Eles querem, de fato, combater a corrupção?
Lula põe PT contra Lava Jato
Editorial
O tom das críticas do PT à Operação Lava Jato
mostra a crescente preocupação de Lula com
investigações
que se aproximam dos agentes políticos.
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Juiz federal Sergio Moro, titular da 13ª Vara Criminal de Curitiba (PR), responsável pela Operação Lava Jato |
Não
demorou muito a reação do PT à prisão do dono da Odebrecht, bom amigo de Lula.
Depois de Rui Falcão ter recebido instruções precisas do ex-presidente, a Executiva petista reuniu-se na quinta-feira
em São Paulo e aprovou uma resolução. Nela, o Partido dos Trabalhadores faz a defesa das empreiteiras envolvidas no
escândalo da Petrobrás, sob o falacioso argumento de que as prisões “sem
fundamento” da Operação Lava Jato são “arbitrárias” e o “prejulgamento” das
construtoras terá consequências negativas para a economia nacional, com a
paralisia de obras de infraestrutura e consequente aumento do desemprego.
Para
obedecer ao chefe, a direção do PT finge
ignorar que as “consequências para a economia nacional” já são uma amarga
realidade, principalmente no que diz respeito à taxa crescente de desemprego.
E isso não por culpa da Lava Jato, e sim
da incompetência e irresponsabilidade do governo petista. A grande maioria,
65% dos brasileiros, concorda com isso, como revelam as pesquisas.
À
suspeita de que tem sido beneficiado pela generosidade de prósperos
empreiteiros cuja amizade conquistou quando estava na Presidência – exemplo
notório de Marcelo Odebrecht –, Lula
e seus defensores respondem que hoje ele é apenas um cidadão comum,
ex-presidente da República que tem importantes e bem-sucedidas experiências
políticas e sociais a transmitir aos interessados e por isso aceita ser pago
por quem se dispõe a patrocinar suas palestras mundo afora. É apenas trabalho
que não tem nada a ver com o governo. Exatamente como acontece, por exemplo,
com ex-presidentes americanos.
São
argumentos falaciosos, como demonstra essa última resolução do PT em defesa das
empreiteiras. Lula não é um cidadão
comum – logo quem! –, mas um político muito ativo que tem forte influência no
governo e no partido que o sustenta. Tornou-se lobista. Afinal, seus bons
amigos empreiteiros não são generosos mecenas interessados em disseminar ideias
progressistas pelo mundo, mas negociantes que sabem muito bem onde vale a pena
colocar seu dinheiro. É óbvio, portanto, que, ao alinhar o PT na defesa das empreiteiras envolvidas até o pescoço no
propinoduto da Petrobrás, Lula está preocupado apenas em manter a fidelidade
das relações mútuas com os bons amigos que tem no mundo dos negócios.
O
combate à corrupção, sintomaticamente, nunca foi tema relevante no discurso do
dono do PT, ao contrário do que acontece com Dilma Rousseff, que não perde
oportunidade para proclamar sua “luta sem tréguas” contra os malfeitos na vida
pública. E o PT, por sua vez, é useiro e vezeiro em gabar-se de que nunca antes
tanta “gente importante” foi parar na cadeia. É propaganda enganosa. Observe-se
que recentes manifestações de Lula, obviamente entre quatro paredes, contradizem
o discurso de Dilma e do PT. O
ex-presidente tem feito pesadas críticas ao ministro da Justiça a respeito das
investigações da Lava Jato, reclamando de que José Eduardo Cardozo “perdeu o
controle” sobre a Polícia Federal (PF), a ele subordinada. Seria o caso de
inferir dessas declarações que, se Lula ainda fosse presidente, aos policiais
federais e aos procuradores da República já teria sido ordenado que cuidassem
da própria vida ou investigassem a oposição?
O juiz Sergio Moro, cujo rigor na coordenação
da Lava Jato incomoda quem tem culpa no cartório, tornou-se alvo da mesma campanha de satanização que Lula e o PT
conduziram contra o ministro Joaquim Barbosa no episódio do mensalão. A
resolução petista de quinta-feira não cita nomes, mas pega pesado: “Se as prisões preventivas sem fundamento se
prolongarem (...), não é a corrupção que está sendo extirpada. É um estado de
exceção sendo gestado”. E, para não perder a oportunidade, os petistas
protestaram também, mais uma vez, contra a prisão “inaceitável” de seu
ex-tesoureiro João Vaccari Neto,
personagem que aparentemente tem muito a dizer, a julgar pelo enorme empenho do
partido em reverenciá-lo.
O
tom das críticas do PT à Operação Lava Jato mostra a crescente preocupação de
Lula com investigações que se aproximam dos agentes políticos. É por isso que o
ex-presidente decidiu tomar “providências”, acusando o governo Dilma de
negligência e açulando o PT contra o juiz Sergio Moro e tudo o que possa
representar uma ameaça ao seu direito de ir e vir.
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