COMO ESTÁ O MÉDICO NO BRASIL?
O médico é um individualista
Entrevista
com Claudio Lottenberg
Adriana Dias
Lopes
O presidente do Hospital Albert Einstein, de São Paulo,
referência mundial, diz que é preciso uma revolução de
humildade
para a medicina realmente se aproximar dos pacientes
Em
dezembro do próximo ano, o médico Claudio Lottenberg terá completado quinze
anos à frente do Hospital Israelita Albert Einstein. Sob seu comando, a
instituição passou por transformações extraordinárias, tanto no âmbito
comercial como no social. O número de leitos quintuplicou, instaurou-se um dos
maiores programas de transplante hepático do país, fizeram-se parcerias com
hospitais públicos.
Neste
ano, em que comemora seis décadas, o Einstein inaugurará uma faculdade de
medicina. Mas a marca principal de Lottenberg é outra. Aos 54 anos, ele se
revela um executivo de opiniões originais e corajosas. Entre suas defesas, o
programa Mais Médicos e o uso da fé na gestão do hospital. “A excelência do
hospital está profundamente ligada a seu DNA judaico”.
O senhor defende em seus discursos
públicos o programa do governo federal Mais Médicos. É postura contrária à da
maioria dos gestores de saúde. Por que acredita estar certo?
Claudio Lottenberg: O Mais Médicos é entendido
em sua superficialidade, apenas como a inserção de médicos cubanos. O programa
é muito mais amplo. Ele prevê, por exemplo, a capacitação de profissionais e a ampliação
de vagas de medicina. A importação dos cubanos seria feita compensatoriamente,
caso os médicos brasileiros não se interessassem em preencher as vagas
ofertadas pelo governo federal em locais distantes dos grandes centros.
Mas
aqui cabe ressaltar um ponto paradoxal. Não há como negar os riscos no
atendimento de médicos cubanos. Esses profissionais têm de trabalhar com
supervisão, e é possível que isso não esteja ocorrendo. No entanto, os
brasileiros que nunca tiveram ao menos uma pessoa que os olhasse, que assistisse
as suas aflições, estão muito felizes com os médicos cubanos. Quem está certo,
afinal? A realidade é nítida: sem esses profissionais, inúmeros doentes de
vários lugares do país não teriam absolutamente nada. Diante dessa necessidade
urgente de médicos, a argumentação contrária aos cubanos perde a força.
Mas o profissional brasileiro
conseguiria praticar uma boa medicina em cidades distantes dos grandes centros?
C. L.: Não. Mas cabe a ele
pressionar o Estado para criar as condições. A classe médica estava muito
acomodada até a chegada dos profissionais cubanos. Sempre me pergunto: não
fizemos o juramento de Hipócrates? Muitos discutem salários. Poucos, a inserção
social.
Procuro
essa postura no Hospital Albert Einstein. Ninguém nos chamou para enviar ajuda
aos sobreviventes do terremoto ocorrido no Haiti em 2010. Chegamos ao país
antes da Força Aérea Brasileira. Claro, o governo tem de criar condições de
trabalho para o médico. Assim como tem de pagar bem ao profissional e oferecer
uma carreira. Mas poucos davam atenção a essas questões até surgirem os médicos
cubanos. Gosto muito da seguinte frase: “As boas intenções morrem nas palavras”.
Recentemente, médicos de hospitais
públicos e privados foram acusados de operar sem necessidade e usar próteses de
segunda linha em troca de proprina. Como eliminar esse tipo de crime?
C. L.: A situação é dramática em
qualquer lugar do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, foram desperdiçados
700 bilhões de dólares na área da saúde só no ano de 2013. As duas principais
causas do problema foram definidas: 40% dos casos estavam associados à falta de
protocolos médicos bem estabelecidos; e 20% a fraudes. O quadro é grave, não há
dúvida quanto a isso.
Acredito,
no entanto, que responsabilizar unicamente o médico não resolve muita coisa. É
apenas a ponta do iceberg. A indústria quer lucro a qualquer preço, a fonte
pagadora [governos, planos de saúde etc.] quer sempre encontrar uma forma de
pagar menos, os médicos são mal remunerados e o paciente quer ver seu problema
resolvido. Não há um único culpado de plantão, portanto.
O que faz o Albert Einstein para
lidar com as ilegalidades?
C. L.: Tentamos nos blindar contra
a fraude por meio de várias frentes. Fazemos um cerco. Primeiro, os médicos
firmam um documento sobre conflito de interesses. Dessa forma, o profissional
sabe que está sendo observado internamente. Padronizamos a relação com os
fornecedores de próteses. Não aceitamos facilmente sugestões de fabricantes sem
antes estabelecer uma discussão interna consistente. Afastamos fornecedores
perante a mínima suspeita. Sei que posso perder alguns médicos por causa dessa
nossa postura. E estou convencido de que, apesar disso tudo, condutas indevidas
podem acontecer aqui dentro. Mas estamos atentos sempre.
O Einstein deverá inaugurar ainda
neste ano uma faculdade de medicina. Já não há cursos de medicina em excesso no
Brasil?
C. L.: Nossa faculdade não será
apenas mais uma no mercado. Ela formará um médico com virtudes hoje pouco
lembradas no universo acadêmico. Os educadores estão preparando médicos que
podem ser chamados de “técnicos de pessoas”. O tecnicismo jamais substituirá a
visão do contexto de vida do paciente. Um dos principais desafios da nova
faculdade, portanto, será formar um médico com uma visão mais ampla de sua
profissão. É preciso gerenciar dúvidas, orientar e saber trabalhar com
conceitos de economia de saúde e protocolos bem estabelecidos. O profissional
não pode tratar da doença simplesmente. Mas cuidar das pessoas em toda a sua
complexidade.
Há um exagero no pedido de exames da
parte dos médicos?
C. L.: Sim. Há uma quantidade
imensa de exames e práticas médicas desnecessários, e também exagerado uso de
recursos tecnológicos. O médico só conseguirá acabar com esse quadro, muito
ruim, se tiver uma visão organizada e protocolar de seus atos, além de,
evidentemente, ter uma visão ampla do doente. Insisto nessa questão.
Vou
citar um exemplo que aconteceu no Albert Einstein. Há cerca de três anos,
propus a criação de um centro de segunda opinião em cirurgia de coluna. Nesse
centro, os médicos avaliam as queixas dos pacientes que já chegam com indicação
cirúrgica. São profissionais sem ligação com aqueles que fariam o procedimento
cirúrgico. Mais que isso: desenvolvemos protocolos e definimos padrões
cirúrgicos. Ou seja, criamos uma prática organizada de atendimento.
O
resultado foi surpreendente. Apenas 40% dos pacientes que chegam ao hospital
com indicação de cirurgia de coluna são de fato submetidos ao procedimento.
Evita-se o desperdício de tempo e dinheiro.
Como um hospital pode contribuir
para melhorar a saúde publica?
C. L.: Em primeiro lugar, sendo
exemplo de qualidade em gestão. Repito aqui: sem protocolos de condutas e
tratamentos baseados em estudos sólidos não há como medir resultados e,
portanto, não há como melhorar. Nossa participação na saúde pública é também na
esfera prática. Temos o maior e mais bem aparelhado serviço de transplante de
fígado acessível aos usuários do SUS. Mantemos uma ampla parceria com hospitais
públicos municipais, o Dr. Moysés Deutsch e, a partir deste mês, o Vila Santa
Catarina, ambos em São Paulo.
Como anda a relação médico e
paciente no Brasil?
C. L.: Precisa ser mais humanizada.
Não se trata de pegar na mão do doente nem de puxar a cadeira para ele se
sentar. Uma relação humanizada envolve diversos fatores, todos com um único
objetivo – pôr o paciente no centro das atenções, sempre e cada vez mais. É
crucial lidar com o doente a partir das suas fraquezas. E não é possível agir
desse modo se o profissional não admitir as próprias fragilidades.
Chega
de arrogância. O médico é um individualista. Não divide informações. Em um
passado não muito distante, tal postura até era possível. O médico se bastava.
Ele era único. Hoje é praticamente impossível o profissional dominar todas as
informações com o grande avanço ocorrido na medicina.
Veja
o que aconteceu na minha área [oftalmologia]. No início as pessoas me
procuravam principalmente para trocar de óculos. Hoje, para tratar das doenças
que as fazem usar óculos e de outras tantas associadas ao envelhecimento, como
glaucoma, degeneração macular senil. Será que eu tenho tempo e consigo ser
perfeito em todos esses campos? Ou preciso de pessoas para me ajudar a ser mais
resolutivo?
Há poucos meses, o senhor sofreu uma
cirurgia de catarata. Como se sentiu no papel de paciente, justamente na área
em que é especialista?
C. L.: Tive muita dificuldade em
lidar com a doença do início ao fim. Primeiro, relutei para aceitar que estava
com o problema de visão, mesmo sofrendo de um sintoma clássico. De repente, o
grau dos meus óculos de miopia começou rapidamente a aumentar. Quando um
paciente relata essa situação ao médico, o diagnóstico de catarata é
praticamente certeiro. Mas, como era comigo, criava desculpas, relutava. Até
que um dia minha visão de fato ficou comprometida e tive de aceitar o
diagnóstico.
A
partir daí foi outro dilema: a cirurgia. Passei a me lembrar de todas as
situações ruins que vivenciei em minha carreira, que foram raríssimas. O
procedimento é extremamente simples e seguro. Mas nada funcionava comigo. O mês
em que marquei a operação foi um dos mais sofridos da minha vida.
Quando
entrei no centro cirúrgico, tive a sensação de estar entrando para outra vida.
Cheguei a pensar que ia morrer. E repito: como especialista no assunto, sei que
isso não acontece. Só me tranquilizei no dia seguinte, quando voltei a
enxergar.
Os médicos que passam por situação
semelhante costumam mudar a postura com os pacientes?
C. L.: Essa experiência mudou a
minha vida pessoal e profissional. Não há dúvida de que me tornei um médico
muito melhor. Estou mais próximo dos meus pacientes. Agora, valorizo
absolutamente todas as tristezas e angústias do doente, mesmo sabendo que esses
sentimentos não vão repercutir na doença em si. Hoje me dedico com a mesma
intensidade a discutir com o paciente sobre uma simples aflição e um
procedimento cirúrgico. Mas estar do outro lado da mesa do consultório, digamos
assim, e de um tipo de consultório tão familiar para mim, me fez cuidar mais da
minha saúde. Nos últimos seis meses emagreci 6 quilos, voltei a praticar
ginástica diariamente. Ganhei disposição. Sinto-me mais jovem. Tenho ânimo para
brincar com meus filhos.
A imagem do Einstein está profundamente
associada aos valores do judaísmo. Até que ponto essa relação é decisiva para a
qualidade do hospital?
C. L.: A excelência do Albert
Einstein está profundamente ligada ao seu DNA judaico. O judeu tem o papel de
questionar permanentemente tudo. O judeu sempre acha que tem de fazer mais.
Trata-se de um inconformismo sistemático. Isso para não falar do papel
primordial da fé na gestão desse hospital.
Tenho
aqui, evidentemente, as melhores ferramentas da lógica e da ciência para
comandar esse hospital. Mas me dou ao luxo de usar a fé como instrumento de
gestão fundamental. O que significa acreditar naquilo que as pessoas acham que
não vai dar certo. É acreditar em coisas não tão tangíveis. Essa atitude é um
fator fundamental na busca constante da qualidade no Albert Einstein.
O papa Francisco reconheceu o Estado
da Palestina recentemente. O que o senhor achou disso?
C. L.: Francisco é um homem que tem
avançado sobre temas polêmicos que ficaram parados por muito tempo. O Oriente
Médio precisa encontrar uma solução para o povo palestino. Acredito que esse
reconhecimento não significa uma negação do Estado de Israel. Mas de nada
adianta tomar uma atitude se não houver um desdobramento de caráter prático.
Gostaria que o papa não parasse esse movimento e usasse sua legitimidade para
convencer o povo palestino de que, se não reconhecer o povo de Israel, não será
possível nenhum tipo de entendimento. O papa tomou essa iniciativa positiva.
Mas a partir de agora ele passa a ser um dos protagonistas dessa história. Ele
tem de exigir do povo palestino que aceite também o Estado de Israel.
Comentários
Postar um comentário