ANALISANDO A ENCÍCLICA DO PAPA: «LAUDATO SI'»
A “Suma Ecológica” do Papa Francisco:
voltar à realidade
Gianni Valente
Vatican
Insider
17-06-2015
A Laudato Si’
do Papa Francisco não é somente uma Encíclica ecológica. Seguindo o “fio verde”
da questão ambiental até seus labirintos mais capilares, o Bispo de Roma traça
uma crítica global sobre o sistema de desenvolvimento que engloba a humanidade
e o mundo e que parece empurrá-los para o beco sem saída da auto-aniquilação.
A
urgência ecológica é o rosto contemporâneo da questão social. O receptáculo no
qual se encontra o rastro de todas as infecções que atormentam os povos e as
nações, as gerações e os continentes.
Apologia
do pensamento crítico
Nas
mais de 200 páginas do texto papal, viajamos também entre algas e aquíferos
contaminados, entre recifes de corais e invasivos aparelhos de ar condicionado.
Mas o ponto fundamental da mensagem é a constatação
objetiva da insustentabilidade do modelo de gestão imposto no mundo pela
globalização neomercantilista. O Papa Francisco documentou que “para além
de qualquer previsão catastrófica, o certo é que o atual sistema mundial é
insustentável desde diversos pontos de vista”.
Ao
fazê-lo, indica e descreve as conexões, muitas vezes ocultadas, que relacionam
as crises financeiras com as migrações bíblicas de povos inteiros, as
convulsões geopolíticas e as guerras mundiais “em capítulos” desencadeadas pelo
controle das fontes de energia, porque os
“problemas do mundo não podem ser analisados nem explicados de forma isolada”.
Suas considerações, mais do que descrever cenários futuristas, são, em muitos
casos, a descrição de um futuro que já
começou. Como quando expressa a fácil previsão de que “diante do esgotamento de alguns recursos”, vai se criando “um cenário
favorável para novas guerras, mascaradas com nobres reivindicações”.
Cobiça
“tecnocrática”
A devastação da Criação,
disse o Papa, tem sua origem na pulsão acumuladora que acompanha a condição
humana marcada pelo pecado original, que condiciona inclusive os mecanismos convulsivos
da globalização do mercado. O Bispo de Roma descreve todas as manifestações de
tais reflexos condicionados, que confluem na ruína global, das lutas das
multinacionais pelo controle das fontes de água potável, por exemplo, ou pela
pesca que depreda seletivamente espécies marinhas de acordo com o seu preço no
mercado.
No
desastre ambiental que paira sobre o mundo, a febre cega que corrompe todo o
sistema chega a um ponto de ruptura que é evidente para todos, porque todos –
apesar da distorção da realidade feita mediante a manipulação da informação de
acordo com os interesses de blocos de poder econômico financeiro – podem
perceber em carne e osso os efeitos
autodestrutivos provocados pelos modelos de produção e de consumo que estão
afetando todo o planeta.
Para
as gerações que vivem esta passagem histórica, a cega pulsão que tende à
acumulação assume efeitos tão devastadores porque pela primeira vez na história
pode utilizar os terríveis instrumentos que colocaram à disposição “novas
formas de poder derivadas do paradigma tecnoeconômico”. Uma potência sem
limites, que é liberada sem poder ser contida pela fragilidade das reações da
política internacional. “A submissão da política à tecnologia e às finanças
mostra-se no fracasso das Cúpulas Mundiais sobre o Meio Ambiente. Há muitos
interesses particulares, e muito facilmente o interesse econômico chega a
prevalecer sobre o bem comum e a manipular a informação para que os seus
projetos não se vejam afetados”.
Voltar
à realidade
O
olhar crítico aplicado pelo Papa Francisco aos processos de autodestruição
postos em marcha pela busca de “um
benefício imediato” – ao qual instigam as leis do mercado “divinizado” – não surge de um idealismo romântico
ou do sonho nostálgico de voltar no tempo para retomar formas de vida
pré-industriais. O ponto do qual surge o juízo sobre o estado da questão é,
antes, o respeito pela realidade, o respeito por esse que o delírio de onipotência tecnocrática
trata constantemente de violar. A raiz
do problema ecológico, reconhece o Papa Francisco, está no fato de que “há um
modo de entender a vida e a ação humana que se desviou e que contradiz a
realidade até violá-la”.
Toda
a encíclica está cheia de realismo e de respeito pelo princípio da realidade
frente aos dados objetivos que marcam a condição humana, começando pelo reconhecimento dos limites do mundo e de seus
recursos. Ao longo do texto, o Papa Francisco dissemina eficazes antídotos
contra o fideísmo [fé cega] do “paradigma tecnocrático” e seus propagadores bem
remunerados.
Seguindo
as pegadas de Romano Guardini, autor
importante para o Papa, Francisco
denuncia os limites do antropocentrismo moderno que “acabou colocando a
razão técnica acima da realidade, porque este ser humano ‘não sente a natureza
como norma válida, menos ainda como refúgio vivo’”. A intervenção do ser humano
na natureza, recorda Bergoglio, “sempre aconteceu, mas durante muito tempo teve
a característica de acompanhar, de favorecer as possibilidades que as próprias
coisas oferecem. Tratava-se de receber o que a realidade natural permite, como
estendendo a mão. Agora, ao contrário, o que interessa é extrair todo o
possível das coisas pela imposição da mão humana, que tende a ignorar ou a
esquecer a realidade mesma do que tem diante de si”.
Agora,
caso se queira neutralizar verdadeiramente o germe da auto-aniquilação que
aninha nos modelos de vida e de consumo impostos pelo paradigma tecnocrático,
“chegou o momento de prestar atenção novamente na realidade com os limites que
ela impõe, que, por sua vez, são a possibilidade de um desenvolvimento humano e
social mais saudável e fecundo”.
Um
documento “operacional”
As previsões catastróficas,
adverte o Papa Francisco, “já não podem ser olhadas com desprezo e ironia. Poderíamos deixar às
próximas gerações muitos escombros, desertos e sujeira. O ritmo de consumo, de desperdício e de alteração do meio ambiente
superou as possibilidades da Terra, de tal modo que o estilo de vida atual, por
ser insustentável, só pode acabar em catástrofe, como de fato já está
ocorrendo periodicamente em diversas regiões”.
No entanto, a encíclica
ambiental não pertence de maneira alguma ao gênero “catastrofista”. Diante do diagnóstico
realista e detalhado do estado da questão, não há nenhum discurso paralisado
pelo medo sobre o futuro nem por um sentimento de impotência. Pelo contrário. Nas páginas da encíclica há disseminadas
várias propostas operacionais e chamando para agir rapidamente. Porque a
situação é grave e o tempo vai se reduzindo, mas uma mudança de direção
concreta e compartilhada pode manter viva a esperança de mudar as coisas.
Bergoglio
dirige-se a todos: a cada crente, a cada mulher e homem de boa vontade, mas
também às nações, aos órgãos internacionais e ao grupo “dos que decidem”.
Propõe dezenas de sugestões concretas e pistas a seguir. Entre todas destaca,
para os países avançados, a perspectiva da “desaceleração”, a mesma que os
analistas mais clarividentes indicaram como via mestra, caso se queira
interromper o processo de autodestruição.
“Se
em alguns casos o desenvolvimento sustentável implicará em novas formas de
crescer, em outros casos, diante do crescimento voraz e irresponsável que se
produziu durante muitas décadas, é
preciso pensar também em deter um pouco a marcha, em colocar alguns limites
racionais e inclusive em voltar atrás antes que seja tarde. Sabemos que o
comportamento daqueles que consomem e destroem sempre mais é insustentável,
enquanto outros ainda não conseguem viver de acordo com a sua dignidade humana.
Por isso, chegou a hora de aceitar certo
decrescimento em algumas partes do mundo proporcionando recursos para que se
possa crescer saudavelmente em outras partes”.
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Gianni Valente Jornalista italiano vaticanista |
A
Igreja amiga dos seres humanos
Ao
propor ao mundo sua “Suma Ecológica”, o Papa Francisco também oferece a todos
os dons apropriados e saudáveis que encontra no rico tesouro da Tradição e da
memória cristã. Não reivindica para o cristianismo a “matriz”
teológico-cultural do sistema capitalista ou dos modelos de desenvolvimento
difundidos pela economia de mercado. Pelo contrário, nessa vertente descreve as
posturas de um “antropocentrismo desviado” e reconhece que “uma apresentação
inadequada da antropologia cristã foi capaz de respaldar uma concepção
equivocada sobre a relação do ser humano com o mundo. Transmitiu-se muitas
vezes um sonho prometeico de domínio sobre o mundo que provocou a impressão de
que o cuidado da natureza é coisa de fracos”.
Bergoglio
sugere que na atualidade é a experiência
cristã da gratuidade da Criação, marcada pela estupefação e pelo agradecimento
por um dom recebido que deve ser tutelado, a que pode ajudar a todos a
encontrar novamente estilos de vida que não estejam submetidos às bulimias
neuróticas impostas pelo consumismo. “Quando pensamos na situação em que se
deixa o planeta às gerações futuras”, escreve Bergoglio, “entramos em outra
lógica, a do dom gratuito que recebemos e comunicamos. Se a terra nos é doada, já não podemos pensar só a partir de um
critério utilitarista de eficiência e produtividade para o benefício individual”.
Enquanto
volta a propor como dom para todos a via da sobriedade e da estupefação diante
da Criação, já indicada por São Francisco e por muitos outros humildes eleitos
pela espiritualidade cristã, o atual
Bispo de Roma propõe outra vez a imagem da Igreja amiga dos seres humanos
delineada pelo Concílio Vaticano II. Uma Igreja que, com o anúncio do
Evangelho de Cristo, não tem, nem pretende defender, interesses ou planos para
sublinhar sua própria relevância. E justamente por isso, pode oferecer a toda
família humana os dons sempre novos da milenar sabedoria cristã.
Com
sua encíclica, o Papa toca um nervo do mundo, chama a atenção profeticamente
para a urgência planetária da hora presente. No cenário do mundo, sacudido por
guerras e inimizades, indica a todos, na defesa da vida e na salvaguarda da
Criação, um terreno comum no qual é possível redescobrir e viver de maneira
concreta o destino comum que une os judeus e os cristãos, os muçulmanos, os
fiéis das diferentes tradições religiosas e todos os homens e mulheres da
Terra.
Talvez
por este motivo, é provável que mesmo os
poderosos das nações atendam às suas palavras. Como aconteceu no passado
com a Pacem in Terris – quando o
outro nome de Deus era evocado diante das ameaças da guerra nuclear – e com a Populorum Progressio – quando Paulo VI
falou ao mundo que saía do neocolonialismo sobre os “povos da fome” que
“interpelavam os povos da opulência”. Isto
pode acontecer quando a Igreja demonstra ao mundo limpidamente que pregar o
Evangelho de Cristo quer dizer ocupar-se do bem de todos e estar a serviço de
todos. Porque, como dizia Santo Agostinho, o bem próprio da Cidade dos
homens é fundamental para todos os que pertencem à Cidade de Deus.
Traduzido do italiano por André Langer. Acesse a versão original
deste artigo, clicando aqui.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 19 de junho de 2015 –
Internet: clique aqui.
Uma revolução cultural.
A encíclica ambiental do Papa Francisco
Massimo
Faggioli
Commonweal
18-06-2015
«Para Francisco, a questão-chave é “redefinir o
progresso”, a fim de reforçar a política em face de um sistema econômico
dominante profundamente excludente. Nesse sentido, o papel da Igreja é, em
grande parte, educacional. Laudato Si’
incentiva os movimentos de base feito por consumidores socialmente responsáveis
e encoraja os católicos a serem politicamente ativos de várias maneiras.»
A
encíclica do Papa Francisco Laudato si’
defende nada menos do que uma revolução cultural. Em prosa facilmente legível, o pontífice convida as pessoas de todas as
religiões a combater, com urgência, a crise climática produzida por nós mesmos.
Embora o texto afirme claramente o consenso científico sobre o aquecimento
global, Laudato si’ preocupa-se mais com o poder político e econômico do
que com a ciência. Nesse sentido, a encíclica inspira-se e se edifica na
tradição do ensino da Igreja sobre o meio ambiente, que remonta a Paulo VI e
continua até o pontificado de Bento XVI.
Dificilmente
o escopo da encíclica poderia ser mais amplo. Francisco enfatiza a solidariedade entre todas as criaturas de Deus,
entre os seres humanos e o resto da criação. No entanto, o papa não se
afasta de uma análise política mais detalhada. Por exemplo, ele exorta os países a reduzir o dióxido de
carbono e outros poluentes.
Mas
a primeira fonte da encíclica, muito visível na introdução, é Francisco de Assis (o título da
encíclica foi retirado do “Cântico das Criaturas”, de Francisco de Assis).
Francisco
se inspira na Pacem in Terris (1963),
de João XXIII, encíclica escrita durante uma outra crise mundial: a Guerra Fria. Como Pacem in Terris, a nova encíclica dirige-se às pessoas de boa
vontade no intuito de “entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum”.
Naturalmente, o papa cita o Vaticano II (Gaudium
et Spes), juntamente com os ensinamentos de Paulo VI, João Paulo II e Bento
XVI (especialmente Caritas in Veritate,
escrita por este último).
Outras
citações importantes vêm de Teilhard de
Chardin e Romano Guardini. Ele
também menciona as cartas de algumas Conferências Episcopais (especialmente a
dos bispos da América Latina e Caribe). Igualmente, ele cita o trabalho do Patriarca Bartolomeu de Constantinopla,
que tem falado de forma comovente sobre as questões ambientais.
Em
alguns aspectos, Laudato Si’ parte de
onde Evangelii Gaudium parou. Francisco denuncia a “cultura do descarte”,
o poder da tecnologia e da globalização que busca insanamente o lucro. Como
esperado, ele afirma o consenso científico sobre o aquecimento global. A fim de
melhor ouvirmos o que a terra está nos dizendo, escreve Francisco, a Igreja deve defender os pobres – os primeiros a
sofrerem os efeitos das mudanças climáticas.
O
Papa rejeita as “soluções demográficas” (como escreve Paulo VI na Humanae Vitae, porém Francisco não cita
o texto aqui), tais como o controle populacional. Ele critica os países ricos
que alavancam as necessidades dos mais pobres em nome do controle político. Particularmente forte é a análise do papa das
relações entre a política, a economia global e a informação, que é manipulada
por interesses comerciais. Francisco lamenta que, no debate sobre o meio
ambiente, o papel da política está, em grande parte, ausente.
O
Evangelho pede à Igreja que fale contra tudo o que ameace a dignidade de cada
ser humano, incluindo a desigualdade. Nesse sentido, a ecologia de Francisco é totalmente pró-vida: o respeito pelas
pessoas e o respeito por outras criaturas estão intimamente ligados.
A
seção mais forte de Laudato Si’ é a sua crítica
da tecnocracia (um ceticismo compartilhado por Bento XVI). O “paradigma tecnocrático” se reflete em
nossa incapacidade de compreender o fato de que muitos dos recursos do planeta
são finitos.
Para Francisco, a tecnologia
nunca é neutra – ela pode ser usada para produzir efeitos maléficos. O mercado em si não irá
corrigir isto por conta própria. Portanto, a própria Igreja deve oferecer uma
voz unificada, a fim de ajudar a nos libertar do paradigma tecnocrático. Para
isso, Francisco exorta-nos a repensar os
nossos excessos consumistas: uma boa relação com a criação pressupõe um bom
relacionamento com o Criador.
De
acordo com Francisco, a ecologia sempre inclui cuidar dos pobres, dos
marginalizados e da natureza. Isso também significa proteger a cultura: a
palavra “inculturação” não aparece no texto, mas, para a Laudato Si’, a verdadeira ecologia deve ser inculturada, e
não importada com uma mentalidade colonialista. A “ecologia humana”
autêntica não ignora as diferenças sexuais: aceitar a masculinidade e a feminilidade, escreve o Papa, é uma forma
de respeitar criação, em vez de impor a nossa vontade sobre ela. Nesta
apresentação católica de ecologia, a sociedade tem um papel na defesa do bem
comum, assim como os países e governos.
Em parte, Francisco culpa
uma falha na governança global para a atual crise climática. Aqui, o papa repete o
apelo a uma autoridade política mundial que começou com João XXIII. Quando os
cidadãos se deparam a corrupção política, eles devem resisti-la. É a corrupção,
afinal de contas, que subjuga a política aos interesses financeiros. O Papa
Francisco não mediu palavras. Ele
considera a crise financeira de 2007-2008 como uma oportunidade perdida que
poderia ser usada para mudar todo o sistema econômico (em vez disso, o Ocidente
focou-se em salvar os grandes bancos).
Para
Francisco, a questão-chave é “redefinir
o progresso”, a fim de reforçar a política em face de um sistema econômico
dominante profundamente excludente. Nesse
sentido, o papel da Igreja é, em grande parte, educacional. Laudato Si’ incentiva os movimentos de
base feito por consumidores socialmente responsáveis e encoraja os católicos a
serem politicamente ativos de várias maneiras.
A encíclica termina com duas
orações. Na
oração inter-religiosa, encontramos os temas favoritos de Francisco: a ternura,
os pobres e a “nossa luta pela justiça, o amor e a paz”. Na oração ecumênica,
ele pede pela conversão dos ricos e poderosos no sentido de servirem ao bem
comum – protegendo os pobres e a terra.
Como
todo o ensino social católico, este rico documento estará sujeito a
interpretações. Algumas questões me parecem importantes para compreendermos o
impacto da Laudato Si’ nos Estados Unidos.
Em
primeiro lugar, Francisco escreve sobre
a criação e o meio ambiente a partir de uma perspectiva cultural que é
diferente da de muitos americanos. Francisco é um papa um tanto urbano, e para ele o meio ambiente está profundamente
ligado com os – e é configurado pelos – seres humanos (os termos “direito natural” e “direito da natureza” não aparecem no texto).
Em
segundo lugar, Francisco não é um papa
contrário à modernidade, mas também não é um progressista. Em vez disso, ele é um progressista crítico. A tecnologia
pode nos ajudar a arrumar a bagunça que fizemos, mas a tecnologia por si só não
é o suficiente. É necessária uma conversão “pessoal e comunitária”, uma mudança
de coração.
Em
terceiro lugar, assim como seus antecessores, Francisco acredita que o bem
comum é servido tanto pelos indivíduos quanto pelos governos. Mas ele não é um católico do “governo pequeno”
[Estado mínimo], ao contrário dos candidatos presidenciais republicanos
católicos, que pediram ao papa que “deixe a ciência para os cientistas”. O papa rejeita a noção de prosperidade como
um projeto nacional. Isso também não vai soar muito bem para os americanos.
Um certo nível de prosperidade, um nível que implica a desigualdade de renda, é
simplesmente incompatível com a justiça econômica.
Em
quarto lugar, Francisco repete o ensino católico tradicional sobre as “questões
de vida”, relacionando-as com o imperativo
de cuidar de toda a criação. Mas os americanos que pensam essas questões de
forma isolada, à parte da economia e do meio ambiente, vão se decepcionar.
Francisco
convida-nos a termos uma visão mais global. Resta saber, todavia, se aceitará este convite aquela metade dos [norte-]americanos
que negam que as mudanças climáticas são um problema urgente.
Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa. Para acessar o artigo em sua versão original,
clique aqui.
mostra de forma impressionante a cultura do descarte.
O trabalho do fotógrafo é registrar os detritos que nós deixamos para trás. São celulares, carros, vidro, carregadores de celular e muitos outros.
Observe as fotos abaixo:
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Celulares descartados - lixo!!! |
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Vidros quebrados em depósito de lixo |
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Lixo "empacotado" para reciclagem |
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 19 de junho de 2015 – Internet: clique aqui.
Acadêmicos defendem implicações políticas e
antropológicas da Laudato Si'
Soli Salgado
National
Catholic Reporter
18-06-2015
Acadêmicos de diversas áreas opinaram sobre a nova
encíclica de Francisco, concordando que as implicações políticas e
antropológicas dentro do texto são inerentes à discussão.
Por mais de um século, os
norte-americanos – incluindo os católicos – reagiram ao ensinamento da Igreja,
argumentando que o papa e os bispos deveriam ficar fora da política e se
limitar a falar de religião, disse Una Cadegan,
professora da University of Dayton,
em Ohio, especialista na cultura intelectual e literária católica do século XX.
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Una Cadegan |
"Mas
se estamos falando de salário mínimo, ou de justiça social, ou de proliferação
nuclear ou do destino do planeta, estamos falando da nossa vida comum, que é
apenas outra palavra para política", disse. "E, se somos cristãos, no coração dessa vida comum, está o
amor."
Marian Diaz, professora assistente de
estudos pastorais da Loyola University
de Chicago, concordou que discutir a
justiça ambiental exige que se aborde a justiça social, cultural, antropológica
e econômica.
"Defender uma ecologia
integral na nossa casa comum requer uma justiça integral", afirmou.
Também
devemos redefinir sucesso e progresso, acrescentou, a partir do mero
desenvolvimento econômico, para todas as "ações criativas, construtivas e
comuns" feita no sentido do cuidado ambiental e social.
John Sniegocki, professor de teologia e
ciências ambientais da Xavier University,
disse que tomar medidas requer uma
transformação fundamental dos sistemas culturais, econômicos e políticos que
estão "destruindo a boa criação de Deus e causando graves prejuízos para
os pobres".
"Devemos
tomar medidas ousadas para realizar essas reformas estruturais e também para
mudar os nossos próprios estilos de vida. Trabalhar juntos para realizar essas
mudanças é uma parte essencial da fé cristã", disse.
Sniegocki acrescentou que, embora a
encíclica ofereça uma "forte afirmação do valor intrínseco de todas as
criaturas aos olhos de Deus" – a mais clara declaração que ele já viu em
declarações papais –, ela perdeu a chance de explorar as implicações de tais
afirmações, tais como as relacionadas com as escolhas alimentares e,
especificamente, com o consumo de carne.
"A encíclica deixa de
salientar que a indústria mundial de gado está entre as maiores causas de
destruição ambiental, sendo também uma das principais fontes de emissões de
gases de efeito estufa", disse ele, embora também tenha reconhecido que as
afirmações de Francisco facilitariam que as pessoas enfrentem a questão no
âmbito da doutrina social da Igreja.
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Nancy Rourke |
A
promessa do céu não deve nos distrair de apreciar os dons que temos atualmente,
disse Nancy Rourke, diretora do
Programa de Estudos Católicos do Canisius
College, em Buffalo, Nova York.
"Nós,
cristãos, pensamos na criação como um dom, mas também pensamos no além com Deus
como uma coisa melhor, um dom superior", disse ela, acrescentando que esse
tipo de pensamento facilita assumir a terra como algo garantido. "Na
verdade, esse dom, essa criação é tudo o que precisamos para ser felizes,
completos e estar em comunhão com Deus".
Embora
a maioria dos acadêmicos expressasse entusiasmo para o leque de questões que a
encíclica aborda sobre a ação ambiental, Kevin
Ahern – especialista em ética teológica e professor do Manhattan College, em Riverdale, Nova York – disse ter percebido três coisas que faltam no texto.
Ele
observou que não há menção ao pecado
social e estrutural, o que o surpreendeu, "dada a análise de Francisco
sobre as causas profundas". E, embora tenha dito que há rumores de que a
próxima encíclica será sobre o desarmamento, ele disse que deveria haver mais menções ao efeito da guerra sobre o ambiente e os
pobres. Por último, Ahern considerou que o texto carece de um forte apelo à ação para as paróquias, escolas e
instituições eclesiais.
«Eu
posso até ver um pároco, um reitor de universidade ou um administrador de
hospital olhando para a encíclica e dizendo: “E daí?”», disse Ahern,
acrescentando que o desafio consiste em
articular melhor como as instituições podem ser instrumentos de Deus na
proteção do nosso planeta.
Traduzido do inglês por Moisés Sbardelotto. Para acessar a versão original, clique aqui.
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