Chacinas: abominável rotina
Editorial
Tudo parece indicar que tanto a chacina em Osasco e
Barueri como
a deficiente investigação seguem roteiro inaceitável e previsível
A
julgar pelas declarações de Marilda
Pansonato Pinheiro, presidente da Associação
dos Delegados de Polícia de São Paulo, tornaram-se sombrias as perspectivas
de esclarecimento da chacina realizada no último dia 13, que deixou um
execrável rastro de 19 mortes.
Discorrendo
sobre a iniciativa da Polícia Militar de
executar mandados de busca e apreensão relacionados com 18 policiais e um
segurança possivelmente envolvidos com o crime, Pinheiro revelou a
indignação existente entre os delegados. A
medida foi adotada sem o conhecimento da força-tarefa criada para apurar os
homicídios.
"Inesperadamente,
inexplicavelmente, houve um desvio no que havia sido acordado. A PM acabou se
precipitando e levando ao conhecimento dos suspeitos que havia uma investigação
contra eles. Obviamente, veio por terra
toda a investigação. Tudo foi invalidado", disse a esta Folha.
Preferindo
não arriscar explicações para o comportamento da PM, a delegada destacou suas
prováveis consequências: um conjunto de provas incapaz de demonstrar a autoria
dos assassinatos em série – insuficiente, portanto, para condenar quem quer que
seja.
Como
seria de esperar, o governador Geraldo
Alckmin (PSDB), responsável pela Polícia Militar paulista, contraditou a
interpretação de Marilda Pansonato Pinheiro. Os membros da força-tarefa
estariam, em conjunto, trabalhando com o propósito de resolver o episódio e
embasar a punição dos criminosos.
Nada
impede que Alckmin esteja certo. Seu otimismo, porém, contrasta não só com as afirmações
da representante dos delegados, mas também com um padrão de irregularidades nos
inquéritos sobre chacinas cometidas por homens encapuzados – como a de Osasco e
Barueri (Grande São Paulo).
De
acordo com o canadense Graham Denyer
Willis – de 2009 a 2012, ele acompanhou os investigadores de homicídios em
São Paulo e publicou um livro* sobre o assunto –, é possível afirmar que a polícia faz vista grossa para colegas que
integram grupos de matadores.
Em
entrevista a este jornal, Willis
mencionou uma cultura de "olhar para o outro lado" e sustentou que
não se trata de "um punhado de maçãs podres em um cesto". Ao
contrário, a existência de esquadrões da
morte "é algo tão intrincado na estrutura das polícias que é como se fosse
a sua sombra".
Tudo
parece indicar que tanto a chacina como
a até aqui deficiente investigação do caso constituem abominável rotina
policial no Estado de São Paulo. Se o governo Geraldo Alckmin quiser
mostrar que o raciocínio não está correto, deve ir além das palavras vazias.
* O título do livro de Graham Denyer Willis é: The Killing Consensus: Police, Organized Crime, and the Regulation of Life and Death in Urban Brazil. Oakland (CA): University of California Press, 2015.
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