O QUE VAI ACONTECER COM NOSSA ECONOMIA?
Flertando com o abismo
Entrevista
com Luis Stuhlberger
Malu Gaspar e
Giuliano Guandalini
Para um dos mais
bem-sucedidos financistas do Brasil,
o modelo baseado em
governo grande e alta do consumo chegou ao limite.
O risco, agora, é
amargarmos uma nova década perdida
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Luis Stuhlberger - financista brasileiro |
Em um país instável como o Brasil, é um grande desafio saber
defender o poder de compra e multiplicar o valor das aplicações financeiras.
Nesse campo, o gestor de investimentos Luis
Stuhlberger é um craque cuja fama correu o mundo.
Nas duas últimas décadas, poucos ganharam tanto dinheiro
para seus clientes. Mais raros ainda são os que tiveram a ousadia de fazer
apostas como aquela em que ele antecipou a desvalorização do real, em 1999,
lucrando 63% em um único mês.
Desde 1997, seu principal fundo, o Verde, que administra 22 bilhões de reais, já se valorizou mais de
10.000%. No mesmo período, o CDI rendeu 1.370%. Tais resultados dão a esse
paulistano de 60 anos autoridade para desafiar os consensos do mercado e produzir
algumas das mais certeiras análises econômicas.
Há cinco anos ele
alerta para o esgotamento do modelo baseado em governo grande e financiamento
ao consumo. Agora, radicalizou a previsão. Diz que o sistema entrou em
colapso – o que vem pela frente é uma possível nova década perdida para a economia.
Eis a entrevista.
O Congresso concluiu a votação do
pacote de ajustes das contas públicas. Os cortes serão suficientes para
equilibrar o orçamento?
Luis Stuhlberger:
Certamente não. As alterações que o Congresso fez preservaram menos da metade
do que havia sido proposto pelo governo. No final, o ajuste terá pouquíssimos
cortes reais, como os que foram feitos no seguro-desemprego, em abonos e nas
aposentadorias. Não chegará a 10 bilhões de reais por ano. É muito pouco, de
qualquer ângulo que se olhe. É apenas uma fração do que o governo diz que
precisa reduzir, e uma parte minúscula dos 2 trilhões que os estados,
municípios e a União gastam todo ano.
Quer dizer que o ajuste já está
condenado ao fracasso?
L.S.: A verdade é
que esse ajuste não interessa ao Congresso. Os deputados e senadores sabem que
a situação é crítica, mas não querem arcar com o desgaste do corte. É como me
disse um peemedebista outro dia, num evento para investidores: “O.k., vamos
votar, porque a gente também não quer que o país caia no abismo. Mas vamos
defender o aposentado e o trabalhador. O ônus a gente deixa para o PT”. A ideia
é essa, tirar proveito da coisa para enfraquecer o governo. Assim, o Congresso
produz não um ajuste, mas um desajuste fiscal. Por um lado aceitou cortar 10
bilhões de reais ao ano e por outro tirou 30 bilhões só em mudanças no fator
previdenciário. Só que o governo terá de reagir da forma que sabe – e aí é que
está o problema.
Por que o senhor diz isso?
L.S.: Porque o
que vai acontecer é o que ocorre no Brasil desde a Constituição de 1988:
aumentos de impostos. Posso garantir que haverá alta não só neste ano, mas
também no próximo, no próximo e no próximo.
Foi essa a razão do recente mau
humor do mercado, depois de um período de alívio nas bolsas?
L.S.: Para responder
a essa pergunta, é preciso entender como o investidor pensa. De março para cá,
houve um cenário favorável aos emergentes, com recuperação dos preços do
petróleo e do minério de ferro. Mas houve, também, um fenômeno especial: um
dia, os investidores acordaram e se deram conta de que o PT nunca mais será o
mesmo. Perceberam que o modelo econômico está fragilizado, e o poder, dividido.
Parte está nas mãos de Dilma, outra parte, com Lula, outra com o Joaquim Levy,
e uma quarta fatia, ainda, com os caciques do PMDB. Pela primeira vez na
democracia, o Congresso, e não o Planalto, passou a ditar a agenda. Para quem
se sujeitou por tantos anos ao PT, de repente pareceu um bom negócio.
Parafraseando a música do R.E.M., uma das minhas bandas preferidas, o
investidor acordou e pensou: “It’s the end of PT as we know it – and I feel
fine!” (Este é o fim do PT como o
conhecemos – e eu me sinto bem!). Todo mundo saiu comprando real, as ações
da Petrobras subiram e o risco país caiu.
Por que o movimento se inverteu e o
dólar voltou a subir?
L.S.: Porque o
pessoal percebeu que surgiu um buraco negro, um vácuo político em que predominam
interesses imediatos e paroquiais. Enquanto parte do PT joga pôquer com o Levy,
os outros partidos querem desgastar os petistas, para conquistar novos nacos de
poder e faturar mais prefeituras em 2016. Está todo mundo dormindo com o
inimigo – e o país fica refém desses jogos. Depois da euforia inicial de saber
que 2018 será outro mundo, o investidor está se dando conta de que, primeiro, é
preciso sobreviver até lá.
Sua visão sobre o Brasil sempre foi
mais pessimista que a da média dos analistas. Por isso, neste breve momento de
alta, o seu fundo teve um desempenho ruim. Isso o fez mudar de opinião?
L.S.: Sofri
muito, porque esperava um dólar mais alto. Mas os gestores que vivem de pensar
nas grandes tendências de longo prazo estão sujeitos a essas oscilações. Com
uma responsabilidade grande como a nossa, de cuidar do dinheiro dos outros,
temos a obrigação de nos perguntar todo dia se estamos, afinal, na direção
certa. Faço isso sempre – especialmente quando o mercado vai contra mim, como
foi por 45 dias. Eu me perguntei inúmeras vezes se estava errado.
E o que concluiu?
L.S.: Que estou
certo, e tais oscilações são meros ruídos. O importante é manter o foco no que
venho antecipando desde 2010, quando disse que a economia brasileira funcionava
num esquema que chamei de moto-contínuo tropical. Disse que esse era um modelo
condenado ao fracasso e que em algum momento se esgotaria.
O que é exatamente esse
moto-contínuo tropical?
L.S.: É o círculo
vicioso que infla cada vez mais o governo para financiar o consumo,
estrangulando o setor privado. Não é apenas um modelo do PT porque surgiu em
1988 e alçou voo com o sucesso do Plano Real. Desde 1989, o tamanho do governo
aumentou 15 pontos porcentuais do PIB [Produto Interno Bruto]. Nenhum outro
país do mundo fez isso. Mas, em vez de aproveitarem o ciclo favorável para
fomentar um crescimento equânime, investindo em educação, saúde e
infraestrutura, os governos optaram por colocar dinheiro direto na conta das
pessoas. Hoje, quase 90 milhões de brasileiros recebem cheques do governo – 78
milhões são beneficiários de programas sociais e mais 10 milhões de
funcionários públicos. Nos primeiros dez, quinze anos, o empresariado adorou,
porque toda essa gente passou a comprar seus produtos. Era como dizia o Lula: “Eles
ficaram ricos comigo”.
Por que esse modelo se esgotou?
L.S.: Ficou
difícil sustentá-lo só com a arrecadação dos impostos tradicionais, e por isso
foram sendo criados tributos sobre o consumo. Não estamos falando de taxar o
lucro ou recolher para a Previdência, mas sim de pagar imposto antes mesmo de
produzir qualquer riqueza. Para completar, com tanta gente pendurada no
governo, falta mão de obra para o setor privado e os salários sobem.
As margens de lucro se achatam e as empresas começam a
morrer. Destrói-se, assim, o que mais teria de ser protegido: o espírito animal
de 5%, 10% dos brasileiros, que querem empreender e sustentam todo o resto. É
um erro crasso. Se eles morrerem, não vai sobrar ninguém para pagar a conta.
Chegamos ao momento em que a vitima não é mais o trabalhador ou o desassistido,
e sim o empreendedor. Essa é hoje a questão fundamental, mas ninguém está
disposto a lidar com a verdade inconveniente.
Como o empresariado pode sobreviver?
L.S.: Reduzindo
os investimentos, diminuindo as horas trabalhadas, demitindo funcionários,
atrasando o pagamento de impostos. Alguns quebram. E o mais nefasto disso tudo
é que, sem investimentos, quando o Brasil voltar a crescer, o desequilíbrio
entre a demanda e a oferta será ainda mais profundo, e a inflação voltará ainda
mais forte. Mas o Congresso e o Executivo ainda estão em estado de negação. Se
tudo o mais falhar, eles acham que se pode aumentar mais ainda os impostos.
A política recente de intensificar a
intervenção do Estado na economia é a causa do fiasco?
L.S.: Não dá para
colocar toda a culpa nessa estratégia, chamada pelo ex-ministro Guido Mantega
de “nova matriz econômica”. O modelo ruiria de qualquer maneira, cedo ou tarde.
Essa política foi uma reação desesperada e atabalhoada da Dilma, no primeiro
mandato, para dar sobrevida ao crescimento da era Lula. Baixou os juros mais do
que devia, não deixou o real desvalorizar, segurou tarifas e preços dos
combustíveis. E, por fim, usou a última ferramenta que restava: distribuir
crédito via bancos públicos. Agora, simplesmente acabou o dinheiro. Estamos
flertando com o abismo.
O Brasil pode quebrar novamente?
L.S.: Acredito
que não como no passado, mas vamos viver um equilíbrio vicioso, e não virtuoso.
O cenário virtuoso seria o aumento da produtividade, com reformas e inflação
baixa. Mas como não existe nem debate, nem liderança, nem espírito patriótico
para fazer esse tipo de reforma, só resta fazer remendos. Enquanto isso, a
economia vai sendo sucateada, como um transatlântico afundando lentamente. Só
não é pior porque o colchão social é enorme.
Alguns falam em um respiro na economia
já em 2016. O senhor acredita?
L.S.: Não. Desde
o semestre passado, entramos com força em um período de baixo crescimento, que
não chegará ao fim em 2016, nem em 2017 e talvez nem mesmo em 2018. Estamos
apenas começando a atravessar o deserto. Não descarto vivermos uma nova década
perdida.
Há alguma forma mais rápida de
incentivar a retomada?
L.S.: A única
chance é atrair investimento estrangeiro, porque não existe dinheiro no Brasil.
Tenho certeza de que, depois que acabarem as votações no Congresso, a agenda
será vender o que puder e montar pacotes de concessões. A Lava-Jato pode até
favorecer a entrada de investidores internacionais, já que a grande restrição a
esses capitais hoje é das barreiras não formais, as ligações viciosas entre os
políticos e as empreiteiras, nem setor profundamente cartelizado.
A sua reputação é de saber ganhar
dinheiro com as crises. Como se faz isso?
L.S.: Não é muito
simples de explicar, mas um pilar básico é aplicar em segmentos que serão
importantes não por dias ou por meses, mas por anos. Tenho parte do capital em
ações no exterior, alguma coisa em petróleo, ienes, títulos da Alemanha. No
Brasil, firmei posições em dólares. Acerto muito, mas sofro todo dia. Afinal,
conquistei uma credibilidade que até me permite errar de vez em quando, mas não
por muito tempo. Isso porque o consenso do mercado está quase sempre correto.
Ganha mais quem consegue identificar a hora de remar contra a corrente
consensual.
No ano passado, seu fundo teve uma
rentabilidade abaixo da média do mercado. Onde o senhor errou?
L.S.: Todo ano de
eleição apertada é um sufoco. Nessa última, surgiu um cisne negro, um
imprevisto absurdo, que foi a morte do Eduardo Campos. A eleição não teria tido
a emoção que teve se não fosse isso. No fundo, estava certa a minha suposição
de que o dólar subiria com Dilma ou com Aécio. O que eu poderia ter antecipado
foi que a presidente seguraria o dólar para ganhar a eleição. Apesar disso,
mantivemos nossa aposta e estamos ganhando muito em 2015.
O senhor já disse que o mercado
brasileiro é dominado por tubarões. Acha que não é lugar para os pequenos?
L.S.: Se
estivermos falando de investimentos em ações, até pode ser, porque existe
alguma regulação e são aplicadas punições para o competidor desleal. Mas, no
mercado de câmbio, inflação e juros, é terra sem lei. Nesse mercado, até eu
evito investir no curto prazo.
O senhor recomendaria comprar ações
da Petrobras?
L.S.: Não. Um dos
meus princípios é fugir de estatais. Por uma questão básica: elas não visam ao
lucro. Por que vou investir em uma empresa cujo objetivo é servir o Estado? Eu
até aceito perder dinheiro quando tomo decisões baseadas em princípios
corretos. Já perder investindo na Argentina, na Rússia ou na Petrobras me
traria um desgosto muito grande.
Fonte: VEJA –
Edição 2429 – Ano 48 – nº 23 – 10 de junho de 2015 – Pgs. 15, 18-19. Edição
impressa.
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