CHINA: O QUE SE PASSA COM A ECONOMIA QUE MAIS CRESCE NO MUNDO?
Entrevista
com Evan Osnos*
Como a vida de um chinês de 20 anos hoje se compara com a de seus pais na mesma idade?
E o que significa cair?
Cláudia
Trevisan
Para jornalista,
ex-correspondente da revista “The New Yorker” em Pequim, Partido Comunista da
China precisa aprender a lidar com sociedade atual, mais pluralista e diversa
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EVAN OSNOS Jornalista norte-americano especializado em China |
Quase quatro décadas depois de iniciar reformas econômicas
que revolucionaram a vida de 1,3 bilhão de habitantes, a China corre o risco de
ver o seu sistema político se desconectar de uma sociedade cada vez mais
pluralista e diversa, avalia o jornalista
americano Evan Osnos, ex-correspondente da revista The New Yorker em Pequim. "Essa é a questão mais urgente para
o PC”, disse em entrevista ao jornal O Estado
de S. Paulo, referindo-se ao Partido Comunista da China, que poderá superar
o recorde de longevidade no poder de seu irmão mais velho soviético se estiver
comandando o país em 2023. Osnos narra a transição da China do coletivo “nós”
para o individualista “eu” no livro A Era da Ambição – Em Busca da Riqueza, da
Verdade e da Fé na Nova China, editado no Brasil pela Companhia das
Letras. A seguir, trechos da entrevista, concedida em Washington, onde Osnos
vive desde 2013.
O que mais o surpreendeu em sua
chegada à China?
Evan Osnos: Quando
cheguei, em 2005, fiquei eletrizado pela energia que havia no ar. Eu vinha do
Oriente Médio, onde vivi por três anos, um lugar onde não havia aspiração, onde
as pessoas não podiam imaginar os contornos de sua própria vida. A grande
surpresa foi o quanto era possível e não o quanto era impossível. Com o tempo,
você fica mais consciente das limitações. No curso de suas vidas, os
personagens (do livro) ficam mais confinados. Em alguns casos, porque começam a
ver que as limitações em oportunidades econômicas são severas se você não tem
conexões nem nasce na família certa. Outros tentaram ter atuação política e
encontraram limites rígidos.
O livro fala da transformação da
China do coletivo “nós” para o individualista “eu”. Em um país de 1,3 bilhão de
pessoas, quão drástica foi essa transformação?
Evan Osnos: Foi
profunda. Normalmente falamos da China da perspectiva de grandes movimentos,
como a Revolução Cultural (1966-1976) ou o nascimento do livre mercado. No
entanto, para as pessoas que estão no centro disso, o drama é extraordinário.
Quando os chineses começaram a deixar as fazendas e fábricas coletivas, uma das
palavras que elas usaram para descrever essa experiência foi “songbang”, que significa retirar algemas. Isso é normalmente
usado para prisioneiros ou animais, mas eles estavam usando a expressão para
descrever a experiência de deixar esses arranjos antigos. Nos anos 70, ninguém
tinha cartões de visita, porque não importava quem você era. De repente, nos 80
e 90, as pessoas começaram a competir e houve um boom no negócio de cartões de
visita.
Como a vida de um chinês de 20 anos hoje se compara com a de seus pais na mesma idade?
Evan Osnos: Se
você vivia na China há 40 anos, tinha uma escolha do que vestir: um traje azul.
Talvez cinza. Você não escolhia com quem se casava. Na maioria dos casos, isso
era arranjado por um casamenteiro, por seus pais, o líder da fábrica ou o
sargento de sua unidade militar. Havia muito poucas escolhas sobre onde viver.
Os jovens hoje têm uma escolha ilimitada do que comprar, assumindo que tenham
algum dinheiro para gastar. Eles podem decidir com quem casar, com incrível
detalhe e precisão (em sites de relacionamento).
Qual a consequência dessa mudança?
Evan Osnos: Acredito
que tenha havido um impacto subjacente profundo. Se você é capaz de descrever
de maneira específica o parceiro que deseja, isso faz com que você se acostume
a certo nível de escolha e controle em sua vida. Ainda há limites sobre onde
você pode viver com base no hukou
(registro de residência) e onde você pode trabalhar, dependendo de quem você
conhece e do tipo de oportunidades que tem. Esses são limites sérios. Mas as
pessoas ganharam um controle sobre suas vidas incomparável ao que existia.
Quais são os riscos para o Partido
Comunista?
Evan Osnos: São dramáticos. O primeiro é econômico. Toda a
legitimidade do partido nos últimos 30 anos teve como base sua performance, na
ideia de que ele pode transformar a vida das pessoas a cada sete ou oito anos,
prazo no qual a economia dobrava. Esse período acabou em razão de questões
demográficas e da curva natural de transformações econômicas radicais. É por
isso que agora eles falam da nova normalidade, para tentar acostumar as pessoas
à ideia de que sua vida não vai ser transformada totalmente a cada seis ou sete
anos. É preciso estar mais próximos de um crescimento de 5%, 6%. Se a economia
cair, é um risco.E o que significa cair?
Evan Osnos: O
crescimento cair abaixo de 4%. Isso seria o que eles chamam de crescimento
recessivo. Não é exatamente uma recessão.
É uma recessão com características
chinesas.
Evan Osnos: Perfeito
(risos). Se isso acontecer, é um risco óbvio. O outro risco é o sistema
político, com base na ideia de consolidar poder no topo, ficar desconectado da
sociedade. A sociedade agora é tão diversa, tão pluralista, que há o risco de o
aparato político não ser capaz de acomodá-la. Essa é a questão mais urgente
para o partido. Eles fizeram uma aposta de que poderiam sobreviver sem se
adaptar politicamente. E eles estavam certos. Mas há um perigo no fato de que a
performance passada não é uma previsão do futuro. Talvez eles tenham de ser tão
flexíveis na área política como foram na econômica para sobreviver.
Mas não há nenhuma indicação nesse
sentido, certo?
Evan Osnos: Não
creio que ouviremos isso antes que aconteça. Foi a mesma coisa em 1977, quando
não era claro que a China estava se preparando para fazer uma mudança econômica
radical. E eles fizeram em 1978 e 1979. Não acho que eles farão isso
gradualmente. Mas é especulação. Eles são conscientes desse risco e não querem
ser expulsos da maneira como os soviéticos foram.
Xi Jinping é um retorno ao estilo de
liderança maoista?
Evan Osnos: Não
acredito que Xi seja maoista. Ele tomou elementos da receita de Mao, mas também
de Deng Xiaoping e de seu pai (Xi Zhongxun) e criou essa nova fórmula que é de
Xi Jinping. Não há dúvida de que ele é mais poderoso e personalista em sua
liderança do que qualquer pessoa desde Deng. A diferença entre ele e Mao é
substancial, no sentido de que Mao acreditava na mobilização de massas. A
Revolução Cultural propunha abrir os portões e deixar as pessoas bombardearem
os quarteis generais. Xi não tem nenhum interesse em deixar o povo fazer isso.
Ele acredita que o povo é mais bem servido quando é contido, quando é liderado
por uma elite. Xi tem uma formação de elite. Ele cresceu em Pequim e estudou em
uma escola de elite. Depois, viveu a Revolução Cultural e sofreu terrivelmente.
Seu pai ficou na prisão por 16 anos. Sua meia irmã cometeu suicídio. Como
resultado, ele aprendeu a ter medo do povo. Pode parecer como Mao porque ele
está concentrando muito poder, mas há uma diferença. Mao era um populista
genuíno e Xi não é um populista. Ele é um elitista.
O ativista cego Chen Guangcheng está
vivendo nos EUA, o advogado Gao Zhisheng está em prisão domiciliar e o artista
Ai Weiwei não pode deixar a China. O que a história dessas pessoas nos diz
sobre os limites dessa transformação?
Evan Osnos: De Ai
Weiwei, nós aprendemos que ninguém é imune. Antes de sua prisão, eu achava que
ele era muito famoso, que sua família era muito importante e que nunca iriam
atrás dele. E foram. A mensagem é que ninguém é imune. O crime de Gao Zhisheng foi a persistência, a
crença absoluta no poder da lei. Eu me concentro nesse conceito do poder da
ambição e da aspiração porque em muitos casos o que vemos são pessoas motivadas
por sua própria autoconfiança, pela descoberta de que podiam fazer coisas. Em
determinado momento, o Estado concluiu que a única maneira de controlá-lo era
quebrá-lo totalmente. Isso teve um efeito de contenção, ao enviar a outros
advogados a mensagem “isso é o que acontece se você vai muito longe”.
É a mesma história com Chen
Guangcheng?
Evan Osnos: Ele é
incrível. Ninguém acreditaria em sua história se fosse ficção. Quando você
nasce com uma deficiência na zona rural chinesa, sua vida não costuma ser maior
que os limites de sua casa. Chen Guangcheng se rebelou contra os limites de seu
próprio corpo e essa é a metáfora para sua luta com o governo.
Na questão da ampliação das
possibilidades de escolha, um dos personagens mais interessantes do livro é
Gong Hayian, dona de um site de relacionamento. Como você a encontrou?
Evan Osnos: Eu
estava trabalhando no Chicago Tribune
antes da New Yorker e tinha uma amiga
que estava tentando se casar e entrou no site de relacionamento. Ainda era um
formato muito básico e era chamado love21.
Eu achei aquilo fascinante e quis saber mais. Minha amiga perguntou a eles se
poderia levar um laowai (estrangeiro)
a uma das atividades. Eu visitei Gong
Hayian em um escritório minúsculo, fui ao evento e perdi contato com ela
por alguns anos. Na próxima vez que a encontrei, sua empresa tinha explodido.
Em um período de tempo muito curto, ela passou de uma estudante pobre a dona de
uma empresa que estava para abrir o capital na Bolsa de Valores e captar US$ 77
milhões. O mais fascinante é que esse não é um caso único. Quase todos os ricos da China são novos-ricos. Tão novos que eles
não sabem o que fazer com o dinheiro. Eu adoro isso sobre Gong Hayian. Quando
visitei sua casa e não havia obras de arte nas paredes.
Como a percepção dos chineses em
relação aos estrangeiros e o Ocidente mudou no período em que você estava lá?
Evan Osnos: Nós
somos cada vez menos necessários. É uma questão de tempo para que o tipo de
livro que eu escrevi seja escrito por autores chineses. E isso é saudável.
Sempre haverá um lugar para escritores estrangeiros escreverem sobre outro
país, como aqui nos Estados Unidos. Mas há tantos chineses jovens com boa
formação e experiência internacional que o espaço para estrangeiros está
encolhendo.
O mesmo se aplica a capital e
tecnologia, não?
Evan Osnos: A
China está produzindo tecnologia que é genuinamente inovadora. Eles ainda têm
um problema de propriedade intelectual e de roubo de tecnologia, mas estão
começando a fazer seus próprios produtos, que são competitivos e sérios. E
obviamente a China tem mais dinheiro do que todo o mundo. O que me preocupa é
que agora que o país tem todos esses recursos eles podem chegar a uma conclusão
muito abrangente e decidir que a China é mais forte quando se fecha a
influências externas. Se olhamos para a
história da China, os períodos em que o país foi mais dinâmico, mais criativo,
como a dinastia Tang, foi quando se abriu para o mundo exterior. Nós
estamos em um momento estranho, no qual a China está se debatendo com a questão
de quanto a influência estrangeira tem um lugar no país. As manchetes todos os
dias podem ser desencorajadoras, como redução de livros acadêmicos estrangeiros
nas universidades e a limitação da influência de estrangeiros na religião.
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XI JINPING Secretário-Geral do Partido Comunista Chinês e Presidente da República Popular da China |
E Xi Jinping tem uma posição muito
forte nesse sentido, com a ideia do “Sonho Chinês”.
Evan Osnos: Sim,
mas eu acho que em relação à questão estrangeira isso é parcialmente tático. É
uma tentativa de fortalecer as defesas nos terrenos ideológico e político, como
assegurar que não haja ONGs estrangeiras promovendo protestos democráticos na
China. Mas não acho que ele tem a fantasia de que a China pode se isolar do
resto do mundo em 2015. Sua filha foi para Harvard. Ele teve uma experiência
nos Estados Unidos no começo de sua carreira. Acho que há elementos mais de
curto prazo do que de longo prazo.
Outro lado dessa relação com o
Ocidente são os jovens nacionalistas e um dos personagens de seu livro é Tang
Jie, um integrante desse movimento. Qual a ressonância do nacionalismo na
sociedade chinesa e quais os riscos representados por esse sentimento?
Evan Osnos: O nacionalismo
é uma das surpresas quando você vai para a China. Eu me interessei por isso
porque o massacre da praça Tiananmen estava completando duas décadas e, para
meu espanto, os jovens estavam se levantando em 2008 em defesa do Partido
Comunista e da bandeira da China, e não pela abertura ou o combate à corrupção.
Foi um dos momentos que me forçaram a reexaminar minhas premissas em relação à
China. O nacionalismo, significando orgulho em relação ao país, de seu
crescimento e do sentimento de possibilidade em relação a seu lugar no mundo, é
sentido de maneira ampla na China. As
pessoas são orgulhosas das conquistas da última geração. Também houve um
esforço deliberado do Partido de promover essa mensagem. Não é acidental. Em
1992, depois de Tiananmen, o governo
decidiu promover a chamada “educação patriótica”. Isso é importante, mas
não explica tudo. As pessoas são
realmente orgulhosas de seu país e ficam desconcertadas quando olham no
exterior e se perguntam “por que vocês não são tão orgulhosos da China como eu
sou”? Eu só me preocupo com nacionalismo em um aspecto. Ele poderia ser
usado em um momento de crise por uma facção (do Partido) em competição com
outra. Uma delas poderia tentar se aproveitar do poder do nacionalismo focando,
por exemplo, no Japão, no Mar do Sul da China ou nos Estados Unidos. Nesse
cenário, muita dessa energia seria voltada à oposição ao Ocidente.
O Partido tem uma relação ambivalente com esse sentimento.
Às vezes o utiliza em seu benefício e em outros momentos tenta controlá-lo.
O nacionalismo é um químico muito instável. É muito poderoso
quando você o usa, mas pode facilmente sair de controle.
Você também diz que nacionalismo
preenche parte do vazio criado pelo fim da ideologia e que agora há essa busca
por um compasso moral, por sentido. A era da ambição perdeu força ou as
expectativas se ampliaram para abranger questões espirituais?
Evan Osnos: Acredito
que é a segunda opção. A abertura desse vazio espiritual deu às pessoas a
oportunidade de descobrirem o que querem para preenchê-lo. Não é um sentimento
muito prazeroso para muitos que estão no meio disso. Além do dinheiro, além da
casa, além do carro, o que eu quero da vida? Isso deixa muitas pessoas
ansiosas. O governo teria uma enorme dificuldade em preencher esse vazio. O
governo não pode dizer “agora você é confucionista”. Precisa dar às pessoas o
espaço em suas vidas para definir suas experiências e decidir o que importa, o
que é certo ou errado, o que é bom e o que é imoral. E muitos são incapazes de
fazer isso. Nós assistimos em tempo real o governo se debater com a questão de
permitir ou não que esse vazio espiritual seja preenchido pelas próprias
pessoas. Xi Jinping falou sobre os clássicos chineses, sobre confucionismo,
sobre religiões chineses.
O livro será publicado na China?
Evan Osnos: Foi
publicado em Taiwan e Hong Kong. Editores da China continental entraram em
contato comigo e queriam publicar o livro. Mas disseram que partes dele teriam
de ser cortadas. Eu não aceitei. Obviamente eu gostaria de ver o livro nas mãos
de chineses, mas quero que eles leiam todo o livro e não uma versão censurada.
Eles disseram que partes teriam de
ser censuradas?
Evan Osnos: Sim,
eles me deram uma lista detalhada. Disseram que eu não poderia falar sobre Chen
Guangcheng, Ai Weiwei, Liu Xiaobo (preso político vencedor
do Prêmio Nobel da Paz em 2010), Gao Zhisheng. Eles estimaram que tivessem de cortar um quarto do livro.
Algumas coisas que queriam cortar foram surpreendentes. Eu descrevo a origem
das reformas econômicas chinesas e digo que foram realizadas por Deng Xiaoping
com Chen Yun e Zhao Ziyang. Esses três foram uma combinação muito efetiva,
porque Chen era muito conservador, Zhao era muito progressista e Deng era o
árbitro. Eles disseram que a descrição era problemática porque Zhao Ziyang não
deve ter crédito (ele era primeiro-ministro da China na época do massacre da
Praça Tiananmen e teve uma posição simpática aos estudantes).
Por causa de Tiananmen?
Evan Osnos: Sim.
Eles disseram que eu deveria fazer um “ajuste”. E não havia nenhuma razão para
isso. A vida é longa e eu não tenho dúvida de que esse livro será lido por
chineses. Acho que é um insulto para os leitores chineses dizer “eu acho que
você só está pronto para essa versão”. Jamais faria isso.
*
EVAN OSNOS é jornalista da prestigiada revista The New Yorker, também membro do Brookings
Institution, de Washington. Especialista em relações internacionais e política,
foi correspondente da New Yorker em
Pequim entre 2008 e 2013. Seu livro Era da Ambição – Em Busca da Riqueza, da
Verdade e da Fé na Nova China foi vencedor do prêmio National Book, de
2014, e finalista do Pulitzer Prize deste ano. Antes de se mudar para a China,
ele trabalhou no Oriente Médio cobrindo, principalmente, o Iraque.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Internacional – Segunda-feira, 1 de junho de 2015 – Pg. A11 – Internet:
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