POLÍTICA NÃO VIVE SÓ DE UTOPIA, MAS DE COMPROMISSO E COERÊNCIA!
Fim de ciclo
José Roberto
de Toledo
Pesquisas mostram que o PT envelheceu mal,
perdendo
simpatizantes entre os jovens
O
diagnóstico crítico de Lula sobre o PT é preciso. Recente pesquisa Datafolha encontrou só 11% de simpatizantes do partido, a menor taxa em
décadas. Não é um ponto fora da curva,
mas o fundo de um buraco que o PT cava – como confirmam pesquisas do Ibope – desde os protestos de 2013. Lula disse estar no volume morto. Não
será fácil uma ressurreição.
Fosse
só uma questão de simpatia, seria um problema, não uma crise. É mais do que
isso. O PT perde filiados desde 2012.
Não está sozinho nessa (o PMDB e o DEM, por exemplo, mínguam desde 2008), mas o que houve nos últimos três anos foi a
inversão da tendência de crescimento que o partido experimentava desde a sua
fundação. Não é pouca coisa. O PT passou
a andar para trás.
Segundo
levantamento do Estadão Dados, o auge de filiados ocorreu em 2012: 1,612
milhão. Caiu para 1,601 milhão em 2013, 1,592 milhão em 2014 e começou 2015
com 1,586 milhão. O que isso significa para o futuro do partido que governa o
Brasil há 12 anos? Que a possibilidade
de sofrer um retrocesso nas eleições municipais de 2016 não é pequena. E
2016 prepara 2018.
A
perda de capilaridade petista é mais significativa do que o mau desempenho de
Lula na pesquisa de intenção de voto do Datafolha.
Uma é causa, a outra é consequência. Aécio
Neves (PSDB) aparece à frente do ex-presidente porque seu nome está fresco
na memória do eleitor. Fatura com o desgaste da imagem de Dilma Rousseff, que
prometeu e não entregou, enquanto Lula paga pela sucessão de escândalos
envolvendo o PT e pela perda de poder de compra dos emergentes que sustentaram
sua ascensão.
Muitas
dessas razões são conjunturais e dinâmicas. Mudam com o tempo. Tanto é assim
que a acurácia das pesquisas eleitorais em qualquer lugar do mundo é
inversamente proporcional ao tempo que a separa da eleição: quanto mais longe
da urna, maior a chance de erro. Em meados de 1994, por exemplo, as pesquisas
mostravam Lula eleito presidente. Veio o Plano Real, as expectativas econômicas
mudaram e Fernando Henrique Cardoso virou FHC.
Se
a questão fosse apenas econômica, Lula poderia ter esperança de recuperar parte
de seu cacife eleitoral em tempo de disputar como favorito a sucessão de Dilma
– caso o ajuste fiscal interrompa a alta da inflação e, mais à frente, crie
condições para a retomada dos investimentos, do emprego e da renda. Mas a questão é estrutural e vai muito além
do que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, pode ou não fazer em dois anos e
meio.
Menos
filiados significa que o PT convenceu menos gente a entrar no partido do que
perdeu militantes. Não só: a legenda
segue com dificuldade para mobilizar sua base em um momento crucial. Isso
implicará menos cabos eleitorais voluntários em uma eleição que será marcada pelo sumiço dos tradicionais financiadores de
campanha (já que muitos deles estão presos pela Lava Jato).
Menos militantes, menos
dinheiro para financiar candidatos e sem discurso. O PT não sabe o que dizer
para o eleitor. A falta de uma narrativa que faça sentido e seja convincente
está por trás das discussões públicas entre petistas. Sem rumo não há estratégia. E sem estratégia não se faz campanha
eleitoral.
Datafolha e Ibope mostram que o PT
envelheceu mal, perdendo simpatizantes entre os jovens. O problema não está
só no eleitorado. Os petistas não
renovaram suas lideranças. A geração perdida no mensalão não foi reposta. E
o sebastianismo lulista não permitiu que novos nomes surgissem além dos dois Fernandos.
Ambos
têm seus próprios problemas. Fernando
Pimentel terá primeiro que se livrar da Polícia Federal e fazer um bom
governo em Minas Gerais para aspirar a um papel nacional. E Fernando Haddad terá uma difícil
reeleição pela frente em São Paulo.
Tudo
isso aponta para o fim do ciclo de expansão petista. E, com ele, o contrafluxo
das ideias que o PT tentou representar.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Quinta-feira, 25 de junho de 2015 – Pg. A7 – Internet: clique aqui.
Do socialismo utópico ao capitalismo científico
Eugênio Bucci
Jornalista
e Professor da ECA-USP
A utopia que um dia existiu nos foi roubada. Seus
velhos profetas se aboletaram no “capitalismo” dos corredores de hotel, o
“capitalismo” do favor oculto, do ganho clandestino e sem risco. Foi assim que
os velhos “socialistas utópicos” do século 20 se converteram nos “capitalistas
científicos” do século 21.
“O PT perdeu um pouco da
utopia.” Essa
frase, pronunciada por Luiz Inácio Lula da Silva na segunda-feira [22/06],
correu o mundo, rendeu análises profusas, confundiu a disputa interna do
Partido dos Trabalhadores e ainda vai render muita dor de cabeça para muita
gente que já anda de cabeça quente. Luiz Inácio avisou: “Hoje a gente só pensa em cargo, em emprego e em ser eleito. Ninguém
mais trabalha de graça”.
Ele
está certo. E como diz “a gente” e não
diz “vocês aí”, está paradoxalmente certo. Entendê-lo, porém, não é tão
simples. Talvez nem Lula entenda Lula a esta altura.
A crítica que ele dirige ao
partido serve contra si próprio. Ele é dois
em um: é o líder que esculhamba o legado do PT e, ao mesmo tempo, é o
responsável pela obra que esculhamba. Essa divisão destrambelha seus
seguidores, que se dilaceram diante de uma pergunta: qual Lula deve ser levado a sério nessa história, o que critica a si
mesmo ou o que é criticado por ele próprio? Lula nega Lula. Como fazer,
então, para segui-lo?
Uns
dirão que o ex-presidente não cai em contradição, apenas faz “autocrítica”. O termo “autocrítica”
adquiriu status de um ritual solene na tradição da esquerda, equivalente às
práticas religiosas de autoflagelação. A “autocrítica” de esquerda, contudo,
não reafirma a velha ordem (como é típico do arrependimento religioso). Em vez
disso, revoga a lei anterior, inaugura um período “novo” (uma “revolução
interna”, para usar aqui a expressão de Lula) e acarreta uma mudança de
direção. Quando o dirigente máximo faz
“autocrítica”, o partido é instado a fazer “autocrítica” e anunciar que tudo
vai ser diferente.
Um
dos casos célebres (ou famigerados, dependendo do ponto de vista) de
“autocrítica” foi o de 1956, quando o Partido
Comunista da União Soviética (PCUS), em seu 20.º Congresso, denunciou e condenou os “crimes de Stalin”. Num primeiro momento, os comunistas do mundo se
uniram na incredulidade. Depois, assimilaram a “autocrítica” e a nova ordem. Stalin já estava morto e Kruchev já estava posto. Kruchev não mudou tudo no PCUS (manteve
o aparelho praticamente intacto), mas mudou a direção (e, com isso, a
História). Alguns militantes mudaram junto. Outros grupos nunca se renderam e
seguiram venerando o velho bigodudo a quem conferiam (e conferem até hoje)
títulos um tanto fanfarrões, como “farol do socialismo” ou “líder genial dos
povos”.
É
claro que a “autocrítica” de Lula não terá a mesma gravidade. As situações
históricas não são comparáveis e, embora existam stalinistas sinceros dentro do
PT, o PT não tem nada do PCUS de Stalin. Fora isso, Luiz Inácio não se parece
nem um pouco com Kruchev. A única semelhança – e, mesmo assim, distante – é o
receituário de tripudiar sobre o passado com o objetivo de abrir uma porta para
o futuro, sem abrir mão da máquina partidária.
Voltemos, então, à pergunta
inicial: quem deve ser levado a sério, neste momento, o Lula que critica o
legado do PT ou o Lula que é o maior construtor do legado do PT? O que ele diz sinaliza de
verdade uma transformação (“revolução interna”) no PT? Se sim, Lula abrirá mão
do poder que hoje exerce sobre o partido para abrir o caminho da mudança? Ou sua fala é mais um jogo de cena para
atrair o apoio de ex-petistas (e de setores mais à esquerda) à sua candidatura
à Presidência em 2018? Em suma, o novo discurso de Lula é “autocrítica” ou
autopromoção?
Se
for uma jogada instintiva de autopromoção, ela embute a disposição de
sacrificar, pelo menos em parte, tanto a imagem do PT quanto a imagem de Dilma
Rousseff. Falando mal de sua própria
obra e de sua sucessora, Lula falaria bem de si mesmo. É nesse movimento
que ele começa a falar de utopia. Ele parece saber que só uma nova utopia pode
cimentar uma nova aliança com essa configuração reconciliadora, como se fosse
um convite: companheiros, vamos sonhar juntos outra vez.
A
palavra “utopia”, a exemplo da
palavra “autocrítica”, também tem uma história longa na tradição da esquerda.
No começo, ela era vista como um defeito. No século 19, Friedrich Engels desqualificou,
de modo mais enérgico do que o próprio Karl Marx, o “socialismo utópico” (que não estaria baseado no “materialismo
histórico”). Defendia o “socialismo
científico”. Para ele, a coletivização da propriedade privada seria uma
conquista científica da humanidade. Crente
de que fazia “ciência”, Engels criou uma seita que arregimenta fiéis até os
nossos dias. Os convertidos dessa doutrina não entenderam que existe uma
diferença substancial entre um acelerador de partículas e uma reunião de
deputados (embora exista ideologia numa coisa e na outra). Em decorrência do fanatismo, o “socialismo científico” virou uma
tirania fundamentalista que matou a liberdade de opinião e baniu a política.
Foi
a partir dessa constatação que a palavra
“utopia” voltou à baila, agora como sinônimo de solidariedade, de entrega, de
abertura de espírito, de desprendimento. Para ser socialista não era mais
preciso ter lido O Capital, não era
mais preciso ser objetivamente proletário, bastava ter coração. A nova utopia
gostava de John Lennon (Imagine), de Che Guevara (“sin perder la
ternura jamás”), de Bakunin, de Rosa Luxemburgo, de pacifismo, de Jesus Cristo e dos hippies.
Vamos
lembrar que sem essa utopia o PT jamais teria sido inventado e jamais teria
sido, como foi, antistalinista e anticapitalista num só corpo.
Lula
tem razões (as boas e as más) para ter saudade da palavra utopia. A utopia que um dia existiu nos foi roubada.
Seus velhos profetas se aboletaram [acomodaram, instalaram] no “capitalismo”
dos corredores de hotel, o “capitalismo” do favor oculto, do ganho clandestino
e sem risco. Foi assim que os velhos “socialistas utópicos” do século 20 se
converteram nos “capitalistas científicos” do século 21. Não, eles não trabalham de graça. Alimentam poder com dinheiro e
vice-versa.
Isso
pode mudar?
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