pelos limites do conhecimento e da
percepção, para afirmar: uma possível receita para a vida humana “é ter
esperança, apesar de não se saber o que esperar”. Aqui vão os melhores momentos
da “conversa” por e-mail. “Falo melhor escrevendo”, justifica. O economista não
quis falar sobre a atual situação econômica ou dar receitas para se sair dela.
Tampouco se dispôs a discorrer sobre política passada, atual ou futura.
Armínio
Fraga e José Roberto Mendonça de Barros mencionaram o “fim de uma era” – ao
falar sobre o papel do Estado e a atual crise brasileira. Concorda?
André Lara Resende: O fim de um ciclo parece
mais correto. Um ciclo político, que teve início com o fim do regime militar,
consolidou-se em torno de dois partidos, o PSDB e o PT, representantes de
propostas alternativas para a condução do país, e com o PMDB, como o partido
essencialmente sem proposta, pragmático, mas sem o qual é difícil governar.
Mendonça
fala em um “modelo heterodoxo que fracassou espetacularmente”. Isso se deveria
ao peso da ideologia na formação de muitos economistas?
A.L.R.: Não me parece que
classificar propostas de condução macroeconômica como ortodoxas ou heterodoxas
ajude na compreensão dos problemas. Ao contrário, na maioria das vezes é uma
simplificação esquemática para que se possa, preguiçosamente, tomar partido sem
analisar. Classificar de forma
caricatural é um artifício recorrente dos que professam crença ideológica.
Ideologia e fé têm em comum o horror à análise racional dos fatos.
Que
tipo de cenário tem em mente, diante da ideia, admitida por muitos estudiosos,
de que nos próximos 12 meses o País vai piorar antes de melhorar?
A.L.R.: É evidente que estamos numa
crise séria, com dimensões políticas, econômicas e morais. Ainda não está claro
quão longa e profunda será. Muito menos, como dela sairemos.
Em
um dos artigos de seu livro, sobre as manifestações de junho, você elegeu a crise de representação e o projeto de Estado que não mais servia à sociedade
como causas do mal-estar do País. Seu diagnóstico hoje é o mesmo? Ou a crise
econômica, mais as Lava Jatos, pedaladas e panelaços tornaram o quadro mais
grave?
A.L.R.: As manifestações de meados
de 2013 foram a expressão de um mal-estar, quando o País, ainda que aos trancos
e barrancos, tinha progredido, superado a inflação crônica, conseguido avanço
nos indicadores sociais e queria mais. Queria melhor qualidade de vida, mais
mobilidade urbana, mais segurança, melhor educação e serviços públicos de
qualidade. Queria também a melhora da representatividade política. Eleições
livres são apenas um dos pilares da democracia representativa, mas para que a
sociedade se sinta adequadamente representada o Estado e as instituições não
podem ser patrimonialistas e arbitrários, criadores de dificuldades de toda
ordem. Hoje, infelizmente, a situação é diferente, não progredimos, ao
contrário, regredimos e muito. Estamos
no início de uma recessão econômica que pode vir a ser profunda e da
perspectiva de uma longa estagnação. Tudo o que se avançou nas últimas duas
décadas pode regredir se a crise não for superada o quanto antes.
De
que modo você compara os desafios de arrumar a economia hoje com os que viveu
(com toda a equipe) em 1994, pré-Plano Real? Em termos de espaço político para
propor soluções, dificuldades para criá-las, e força para impô-las?
A.L.R.: Os ensaios do meu livro
foram escritos nos últimos quinze anos, durante os quais meu objetivo foi
tentar compreender e ajudar a compreender os desafios da economia, do Estado e
da vida contemporânea. Para isso, tenho certeza, é preciso um distanciamento
das pressões da conjuntura, de tudo aquilo que é a matéria-prima do dia a dia
da política e do jornalismo. Embora eu considere a verdadeira ação política da
mais alta relevância, não sou mais, nem tenho intenção de voltar a ser, ator –
no sentido de quem participa diretamente – da vida política. Faltam-nos atores competentes. Assim
como diagnosticou Ortega Y Gasset,
em A Espanha Invertebrada, sobre a
Espanha na primeira metade do século 20, também
hoje no Brasil, há uma dramática falta dos “melhores” na política e na vida
pública.
Na
apresentação do livro, você junta três precondições para o Brasil de hoje: repensar o Estado, valorizar a vida pública e assumir
o crescimento como um imperativo. Qual partido, ou qual força social
levaria isso adiante hoje?
A.L.R.: Repensar o Estado e
valorizar a vida pública são duas questões essenciais no mundo contemporâneo.
No Brasil, como em toda parte. Quanto ao crescimento, ao contrário, o que
sustento é que é preciso deixar de considerar o crescimento econômico como um
imperativo, como a solução de todos os problemas. A qualidade de vida, na
grande maioria dos países, mesmo nos de renda média como o Brasil, não está
mais necessariamente vinculada ao crescimento material. Não é a maior produção de automóveis que irá aumentar a qualidade de
vida – para usar um exemplo gritante – mas sim a qualidade da segurança, da
educação, da saúde e da mobilidade urbana.
Ainda
em seu livro: em um mundo que respira alta tecnologia e muda a toda hora, “a
democracia representativa e o próprio Estado-nação serão questionados e precisarão
se adaptar”. No Brasil de hoje, acha que o poder e a sociedade estão se
adaptando?
A.L.R.: Aqui, como em toda parte,
seremos todos obrigados a nos adaptar. A questão é saber se essa adaptação será
inteligente e natural, ou traumática, imposta pela nova realidade.
Você
define nos ensaios uma visão velha de mundo, marcada por nacionalismos,
crescimento material, consumo supérfluo, embates ideológicos. Considera
“possível que o modelo de representação democrática constituído há mais de dois
séculos, para sociedades menores e mais homogêneas, tenha deixado de cumprir o
seu papel e precise ser revisto”. O que imagina que se poderia pôr no lugar?
Tem esperança de que o mundo, em 2050, esteja melhor?
A.L.R.: A menos que venhamos a
passar por algum grande cataclismo, ou um novo e agora verdadeiramente mundial
conflito armado, o mundo será cada vez mais integrado pela tecnologia da
comunicação. O mundo da internet é globalizado, mais do que nunca, um mundo de massas.
Os Estados nacionais e a democracia
representativa precisam ser repensados e revistos para não ficarem
definitivamente anacrônicos.
Em
um de seus textos, Em busca do heroísmo
genuíno, você repensa os últimos 500 anos do Ocidente e afirma que uma possível
receita de vida para os homens “é ter esperança, apesar de não saber o que
esperar”. Quanto pesa, nessa percepção, o fato de vivermos em um planeta cujo
clima vai piorar e onde os recursos têm prazo de validade?
A.L.R.: “Em busca do heroísmo
genuíno” é um texto diferente, por ser mais filosófico. É uma reflexão pessoal,
que procura sintetizar as ideias de muitos autores que li, ao longo de muitas
décadas, sobre a questão primeira,
que é a dos valores e dos objetivos na vida. Não se pode dele
nada inferir sobre otimismo ou pessimismo, especialmente sobre a sociedade e a humanidade.
São reflexões sobre o caminho individual de cada um de nós, um caminho que não
pode ser delegado, que deve ser necessariamente percorrido só consigo mesmo.
O
que quis dizer ao sentenciar que o planeta chegou ao seu limite? Como o mundo
deve proceder em relação a esse tema? E o Brasil em particular?
A.L.R.: Não tenho a pretensão de
sentenciar nada. Parece-me evidente
– pois não exige mais do que alguns minutos de análise dos dados – que não poderemos continuar a crescer e
utilizar os recursos escassos, como fizemos nos últimos séculos, sem esbarrar
nos limites físicos do planeta. Simplesmente isso.
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