E A INTOLERÂNCIA, COMO VAI?
Intolerância diminuiu,
mas é reforçada pelo neoliberalismo
Entrevista
com Frei Betto
Luís Brasilino*
Autor de A mosca azul: reflexão sobre o poder e Calendário do poder, Frei Betto
conversou com o Le Monde Diplomatique
Brasil sobre o nível de intolerância no país. Em sua opinião, apesar de
avanços recentes, a cultura consumista propagada pelo neoliberalismo subverte a
lógica, anula o bom senso e reforça a intolerância
DIPLOMATIQUE– Em sua opinião, o que
é a intolerância e o que a alimenta?
FREI BETTO – Intolerância, como friso no livro Reinventar a vida (Editora Vozes), é a incapacidade de enxergar o
outro, acatar a sua opinião, entender que todo ponto de vista é a vista a
partir de um ponto. Alimentam-na a arrogância, a convicção de que se é dono da
verdade, o fundamentalismo, o egocentrismo.
No artigo “Arte da tolerância”, o
senhor diz que a mais repugnante das intolerâncias é a religiosa. Por quê?
FREI BETTO – Porque Deus não tem religião. E transcende todas as doutrinas
religiosas. Religião deriva do verbo “re-ligar”, religar-se a si mesmo, ao
próximo, à natureza e a Deus. Portanto, nada mais contraditório do que, em nome
de minha fé, querer me impor aos demais, pois a fé, em princípio, induz ao
amor, irmão siamês da tolerância.
Todo ato de intolerância é
uma atitude de desamor. O amor, como diz o apóstolo Paulo na Primeira Carta aos
Coríntios, “é paciente e prestativo, não é invejoso nem ostenta, não se incha de
orgulho e nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se
irrita nem guarda rancor. Não se alegra com a injustiça e se rejubila com a
verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.
O nível de intolerância religiosa no
Brasil tem melhorado nos últimos anos?
FREI BETTO – Sim, porque já se pratica o ecumenismo, entre as Igrejas cristãs, e
o diálogo inter-religioso. Católicos já não perseguem protestantes nem
discriminam espíritas. Crentes não segregam ateus. Judeus e muçulmanos convivem
tão bem no Brasil que isso provoca espanto no exterior. No entanto, ainda há
muita intolerância a ser erradicada.
O senhor enxerga o crescimento do
poder das Igrejas neopentecostais como mais um fator que alimenta a
intolerância, especialmente a religiosa, ou esses grupos também são vítimas de
preconceito?
FREI BETTO – Fujo do preconceito contra as Igrejas neopentecostais. Há
tolerância e intolerância no interior de todas as instituições religiosas. A
Igreja Católica, por exemplo, no auge de sua intolerância criou a Inquisição.
O problema é que, como
assinala La Boétie em seu clássico Discurso sobre a servidão voluntária,
muitas pessoas abdicam de sua autonomia e preferem ser conduzidas como cadelas
na coleira... Abrigam-se à sombra de um pastor, um padre, um político, um
líder, e se submetem à sua vontade como um devoto ao oráculo divino... E muitas
religiões exploram esse lado vulnerável do ser humano tão bem analisado por
Freud.
Para além da intolerância entre as
religiões, existe a intolerância de religiosos com relação a determinadas
práticas e grupos, especialmente, hoje em dia, contra os homossexuais. Qual é
sua avaliação sobre isso?
FREI BETTO – A Igreja Católica, à qual me vinculo, ainda é oficialmente
intolerante em relação às mulheres, embora sejam elas, entre os católicos, as
principais apóstolas da fé cristã. Considera a mulher ontologicamente inferior
ao homem, o que impede que possam ser sacerdotes.
Felizmente o papa Francisco,
exemplo de tolerância, se empenha em mudar essa postura da instituição. Ao longo
da história, houve intolerância de todo tipo: dos libertos contra os escravos,
dos ricos contra os pobres, dos nazistas contra os judeus, dos judeus contra os
palestinos islâmicos, dos brancos contra os negros etc.
Todo preconceito reforça a
intolerância e provoca a discriminação. Hoje em dia isso é evidente em muitos
países ricos em relação aos muçulmanos, considerados potenciais terroristas; em
homofóbicos, em relação aos homossexuais; em policiais, em relação a negros
pobres etc. Na Igreja Católica, o papa Francisco se esforça para erradicar o
preconceito contra a homossexualidade, que já não é considerada doença nem
desvio. Falta ainda dar o passo principal: aceitar que, se Deus é amor, toda
relação amorosa é uma experiência de Deus.
Com as redes sociais e a
possibilidade de comentar o conteúdo jornalístico na internet, as manifestações
de intolerância ganharam maior visibilidade. Isso passa do mundo virtual para o
real ou fica confinado nesses espaços?
FREI BETTO – As redes sociais apenas quebram as paredes da intimidade e revelam
as pessoas como elas são de fato. Houve uma inversão do processo: o delito de
invasão de privacidade cedeu lugar ao cinismo da hiperexposição, da evasão de
privacidade. As pessoas se expõem com seus preconceitos, taras, neuras e
loucuras. É o mundo real que apenas usa a virtualidade para reforçar a
realidade tal como ela é. Isso demonstra que temos um longo caminho a percorrer
para criar um projeto civilizatório livre de preconceitos e discriminações, em
suma, de intolerâncias.
Na medida em que a crise econômica
reduz as oportunidades e deprime a qualidade de vida, a intolerância tende a
inflar?
FREI BETTO – Não é a crise econômica que reforça a intolerância, é a cultura
consumista propagada pelo neoliberalismo que, ao declarar que “a história
acabou”, procura confinar todos nós em um presente cíclico sem perspectiva
histórica e horizonte utópico.
A meu ver, o principal
problema filosófico da pós-modernidade, que trato em A mosca azul (Rocco), é a desistorização do tempo produzida pelo
neoliberalismo, o que explica por que o debate político desce sempre mais do
racional para o emocional. Isso reforça a intolerância, que subverte a lógica e
anula o bom senso.
O Congresso atual é apontado por
muitos especialistas como o mais conservador desde a redemocratização. Isso é
expressão de um aumento da intolerância ou é apenas reflexo de distorções do
sistema político brasileiro?
FREI BETTO – Fico com a segunda hipótese. Nosso sistema político, malgrado a
Constituição de 1988, ainda é muito tributário do longo período de ditadura
militar. E não acredito em reforma política positiva com o atual Congresso. Daí
a importância de uma assembleia soberana e exclusiva para a reforma política.
As manifestações de insatisfação em
relação ao governo federal e ao PT frequentemente ultrapassam a barreira do
ódio. Como o senhor analisa esse fenômeno?
FREI BETTO – O PT, embora tenha sido o melhor governo de nossa história
republicana, sobretudo ao promover a inclusão econômica de amplos setores
pobres da população brasileira, cometeu o erro de não promover também a
inclusão política. Agora paga a sua grave omissão. E ao abraçar um projeto
neodesenvolvimentista, de estímulo ao consumo de bens pessoais (linha branca,
celular, carro etc.), sem a contrapartida dos bens sociais (saúde, educação,
moradia, transporte coletivo etc.), fomentou uma cultura consumista neoliberal
que, diante do ajuste fiscal, o qual castiga apenas os mais pobres, agora se
volta contra o governo. Fora dos movimentos sociais, o PT não tem salvação.
Por fim, quais são os caminhos para
fomentar a tolerância na sociedade?
FREI BETTO – Educação, educação, educação, incluindo nos currículos ética e
espiritualidade (não confundir com religião, conforme distingo em meu livro O que a vida me ensinou, Editora Saraiva).
E uma legislação severamente punitiva para quem pratica a intolerância lesiva
ao próximo e à coletividade. A lei tem de ser intolerante com os intolerantes.
Não vejo outro caminho
*
Luís Brasilino é jornalista e editor do Le Monde Diplomatique Brasil.
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