JUVENTUDE SEM TRABALHO NO BRASIL!!!
Crescimento do desemprego já afeta
os jovens com maior escolaridade
Cleide Silva e Anna Carolina Papp
Na faixa com maior
escolaridade, incluindo
curso superior, taxa
chegou a 14,6%
O aumento do desemprego no País, que atinge todas as faixas,
mas em especial os brasileiros com 18 a 24 anos, castiga também os jovens com
maior nível de escolaridade, que há até pouco tempo eram os menos afetados pela
escassez de trabalho.
Em dez anos, saltou
de 528 mil para 830 mil o número de jovens que se formam anualmente nas
universidades brasileiras. Essa geração, beneficiada pelo acesso mais amplo
ao ensino superior – parte dele favorecido por programas como o Financiamento Estudantil (Fies) do
governo federal, que beneficiou cerca de
2 milhões de pessoas desde 2010 –, chega ao mercado e se depara com a falta
de vagas.
“Terminei a faculdade em julho do ano passado e esperava que
as empresas pudessem me dar uma oportunidade de crescimento, mas não foi isso
que aconteceu”, diz Mateus de Oliveira,
de 21 anos, formado em Gestão de Recursos Humanos pela Faculdade de
Comunicação, Tecnologia e Turismo de Olinda (Facottur). Ele mora em Olinda (PE)
com a irmã e a mãe. Os três sobrevivem com o salário mínimo que a mãe recebe
como cuidadora de uma idosa e a pensão que o pai paga, e se diz “desesperado”
para conseguir um emprego.
“Já estou aceitando qualquer vaga, até de vendedor em
shopping center”, afirma Mateus. Além das necessidades básicas, ele quer se
livrar de uma dívida de cerca de R$ 2 mil no cartão de crédito.
Dados da última Pesquisa
Mensal de Empregos (PME), do IBGE, mostram que a taxa geral de desemprego em seis regiões metropolitanas do País
(São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Porto Alegre) foi de 6,4% em abril. Entre os jovens, essa taxa foi duas vezes e
meia maior, e ultrapassou os 16%.
De 2002 a 2014, a taxa de desemprego entre jovens com até 24
anos caiu 11,2 pontos porcentuais, de 23,2% para 12%. Neste ano, essa taxa
chegou a 16,2% em abril. “Demorou 12
anos para a taxa cair 11 pontos e em único ano já foram devolvidos mais de 4
pontos”, diz o pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas
(Fipe), Eduardo Zylberstajn.
Para Rodrigo Leandro
de Moura, pesquisador e professor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação
Getulio Vargas (Ibre/FGV), apesar de o desemprego estar crescendo em todas as
faixas etárias, os jovens tendem a
sofrer mais em casos de conjuntura desfavorável.
“Em geral, o jovem é menos experiente, está em processo de
escolarização e é menos produtivo. Numa recessão, a tendência é justamente
cortar os trabalhadores menos produtivos”, diz Moura. “Além disso, o jovem é a
única faixa etária que tem um contrato de trabalho mais flexível que os demais.
Na hora de desligar, a empresa não incorre em custos demissionais; portanto, é
mais barato.”
Sem experiência
Entre os jovens com
11 anos ou mais de formação (faixa que contempla o pessoal que tem ensino
médio completo, ensino superior, mestrado e doutorado), a taxa de desemprego saltou de 11,1% em 2014 para 14,6% em abril deste
ano.
“Já cheguei a mandar de 50 a 60 currículos por dia para
empresas de São Paulo e outros Estados, e não consigo nada em minha área”,
afirma Nicole Pervelli, de 22 anos.
Formada no fim do ano passado em Engenharia Ambiental pela Fundação Santo
André, ela já ampliou a busca para outras áreas da engenharia.
“Achei que seria mais
fácil, mas, além da exigência de experiência na área, tem a crise no País que
dificulta ainda mais”, lamenta Nicole, moradora de Santo André (SP). Ela
diz que gostaria de ter um emprego para bancar suas despesas e não depender dos
pais.
O número de
desocupados com 11 anos ou mais de estudos aumentou de 265,9 mil pessoas em
2014 para 340,4 mil neste ano. Já o de ocupados caiu de 2,12 milhões para
1,98 milhão. Para o economista Raone Botteon Costa, da Fipe, “o País não está conseguindo gerar vagas
qualificadas no mesmo ritmo em que está melhorando a qualificação”.
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Larissa Ferrari Oliveira, 21 anos, formada em Biologia |
Formada em Biologia pela Faculdades Metropolitanas Unidas
(FMU), Larissa Ferrari Oliveira, 21
anos, está desempregada desde o final do ano passado, quando obteve o
certificado de graduação. Durante o período da faculdade, estagiou em três
lugares diferentes e, mesmo já tendo experiência na área, nenhuma oportunidade
efetiva de trabalho apareceu.
Larissa se
cadastrou em plataformas online de emprego e enviou currículos. Seu objetivo é
trabalhar na área de manejo e conservação da fauna, mas ela procura
oportunidades também fora desse campo. “Me inscrevi em algumas vagas para
trabalhar como recepcionista e tradutora”, conta.
Apesar dos esforços, ainda não foi chamada para nenhuma
entrevista. “Preciso de apoio financeiro”, diz. Larissa mora com os pais em
Guarulhos (SP) e gostaria de bancar gastos como curso de inglês e transporte
público.
Menos escolarizados ainda são os mais atingidos
Cleide Silva e Anna Carolina Papp
Apesar de a perda de fôlego da economia deixar o mercado de
trabalho um pouco mais hostil aos mais qualificados do que já foi no passado, a maioria afetada pelo aperto nas vagas são
os menos escolarizados, diz Naercio
Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper.
Segundo ele, em razão da queda da renda das famílias nos últimos anos, mais jovens com menos qualificação
ingressam no mercado de trabalho à procura de vagas no comércio ou em serviços.
“Nos últimos dez anos houve aumento da renda dos pais, o que
possibilitou que o jovem não precisasse trabalhar ou fazer bicos para ter o
próprio dinheiro”, explica Menezes Filho. “Agora, com a desaceleração da
economia, o salário real parou de crescer e o desemprego começou a aumentar. Para complementar a renda da casa, o jovem,
que antes só estudava, começa a procurar emprego.”
Dados do Cadastro
Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e
Emprego, mostram que o saldo de postos de trabalho (diferença entre admissões e
desligamentos) na faixa dos que têm ensino superior completo caiu de 19,4 mil
em abril de 2014 para 500 em abril deste ano. O saldo positivo indica que esse
mercado ainda gera vagas, embora a intensa desaceleração seja preocupante.
Já o saldo entre pessoas que têm apenas o ensino médio
completo caiu, no mesmo período, de 77,7 mil para 26,1 mil negativos – ou seja,
já há fechamento de vagas. “É preciso
lembrar que a parcela de jovens que chega ao ensino superior ainda é muito
baixa no Brasil, cerca de 20%”, diz Menezes Filho. “Dos 80% restantes, apenas metade chega a concluir o ensino médio.”
Para ele, “os escolarizados podem ter um pouco mais de
dificuldade por causa da atual desaceleração da economia, mas sem dúvida os mais afetados pela alta dos
índices de desemprego são os menos qualificados”.
Acesso
Outro recorte das estatísticas da situação dos jovens no
mercado de trabalho, feito pelo Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), confirma
que, na região metropolitana de São
Paulo – onde se concentra o maior número de jovens com educação superior –, a
situação é mais difícil para os menos escolarizados.
O desemprego atinge
22,6% das pessoas da região com 18 a 24 anos, fatia que era de 19,8% em
2014. Considerando todas as faixas, a taxa média de desemprego é de 12,4%.
Entre os jovens, 37%
dos desempregados têm ensino médio completo. Já entre aqueles com formação
superior, o índice é irrelevante e não aparece nas estatísticas. “São poucos os
jovens que chegam ao ensino superior, e esses poucos conseguem trabalho”,
avalia a coordenadora do Dieese, Lucia Garcia.
Para ela, esse cenário reforça a necessidade de medidas que
facilitem o acesso do jovem ao ensino superior. “Tudo o que prejudica o avanço
da escolarização prejudica o jovem e o próprio País.”
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Economia – Domingo, 7 de junho de 2015 – Pg. B3 – Internet:
clique aqui e aqui.
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