Em que pensam e com que se preocupam os bilionários?
Country club da vida
Sérgio Augusto
Os biliardários não se preocupam em entrar no reino dos
céus;
querem o reino da imortalidade
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Em sentido horário, temos: Ellison, Omidyar, Page, Thiel, Parker e Brin. Luta milionária contra o tempo |
Os pobres e remediados
sonham com a casa própria; os ricos, com jatos particulares; e os muito ricos,
com uma longevidade de Matusalém e a vida eterna. A desigualdade econômica,
que sempre existiu no mundo dos vivos, com índices cada vez mais obscenos,
ameaça estender-se ao mundo dos mortos. Se vingarem as quimeras de
multimilionários e biliardários (8% dos
quais já embolsam metade da renda do planeta), em algum ponto do futuro somente eles conseguirão sobreviver
completamente aos achaques da velhice.
Eles, não os humildes,
herdarão a Terra. E sem precisar se preocupar com aquela ameaça bíblica envolvendo um
camelo e uma agulha, pois no reino dos céus não ambicionam mais entrar. Estão
em outra.
Pesquisa
de Larry Schwartz para a AlterNet, serviço noticioso alternativo,
revelou há dias que quem mais se esforça para manter eterna distância do reino
dos céus é a aristocracia tecnológica do
Vale do Silício [1], a maior
concentração de bilionários da atualidade. Seus antepassados analógicos
tentavam embromar a senectude e adiar a morte com transfusões de sangue,
transplantes de testículos de animais e as poções gerovitalizadas da romena
doutora Aslan; agora a aposta se
concentra nos prodígios, aparentemente inesgotáveis, da nanomedicina, da
ciberbiologia e de ciências análogas. Só eles poderão arcar com as despesas.
Congelar criogenicamente a cabeça,
apenas a cabeça, enquanto se espera a cura da doença que levou ao óbito o resto
do corpo, não sai por menos de US$ 200 mil.
Inútil lembrar aos Prometeus
da era digital que a morte é igual para todos, a única coisa indiscutivelmente democrática
que existe, a correção pela natureza das desigualdades deste mundo. Otto Lara Resende dizia que a morte é
“o clube mais aberto do universo”. Os nababos [2] da internet não parecem acreditar que estão criando o
clube mais fechado do universo, uma espécie de country club da vida.
Larry Page e Sergey Brin (Google), Mark
Zuckerberg (Facebook), Sean Parker
(Napster, Plaxo, Spotify), Pierre
Omidyar (Ebay), Peter Thiel
(PayPal) – todos eles investem fortunas
em pesquisas científicas e pseudocientíficas que possam levar à fonte da
juventude eterna e, numa segunda etapa,
à imortalidade. Perguntaram a Thiel
o que achava da morte. “Basicamente sou contra”, respondeu. “Morrer nunca fez o menor sentido pra mim”,
declarou Larry Ellison, fundador da Oracle, que já investiu mais de US$ 400
milhões em estudos sobre a vida eterna, por meio de uma fundação médica que
leva o seu nome.
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Ken Dychtwald - gerontologista |
Thiel foi o principal financiador
do Breakout Labs, laboratório de
pesquisas especulativas voltado para a libertação dos cientistas das “prisões
institucionais que retardam o avanço da ciência mais audaciosa”. Ken Dychtwald, expert em gerontologia e
longevidade, não vê essa audácia com otimismo. “A migração de talentos para essa área de pesquisas é a maior que já vi
em meus 40 anos de prática”, declarou à revista Time. A perspectiva de um mundo dividido não mais entre pobres e
ricos apenas, mas entre mortais e imortais assusta Dychtwald. “Já imaginou termos de conviver com uns 10
mil ricaços imortais, vendendo saúde e desobrigados de prestar contas de seus
atos com Deus?”
Bill Gates, rara voz discordante entre
seus pares, soltou o verbo no site do Reddit:
“Com tanta gente passando necessidades e
morrendo de doenças curáveis, como malária e tuberculose, buscar a vida eterna
é pretensão egocêntrica, desvio de recursos que poderiam ajudar milhões de
pessoas, e não apenas alguns multimilionários, a viver mais e melhor”. Mas
quem iria bancar os gastos da Previdência com tantos aposentados atingindo a
idade das tartarugas?
A finitude é uma bênção. A conquista da imortalidade não traz benefício algum à sociedade,
argumenta Daniel Callahan,
cofundador do Hastings Center, o mais
renomado instituto de pesquisa sobre bioética. Muito menos se a benesse for
estendida democraticamente a todos os comuns mortais. “Se todos os 7 bilhões de humanos tivessem acesso à imortalidade, o
mundo explodiria”, diz ele, fazendo coro com o teórico político Francis Fukuyama, que pode acreditar no
fim da história mas não no fim da finitude. “Há motivos ligados à evolução para que a gente morra”, salientou
Fukuyama no Washington Post. “Sem
incentivo para nos adaptarmos à necessidade da sobrevivência, não haveria mais
mudanças sociais e ditadores permaneceriam no poder não décadas a fio, mas
durante séculos.”
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Daniel Callahan |
Obsessão
humana desde a aurora da civilização, a imortalidade (que só faz sentido se
acompanhada da juventude eterna) já sacrificou tantas vidas que muito pouca
gente ainda acredita na possibilidade de um mundo futuramente habitado por Struldbrugs de verdade. Os Struldbrugs de mentira, ou melhor dito,
ficcionais, viviam na terra de Luggnagg. Gulliver conheceu-os numa de suas
viagens. Eram imortais. Mas não dignos de inveja. Depois dos 30 anos eram
vencidos pela melancolia, pela inveja e se esqueciam de tudo.
Nos
anos 1930, Charles Lindbergh, o
piloto mais célebre de todos os tempos, juntou-se ao biólogo e Nobel de
Medicina francês Alexis Carrel para
uma experiência bizarra: driblar a morte mediante revolucionários procedimentos
cirúrgicos com vasos sanguíneos. Misto de Dr. Frankenstein com o dr. Moreau de
H.G. Wells, Carrel simpatizava, como Lindbergh, com o nascente
nacional-socialismo alemão e, por tabela, com a ideia de eugenia da raça. Sua
retífica biológica só seria acessível a puros-sangues humanos, selecionados por
um conselho de sábios. Os fracos e doentes que se danassem. A desmoralização do
nazismo acabou com a farsa. Outras viriam. Afinal, os charlatões também fazem
parte da involução da espécie.
N
O T A S
[ 1 ] –
O Vale do Silício (em inglês: Silicon Valley), na Califórnia, Estados
Unidos, é uma região na qual está situado um conjunto de empresas implantadas a
partir da década de 1950 com o objetivo de gerar inovações científicas e
tecnológicas, destacando-se na produção de circuitos eletrônicos, na eletrônica
e informática. O vale abrange várias cidades do estado da Califórnia, no sul da
Área da baía de São Francisco, como Palo Alto e Santa Clara, estendendo-se até
os subúrbios de São José. Para saber mais, clique aqui.
[ 2 ] – Nababo era o príncipe ou governador de
província na Índia muçulmana entre os séculos XVI e XIX. Passou a significar,
nos tempos atuais, indivíduo muito rico que ostenta grande luxo. (Fonte: Dicionário Eletrônico Houaiss da
Língua Portuguesa 3.0).
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Suplemento ALIÁS – Domingo, 21 de junho de 2015 – Pg. E3 – Internet: clique aqui.
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