Quem mais está sendo vítima do terrorismo?
O terrorismo não é o que parece
Moisés Naím*
Foi
uma sexta-feira de terror. Num hotel na Tunísia, um terrorista assassinou
turistas. No Kuwait, um homem-bomba atacou uma mesquita xiita. O Estado
Islâmico assumiu a autoria da matança. Na França, uma pessoa foi decapitada
numa usina de gás e o suspeito teria vínculos com grupos muçulmanos radicais.
Ainda não há evidências de que os atentados tenham sido coordenados. No
entanto, são claros exemplos de uma tendência: o terrorismo islâmico é uma ameaça que vem se aguçando. Mas será
que esses ataques são a confirmação da teoria do "choque de civilizações", popularizada por Samuel Huntington no início dos anos
90?
Segundo
o professor de Harvard, uma vez esgotado o confronto ideológico entre comunismo
e capitalismo, os principais conflitos internacionais surgiriam entre países
com diferentes identidades culturais e religiosas. Para muitos, os ataques da
Al-Qaeda e as guerras no Afeganistão e no Iraque e o surgimento do Estado
Islâmico confirmam esta visão. Mas, na
realidade, o que ocorreu é que os conflitos se deram mais dentro das
civilizações do que entre elas. Os noticiários e os debates fazem acreditar
que o conflito mais sangrento do século 21 é o entre muçulmanos radicais e os
que não o são.
Mas
não é assim. As estatísticas mostram que esta é uma visão errada e os terroristas islâmicos assassinaram mais
de seus correligionários do que ninguém. A briga entre xiitas e sunitas continua produzindo vítimas, em sua
maioria muçulmanas. Por outro lado, também é falso que nos Estados Unidos
da América (EUA) os principais atentados tenham sido cometidos por muçulmanos
radicais. São americanos racistas os responsáveis
pela maior quantidade de mortes em atos terroristas no país. As
estatísticas são estarrecedoras. Segundo o Índice
de Terrorismo Global, em 2013,
morreram quase 18 mil pessoas em ataques terroristas - 82% no Iraque,
Afeganistão, Paquistão, Nigéria e Síria.
Outro
estudo, da New America Foundation,
revela que, desde o 11 de Setembro, as 48 mortes causadas por racistas e outros
extremistas não muçulmanos nos EUA foram o dobro das provocadas por muçulmanos
no país. Além disso, os ataques terroristas nos EUA são relativamente pouco
frequentes. O terrorismo não vai desaparecer. O importante é combatê-lo com
base em realidades.
*
Moisés Naím é considerado um dos mais influentes
pensadores da área da política, economia e negócios internacionais. Ministro do
Comércio e da Indústria da Venezuela no fim dos anos 1980, ele foi editor, por
14 anos, da revista Foreign Policy.
É, atualmente, membro do Carnegie
Endowment for International Peace.
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