Aprendendo com a visita do Papa a Cuba e Estados Unidos
Lições de Cuba sobre o que esperar do
Papa Francisco nos Estados Unidos
John L. Allen
Jr.
Crux
22-09-2015
Os desafios deixados por Francisco em Cuba e aqueles
que
ele enfrentará nos Estados Unidos
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PAPA FRANCISCO Beija uma criança após ter recebido um presente dela na Basílica de Nossa Senhora da Caridade do Cobre El Cobre - Cuba |
O
Papa Francisco encerra três dias intensos em Cuba na terça-feira, celebrando
uma missa de manhã na Basílica da Virgem da Caridade do Cobre, padroeira
nacional do país, e, em seguida, realizando uma reunião com as famílias no
centro da catedral de Santiago.
Assim
que ele concluiu seu balanço sobre Cuba, Francisco mais uma vez estabeleceu um
desafio indireto ao regime cubano – não através de demandas explícitas para a
reforma política, mas fornecendo uma narrativa alternativa sobre a identidade
cubana e possibilidades.
Na missa em Santiago na
terça de manhã, Francisco insistiu que as raízes de Cuba se encontram em Cobre
e na proteção maternal da Virgem Maria.
"A partir daqui, ela
protege as nossas raízes, nossa identidade, de modo que talvez nunca nos
desviemos para caminhos de desespero", disse o papa.
Francisco também
deliberadamente recuperou a palavra que define a retórica socialista de Cuba:
"Revolução".
"Somos
chamados a viver a revolução da ternura como Maria, nossa Mãe da Caridade,
fez", disse o papa. "Nossa
revolução acontece através de ternura, através da alegria, que sempre se torna
em proximidade e compaixão e nos leva a nos envolvermos, e para servir, na vida
dos outros".
É
impressionante que, embora Francisco não tenha proferido a frase
"liberdade religiosa" desde que chegou a Cuba – o mais perto que
chegou foi um apelo para a Igreja para
desfrutar da "liberdade, meios e espaço" necessários para levar a
cabo a sua missão – a ideia esteve implícita em grande parte do seu
comentário.
Mais
tarde na terça-feira o pontífice chega a Washington, DC, onde ele iniciará o
que promete ser cinco dias agitados nos Estados Unidos.
Foi
Francisco quem tomou a decisão de agrupar a sua viagem para os Estados Unidos
com uma parada inicial em Cuba, por isso é coerente perguntar o que aprendemos
ao longo dos últimos três dias que pode fornecer uma visão sobre o que os
americanos devem esperar durante a próxima semana.
Aqui,
então, estão cinco tópicos do papa Francisco em Cuba com implicações para o que
está reservado para os americanos.
1.
Fim do embargo
Como
o porta-voz do Vaticano lembrou à imprensa na noite de segunda, Roma tem sido
lembrada como contrária ao embargo imposto pelos EUA a Cuba, que é o embargo
comercial mais longo na história. Ele ressaltou que o Papa Bento XVI também foi
crítico do embargo quando visitou Cuba em 2012, dizendo que é “não uma
novidade”.
Dado
que Francisco está vindo para os Estados Unidos diretamente de Cuba, é uma
aposta segura que, em algum lugar ao longo do caminho – muito provavelmente em
seu discurso na quinta-feira para uma reunião conjunta do Congresso – ele vai
dizer algo que, direta ou indiretamente, será lido como um apelo para deter o
isolamento de Cuba através do fim do embargo.
Nunca
é aconselhável ser demasiado dogmático sobre o que Francisco vai ou não vai
fazer, mas esta é, provavelmente, a aposta mais segura que você vai encontrar
em termos de o que esperar no nível político.
2.
Misericórdia em sua mente
Está
claro que a virtude espiritual da misericórdia é um conceito
fundamental para Francisco.
Ele
declarou recentemente um Ano Jubilar
Especial da Misericórdia, completado com duas concessões especiais – a
permissão para todos os sacerdotes para perdoar o pecado do aborto, e
reconhecendo a validade das confissões ouvidas até mesmo pelos sacerdotes
tradicionalistas que já romperam com Roma. Francisco também escolheu "missionário da misericórdia"
como lema da sua visita a Cuba, e celebrou a Santa Missa na Praça da Revolução
de Havana sob uma imagem de Jesus a partir do culto da Divina Misericórdia.
Quando
Francisco lançou um extemporâneo ponto no domingo à noite em frente a um
público de sacerdotes, religiosos e religiosas, e seminaristas, ele voltou ao
tema da misericórdia, exortando os sacerdotes a serem generosos ao ouvir
confissões. "Não tenha medo da misericórdia", disse ele.
"Deixe-a fluir entre seus dedos".
Dado
este pano de fundo, é mais do que uma forte possibilidade de que misericórdia
vai borbulhar em algum lugar ao longo do caminho nos Estados Unidos; e com toda
a probabilidade mais de uma vez. Cuidado: quando Francisco fala de misericórdia, não se trata de rever o
entendimento da Igreja sobre o pecado, mas sim como agir quando o pecado foi cometido.
3.
Nem se quer uma única questão papal
Para
muitas pessoas, o assunto que marca Francisco no momento é o meio ambiente, em
especial a luta contra o aquecimento global e o impacto das mudanças
climáticas.
Esse
foi o tema de sua recente encíclica muito discutida, Laudato Si', e ele abordou-a muitas vezes desde então, incluindo
uma sessão com ministros do meio-ambiente de nações da União Europeia logo
antes de sair de Roma.
No
entanto, é notável que Francisco,
realmente, não tenha levantado a questão da proteção ao meio-ambiente em Cuba.
A única menção pública contundente que ocorreu durante a viagem não veio do
pontífice, mas de seu anfitrião, o presidente de Cuba, Raúl Castro.
É
um lembrete de que Francisco não é uma
figura pública de um só tema, no entanto inflamar uma causa específica pode
parecer com ele.
A
maioria dos apostadores espera que a pobreza,
a imigração e o meio-ambiente sejam o coração de sua mensagem social nos Estados
Unidos, e pareceria de fato estranho se eles não viessem à tona em algum lugar.
Se
esses temas serão os mais importantes levantados por Francisco, no entanto,
ainda não se sabe, assim como se ele vai optar por dedicar atenção a outros
elementos da doutrina social católica – sua clara preocupação com o tráfico
humano, por exemplo, ou com o comércio de armas, ou com a pena de morte.
Este
papa tem uma cesta de alqueire cheia de preocupações e ideias, e você nunca
sabe quais ele irá desenraizar em qualquer ocasião.
4.
O homem real surge à vontade em espanhol
O
que Cuba confirmou de novo é que, se você quiser ver Francisco cru e não
filtrado, você não vai buscá-lo em seus grandes discursos formais, tais como os
que ele entregará na quinta-feira ao Congresso dos EUA e na sexta-feira à
Assembleia Geral das Nações Unidas.
Esses
textos irão refletir as ideias do pontífice, mas eles também já foram polidos e
controlados e ajustados por toda uma equipe de diplomatas e assessores, e, em
tais configurações, Francisco normalmente adere de maneira razoável ao roteiro.
Ele
também geralmente não desvia muito do curso em suas homilias durante missas
celebradas na frente de grandes multidões, o que parece trazer para fora um
lado mais formal.
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PAPA FRANCISCO abraça um jovem durante encontro com eles no Centro Cultural Padre Félix Varela Havana, domingo, 20 de setembro de 2015 |
No
entanto, coloque Francisco na frente de
um grupo de pessoas religiosas ou de jovens ou de famílias, e todas as
apostas ficam de fora. Nesses ambientes,
muitas vezes ele deixa inteiramente de lado seu texto preparado e dá asas a
ele, abrindo sua mente e coração. Às vezes ele irá fazê-lo em italiano –
especialmente, por razões óbvias, na própria Itália – mas a maior parte ele o
faz em espanhol.
Ele
fez isso em Havana no domingo à noite, oferecendo reflexões eruditas sobre a
pobreza e a misericórdia para um grupo de religiosos e de misericórdia e
esperança diante de uma multidão de jovens cubanos.
Onde será que o Papa
Francisco poderá se soltar nos Estados Unidos?
Na
quinta-feira, em Washington, o pontífice visitará um centro de caridade para
atender algumas pessoas desabrigadas, e mais tarde naquela noite ele celebrará
um serviço de Vésperas para o clero e para religiosos e religiosas. Na sexta-feira,
em Nova York, ele visitará uma escola que atende às crianças e às famílias de imigrantes.
Em Filadélfia, no sábado, ele participará de um festival para as famílias, e no
dia seguinte ele visitará uma prisão.
Nesses
momentos, é provável que surja a versão desconectada de Francisco. Prepare-se
para algo especial – e prepare-se para que ela seja entregue em espanhol.
5.
A pastoral é política
Os
americanos estão muito interessados em que impacto a visita papal pode ter
sobre a política do país, especialmente se tratando da eleição presidencial de
2016 na qual há um número de candidatos católicos e o "voto católico"
mais uma vez entrará no jogo.
A
hipótese de trabalho é que o comentário político mais explícito de Francisco
virá durante sua cerimônia de boas-vindas no gramado sul da Casa Branca na
quarta-feira, em seu discurso ao Congresso na quinta-feira e quando falar na
ONU na sexta-feira.
Seria
um erro, contudo, supor que não haverá sinais políticos ou subtexto em outras
configurações, porque com Francisco mesmo a pastoral, às vezes, vem com uma
margem política.
Durante
uma missa em Holguín, a terceira
cidade de Cuba, na segunda-feira, Francisco
convidou os cubanos a vencer a relutância em acreditar que os outros, ou até
eles mesmos, podem mudar.
“Você acredita?” perguntou a eles,
acrescentando, “Você acredita que é possível um traidor se tornar um amigo?”.
O
raciocínio veio como parte de uma reflexão sobre a figura de São Mateus no Novo
Testamento, que era cobrador de impostos para os romanos e, portanto,
considerado um traidor pelos judeus antes de largar tudo para seguir a Jesus.
No entanto, em uma sociedade em que a caça a notáveis traidores tem sido uma
obsessão há décadas, não poderia ajudar, mas teria implicações políticas.
Como
vimos acima, Francisco também usou sua
homilia na terça de manhã em Santiago para resgatar o termo popular comunista "revolução" para a fé,
insistindo que o cristianismo, no exemplo de Maria, inspira uma mudança
verdadeiramente revolucionária na direção da ternura e compaixão.
Para
aqueles que tem ouvidos para ouvir, em outras palavras, Francisco, muitas vezes, teceu seu comentário social em meditações que
parecem à primeira vista totalmente espirituais e pastorais.
Quem
estiver interessado em possíveis consequências políticas da visita, portanto,
precisa somente de meia palavra: Não pare de prestar atenção depois que ele
deixar os corredores do Congresso, porque dificilmente este será o único
cenário em que esse papa politicamente experiente é capaz de marcar presença.
Traduzido do inglês por Evlyn Louise Zilch. Acesse a versão original deste artigo, clicando
aqui.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 23 de setembro de 2015 – Internet: clique aqui.
Bergoglio, o príncipe do povo
David Brooks
Colunista do The New York Times
Papa presenteará católicos com instruções sobre a
doutrina,
mas a grande dádiva é o homem em si - sua maneira de
ser
Um
dos romances preferidos do papa Francisco é Os
Noivos, do escritor italiano Alessandro
Manzoni. Dois amantes veem frustrado seu desejo de se casar por um padre
covarde e moralmente medíocre e por um nobre invejoso. Um frade bondoso protege
o casal em sua desventura. Neste momento, a peste assola o país, lembrando às
pessoas de sua mortalidade e vulnerabilidade, e propiciando um julgamento
moral.
Enquanto
os médicos cuidam dos corpos nos hospitais, os homens bons da Igreja cuidam das
almas. O sacerdote covarde é repreendido por um cardeal: "Você deveria ter amado, meu filho, amado e orado. Então, teria
percebido que as forças da iniquidade têm o poder de ameaçar e ferir, mas não
têm o poder de mandar". No final, há cenas comoventes de confissão, de
perdão, de reconciliação e, enfim, o ansiado casamento.
Falei
do romance, que Jorge Bergoglio leu quatro vezes, porque nós da imprensa
carregamos sua visita aos Estados Unidos de excessivo sentido político.
Sentimo-nos confortáveis falando de nossas lutas ideológicas, por isso
acompanhamos de perto e cobrimos toda indicação que ele dá sobre o aborto, o
casamento gay, o aquecimento global e o divórcio.
No
entanto, a visita é também um
acontecimento cultural e espiritual. Milhões de americanos exibirão sua fé
em público. Francisco brindará aos católicos com instruções sobre a doutrina,
mas a grande dádiva é o homem em si -
sua maneira de ser, de se comportar.
Especificamente,
Francisco oferece um modelo a respeito de duas questões: você ouve profundamente, você aprende? Defende determinados padrões
morais, enquanto ama e é caridoso com seus amigos?
Durante
toda a sua vida, a mensagem fundamental de Francisco tem sido anti-ideológica.
Como Austen Ivereigh observa em sua
biografia, O grande Reformador, Francisco critica consistentemente os
sistemas intelectuais abstratos que falam de cruas generalidades,
instrumentalizam os pobres e ignoram a rica natureza peculiar de cada alma e de
cada situação.
Título desta obra biográfica: O GRANDE REFORMADOR Francisco, retrato de uma papa radical (Há edições em inglês e espanhol) |
Ele
escreveu que muitos dos nossos debates políticos são tão abstratos que não
conseguimos sentir o cheiro de suor da vida real. Eles reduzem tudo a
"narrativas gastas, medíocres como as revistas de histórias em
quadrinhos".
Ao
contrário, o grande presente de
Francisco é aprender por meio da intimidade, não apenas estudando a pobreza,
mas vivendo entre os pobres e experimentando a convivência como algo
pessoal no nosso íntimo.
"Vejo
a Igreja como um hospital de campanha depois da batalha", disse o papa ao
entrevistador, padre Antonio Spadaro.
"A coisa de que a Igreja mais
precisa hoje em dia é a capacidade de sanar as feridas e aquecer os corações
dos fiéis. Ela precisa da proximidade, do contato. Sanemos as feridas, sanemos
as feridas. E teremos de começar de baixo para cima."
Esta
proximidade nos ensina detalhes granulares, mas também desperta um sentimento
de respeito. "Vejo a santidade do
povo de Deus, esta santidade diária", disse. "Vejo a santidade na
paciência do povo de Deus: a mulher que cria os filhos, o homem que trabalha
para levar o pão para casa, os doentes, os sacerdotes idosos com todas as suas
feridas, mas que conservam um sorriso no rosto."
Nós
praticamos o elitismo material e intelectual, buscando um status superior e um
conhecimento especializado e desprovido de espiritualidade. O papa Francisco
enfatiza que diferentes tipos de conhecimento vêm de ambientes diferentes. Como
afirmou: "É o que ocorre com Maria:
se vocês quiserem conhecê-la, perguntem aos teólogos. Se quiserem saber como
amá-la, perguntem ao povo."
Isolamento
Nos
nossos dias, alguns fiéis acreditam que precisam se isolar da corrupção da
moderna cultura decadente, mas Francisco
afirma que precisamos nos atirar nas várias culturas vivas deste mundo para ver
Deus em toda a sua glória. E precisamos de fé para ver as pessoas em toda a
sua profundeza.
Ele
gosta de citar uma frase do romance Os
Irmãos Karamazov, de Dostoievski:
"Quem não acredita em Deus, não
acredita no povo de Deus. Somente o povo, e seu futuro poder espiritual,
converterá os ateus que abandonaram a própria terra".
O
enfoque de Francisco é totalmente pessoal, íntimo e específico de cada
situação. Se formos demasiado rigorosos
e nos limitarmos a aplicar regras abstratas, de acordo com ele, nos limitaremos
a lavar as mãos das nossas responsabilidades para com uma pessoa. Mas, se
formos demasiado frouxos e apenas tentarmos ser bonzinhos com todos,
ignoraremos a verdade do pecado e a necessidade de emendá-lo.
Somente
mergulhando na especificidade daquela pessoa e daquela alma misteriosa poderemos
conseguir o justo equilíbrio entre rigor
e compaixão. Somente nos tornando íntimos e amando poderemos corresponder à
autoridade que vem da Igreja, ensinando com a sabedoria democrática que brota
do senso comum de cada indivíduo.
O
papa Francisco é um aluno, um ouvinte extraordinário e um cético a respeito de
si mesmo. Os momentos melhores desta semana serão os que nos permitirão
observá-lo se relacionar com as pessoas, ouvir profundamente e aprender com
elas, como ele as vê em seus grandes pecados, mas também com uma compaixão
infinita e um amor despojado.
Traduzido do inglês por Anna Capovilla.
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