I N C O E R Ê N C I A ! ! !
“Confissão” de Lula sobre o Partido dos Trabalhadores –
PT:
Ricardo
Galhardo e José Roberto Castro
Para ex-presidente, PT está velho, viciado em poder,
apegado a empregos
e vitórias eleitorais e perdeu capacidade de gerar
sonhos
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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (à esquerda) e o ex-primeiro-ministro da Espanha, Felipe González (à direita) |
Menos
de dez dias depois de o PT realizar seu 5.º
Congresso Nacional, em Salvador, onde decidiu
manter o status quo partidário frustrando os setores que esperavam por mudanças
radicais, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma das mais duras
críticas públicas à legenda que ajudou a fundar há 35 anos e o levou ao poder
nacional.
No
Congresso do PT encerrado dia 13 de junho, na Bahia, diversos setores
encaminharam propostas de mudanças expressivas nas práticas partidárias, entre
elas o rompimento da coligação com o PMDB em troca de uma aliança popular com
movimentos de rua e a sociedade organizada. No final a corrente integrada por Lula atropelou os descontentes e
aprovou um documento final considerado tímido pelos petistas que cobravam
mudanças capazes de tirar o PT do “volume morto”, na expressão do próprio
ex-presidente.
Nesta
segunda-feira, 22 de junho, Lula cobrou publicamente uma mudança efetiva
criticando a estrutura do partido. Em palestra ao lado do ex-primeiro-ministro
da Espanha Felipe Gonzalez, Lula disse:
«Temos
que definir se queremos salvar a nossa pele e os nossos cargos
ou
salvar o nosso projeto.»
«Eu
acho que o PT perdeu um pouco a utopia.
Hoje
a gente só pensa em cargo, em emprego, em ser eleito.
Ninguém
hoje trabalha mais de graça.»
«Hoje
se os candidatos não liberarem as pessoas dos gabinetes deles,
ninguém
vai porque as pessoas só querem ir ganhando.
Isso
é um vício de um partido que cresceu e chegou ao poder.»
«O
PT está velho. Eu que tenho 69 (anos)
já estou cansado,
fico
pensando se não está na hora de a gente fazer uma revolução neste partido,
uma
revolução interna, colocar gente nova, gente que pensa diferente.»
[ . . . ]
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Terça-feira, 23 de junho de 2015 – Pg. A8 – Internet: clique aqui.
Para dissidentes, ex-presidente Lula tem culpa na atual
crise do PT
Pedro
Venceslau
Luiza Erundina e Ivan Valente, que deixaram o partido,
apontam erros de Lula na condução do PT; tucanos fazem
críticas
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Luiza Erundina - Deputada Federal pelo PSB, São Paulo |
Para
fundadores do PT que deixaram a legenda e petistas insatisfeitos com os rumos
do governo da presidente Dilma Rousseff, o
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou se eximir da crise vivida pela
sigla em sua intervenção, feita nesta segunda-feira, 22, em tom de desabafo
durante uma palestra em seu instituto.
"Não dá para ele se
isentar e jogar toda a culpa no PT. Lula ainda é a principal liderança e foi o
principal condutor desse processo, desde a origem até hoje", afirma a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP).
Uma
das primeiras prefeitas de capitais eleitas pelo partido em 1988, quando venceu
a disputa em São Paulo, Erundina deixou
o partido em 1997 depois de um longo processo de desgaste interno por ter
aceitado um cargo no primeiro escalão do governo Itamar Franco.
Para
a deputada, ao afirmar que e o PT "perdeu um pouco a utopia" e que os
petistas "só pensam em cargo", Lula está refletindo um quadro grave
vivido pelo País. "A fala dele foi
um sintoma da falência do PT. E esse sintoma chega para mim com muito mais contundência",
concluiu a ex-prefeita.
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Ivan Valente - Deputado Federal pelo PSOL, São Paulo |
Também
integrante da primeira geração de dirigentes políticos do Partido dos
Trabalhadores, o deputado Ivan Valente,
hoje no PSOL, faz a mesma leitura. "Esse
é um discurso para consumo interno no partido, mas o Lula não pode se eximir da
responsabilidade pelo PT estar vivendo essa crise monumental. O partido
rebaixou o seu programa por orientação dele", diz.
O
parlamentar também comentou a reclamação do ex-presidente sobre a redução
drástica da militância espontânea petista que marcou a sigla antes da chegada
ao poder. "O maior responsável por
tirar do PT o caráter da contribuição militante foi o próprio Lula. Foi ele
quem implantou a lógica de ganhar eleição a qualquer custo", conclui Valente.
Correlação de forças
Integrante
da segunda maior corrente interna do PT, a Mensagem
ao Partido, e membro do diretório nacional da sigla, o deputado Paulo Teixeira (SP) faz outra leitura
das recentes autocríticas de Lula. "Há
um sentimento de mudança no partido. A correlação de forças internas já mudou.
A fala do ex-presidente converge para isso."
Teixeira se refere à redução
da influência do chamado grupo majoritário que comanda o PT desde sua fundação e o consequente
fortalecimento de correntes mais à esquerda no espectro partidário.
Já
o senador Paulo Paim (RS) avalia que
o discurso do ex-presidente corroborou um fenômeno que vem ocorrendo no partido
desde a chegada ao poder central em 2003. "É
lamentável que alguns setores do PT tenham se encantado com o poder. Tem gente
com mais de 100 cargos indicados", diz o parlamentar. Paim deve mudar de sigla [partido] até o fim deste ano.
Tucanos
Os
discursos recentes de Lula serviram de munição para os tucanos reforçarem a
artilharia contra o PT. Para o senador Cássio
Cunha Lima, líder do PSDB no Senado, o
ex-presidente fez um "reconhecimento" tardio das mazelas petistas.
[ . . . ]
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Terça-feira, 23 de junho de 2015 – Pg. A8 – Edição impressa. Na internet,
clique aqui.
Lágrima de crocodilo
Editorial
Os conselhos de Lula recendem a populismo barato e a
vigarice chinfrim:
para ele, o importante é levar o eleitor “na conversa”.
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Ex-presidente Lula falando em reunião com religiosos na sede do Instituto Lula. Quinta-feira, 18 de junho de 2015. Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula |
Fazendo
eco às pesquisas que demonstram que o apoio popular e a aprovação ao governo
continuam despencando, Luiz Inácio Lula da Silva, como se não tivesse nada a ver com isso,
faz duras críticas à presidente da República que colocou no Palácio do
Planalto, escancara seu estilo populista ao dar conselhos à sucessora e tem o
caradurismo de afetar consternação e se queixar do “ódio que está na sociedade”.
O
estarrecedor depoimento de Lula, diante de líderes religiosos que reuniu em seu
instituto em São Paulo na semana passada, foi relatado pelo [jornal O] Globo
no sábado.
O
ex-presidente falou aos líderes religiosos no momento em que era divulgada mais
uma pesquisa Datafolha dando conta
de que caiu para 10% a aprovação popular
a Dilma Rousseff e subiu para 65% o índice de brasileiros que consideram seu
governo ruim ou péssimo. “A Dilma está no volume morto”, ironizou Lula,
acrescentando que ele próprio está no mesmo nível e o PT ainda mais abaixo.
Com o cinismo que seus
admiradores preferem interpretar como “visão pragmática” das questões
políticas, Lula endossou de modo geral as críticas feitas por seus
interlocutores ao governo, a Dilma e ao PT e ainda botou lenha na fogueira na tentativa
de convencê-los de que os problemas apontados são consequência da teimosia de
sua sucessora, que se recusa a seguir os conselhos que recebe do mestre.
Tendo
ao lado o ex-ministro Gilberto Carvalho,
que manifestava aprovação a todas as intervenções do chefe e a elas
acrescentava argumentos, Lula desfiou
críticas a Dilma e ao governo que ela comanda: “O Gilberto sabe do
sacrifício que é a gente pedir para a companheira Dilma viajar e falar”. “Numa
reunião em Brasília eu disse a ela: companheira, você lembra qual foi a última
notícia boa que demos. Ela não lembrava.” “Estamos há seis meses discutindo
ajuste. Ajuste não é programa de governo. Depois de ajuste vem o quê?” “Os
ministros têm de falar. Parece um governo de mudos.”
Não se dando ao trabalho de
disfarçar o tratamento de líder para liderada que pretende impor em seu
relacionamento com a presidente da República, Lula contou: “Acabamos de fazer uma pesquisa
em Santo André e São Bernardo, e a nossa
rejeição chega a 75%. Entreguei a pesquisa para a Dilma, em que nós só temos 7% de bom e ótimo. E disse
para ela: isso não é para você desanimar, não. Isso é para você saber que a
gente tem de mudar, que a gente pode se recuperar. E entre o PT, entre eu (sic) e você, quem tem mais capacidade de
se recuperar é o governo, porque tem iniciativa, tem recurso, tem uma máquina
poderosa para poder falar, executar, inaugurar”.
Lula
garantiu que nos encontros que mantém regularmente com a chefe do governo tenta
convencê-la da necessidade de se expor publicamente, fazer contato pessoal
“porque na hora em que a gente abraça, pega na mão, é outra coisa”. E resumiu:
“Falar é uma arma sagrada”, ressalvando que não se trata de falar na TV ou no
rádio, mas “olho no olho”.
Está claro que, apesar de
achar que entende de política mais do que ninguém, Lula é incapaz de – ou não
quer – perceber que de nada mais adianta Dilma Rousseff sair por aí anunciando
planos mirabolantes e fazendo promessas maravilhosas pela razão simples de que
perdeu a credibilidade. Pelo menos dois em cada três brasileiros não acreditam nela. De
resto, os conselhos de Lula recendem a
populismo barato e a vigarice chinfrim: para ele, o importante é levar o
eleitor “na conversa”.
Embora permissivo quando se
trata de si próprio, da família e dos amigos, Luiz Inácio Lula da Silva se
comporta com uma arrogância e uma presunção que o levam a colocar-se sempre
acima do bem e do mal.
Subiu
na vida pública transformando os adversários políticos em inimigos a serem destruídos.
E agora demonstra uma consternação hipócrita, como o fez no encontro com os
religiosos: “Jamais vi o ódio que está na sociedade. Família brigando dentro de
família, companheiro do PT que não pode entrar em restaurante...”.
Lamentava, com lágrimas de
crocodilo, estar colhendo o amargo fruto que plantou.
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