A MULHER QUE SABIA DEMAIS!
“Puxei o fio e vi coisas que não devia”
Entrevista
com Stéphanie Gibaud
Eduardo Febbro
Página/12
17-06-2015
A agenda argentina e a francesa coincidem em Paris em
torno desse crime da finança internacional facilitado pelos bancos, que é a
evasão fiscal, e os multiterritoriais paraísos fiscais.
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STÉPHANIE GIBAUD Ex-funcionária do UBS - União de Bancos Suíços |
Nesta
quinta-feira 18 o Senado francês organiza um colóquio sobre o tema “Uma nova etapa para lutar contra a evasão
fiscal e regular as finanças?” O presidente da AFIP (órgão similar à
Receita Federal brasileira), Ricardo
Echegaray, participa deste colóquio junto com os membros da comissão
bicameral argentina composta por cinco deputados e cinco senadores.
O
presidente da AFIP fará uma colocação no Senado francês e também terá uma
conversa com Hervé Falciani, o ex-funcionário do HSBC que revelou o
mecanismo pelo qual este banco operava como ponte de evasão fiscal em muitos
países do mundo. O encontro no Senado francês contará com a presença de dezenas
de personalidades e dirigentes políticos e pretende formular “propostas
precisas, em particular legislativas, tanto ao nível europeu como mundial, para
iniciar uma nova etapa e reforçar a mobilização política e cidadã”.
Mas
antes deste evento a embaixadora argentina na França, María del Carmen Squeff, organizou na quarta-feira 17 um encontro
na sede diplomática argentina da capital francesa com Ricardo Echegaray, os
integrantes da bicameral e Stéphanie
Gibaud, ex-funcionária do UBS –
União de Bancos Suíços – que descobriu e revelou a poderosa maquinaria que
o UBS havia posto em marcha para facilitar a evasão fiscal para a Suíça.
Stéphanie Gibaud é um emblema do que pode
acontecer com quem ousar dar o passo e denunciar as práticas ilícitas do
sistema bancário nos países ocidentais. Gibaud é o que se conhece em inglês
como uma whistleblower, isto é, uma pessoa que vaza informações
comprometidas a favor do bem comum. Só que, como ocorreu com muitos
vazadores – Edward Snowden, Julian Assange, John Kiriakou ou Bradley Manning –,
a defesa desse bem comum torna-se uma
condenação. Perseguidos pela Justiça e pelos serviços secretos, acossados
pelas empresas ou instituições que denunciam, exilados, sem trabalho, acusados
de traidores, incompreendidos pela opinião pública, o destino destes heróis modernos da verdade é simplesmente terrível.
O
destino de Stéphanie Gibaud não
escapa desta tragédia. A mulher não trabalhava na estrutura financeira do
banco, mas como responsável pelo que em francês se conhece como marketing événementiel, ou seja, a montagem de eventos para os clientes do
banco. Mas esses eventos tinham um objetivo muito diferente daquele
enunciado inicialmente: tratava-se de
colocar em contato os abastados clientes franceses com os gestores de contas do
UBS na Suíça para captar seu dinheiro.
Em
2008, depois do estouro nos Estados Unidos do escândalo da evasão fiscal
protagonizado por este banco, a direção do UBS exigiu que Stéphanie Gibaud
apagasse os documentos em sua posse (nomes dos clientes, gestores de contas
etc.). Ela se nega e exige uma ordem escrita. Ali começa seu inferno. Não
descobriu apenas o caráter ilegal das atividades do banco, mas, além disso, vai
denunciá-las. Na França, sua intervenção conduzirá à imputação do UBS por lavagem e fraude. Demitida do trabalho,
acossada pelo UBS, Stéphanie Gibaud
pagou um alto tributo por seu gesto. Está há mais de três anos sem
encontrar trabalho, nem no setor público, nem no privado.
Esta
história, ao mesmo tempo pública e íntima, está narrada no livro que Stéphanie
Gibaud escreveu em 2014, La femme qui en savait vraiment trop. Les
coulisses de l’évasion fiscale en Suisse (A mulher que verdadeiramente
sabia demais. Os bastidores da evasão fiscal na Suíça). Stéphanie Gibaud
detalhou na quarta-feira 17 na Embaixada argentina de Paris os dispositivos
dessa evasão fiscal que atormenta todas as economias do mundo. Mas não é sua
única batalha. Vítima do peso sufocante dos Estados e das instituições
financeiras, Stéphanie Gibaud pedirá ao Estado argentino que interceda junto às
Nações Unidas e aos demais países do G20 para a adoção de uma legislação internacional específica para proteger as
pessoas que vazam informações que, em nome de todos os cidadãos e da Justiça,
revelam as irregularidades e armadilhas protegidas por interesses colossais.
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Tradução: A mulher que verdadeiramente sabia demais. Os bastidores da evasão fiscal na Suíça |
Eis
a entrevista.
A
mulher que realmente sabia demais, o título de seu livro deixa intuir uma
história execrável. Em que momento você começou a saber demais?
Stéphanie Gibaud: A partir do momento em que
comecei a me fazer perguntas que ultrapassavam o meu ofício. Eu tinha um
trabalho de representação, isto é, de imagem. No banco, meu posto chamava-se
“embaixador da marca”. O que eu fazia era organizar eventos com as marcas de
luxo para nossos clientes. Para mim, todo o resto estava submerso. Mas quando
me pediram para que destruísse os arquivos e não entendi por que exigiam isso
de mim, comecei a puxar o fio. Por conta de puxar o fio, vi coisas que não
devia. Os colaboradores do banco me explicaram o perigo penal que corriam caso
eu revelasse o que havia descoberto. Também me contaram sobre as bonificações
que recebiam por cada cliente que atraíam à sucursal suíça do banco. Eu não
sabia que tudo isso era ilegal. De fato, o banco UBS França não podia proceder
assim segundo a lei: os bancos offshore
e onshore são ofícios diferentes. Mas
aqui foram juntados; colocou-se o bom grão e grão ruim na mesma cesta.
Você
descobriu nessa época que existiam duas contabilidades.
Stéphanie Gibaud: Sim, fiquei sabendo da
existência de uma contabilidade puramente manual, paralela, escrita à mão,
dentro do próprio banco. Falei para mim mesma: isto não é possível! Os
colaboradores, os gestores das contas que ajudavam os clientes a transferir seu
dinheiro para contas offshore, não
declaravam essas quantias na contabilidade legal do banco, mas em uma caderneta
escrita à mão. Essa caderneta permitia-lhes, além disso, estabelecer a
contabilidade de suas bonificações. Os gestores de contas são como agentes
comerciais: têm objetivos comerciais e devem cumpri-los.
Assim
como no caso do HSBC, o sistema do UBS também girava em torno da deslocalização
da informação.
Stéphanie Gibaud: Eu via as coisas como
através de um prisma. Depois, através do prisma dos outros pude reconstruir a
teia e ver além das paredes. Assim compreendi algo tão simples como a
deslocalização. Por exemplo, hoje, no UBS França, uma parte do serviço de
recursos humanos foi deslocalizado, transferido para a Polônia; o serviço de
marketing foi transferido para a Índia e o sistema informático foi transferido
para Mônaco. E o mais incrível é que o presidente do UBS França também é o
chefe do UBS de Mônaco. Não sei se é realmente legal que uma pessoa seja
simultaneamente responsável offshore
e onshore. No entanto, trata-se de
uma questão fundamental. Todo este sistema de evasão fiscal está pensado no
mais alto nível da casa central de Zurique e aplicado depois em todo o planeta.
Em
suma, pode-se perfeitamente falar de uma montagem especialmente desenhada para
organizar a evasão fiscal para a Suíça.
Stéphanie Gibaud: Bom, desde 2008, as coisas
mudaram. A Suíça aparece hoje como um país que fez esforços para melhorar.
Desde que estourou o escândalo UBS nos Estados Unidos, com todas as medidas e
sanções que foram adotadas, a Suíça antecipou o que ocorreria na Europa. Em resumo,
os grandes fornecedores de fundos para a Suíça, os norte-americanos e os
europeus, foram substituídos por pessoas da Rússia, da Índia, do Brasil, da
Argentina. Os banqueiros disseram que as democracias dos países emergentes não
iriam se interessar imediatamente pelo tema dos bancos ou pelas operações offshore. Pensaram que poderiam agir com
total impunidade durante 30 anos. Mas tudo mudou.
Mas
apareceu, entre outros, a Argentina para arruinar-lhes um pouco a festa. Acaso,
não ficou assombrada com o fato de que um país da América do Sul entrasse na
arena com tanta força?
Stéphanie Gibaud: É, com efeito, incrível que
as boas notícias venham da América do Sul. Estamos aqui, na França, no país dos
direitos humanos, e se deveria proteger os cidadãos em vez de proteger informações
sensíveis, secretas, instituições financeiras. Por isso, é muito positivo o que
acontece com a Argentina. A Argentina é uma democracia que tem memória.
Para
você, pessoalmente, esta história foi muito sofrida.
Stéphanie Gibaud: Sim, sete anos de luta é
muita coisa. Ao meu redor, as pessoas tiveram tempo para se casar, divorciar,
ter filhos, voltar para casa, encontrar outro trabalho, ter aumentos de
salário. Eu, há sete anos, luto com a mesma coisa. Mas sou muito positiva. Meu
problema foi que estava sozinha. Mas pelo fato de estar sozinha e fazer barulho
me converti um pouco no catalisador de muitas pessoas que vazam informações, de
toda essa gente que vê coisas e diz: “eu, por consciência, não quero dar minha
caução a isso”.
Traduzido do espanhol por André Langer. Acesse a versão original
desta matéria, clicando aqui.
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