POBRE EDUCAÇÃO POBRE
José de Souza
Martins*
Desvalorização da
docência e burocratização da escola
comprometem o que
devia ser o eixo da sociedade moderna
![]() |
Professores da Rede Pública de Ensino do Estado de S. Paulo estão há mais de 80 dias em greve |
Não é um triunfo da escola pública nem da luta por educação
pública, laica e gratuita, objetiva e neutra, democraticamente acessível a
todos, que o movimento paredista dos professores de São Paulo tenha superado a
marca de mais de 82 dias de paralisação, a mais longa greve da entidade que os
congrega desde 1945. A reivindicação de salários corretos pelos educadores de
São Paulo, e de outros Estados em que a paralisação ocorre, é justíssima, ao
menos onde o correto está proposto. Não tenho certeza, porém, de que sejam justíssimos
a forma e o modo como a reivindicação é apresentada aos governantes, ao público
e, sobretudo, aos alunos e suas famílias. No
limite, a greve transforma o aluno de sujeito em ser adjetivo da educação. É
uma das contradições desta sociedade. As contradições existem como desafios
para a superação dos conflitos, e não para a sua institucionalização. Existem
para quem reivindica e também para aquele a quem a reivindicação é dirigida. O
gás de pimenta, como tem acontecido em vários Estados, não condimenta a paz
social nem aplaina o caminho para a mesa de negociação. Do mesmo modo, emparedar os governantes com reivindicações
inegociáveis não sugere a intenção de superar o conflito. Falta política na
política, de ambos os lados.
A transformação do professor em caixeiro viajante do ensino
para o ganho do que carece para viver como professor, e não ser reduzido a
proletário da educação, nega aí o essencial do magistério. A missão
civilizadora da educação só é possível na concepção da escola como comunidade
de ensino e aprendizado que une em torno
da causa comum professores, alunos, pais de alunos e a própria sociedade
abrangente. A escola do docente enraizado, e não a do docente itinerante.
Além do que não é o sindicato que deve dizer e definir o que a educação deve
ser. Há aí o risco de deslocar a missão
da escola para os valores do confronto empregatício e para o materialismo das
disputas meramente econômicas.
Não há edificação do espírito se o que um professor ganha é insuficiente
para o que o decoro recomenda como indispensável à sua apresentação pessoal e
profissional, não só a casa, a mesa e o traje, mas também o tempo livre para a
poesia e a arte, o tempo para ouvir e aprender. Senão, quem educará o educador?
Um professor pobre não é mais do que um
pobre professor. Do mesmo modo que um
aluno carente da continuidade e persistência do ensino apenas aumenta o elenco
dos pobres de espírito, mesmo que a quantofrenia pedagógica neoliberal dos
que tudo justificam pelas quantidades diga que haverá reposição de aulas. A
greve é também neoliberal quando vai por aí. O da greve é um tempo a menos, um
abatimento na biografia dos que são privados do ensino a que têm direito na
hora devida.
Prof. Dr. José de Souza Martins Sociólogo - FFLCH/USP |
A adoção do modelo da greve operária nas lutas sociais, em
setores que estão fora do sistema produtivo e da luta de classes, transplanta
uma forma de luta por reivindicações, mesmo justas, que ficam comprometidas
desde o início do movimento porque não incidem diretamente sobre a reprodução
do capital. Tornam-se inócuas, como se vê nas greves descabidamente demoradas
em setores como o da educação pública. A
demora é indício da impropriedade. Na fábrica, a greve dá concretos
prejuízos à empresa desde o primeiro minuto, o que força a outra parte a negociar
ou, até, a antecipar a negociação, como tem sido frequente. O patrão do setor
produtivo sabe quanto está perdendo a cada minuto. Seu capital fica paralisado.
Perde porque deixa de ganhar.
Fora do sistema
produtivo, é o oposto, a greve não prejudica o “patrão”. A reprodução da
ordem burocrática não é comprometida. A
escola não é uma fábrica. O prejuízo
recai sobre a massa dos dependentes daquele serviço, os não chamados a ter
presença no litígio. Prejudica a sociedade, que não tem motivos para se mover
em favor dos grevistas, como nos mostram as cartas aos jornais e as mensagens
da internet. A agonia das greves de professores até hoje não lhes ensinou que
deveriam estar em busca de outra forma, mais eficaz, de reivindicação, no marco
da civilização, e não no marco da produção. Ao mesmo tempo, os governos têm tratado os professores do
ensino público com um desdém que compromete a educação e que evidencia o quanto
ela deixou de ser considerada um fator positivo de desenvolvimento social.
A desvalorização da docência e a minimização da escola, hoje transformada em
abrigo da mentalidade e do comportamento burocráticos inócuos, compromete o
presente e o futuro da sociedade em todos os sentidos. Nessa decadência, crianças e jovens não são convidados a participar de
um projeto de nação, privados da alegria de aprender para viver e viver para o
outro, a alteridade faltante na greve. A greve anômica, no fim das contas,
apenas acelera os danos sociais de uma omissão comprometedora de todos com
aquilo que na sociedade moderna deveria ser o eixo e o instrumento, o abrigo, o
lugar do sonho, do que justifica nela viver para dela ser.
*
JOSÉ DE SOUZA MARTINS é sociólogo, professor emérito da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e autor, entre outros,
de A política do Brasil lúmpen e místico
(Editora Contexto).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 7 de junho de 2015 – Pg. E5 – Internet:
clique aqui.
Professor precisa aprender a ensinar
Lourival
Sant'Anna, Marília Assunção e Bruno Tadeu
Programas de
supervisão tentam complementar formação de profissionais que saem das
universidades sem conhecimento prático
Em 2011, Goiás
ocupava a quinta posição no Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que combina taxa de aprovação e
média de desempenho em provas de Português e Matemática. Naquele ano, foi
introduzido na rede estadual, em convênio com a Fundação Itaú Social, um programa
de tutoria pedagógica, pelo qual um profissional experiente, com
pós-graduação, aprovado em processo seletivo da Secretaria da Educação,
supervisiona o trabalho de coordenadores e diretores. No ano passado, o ensino
médio subiu para o primeiro lugar no Ideb, e o fundamental, para o terceiro.
Prevista no Pacto
Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio, do Ministério da Educação
(MEC), a tutoria tem sido introduzida também em São Paulo, Ceará e Pará, além
de algumas redes municipais. Em Manaus, cerca de cem novos professores - de um
total de 2 mil - que estão entrando na rede municipal neste ano também terão
supervisores na sala de aula, durante seu estágio probatório, que dura três
anos.
A tutoria pedagógica parte de uma constatação simples: os formandos de Pedagogia saem com algum
conhecimento teórico sobre educação, e os dos cursos de licenciatura, sobre o
conteúdo de suas disciplinas, mas não sabem ensinar. O mesmo acontece com
gestores de escolas - professores que sobem na carreira e assumem cargos de
diretores e coordenadores sem experiência nem treinamento.
Longe da escola
Quando se fala em reciclagem ou em capacitação de
professores e gestores, no Brasil, pensa-se em cursos teóricos distantes da
realidade da sala de aula. "Temos tradição muito grande de formação
continuada em cursos fora da escola, em reuniões e oficinas, cursos
online", diz Patrícia Guedes,
gerente de Educação da Fundação Itaú Social. "O profissional pode até ganhar informação, mas há dificuldade de
como desdobrar na prática."
Patrícia conta que, em pesquisa conduzida pelo Instituto Fernand Braudel de Economia
Mundial, os professores disseram coisas do tipo: "Passo por um curso
fantástico sobre como estimular leitura. Depois, volto para minhas turmas e
tenho dificuldades para planejar minhas aulas. Quem me ajuda a me olhar, a me
dar feedback sobre como estou fazendo, a lidar com dificuldades?" Segundo
a especialista, isso vale também para o diretor da escola. "Se não tem ajuda para pôr em prática na escola, ele
desiste."
"Professor é profissão, precisa de formação
profissional", explica o físico Luís
Carlos Menezes, consultor da Unesco e membro do Conselho Estadual de
Educação (CEE) e do Conselho Técnico Científico da Capes/MEC para Educação
Básica.
![]() |
Luís Carlos Menezes Consultor da UNESCO - Membro do Conselho Estadual de Educação e do Conselho Técnico Científico da Capes/MEC Professor da USP |
Outra analogia frequente é com a formação do médico, que
coloca seus conhecimentos em prática, sob supervisão, nas residências dos
hospitais, antes de obter a licença para trabalhar. Guiomar Namo de Mello, também integrante do CEE e consultora da
Fundação Lemann, observa que esse tipo de residência, já adotado na Europa,
está sendo introduzido também nos Estados Unidos.
Menezes propõe que, assim
como os hospitais universitários, ligados aos cursos de Medicina, sejam
credenciadas escolas de referência, onde os estudantes de Pedagogia e
licenciatura ensinem sob supervisão de professores experientes e reconhecidos
por sua capacidade. Tanto os supervisores quanto os estagiários seriam
remunerados. "Os formadores transmitiriam sua experiência e seriam
multiplicadores. Isso criaria uma carreira, premiando os melhores", diz o
especialista. "Melhorariam seu salário sem ter necessariamente de se
tornar gestores."
De acordo com Guiomar, o CEE está impondo que os estágios dos professores na rede
estadual de São Paulo incluam a "regência", ou seja, eles devem dar
aulas, em vez de ficar apenas assistindo. O MEC criou há dois anos o
Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), que concede 70
mil bolsas no valor de R$ 350 aos alunos de licenciatura.
Os especialistas elogiam a iniciativa, mas acham que a prática supervisionada deveria ser
obrigatória. "No concurso público, tampouco há uma prova
didática", critica Claudia Costin,
diretora de Educação Global do Banco
Mundial. "Para ser professor em universidade, tem prova didática. Para
dar aula para criança, que é extremamente difícil, não tem. Fazem perguntas
sobre teóricos e sobre a Lei de Diretrizes e Bases."
Resistência
![]() |
Maria Helena Guimarães de Castro Diretora-Executiva da "Fundação Seade" Ex-Secretária-Executiva do MEC |
"A Finlândia
enfrentou esse problema há cerca de 50 anos", lembra Claudia. "Um
dos componentes importantes da reforma foi dar
um caráter mais profissionalizante à formação dos professores na universidade.
Tiveram de enfrentar briga feia na universidade, que se sentiu desqualificada,
e aumentar o rigor na seleção dos
professores. Temia-se que não houvesse candidatos suficientes a professor
para cada sala de aula. Ao contrário, a profissão passou a ser socialmente mais
valorizada."
No Brasil também as universidades públicas resistem a mudanças
na formação dos professores. "Para a universidade, dá trabalho e não dá
camisa", explica Menezes, professor da Universidade de São Paulo (USP).
"O que dá camisa é pesquisa e pós-graduação, é publicar em revistas
referenciadas. Graduação pesa pouco e formação de professor é sub,
subprioridade. O MEC precisaria pensar a
universidade pública como espaço de formação de excelência de professor, mas
ela não é avaliada por isso."
"As faculdades
de formação inicial estão muito distantes da rede pública", diz Maria Helena Guimarães de Castro,
diretora executiva da Fundação Seade
e ex-secretária executiva do MEC. "Meu sonho de consumo é o sistema
canadense. Em algumas províncias, é preciso ter ao menos cinco anos de
experiência na rede pública para se candidatar a professor de
universidade", afirma.
As faculdades
particulares também não têm ligação com as escolas - e a maioria sofre de má
qualidade. "Não existe mecanismo que impossibilite uma faculdade que
está se saindo mal de formar professores", critica Rose Neubauer,
ex-secretária da Educação de São Paulo. "O
País se denomina 'Pátria educadora' e não tem um projeto decente realmente
impactante de formação de professores. Não adianta deixar a criança na escola
oito horas em vez de cinco, se não tem professor bem formado."
Comentários
Postar um comentário