A HISTÓRIA POR DETRÁS DA ENCÍCLICA DE FRANCISCO
Como foi gestada a encíclica ambiental do Papa
Marina Aizen
Clarín
(Buenos Aires)
21-06-2015
Antes de escrever que a Terra é “um depósito de imundície”,
Bergoglio realizou uma ampla rodada de consultas
globais.
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PAPA FRANCISCO: visita ao Brasil motivou a nova encíclica |
“Laudato Si”, a encíclica do Papa sobre o
Meio Ambiente, deve ter recebido louvores entre políticos, chefes de Estado e
ONGs por todos os lados, mas ainda falta
saber se suas poderosas palavras são capazes de influenciar as discussões
globais sobre a mudança climática, que há duas semanas encerraram outra etapa
preparatória, em Bonn, com os pés ainda enlameados.
Francisco
se queixa muito desta lentidão exacerbante em seu documento, ainda que não seja
difícil entender o motivo pelo qual aconteça assim: este processo, que deverá terminar na Conferência sobre a Mudança Climática de Paris, em dezembro
próximo, tem como horizonte
descarbonizar nossas economias. Nada mais e nada menos que o mundo ao qual
estamos (mal) acostumados.
Porém,
a encíclica papal não se dá no vazio. Há
apenas alguns dias, o G-7 emitiu um comunicado prometendo eliminar os combustíveis
fósseis antes do final do século, o que equivale a colocar data de vencimento
para as empresas mais poderosas que existem hoje. Francisco sabia que Angela Merkel [Primeira-Ministra da
Alemanha] vinha preparando esta declaração, pois Ban Ki-moon [Secretário-Geral da ONU] havia lhe soprado quando o
visitou em Roma. O chefe das Nações Unidas – contaram ONGs próximas ao processo
– foi quem pediu a Bergoglio que deixasse para a segunda metade de junho o
lançamento do documento, para que tivesse um efeito ressonante em cadeia.
Nesse
intervalo, houve outro acontecimento com menos barulho político, mas de
importante argumento técnico: um
relatório da Agência Internacional de
Energia, que advertiu que até o momento as promessas de redução de gases de
efeito estufa – que cada país precisa apresentar antes de outubro – não foi atingido para que tenhamos uma alta
de temperatura inferior aos dois graus Celsius, considerado o limite menos
catastrófico.
Agora,
Bergoglio contará com outros momentos para brilhar com sua prédica
socioambiental e ocorrerão em setembro.
Um, no Capitólio [edifício-sede do Congresso norte-americano], onde poderá ver
o rosto dos republicanos que duvidam da
mudança climática, e a outra quando se dirigir à Assembleia Geral da ONU.
Para apoiá-lo, está sendo pensada, para
o dia 24 de setembro, uma gigantesca vigília de ONGs em Nova York, que, de
acordo com os que estão por dentro, terá dimensões históricas.
Porém,
antes disso, no dia 1º de julho, a
encíclica será apresentada à sociedade civil, em Roma. Deste encontro
participará, por exemplo, Naomi Klein,
a ativista anticapitalista, autora do livro “Isso muda tudo” [ainda sem edição em português]. Nem ela pode
acreditar: “Muito da linguagem de
justiça ambiental que as organizações utilizam foi adotada pelo Papa”,
comentava a canadense, ainda um pouco surpresa.
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Dom Erwin Kräutler Bispo da Prelazia do Xingu - Pará (Brasil) |
Quando
se lê a encíclica, pode-se perceber rapidamente que as convicções de Francisco
são muito profundas e até se adivinham os problemas ambientais que dominaram o
debate na Argentina dos últimos anos: rios contaminados, expansão da fronteira
agrícola e uso de agrotóxicos, mineração e, obviamente, a pobreza.
O
arcebispo de Lomas de Zamora, dom Lugones, disse que a Igreja na Argentina vem
trabalhando estes temas desde 2003, mas pessoas que estiveram no Vaticano,
recentemente, afirmam que foi a visita
que o Papa fez ao Brasil, em 2013, a que o motivou a levar adiante o processo
de “Laudato Si”.
Nesse
sentido, foi fundamental Erwin Kräutler,
prelado [bispo] do território do Xingu, em Belém do Pará (Brasil), que é um conhecido ativista das causas indígenas e,
além disso, um férreo opositor da construção da grande represa de Belo Monte.
Os
primeiros rascunhos foram feitos na UCA
[Universidade Católica da Argentina] e se movimentaram entre Buenos Aires e
Roma por várias vezes, ainda que seja indubitável que a frase “a
Terra cada vez mais é um depósito de imundície” provenha da bronca de
Bergoglio. Também foram consultadas secretamente as mais diversas fontes, que
vão desde Christiana Figueres, a
costa-riquense à frente da convenção da ONU para mudança climática, até ONGs como congregações religiosas.
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Dom Víctor Manuel Fernandez - Reitor da Universidade Católica da Argentina Consultor de Papa Francisco |
O
decano da UCA, dom Víctor Manuel
Fernández, disse a este jornal: “Escutei o Papa dizer que se partiu de um
primeiro rascunho, mas depois veio um vendaval de contribuições e propostas de
pessoas do mundo todo: cientistas, ativistas, filósofos, empresários,
políticos. Contou-me que, sem contar as contribuições menores ou as cartas mais
simples, houve mais de 200 colaborações
de grande valor, e que isso permitiu elaborar um texto que dialoga muito com as
inquietações mais variadas. Eu mesmo reuni pesquisadores e docentes de
minha Universidade, de diferentes disciplinas, e oferecemos uma contribuição”.
O
dia em que a encíclica foi lançada, no edifício das Nações Unidas, na cidade de
Nova York, havia um ambiente de esperança, entre outras coisas, porque a causa da mudança climática, por fim,
encontrou uma referência moral que estava precisando. Porém, como dizia Martín Kaiser, do Greenpeace Internacional, na semana passada, nos documentos “ainda
se está muito longe do objetivo”. Pelo
menos, os ânimos mudaram. E isso nós devemos a Francisco.
Traduzido do espanhol pelo Cepat. Acesse a versão original deste
artigo, clicando aqui.
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