Financiamento estudantil universitário: onde estão as falhas?
A “fiesta” do Fies
Roberto Macedo*
Esse é um exemplo claro de programa mal estruturado e mal
executado
O Fundo de Financiamento Estudantil (Fies),
do governo federal, é exemplo claro de programa mal estruturado e executado. E
também de imensa irresponsabilidade fiscal. Esta levou o País ao ajuste fiscal
em andamento, dolorido em termos de queda do PIB e de aumento do desemprego,
entre outras nefastas consequências. Mas a culpa não é do ajuste. Reside na
irresponsabilidade que o trouxe, comparável à ação de uma bactéria maligna que
invade organismos e torna inevitável um tratamento com lamentáveis efeitos
colaterais.
Uma das piores regras do
Fies é que foi aberto a estudantes com renda familiar bruta mensal de até 20
salários mínimos – ou até R$ 15.760, conforme o valor atual do salário mínimo. É um
limite alto e é necessário comprovar que mais de 20% dessa renda estão
comprometidos com despesas da família. Ora, será que o restante, mesmo de
rendimentos algo inferiores a esse limite, não seria suficiente para pagar
mensalidades escolares?
A
soma dessa distorção a outra regra comprometeu o próprio resultado do programa.
A taxa de juros do financiamento é de
apenas 3,4% ao ano, próxima da mensal do crédito pessoal. Simulação feita
pelo Estadão Dados, publicada no site
deste jornal em 18/5, conclui que, “se o
estudante contratar o Fies e, ao mesmo tempo, usar o dinheiro economizado para
investir em títulos do Tesouro, vai ganhar dinheiro”. Na matéria há um
gráfico em que ao final do período de 18 anos, no qual o financiamento deve ser
quitado, sobra um saldo de 2,5 vezes o total pago ao governo.
Para ter acesso a esta matéria e seus gráficos, clique aqui.
[Excelente estudo!]
Resultado:
“Enquanto o gasto federal com
mensalidades disparou, houve aumento de inscrições no Fies, mas boa parte desse
aumento veio de alunos que já estudavam em universidades particulares, pagavam
suas próprias mensalidades, e passaram a usar o Fies”. Com isso o programa
não cumpriu o seu objetivo de aumentar de modo significativo o acesso ao ensino
superior. E a que custo!
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O programa também não foi
limitado a cursos de maior interesse educacional para o País. Na lista, ainda da mesma
matéria, dos 20 cursos que em 2013
tinham o benefício do Fies, ordenados pelo número de alunos beneficiados,
aparece em primeiro lugar o de Direito, com 143 mil. Ora, o Brasil não
precisa incentivar a formação de mais bacharéis em Direito. Não digo de mais
advogados porque muitos sucumbirão ao exame da OAB. Felizmente, em segundo
lugar, somando as Engenharias da lista, Civil, de Produção, Mecânica e
Elétrica, o número é só 15% menor. E o Brasil precisa de mais engenheiros. O
curso que fiz, o de Economia, nem está na lista. E não defenderia sua inclusão.
Sobre
o tamanho do Fies, o economista Marcos
Mendes publicou recentemente um ótimo estudo dos gastos do governo federal
com educação, num portal associado ao Instituto
Fernand Braudel de Economia Mundial (clique aqui). Constata a explosão do financiamento estudantil do ensino superior (Fies
e antecessores), que entre 2004 e 2014
cresceu 1.110% (!) em valores reais, chegando à expressiva cifra de R$ 13,8
bilhões. Sozinha, ela já representava 15% do total e é o maior item de
desembolso federal em educação, com valor superado apenas pelas despesas com
pessoal e encargos.
Outra
constatação importante desse estudo é que no
mesmo período a participação das despesas com ensino superior e profissional no
total dos gastos subiu de 55% para 63%, enquanto as realizadas com educação
básica caiu de 45% para 37%, indicando que o governo federal se pauta por
prioridades educacionais equivocadas. Tenho a minha explicação. Sua
prioridade de fato é permanecer no poder e, assim, está mais interessado em distribuir benesses a estudantes que votam.
Será que o País precisará reduzir a maioridade eleitoral para transformar
crianças em eleitores e o ensino básico receber realmente a atenção de que
tanto carece?
A
“fiesta” do Fies foi, assim, uma enormidade. Tudo indica que já começou a ser
interrompida, com a redução de novos contratos. E vi anunciadas medidas que, se
efetivamente adotadas, poderão corrigir algumas das distorções apontadas. Entre
elas estão a limitação do acesso ao Fies
só a estudantes com renda familiar média per capita de até três salários
mínimos e a prioridade aos cursos das áreas de engenharia, saúde e formação de
professores.
Nessa
“fiesta”, como foi visto, ganharam
estudantes e seus pais investidores. Ganharam
também as instituições educacionais privadas, pois passaram a ter mais
financiamentos para seus alunos e a garantia de receber suas mensalidades mesmo
que eles se tornem inadimplentes como devedores do governo. Ainda segundo a
mesma matéria deste jornal, houve até estratégias para conseguir alunos fiéis
ao Fies, mediante distribuição de brindes, feirões para explicar o
financiamento e até prêmios para quem indicasse um amigo. Vi o balanço de uma dessas instituições, na qual o lucro dobrou de 2013
para 2014. Ou seja, também capturaram a oportunidade, o que é típico de
empresários. Presumo que estejam bem capitalizadas para criar ou expandir seus
próprios programas de bolsas e de crédito educativo.
Marcos
Mendes também apontou a imperiosa
necessidade de que programas como esse sejam mais exigentes em termos da
qualidade dos cursos beneficiados e que seus alunos tenham um padrão mínimo de
desempenho. Em termos mais gerais, destaca ser preciso que se avaliem “com muito mais rigor os
potenciais ganhos e custos de um programa antes de multiplicar seus gastos”.
Nessa
linha, o lema “pátria educadora” alcançaria alguma legitimidade se trouxesse um
programa educacional que ensinasse responsabilidade fiscal a gestores públicos
federais, com aprovação só para aqueles que em provas de exercício de seus
cargos aplicassem com sucesso as boas práticas do ramo.
*
Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard) e
consultor econômico e de ensino superior.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Espaço aberto
– Quinta-feira, 18 de junho de 2015 – Pg. A2 – Internet: clique aqui.
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