FALTA TRANQUILIDADE PARA PENSAR, VIVEMOS NO TEMPO DA ANSIEDADE!
Ansiedade sem aplicativo
Oswaldo
Giacoia Junior*
Para filósofo, pseudo urgência das coisas suprimiu o
tempo do pensar.
"A civilização barbarizou-se, por falta de
tranquilidade"
O
ritmo da modernidade é marcado pela intensificação
da agitação em escala global, do ativismo e do falatório, característicos
do estilo de vida em sociedades tecnologicamente desenvolvidas. Nossa cadência
é determinada pela velocidade operante nos circuitos informativos e
comunicacionais nos quais estamos enredados. Como disse o filósofo Adauto Novaes, somos uma civilização de falastrões,
que se obstina em Facebooks, celulares, conversas virtuais, tuítes (escritos na
cadência da fala; ao contrário de Macunaíma, já não temos mais que aprender o
português escrito e o português falado).
Nunca
se falou e escreveu tanto, multiplicando-se a injunção à bavardage [tagarelice,
falatório, conversa fútil] pelos meios e canais mais diversos, acelerando
vertiginosamente a temporalidade e proliferando espaços imateriais de fala e
escrita conectados em redes sociais de amplíssimo alcance. O WhatsApp, em especial, tornou-se mania,
uma irresistível solicitação que nos
mantém permanentemente online, fazendo desaparecer nossas horas de estudo e
contemplação, alterando nossas noções de urgência e emergência.
O
filósofo Friedrich Nietzsche ajuda-nos a refletir sobre essa compulsão à
velocidade comunicacional e ao formigamento dos discursos vazios em dimensão
planetária. Para uma percepção refinada e extemporânea como a de Nietzsche, essa curiosidade generalizada, esse anseio
pela novidade, que torna tudo imperiosamente urgente, é um sintoma de:
- corrupção do gosto e embotamento de corações e mentes,
- indício de uma ausência de pensamento,
- em que só há percepção para o elemento quantitativo,
- para a maximização de performances,
- numa alucinada e constante busca de satisfações imediatas.
Em
seu tempo, Nietzsche já discernira
esse traço como um ingrediente do american
way of life [estilo americano de vida]: «Há uma selvageria pele vermelha,
própria do sangue indígena, no modo como os americanos buscam o outro. E a
asfixiante pressa com que trabalham - o vício peculiar ao Novo Mundo - já
contamina a velha Europa, tornando-a selvagem e sobre ela espalhando uma
singular ausência de espírito. As
pessoas já se envergonham do descanso. A reflexão demorada quase produz
remorso. Pensam com o relógio na mão enquanto almoçam, tendo os olhos voltados
para os boletins da bolsa. Vivem como alguém que a todo instante poderia “perder
algo”. “Melhor fazer qualquer coisa do que nada”. Esse princípio é também uma corda, boa para liquidar toda cultura e
gosto superior».
Parar
para pensar sobre isso é, paradoxalmente, uma tarefa urgente, na medida em que
a palavra urgência nos convoca para uma retomada
do sentido autêntico de necessidade. A racionalidade instrumental embutida
nessas formas de comunicação e vida equaciona, em sua lógica estreitamente
binária, urgência e pressa, açodamento e procura reiterativa por opções de
consumo e prazer. É necessário resgatar a memória daquilo que a nossa linguagem
pensa com a palavra urgentia. Seu
etmo [vocábulo do qual se origina outra palavra] em urgeo/urgere significa originariamente operar, trabalhar.
Trata-se, pois, de um encargo, não de um conforto. É uma tarefa do pensamento que, fiel à sua origem, não se distingue da
ação. Nada parecido com o ativismo frenético e o falatório vão. Fazer a
experiência da urgência significa entrar em correspondência com aquilo que
urge, com a necessidade constringente, que pressiona, comprime, faz um cerco,
onera, sobrecarrega, mas também impele, impulsiona, convoca. Essa força é também o compromisso com o
dar-se tempo para pensar a respeito da condição do homem no mundo,
portanto, do compromisso com sua liberdade e sua dignidade ensombrecidas.
Como,
porém, recuperar essa concepção de necessidade quando somos concitados [instigados, estimulados] a modificar tecnologicamente até mesmo aquilo que outrora reconhecíamos
como elementarmente necessário, como o sono? Experimentos avançados são
feitos no sentido de diminuir drasticamente sua necessidade, com o propósito de
manter ativos, ocupados e rentáveis, na maior parte do tempo possível,
indivíduos e grupos que podem desempenhar funções socialmente valorizadas. O exemplo mais eloquente são tentativas de
limitar a necessidade de sono para adestrar soldados capazes de permanecer em
vigília por dias seguidos, sem necessidade do repouso do sono. Eles seriam
aptos a combater durante a noite. Assim se extrairia o máximo rendimento e
utilidade de sua atuação. Nessa linha, nada impede que, além de soldados
programados para guerrear como máquinas, venhamos
a produzir também consumidores capazes de manter-se em ação 24 horas por dia,
durante a maior parte dos 365 dias do ano.
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OSWALDO GIACOIA JUNIOR Professor de Filosofia na UNICAMP Autor deste artigo |
Na
persecução desse objetivo aliam-se as engenharias de ponta - nos domínios da
informática - com pesquisas sobre inteligência
artificial, neurofisiologia e psicologia experimental, genética, ciências do comportamento e cognição, nanotecnologia. Busca-se reconfigurar a consciência para que ela
ultrapasse seu natural atrelamento aos cinco sentidos e se conecte a redes
neurais, ligando o sistema neurológico a
redes computacionais, a bancos de registro e processamento de informações.
Não tem sentido demonizar essas mudanças e as conquistas da racionalidade
tecnocientífica, como se fossem portadoras do infortúnio. O problema reside em nossa atitude face a elas.
Hoje a regra é dada pela ansiedade, que assume proporções
exponenciais,
a ponto de uma cultura não poder mais amadurecer seus frutos por excesso de
rapidez no fluxo do tempo. A civilização barbarizou-se, por falta de
tranquilidade. Nunca homens e mulheres ativos, isto é, intranquilos e
permanentemente excitados, valeram tanto. Entretanto, no fundo da alma do homem hiperativo disfarça-se a indolência, sempre à
cata de novas distrações, uma resignação que o impede de entrar em contato
consigo mesmo e com os outros. O primado do rentável e do útil, imposto a
qualquer custo, exige uma equação cerrada entre operação e utilização integral
do tempo. A rapidez das operações foi transformada em imperativo categórico,
que suprime o «tempo de pensar». Nossa
loquacidade [verborreia, facilidade para falar] é signo de indigência mental.
Essa
barbárie civilizada denuncia-se na relação da arte com a vida moderna. A
esterilidade que nos assola manifesta-se na relação inautêntica, consumista com
as obras de arte, cuja fruição exige, antes de tudo, repouso, sossego e paz no
corpo e na alma. «Nós temos a consciência de uma época laboriosa. Isso não nos permite
dedicar à arte as melhores horas e manhãs, ainda que essa arte seja a maior e
mais digna», afirma Nietzche. «Para nós ela faz parte do ócio, da recreação.
Damos-lhe o resto de nosso tempo, de nossas forças. Esse é o fato mais geral
que alterou a posição da arte diante da vida: ao fazer grandes exigências de
tempo e energia aos seus receptores, ela tem contra si a consciência dos
laboriosos e capazes.» A agitação
verborrágica, no entanto, não é sequer ocupação. Considerada em sua verdade, é
apenas dissipação denegada, um fazer de conta.
Esse
diagnóstico cultural inclui também uma apreciação afirmativa do ócio criativo,
uma chamada de atenção para a necessidade do inútil em estrita oposição à
incontinência do entretenimento verborrágico, sempre ocupada e curiosa. «Há
algo de nobre no ócio e no lazer. Se o ócio é realmente o começo de todos os
vícios, então ao menos está bem próximo de todas as virtudes; o ocioso é sempre
um homem melhor do que o ativo. Mas não pensem que, ao falar de ócio e lazer,
estou me referindo a vocês, preguiçosos», continua Nietzsche.
O
filósofo não se dirige aos apressados, mas aos
que sabem e podem calar sem ser assolados pelo tédio. Só é capaz de silêncio quem pode falar, quem tem linguagem. Quem
nunca diz nada, assim como quem nada tem a dizer, também não pode guardar
silêncio. Ao silenciar, permanecemos reticentes, porque nos guardamos para
dizer algo, algo que temos a dizer, e que consideramos ter significação e
importância. Essa é a lição que colhemos em João Guimarães Rosa, que sabia de si. “Ser dono definitivo de mim,
era o que eu queria, queria. Existe uma receita, a norma dum caminho certo,
estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem -, mas a gente
mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia
poder encontrar e saber? Mas esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de
todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. A gente quer se afastar de si próprio... pra isso é que o muito se
fala. O senhor sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais...”.
*
Oswaldo Giacoia Junior
é filósofo, professor titular da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas –
SP) e autor, entre outros, de Nietzsche:
o humano entre a memória e a promessa (Ed. Vozes).
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