REAÇÕES À ENCÍCLICA "VERDE" DE PAPA FRANCISCO
“Encíclica verde” une ecologia à justiça social
José Maria
Mayrink
Papa Francisco denuncia comportamento “suicida” que
ameaça futuro da humanidade
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Cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson apresenta encíclica do Papa Francisco Laudato Si' sobre os cuidados para a nossa casa comum, em Roma, Itália. Foto: Alessandra Benedetti / Corbis |
O
papa Francisco publicou nesta quinta-feira, 18, a encíclica Laudato
Si’, um texto de 191 páginas, dividido em seis capítulos, dedicado ao
meio ambiente, no qual ele denuncia o
comportamento “suicida” de um sistema econômico que ameaça o futuro da
humanidade.
“A Terra, nossa casa, parece
transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo”, adverte Francisco, depois
de afirmar que “anualmente se produzem
centenas de milhões de toneladas de resíduos”. O papa argentino, que é
formado em Química, afirma que as
mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais,
sociais, econômicas, distributivas e políticas e, por isso, constituem um
dos principais desafios atuais. “Provavelmente
os impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias
de desenvolvimento”, afirma Francisco.
“Muitos
pobres vivem em lugares particularmente afetados por fenômenos relacionados com
o aquecimento, e os seus meios de subsistência dependem fortemente das reservas
naturais e dos chamados serviços do ecossistema, como a agricultura, a pesca e
os recursos florestais”, diz o papa. Os
pobres, observa, “não possuem outras
disponibilidades econômicas nem outros recursos que lhes permitam adaptar-se
aos impactos climáticos ou enfrentar situações catastróficas, e gozam de
reduzido acesso a serviços sociais e de proteção”.
Ao
chamar a atenção para o esgotamento dos recursos naturais, Francisco aponta a falta crescente de água potável e limpa, “indispensável
para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos”.
Observando que “em muitos lugares, a procura excede a oferta sustentável, com
graves consequências a curto e longo prazo”, o papa diz que “um problema particularmente sério é o da
qualidade da água disponível para os pobres, que diariamente ceifa muitas
vidas”.
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Esta oração de São Francisco inspira o início da Encíclica de Papa Francisco |
Biodiversidade
A
encíclica adverte também para a destruição da biodiversidade como uma ameaça ao
planeta: “Mencionemos, por exemplo, os pulmões do planeta repletos de
biodiversidade que são a Amazônia e a bacia fluvial do Congo, ou os grandes
lençóis freáticos e os glaciares. A importância destes lugares para o conjunto
do planeta e para o futuro da humanidade não se pode ignorar. Os ecossistemas
das florestas tropicais possuem uma biodiversidade de enorme complexidade,
quase impossível de conhecer completamente, mas quando estas florestas são
queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se
inúmeras espécies, ou tais áreas transformam-se em áridos desertos”.
Para o papa, “uma verdadeira
abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a
justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra
como o clamor dos pobres”. A desigualdade, diz Francisco, “não afeta apenas os indivíduos, mas
países inteiros, e obriga a pensar numa ética
das relações internacionais”.
“Há
uma verdadeira dívida ecológica, particularmente entre o Norte e o Sul, ligada
a desequilíbrios comerciais com consequências no âmbito ecológico e com o uso
desproporcionado dos recursos naturais efetuado historicamente por alguns
países.”
Obama
Líderes
mundiais reagiram à encíclica. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que admira
profundamente a decisão do papa de pedir “uma ação sobre a mudança climática de
maneira clara e forte, com toda a autoridade moral que sua posição lhe
confere”. O presidente francês, François
Hollande, cujo país acolherá a cúpula sobre mudanças climáticas, sugeriu
que o apelo de Francisco seja ouvido em todos os continentes.
Para
o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, a encíclica é um marco ao enfatizar a mudança
climática, um dos maiores desafios da humanidade e tema moral que requer
diálogo.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Metrópole / Sustentabilidade – Sexta-feira, 19 de junho de 2015 – Pg. A20 –
Internet: clique aqui.
PRESTE ATENÇÃO...
20 pontos
importantes da Encíclica
1. Hábitos
O
papa pede "mudanças profundas" em estilos de vida, modelos de
produção e consumo e de estruturas de poder.
2. Desinteresse
Critica
"a rejeição dos poderosos" e "falta de interesse dos
demais" para com o meio ambiente.
3. Negligência
Afirma
que a Terra "parece tornar-se cada vez mais um imenso depósito de
imundície".
4. Cuidados
Pede
para limitar ao máximo o uso de recursos não-renováveis, moderar o consumo e
maximizar o uso, reutilização e reciclagem.
5. Migração
Refere-se
a "uma indiferença geral" para o "trágico" aumento de
migrantes "fugindo da miséria agravada pela degradação ambiental".
6. Água
Critica
a privatização da água, um direito "humano básico, fundamental e
universal" e que "determina a sobrevivência das pessoas".
7. Dívida
Assegura
que as pessoas mais pobres sofrem "os efeitos mais graves de todas as
agressões ambientais" e fala de "uma verdadeira dívida
ecológica" entre "o Norte e o Sul".
8. Bem
Comum
Refere-se
ao "fracasso" das cúpulas mundiais sobre meio ambiente, em que
"o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum".
9. Poder
Aponta
para o "poder ligado às finanças" como responsável por não prevenir e
resolver as causas que originam novos conflitos.
10. Megalomania
O
papa considera necessário "recuperar os valores e os grandes fins
arrasados por uma megalomania desenfreada".
11. Valores
"Quando
não se reconhece (...) o valor de um pobre, de um embrião humano, de uma pessoa
com deficiência, dificilmente serão ouvidos os gritos da mesma natureza".
12. Trabalho
Para
o papa, "é uma prioridade o acesso ao trabalho para todos".
13. Limites
Entende
que "às vezes pode ser necessário impor limites a quem tem mais recurso e
poder financeiro".
14. Diálogo
Pede
que as comunidades aborígenes se convertam nos "principais
interlocutores" do diálogo sobre meio ambiente.
15. Urgência
Critica
a "lentidão" da política e das empresas, que estariam "longe de
viver de acordo com os desafios mundiais".
16. Bancos
O
papa acredita que a "salvação dos bancos a todo custo (...) só pode gerar
novas crises".
17. Reflexão
Critica
que as crises financeiras de 2007-2008 não criaram uma nova regulação capaz de
"repensar os critérios obsoletos que seguem regendo o mundo".
18. Prioridades
Assegura
que as empresas "estão desesperadas pelo ganho financeiro" e os
políticos "para conservar a aumentar o poder" - e não por preservar o
meio ambiente e cuidar dos mais necessitados.
19. Educação
Ambiental
Crê
que a solução requer "educação com responsabilidade ambiental na escola,
na família, nos meios de comunicação e na catequese".
20. Missão
O
papa encoraja os cristãos a serem "protetores da obra de Deus" porque
"é parte essencial de uma existência virtuosa".
Fonte: Agência EFE –
Reproduzido por: O Estado de S. Paulo – Sustentabilidade – Sexta-feira, 19 de junho
de 2015 – Pg. A20 – Internet: clique aqui.
“É um alerta para o estilo consumista”, diz presidente
da CNBB sobre encíclica
Lígia Formenti, Roberta Pennafort e José Maria Mayrink
Para estudiosos, a encíclica consolida o caráter
pastoral do papa
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Francisco Catão Teólogo brasileiro |
O
presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Sergio da Rocha, afirma que a
encíclica será referência não apenas para a Igreja, mas para o mundo. “Ela alerta para o estilo consumista que
adotamos, para o desperdício.”
Dom Leonardo Steiner, secretário-geral da CNBB,
ressalta o cuidado adotado no texto para mostrar os reflexos na área social. “É uma conversão ecológica. Isso é muito
importante, porque pressupõe um ajuste da fé.”
Para
estudiosos da Igreja, a encíclica consolida o caráter pastoral de Francisco. “O
segredo de sua liderança está no fato de que ele é espiritual e dá testemunho
de sua vida profunda com Deus”, diz o teólogo Francisco Catão. “Ele assume posição de quem fala como homem, como
cristão, como pastor.”
“As pessoas têm de entender
que o objetivo da encíclica é apoiar os ecologistas em sua luta”, afirma o biólogo e
sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto,
coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo (PUC-SP). “O papa coloca sua
autoridade moral e da Igreja a serviço da causa ambiental.”
“O
papa acredita que o mesmo ser humano que não soube cuidar de sua casa é capaz
de converter seu modo de pensar e agir para reconstruir o planeta, como
Francisco reconstruiu a Igreja”, afirma o jornalista
Roberto Zanin, porta-voz da prelazia Opus Dei no Brasil.
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Dom Sérgio da Rocha Arcebispo de Brasília (DF) e Presidente da CNBB |
Cardeais
O
cardeal d. Cláudio Hummes, arcebispo
emérito de São Paulo e presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia,
afirmou que as advertências e os apelos
do texto se dirigem a todos, não só aqueles que ameaçam, mas também a quem já
causou danos ao meio ambiente.
Já
o cardeal arcebispo do Rio, d. Orani
Tempesta, pontua que o documento trata como indissociáveis a ecologia e as
questões sociais. “Fala da ecologia
integral e para todos. Estamos no mesmo barco.”
O monsenhor Joel Portella, coordenador
arquidiocesano de Pastoral do Rio, realçou o fato de o texto ser endereçado a
“cada pessoa que habita esse planeta”, e não a bispos e arcebispos.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Sustentabilidade – Sexta-feira, 19 de junho
de 2015 – Pg. A20 – Internet: clique aqui.
O que Jesus
Cristo faria sobre o aquecimento global?
O papa faz um discurso em defesa do planeta e a América
Latina escuta com atenção, mas não abre mão de suas idiossincrasias
Em
se tratando de um pronunciamento religioso, a encíclica do papa Francisco sobre
o meio ambiente até que é legível e, em algumas passagens, bonita. Tendo como
pano de fundo as negociações em curso sobre as mudanças climáticas, que deverão
culminar com uma reunião de cúpula na Organização das Nações Unidas (ONU) em
dezembro, o documento sustenta que o gás
carbônico produzido pelos seres humanos é o principal responsável pelo
aquecimento do planeta e clama por medidas urgentes para reduzir as emissões,
em especial por parte dos países ricos.
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Papa Francisco Autor do documento mais abrangente e contundente sobre o bem-estar do planeta |
A
encíclica foi formalmente apresentada ontem [18/06/2015], mas na segunda-feira
já havia vazado um esboço do texto. É a
primeira vez que a maior instituição religiosa do mundo dedica um
pronunciamento dessa magnitude ao bem-estar do planeta; e é também um novo
estilo de discurso papal. No passado, as encíclicas eram cartas dirigidas aos
bispos da Igreja; depois se tornaram uma forma de comunicação com o conjunto
dos católicos; esta é endereçada à
humanidade como um todo.
Apesar
de mencionar em diversos trechos as ideias ecológicas da Igreja Ortodoxa [sic], o documento evita o palavreado teológico sobre pecado e recorre tanto a
fontes não cristãs como a fontes não religiosas. Muitas de suas 190 e
poucas páginas provêm de uma ONG de extração secular; mas há passagens
delicadas e líricas, que pedem uma “mudança de atitude” por parte de
consumidores, empresários e políticos.
A
inspiração, como explicou o papa, veio de sua experiência na América Latina; e
o impacto do documento depende muito da reação dessa sua região natal, que
abriga 425 milhões de católicos (quase 40% do total mundial) e é palco de
complexos dilemas ambientais.
Em
círculos católicos mais à esquerda, sobretudo latinos, a encíclica foi saudada
como apologia de uma nova corrente de
pensamento, que pretende falar para os pobres e para o Hemisfério Sul, sem ser
marxista. Seu ideário ganhou contornos mais claros em um encontro de bispos
latino-americanos, realizado em 2007 em Aparecida
[5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe – 13-31 de
maio de 2007]. O papa atual, então conhecido como o cardeal argentino Jorge Bergoglio, teve papel de destaque nesse
encontro e agora é visto como um portador de sua mensagem.
Salvando
o mundo
O
espírito anticolonial de Aparecida está claramente presente na encíclica, que
menciona a advertência então feita pelos bispos de que, sob um manto ecológico,
as propostas de “internacionalização” da Amazônia
talvez representassem uma investida ligeiramente dissimulada contra a soberania
dos países da região. Além disso, foi só em Aparecida, sustenta o pontífice,
que ele se deu conta de como era importante salvar as árvores. “Ao ouvir os
bispos brasileiros falando do desmatamento
da Amazônia, acabei entendendo (que as árvores da) Amazônia são o pulmão do
mundo”, disse o papa em uma coletiva de imprensa no início do ano.
É
bem verdade que muitos problemas, incluindo o desmatamento, são melhor
visualizados do alto. Mas, no nível do chão, em alguns locais com graves
problemas ecológicos, a imagem de católicos que, inspirados pelas palavras
papais, resistem a agentes de poluição e desflorestadores latino-americanos dá
lugar a uma realidade mais complexa. Antes de mais nada, a capacidade que a
Igreja tem de lutar por causas coletivas na região ficou limitada depois da
ascensão de seitas protestantes que oferecem um caminho individualista para a salvação e a prosperidade; e já há
católicos latino-americanos reproduzindo esse estilo.
No
Brasil, país em que proliferam diversas formas de cristianismo, algumas das
vozes políticas mais atuantes são as dos evangélicos, que têm laços com o
agronegócio; e um dos católicos mais devotos com participação na vida pública,
o senador mato-grossense Blairo Maggi,
é conhecido como o rei da soja e mantém distância do discurso ambientalista.
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Padre EDILBERTO SENA Santarém - Pará Militante ambientalista na Amazônia |
Edilberto Sena, um padre católico de
inclinações esquerdistas, com atuação na cidade
de Santarém, no Pará, reconhece que algumas pessoas pobres têm dificuldade
de entender sua preocupação com a extração ilegal de madeira que acontece em
áreas próximas; e ele ainda tem de competir com pregadores que prometem ajuda
com questões mais pessoais. Sena comemora o fato de que o papa esteja se
comportando como “pastor do mundo inteiro, não só dos católicos”, mas duvida
que isso mudará a atitude dos que mandam no Brasil. Outros brasileiros são mais
otimistas.
Valdir Raupp, senador rondoniano que é católico devoto, tem esperança de que, com
a encíclica, a educação passará a ser vista como a melhor maneira de preservar
as florestas, ocupando o lugar das medidas de repressão.
No
Equador os paradoxos são ainda maiores. O presidente
Rafael Correa vê a encíclica como um reforço a suas credenciais
“ecocatólicas”. Em abril, ele esteve em uma conferência no Vaticano, durante a
qual vieram à tona os primeiros sinais da iniciativa papal. Mas Correa enfrenta
uma onda de protestos contra as próprias iniciativas ambientais.
Em
2013, ele descumpriu a promessa de não fazer perfurações de petróleo no Parque Nacional Yasuní, levando mais de
750 mil pessoas a assinar uma petição que propunha a realização de um referendo
sobre a questão – que acabou sendo rejeitada por filigranas técnicas. Correa também dissolveu a ONG Pachamama,
classificando-a como uma “ameaça à segurança nacional”, depois que a entidade
organizou uma pequena manifestação contra licitações de campos petrolíferos na
Amazônia. Sua tentativa de implementar
projetos de mineração a céu aberto em vales afastados da floresta o pôs em rota de colisão com lideranças indígenas
locais. Nas últimas semanas, um plano que pretendia alterar o status do Parque Nacional de Galápagos, situado
nas ilhas cuja fauna serviu de inspiração a Charles Darwin, foi um dos estopins
para uma série de manifestações realizadas em cidades do Equador e no
arquipélago.
Também
na Argentina os problemas ambientais
às vezes deixam de se configurar como uma luta entre o bem e o mal para se
apresentar de forma irônica. Uma das
maiores preocupações ecológicas de Buenos Aires é uma fábrica de papel
uruguaia, cujos dejetos são lançados no rio que corre entre os dois países;
houve gritaria em 2013, quando o Uruguai anunciou um aumento na produção da
planta. Mas o principal alvo da ira argentina não era nenhum capitalista
americano ou europeu, e sim o presidente uruguaio José Mujica, normalmente visto como um herói das esquerdas.
Esses quebra-cabeças
ideológicos dificilmente desencorajarão um papa que jamais leva as doutrinas
terrenas muito a sério. Francisco passou o início de sua carreira lidando com a junta militar
que governava a Argentina nos anos de chumbo, e em setembro, quando estiver nos
Estados Unidos, terá de convencer algumas pessoas de que não é comunista.
Traduzido do inglês por Alexandre Hubner.
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