Por que a carta encíclica de Papa Francisco é importante?
Thomas Reese*
National
Catholic Reporter
18-06-2015
«Em outras palavras, a encíclica está recebendo tanta
atenção dos meios de comunicação porque ela fala sobre o tema certo, na hora
certa, e foi escrita pela pessoa certa.»
Algumas
das perguntas mais frequentes que me foram feitas pelos jornalistas esta
semana:
- Por que a encíclica do Papa Francisco importa?
- Que impacto ela terá?
- Por que ela está recebendo toda esta atenção?
Vamos
começar com a última pergunta:
1) Por
que ela está recebendo toda esta atenção?
A
encíclica “Laudato Si’ – Sobre o Cuidado da Casa Comum” está recebendo
tanto atenção por duas razões.
Em primeiro lugar, há um consenso
crescente em todo o mundo de que precisamos cuidar melhor do meio ambiente.
Existe o consenso científico de que as mudanças climáticas estão acontecendo e
que é a atividade humana que está causando isso. As pessoas estão ficando mais
conscientes dos problemas ambientais, mas também estão vendo que, até agora, o
mundo pouco tem feito para responder à crise.
A segunda razão por que a encíclica está
recebendo tanta atenção é porque ela é do Papa Francisco. Este papa é admirado,
respeitado e, até mesmo, amado em todo o mundo por católicos e não católicos.
Todo mundo está fascinado por este papa, e ele tem a capacidade de se comunicar
numa linguagem simples que as pessoas comuns conseguem entender.
É
verdade que os papas anteriores falaram ou escreveram sobre o meio ambiente e o
aquecimento global, mas a mensagem deles não penetrou no ambiente público por
dois motivos. Primeiro, os meios de comunicação estavam mais interessados em
escrever histórias sobre os papas e o uso de preservativos do que sobre os
papas e o meio ambiente.
Segundo,
nos dois últimos papados, as declarações papais tendiam a soar como teses
acadêmicas. A Igreja nunca foi muito boa em comunicar o ensino social católico,
fosse sobre justiça, a paz ou o meio ambiente.
Por
outro lado, Francisco escreve mais como um jornalista do que como um acadêmico.
Qualquer um que consiga ler um jornal pode ler esta encíclica e tirar alguma
coisa dela.
Em
outras palavras, a encíclica está recebendo tanta atenção dos meios de
comunicação porque ela fala sobre o tema certo, na hora certa, e foi escrita
pela pessoa certa.
2)
Por que a encíclica do Papa Francisco importa?
Esta
encíclica importa porque é uma mensagem de autoridade por um dos grandes
líderes religiosos do mundo. Ela vai estimular homilias e discussões nas
paróquias de todo o mundo. Tornar-se-á uma fonte de inspiração e ideias para
ativistas, pregadores, professores, teólogos e autores que ecoarão e
desenvolverão a mensagem do papa.
Em
sua encíclica, o papa começa olhando
para os fatos: O que temos feito à terra? Em seguida, ele argumenta que a forma como tratamos a terra, a forma como
respondemos às alterações climáticas, são questões morais – na verdade, uma
das questões morais mais importantes do nosso tempo.
Aqueles
que argumentam que o papa deveria se restringir à fé e à moral, não se
envolvendo em questões políticas, parecem ter uma visão limitada da
problemática. O que pode ser uma questão
moral mais importante do que aquela que pode causar a morte e o deslocamento de
milhões de pessoas?
A encíclica é, também, um
convite para o diálogo. O papa não tem a pretensão de possuir todas as respostas. Quanto mais
específicas as suas recomendações políticas, menos autoritário ele se torna.
Ele está convidando economistas, empresários, funcionários públicos,
ambientalistas, inventores e líderes religiosos a se reunirem, todos, para uma
conversa sobre como proteger o meio ambiente. Qualquer pessoa com uma boa ideia
é bem-vinda.
Esta
encíclica também importa porque coloca a
Igreja Católica junto do movimento ambientalista. Com abraço do Papa, esse
movimento entra para a grande mídia. Os seus integrantes não podem mais ser
simplesmente tomados como “abraçadores de árvores” e “adoradores da Gaia”.
Apesar
dos seus esforços, o movimento ambientalista teve apenas um sucesso limitado.
Francamente,
as pessoas não mudarão os seus estilos de vida a fim de proteger os ursos
polares. Mas se a história nos mostra alguma coisa, é que a religião pode motivar as pessoas a fazerem coisas extraordinárias.
Motivos religiosos podem levar as
pessoas ao autossacrifício, a desistirem de seu próprio interesse por um bem
maior. O movimento ambientalista necessita de crentes de todas as religiões
que estejam motivados por suas convicções religiosas a protegerem a criação de
Deus.
3)
Que impacto ela terá?
O papa está chamando o mundo
para uma conversão que terá um enorme impacto sobre o modo como vivemos, sobre
a forma como funciona a nossa economia e na maneira em que os governos operam. “Revolucionário” é uma
palavra muito fraca. Exigir-se-á uma mudança extraordinária de opinião e de
comportamento humano para que esta revolução pacífica se realize. Exigir-se-á
um sacrifício de todos, especialmente dos ricos e poderosos, que estão
usufruindo dos frutos do status quo.
Fazer
o que o papa pede não será tarefa fácil. Todavia, ele nos encoraja a confiarmos
em um Deus amoroso e em um espírito poderoso que podem renovar a face da terra.
Esta sua encíclica é notável na medida
em que não depende, primeiramente, do MEDO para motivar as pessoas a cuidarem
da terra. Em vez disso, enfatiza o AMOR como força motivadora.
Não
podemos esperar que a encíclica transforme milagrosamente as atitudes e os
comportamentos humanos de um dia para o outro. Diferentemente, a encíclica é o começo de um processo que
vai durar anos. Ela exige que cada um de nós se envolva neste longo trajeto.
É uma maratona, não uma simples corrida.
Como
cientista social, estou bastante pessimista em que podemos evitar uma
catástrofe ambiental, porém, como um cristão, tenho que ter esperança. Esta encíclica do Papa Francisco fortalece
essa esperança.
*
Thomas J. Reese (nascido em 1 de novembro de 1945) é
um padre jesuíta norte-americano, escritor e jornalista. Ele é um analista
sênior do National Catholic Reporter. Ele é doutorado em ciência política
pela Universidade da Califórnia, Berkeley. Ele foi editor-associado da revista
semanal católica América de 1978 a 1985; membro sênior do Woodstock Theological Center a partir de 1985 até 1998;
editor-chefe da revista América de 1998 a 2005 e voltou para
Woodstock em 2006, onde permaneceu
até 2013. Ele foi nomeado para a Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade
Religiosa Internacional pelo presidente Obama. Fonte: Wikipedia.
Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa. Acesse a versão original deste artigo,
clicando aqui.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 24 de junho de 2015 – Internet: clique .
Laudato Si’ – Prestemos atenção às notas de
rodapé
Kevin Ahern*
«Além de quebrar a tradição ao citar textos de
conferências nacionais, o Papa Francisco lança mão de uma gama de pensadores
católicos. Ele cita oito vezes Romano Guardini, sacerdote e teólogo influente
(1885-1968).»
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Kevin Ahern Teólogo especializado em Ética |
Além
da utilização de uma linguagem inclusiva de gênero – a primeira nas encíclicas
sociais católicas –, um dos aspectos mais surpreendentes de Laudato Si’ são as notas de rodapé. Para
ser honesto, elas foram uma das primeiras coisas que olhei. Francisco se afasta da tradição das
encíclicas sociais católicas ao citar várias fontes não católicas oficiais,
tais como documentos da ONU, as conferências episcopais nacionais e, de modo
mais surpreendente, um místico sufi!
Agora,
embora possa parecer um tanto pedante para a maioria dos leitores, as notas de rodapé de Francisco constituem
um afastamento significativo da tradição. A maioria das encíclicas papais
oficiais do ensino social católico tem um estilo específico e as notas de rodapé
desempenham um papel importante. Diferentemente das citações que meus alunos
usam em seus trabalhos para referirem à origem das ideias apresentadas, as notas de rodapé no ensino papal têm
funcionado como uma forma de alertar o leitor para a continuação de uma
tradição. Em geral, as notas de rodapé não estão muito preocupadas em fazer
referências propriamente; estão mais interessadas em comunicar que este ensino
está em harmonia com uma longa tradição no assunto, mesmo quando ele pode estar
discordando ligeiramente da fonte.
Por
exemplo, a Caritas in Veritate, a
encíclica social de 2009 do Papa Bento
XVI, dispõe de 159 notas. A
maioria delas faz referência aos ensinamentos sociais oficiais de outros papas;
várias destas notas se referem aos seus próprios ensinamentos; algumas
mencionam os escritos de importantes santos ou dicastérios vaticanos. Nenhuma menciona fontes não católicas ou
não doutrinárias. Em grande parte, é assim também com as encíclicas sociais
de São João Paulo II.
Esta tradição reflete uma teologia
específica do papado que entende que o papa deva ser o professor principal da
doutrina católica com uma rígida divisão dos papéis entre professor e aluno. Como tal, o papa nunca
precisaria aprender de fontes “abaixo” dele. Isso também inclui as declarações
emitidas pelas conferências nacionais dos bispos. Por mais de 50 anos, tem
havido um longo debate quanto ao estatuto do magistério das declarações feitas
por grupos de bispos em nível nacional, continental e mundial.
Sob
os pontificados de João Paulo II e Papa Bento XVI, as publicações sociais das
conferências episcopais nacionais e dos sínodos foram percebidas como carecendo
de competência para um ensino (magisterial) com autoridade. Esta alegação é
feita frequentemente pelos críticos das políticas sociais da Conferência dos Bispos Católicos dos
Estados Unidos – USCCB (na sigla em inglês), em particular contra os seus
ensinamentos sobre a justiça econômica, a paz e o racismo. Em Evangelii Gaudium, o Papa Francisco
abordou este ponto quando pediu pelo
desenvolvimento do “estatuto das Conferências Episcopais” com “autêntica
autoridade doutrinal” para melhor servir a missão da Igreja (n. 32).
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Romano Guardini (Verona, Itália, 1885 – Munique, Alemanha, 1968): foi um sacerdote, escritor e teólogo católico-romano. |
Embora
não tenha sido bem recebida por todos, Laudato
Si’ afirma a autoridade destas estruturas regionais com 20 citações de declarações de 18
conferências episcopais nacionais e regionais. Isso inclui o documento da
USCCB, de 2001, intitulado “Global Climate Change: A Plea for Dialogue,
Prudence and the Common Good” [trad.: Mudanças Climáticas Globais: Um
apelo para o Diálogo, Prudência e o Bem Comum]. A seleção de documentos de
várias regiões do mundo parece querer significar algo referente às preocupações
expressas pelos bispos quanto aos problemas em jogo. Com efeito, ela
construtivamente mostra como a promoção
de uma ecologia integral não é apenas a preocupação do Papa Francisco.
Embora sutil, é também um aceno para uma
visão indutiva e mais descentralizada de Igreja, onde as declarações (os
documentos) das conferências episcopais têm valor na formação do ensino social
católico universal.
Além
de quebrar a tradição ao citar textos de conferências nacionais, o Papa Francisco lança mão de uma gama de
pensadores católicos. Ele cita oito
vezes Romano Guardini, sacerdote e teólogo influente (1885-1968). Faz uma
referência surpresa para o controverso jesuíta Teilhard de Chardin, na nota n. 53, e cita por extenso o Patriarca Bartolomeu no início do
texto. Faz também referência a um livro [de John Chryssavgis] publicado pela Fordham University Press, na nota
n. 15 [On Earth as in Heaven: Ecological
Vision and Initiatives of Ecumenical Patriarch Bartholomew].
Talvez
a referência mais surpreendente é a um místico sufi muçulmano, Ali al-Khawas, na nota n. 159, que diz:
«Um mestre espiritual, Ali Al-Khawwas, partindo da
sua própria experiência, assinalava a necessidade de não separar demasiado as
criaturas do mundo e a experiência de Deus na interioridade. Dizia ele: “Não é
preciso criticar preconceituosamente aqueles que procuram o êxtase na música ou
na poesia. Há um ‘segredo’ subtil em cada um dos movimentos e dos sons deste
mundo. Os iniciados chegam a captar o que dizem o vento que sopra, as árvores
que se curvam, a água que corre, as moscas que zunem, as portas que rangem, o
canto dos pássaros, o dedilhar de cordas, o silvo da flauta, o suspiro dos enfermos,
o gemido dos aflitos…”».
Ficamos
mais impressionados ainda quando lemos a seção intitulada “Os sinais
sacramentais e o descanso celebrativo” (n. 233). De um ponto de vista
teológico, a inclusão de textos explicitamente religiosos de fora da tradição
católica levanta questões interessantes sobre o desenvolvimento da doutrina: O que significa para um documento oficial
de doutrina social citar um místico muçulmano? O que isso diz sobre o papel do Espírito Santo para além da Igreja?
Entre
as 172 notas de rodapé desta encíclica, nem todas são de fontes surpreendentes.
Os escritos de João Paulo II são citados
37 vezes – o mais próximo é o Papa
Bento XVI, que vem em segundo lugar com 30 citações. Enquanto alguns podem
tentar distanciar os ensinamentos sociais de Francisco sobre o meio ambiente e
a economia dos ensinamentos de seus antecessores, estas referências – e este é
o propósito delas – devem ajudar a lembrar ao leitor que ele está se baseando
numa tradição profundamente estabelecida de preocupação social.
Tal
como acontece com outras encíclicas papais, Laudato
Si’ destaca a importância de prestarmos atenção às notas de rodapé. Como
digo aos meus alunos nos cursos sobre doutrina social católica: sigam as notas
de rodapé. Talvez nos surpreendamos com o lugar aonde elas podem nos levar.
*
Kevin Ahern é teólogo especializado em Ética e professor
assistente de Estudos Religiosos na Manhattan
College.
Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa. Para acessar a versão original deste artigo,
clique aqui.
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