COMO O BRASIL VAI SAIR DESSA?
ILAN GOLDFAJN
Será mais fácil o País
sair da recessão do que conseguir
crescer mais na
sequência
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ILAN GOLDFAJN é economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco |
Essa é a pergunta que
mais me fazem atualmente. A preocupação é com a economia em recessão, com a
fragmentação política, sem falar no impacto das investigações em curso. Não é
pouca coisa. O receio é de que o estado
atual se prolongue. A esperança é de que o pior já tenha passado e a
recuperação da atividade esteja a caminho. A maioria dos economistas projeta
alguma melhora no futuro (bem gradual, em até um ano). Mas, racionalmente,
quais serão as forças da mudança?
A resposta não é trivial. Normalmente, a tendência é
imaginar que as forças atuais vão perpetuar-se. O mais difícil é pensar na
mudança, até porque exige definir como realizá-la. Tarefa árdua no Brasil de
hoje.
Mas as recessões na
economia não duram para sempre, um dia acabam. A maioria termina em dois,
três trimestres. As que duram anos seguem crises financeiras, num processo
longo de redução de endividamento (“desalavancagem”).
É um processo que requer tempo para se materializar e é a
antítese do calote: as dívidas vão diminuindo lentamente até se equilibrarem. O
livro This Time Is Different: Eight
Centuries of Financial Folly, de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart**,
mostra essa regularidade empírica. Sua importância foi prever corretamente a
recessão prolongada que se seguiu à crise financeira internacional de 2008. Até
hoje a recuperação plena da atividade global ainda é uma promessa.
Se recessões prolongadas são a exceção, longos períodos de
crescimento baixo não o são. Há vários exemplos no mundo. Foi o caso do Japão nas últimas décadas. E isso não é
“privilégio” de economias mais ricas. Um exemplo mais próximo é o do México, que cresceu cerca de 2% nas
últimas décadas e apenas recentemente implementou várias reformas que
possibilitarão maior crescimento daqui por diante.
Crescimento baixo é
mais comum do que se imagina. Poucas economias em desenvolvimento conseguem
convergir para a renda das economias mais ricas. A maioria fica presa na dita
armadilha da renda média. Apesar de bem-sucedidas em crescer e escapar de
rendas per capita muito baixas, não conseguem avançar. A dificuldade é transformar modelos baseados em “transpiração” em
baseados em “inspiração”. O primeiro modelo gera crescimento com base na
capacidade de acumular fatores (capital e trabalho): utilizando a mão de obra
disponível para trabalhar e investindo mais. O segundo [“inspiração”] depende
da capacidade de fazer mais com os mesmos recursos disponíveis, aumentando a
produtividade. É a busca da eficiência
por meio da melhora da educação, da gestão e da inovação. O Brasil precisa
ainda transpirar (investir mais), embora o crescimento vá cada vez mais
depender da sua inspiração (produtividade, eficiência).
Assim sendo, será mais fácil o Brasil sair da recessão do
que conseguir crescer mais na sequência. Mas nenhum dos dois vai ser fácil.
Na sexta-feira [29 de maio] o IBGE divulgou o resultado do
primeiro trimestre de 2015, com queda de
0,2% do produto interno bruto (PIB) em relação ao trimestre anterior (em
termos anualizados, queda em torno de 1%). Não
há dúvida de que a economia está em recessão. A perspectiva é de que o
segundo trimestre será pior do que o primeiro: estimamos queda de 1% (o que
seria uma queda de 4% anualizada). E será o fundo do poço?
Por enquanto, não há
sinais de estabilização, a queda é livre. No atual ritmo, o crescimento do
terceiro trimestre também será negativo. Mas a recessão prolongada torna a base
de comparação mais baixa: basta parar de
cair que a situação melhora.
Para avaliarmos a extensão da recessão é importante
diagnosticá-la. A queda atual é
consequência do passado. Resulta do esgotamento das políticas adotadas nos
últimos anos. A tentativa de prolongar artificialmente o desempenho econômico
do ciclo anterior, num contexto global muito diferente, não só fracassou, mas
também introduziu incertezas macroeconômicas, que minaram a confiança da
sociedade, derrubando o investimento e o crescimento. No final, a insistência
levou até à falta de disciplina macroeconômica, o que exige atualmente ajustes
duros para evitar a crise (ou seja, perda de grau de investimento, saída de capitais,
crise cambial, depressão).
Há cinco ajustes em
curso:
- fiscal (meta primário),
- parafiscal (recursos públicos além do primário),
- realismo tarifário,
- balanço de pagamentos (câmbio flutuante) e
- meta de inflação (volta ao centro da meta).

A confiança na
economia depende também do contexto político. Não há ainda clareza sobre o
caminho que o governo quer seguir. A fragmentação das forças políticas
fundamenta essa incerteza. A atual baixa
popularidade mantém acesa a dúvida se o governo vai mudar novamente a direção
das políticas.
Em suma, o primeiro passo é sair da recessão. A reversão da
queda da confiança é essencial para isso. Os ajustes removem o grande
obstáculo, mas não são suficientes, per se, para a retomada da confiança. O
ambiente no País ainda é de incerteza. A volta do crescimento sustentável é o
passo seguinte. Requer coesão política
para direcionar o Brasil no caminho certo e foco no aumento da produtividade e
eficiência. Esse segundo passo parece bem mais difícil, visto de hoje.
*
Edição brasileira: ROGOFF, Kenneth S.; REINHART, Carmen
M. Oito Séculos de Delírios Financeiros: Desta Vez é Diferente. São Paulo: Elsevier, 2010. 504 p.
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