Laudato si': a íntegra da Encíclica e um "guia" para a sua leitura
Redação e
Rádio Vaticano
18-06-2015
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Capa da nova Encíclica de Papa Francisco: "Laudato Si' - Carta Encíclica sobre o Cuidado da Casa Comum" Edição em italiano - Libreria Editrice Vaticana |
No
dia de hoje foi lançada, oficialmente, a Carta Encíclica Laudato Si’ do Santo
Padre Francisco sobre o cuidado da casa comum.
Para ler a íntegra do texto desta Encíclica,
em português, clique aqui.
Também
pode ser visto, clicando aqui, um vídeo, de 6min18s, de divulgação da Encíclica.
Um
vídeo, em tom humorístico, sob o título Papa
Francisco na Encíclica: a batalha heroica contra a mudança climática, pode
ser visto clicando aqui.
Este
texto oferece um instrumento de suporte para uma primeira leitura da Encíclica,
ajudando a compreender o seu desenrolar na totalidade e a identificar as linhas
principais. As primeiras duas páginas apresentam a Laudato si’ na sua globalidade; depois, cada página corresponde a
um capítulo, indica seu objetivo e reproduz alguns trechos significativos. Os
números entre parêntesis remetem aos parágrafos da Encíclica. As últimas duas
páginas oferecem o índice completo.
UM
OLHAR POR INTEIRO
«Que
tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a
crescer?» (160). Este interrogativo é o âmago da Laudato si’, a esperada
Encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum. Que prossegue: «Esta pergunta não toca apenas
o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma
fragmentária», e isso conduz a interrogar-se sobre o sentido da existência e
sobre os valores que estão na base da vida social: «Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que
necessidade tem de nós esta terra?»: « Se não pulsa nelas esta pergunta de
fundo,– diz o Pontífice – não creio que
as nossas preocupações ecológicas possam surtir efeitos importantes».
O
nome da Encíclica foi inspirado na invocação de São Francisco «Louvado sejas, meu Senhor», que no Cântico
das criaturas recorda que a terra, a nossa casa comum, «se pode
comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe,
que nos acolhe nos seus braços» (1). Nós mesmos «somos terra (cfr. Gn 2,7). O
nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos
respirar e a sua água vivifica-nos e restaura-nos» (2).
Agora,
esta terra maltratada e saqueada se lamenta e os seus gemidos se unem aos de
todos os abandonados do mundo. O Papa Francisco convida a ouvi-los, exortando
todos e cada um – indivíduos, famílias, coletividades locais, nações e
comunidade internacional – a uma «conversão
ecológica», segundo a expressão de São João Paulo II, isto é, a «mudar de
rumo», assumindo a beleza e a responsabilidade de um compromisso para o
«cuidado da casa comum». Ao mesmo tempo, o Papa Francisco reconhece que se nota
«uma crescente sensibilidade relativamente ao meio ambiente e ao cuidado da
natureza, e cresce uma sincera e sentida preocupação pelo que está a acontecer
ao nosso planeta.» (19), legitimando um olhar de esperança que permeia toda a Encíclica
e envia a todos uma mensagem clara e repleta de esperança: «A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da
nossa casa comum.» (13); «o ser humano ainda é capaz de intervir de forma
positiva» (58); «nem tudo está perdido,
porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também
superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se» (205).
O
Papa Francisco se dirige certamente aos fiéis católicos, retomando as palavras
de São João Paulo II: «os cristãos, em
particular, advertem que a sua tarefa no seio da criação e os seus deveres em
relação à natureza e ao Criador fazem parte da sua fé» (64), mas se propõe «especialmente
entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum» (3):
o diálogo percorre
todo o texto, e no
cap. 5 se torna o instrumento para enfrentar e
resolver os problemas. Desde o início, o Papa Francisco recorda que também «outras Igrejas e
Comunidades cristãs – bem como noutras religiões – se tem desenvolvido uma
profunda preocupação e uma reflexão valiosa» sobre o tema da ecologia (7). Ou
melhor, assume explicitamente sua contribuição a partir do que foi dito pelo
«amado Patriarca Ecumênico Bartolomeu» (7), amplamente citado nos nn. 8‐9. Em vários trechos, o Pontífice
agradece aos protagonistas deste esforço –
seja indivíduos, seja associações ou instituições –, reconhecendo que «a
reflexão de inúmeros cientistas, filósofos, teólogos e organizações sociais que
enriqueceram o pensamento da Igreja sobre estas questões» (7)
e convida todos a reconhecer «a
riqueza que as religiões possam oferecer para uma ecologia integral e o pleno
desenvolvimento do gênero humano» (62).
O
itinerário da Encíclica é traçado no n. 15
e se desenvolve em seis
capítulos. Passa-se de uma análise da situação a partir das melhores aquisições
científicas hoje disponíveis (cap. 1), ao confronto com a Bíblia e a tradição
judaico-cristã (cap. 2), identificando a raiz dos problemas (cap. 3) na
tecnocracia e num excessivo fechamento autorreferencial do ser humano. A
proposta da Encíclica (cap. 4) é a de uma «ecologia integral, que inclua
claramente as dimensões humanas e
sociais» (137), indissoluvelmente
ligadas com a questão ambiental. Nesta perspectiva, o Papa Francisco propõe
(cap. 5) empreender em todos os níveis da vida social, econômica e política um
diálogo honesto, que estruture processos de decisão transparentes, e recorda
(cap. 6) que nenhum projeto pode ser eficaz se não for animado por uma
consciência formada e responsável, sugerindo ideias para crescer nesta direção
em nível educativo, espiritual, eclesial, político e teológico. O texto se
conclui com duas orações, uma oferecida à partilha com todos os que acreditam
num «Deus Criador Omnipotente» (246), e outra proposta aos que professam a fé
em Jesus Cristo, ritmada pelo refrão «Laudato
si’», com o qual a Encíclica se abre e se conclui.
O
texto é atravessado por alguns eixos temáticos, analisados por uma variedade de
perspectivas diferentes, que lhe conferem uma forte unidade: «a relação íntima
entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está
estreitamente interligado no mundo, a crítica do novo paradigma e das formas de
poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de
entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido
humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave
responsabilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a
proposta dum novo estilo de vida» (16).
PRIMEIRO
CAPÍTULO – O QUE ESTÁ A ACONTECER À NOSSA CASA
O
capítulo apresenta as mais recentes aquisições científicas em matéria ambiental
como modo de ouvir o grito da criação, «transformar em sofrimento pessoal
aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um
lhe pode dar» (19). Enfrentam-se assim «vários aspectos da atual crise
ecológica» (15).
As
mudanças climáticas: «As mudanças
climáticas são um problema
global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas,
distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios
para a humanidade» (25). Se «o clima é um bem comum, um bem de todos e para
todos» (23), o impacto mais pesado da sua alteração recai sobre os mais pobres,
mas muitos «daqueles que detêm mais recursos e poder econômico ou político
parecem concentrar-se, sobretudo, em mascarar os problemas ou ocultar os seus
sintomas » (26): «a falta de reações diante destes dramas dos nossos irmãos e
irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos
semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil» (25).
A
questão da água: O Pontífice afirma claramente que «o acesso à água potável e
segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina
a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros
direitos humanos». Privar os pobres do
acesso à água significa «negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade
inalienável» (30).
A
preservação da biodiversidade: «Anualmente,
desaparecem milhares de espécies vegetais e animais que já não poderemos
conhecer mais, que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre» (33).
Não são somente eventuais “recursos” exploráveis, mas têm um valor em si mesmos. Nesta
perspectiva, «são louváveis e, às vezes, admiráveis os esforços de cientistas e
técnicos que procuram dar solução aos problemas criados pelo ser humano», mas a
intervenção humana, quando se coloca a serviço da finança e do consumismo, «faz com que esta terra onde vivemos se torne
realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta» (34).
A
dívida ecológica: no âmbito de uma ética das relações internacionais, a Encíclica
indica que existe «uma verdadeira “dívida ecológica”» (51), sobretudo do Norte
em relação ao Sul do mundo. Diante das mudanças climáticas, existem
«responsabilidades diversificadas» (52), e as dos países desenvolvidos são
maiores.
Consciente
das profundas divergências quanto a essas problemáticas, o Papa Francisco
se mostra profundamente
impressionado com a «fraqueza das
reações» diante dos dramas de tantas
pessoas e populações. Embora não faltem exemplos positivos (58), sinaliza «um certo
torpor e uma alegre irresponsabilidade» (59). Faltam
uma cultura adequada (53) e a disponibilidade em mudar estilos de vida,
produção e consumo (59), enquanto é urgente «criar um sistema normativo [...]
que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas» (53).
Segundo
capítulo – O Evangelho da criação
Para
enfrentar as problemáticas ilustradas no capítulo precedente, o Papa Francisco
relê as narrações da Bíblia, oferece uma visão global oriunda da tradição
judaico-cristã e articula a «tremenda responsabilidade» (90) do ser humano diante da criação, o elo íntimo entre todas
as criaturas e o fato de que «o meio ambiente é um bem coletivo, património de
toda a humanidade e responsabilidade de todos» (95).
Na
Bíblia, «o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo. [...] n’Ele
se conjugam o carinho e a força» (73). A
narração da criação é central para refletir sobre a relação entre o ser humano
e as outras criaturas e sobre como o pecado rompe o equilíbrio de toda a
criação no seu conjunto: «Essas narrações sugerem que a existência humana se
baseia sobre três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com
Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a Bíblia, essas três relações vitais
romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o
pecado» (66).
Por
isso, mesmo que nós « cristãos, algumas vezes interpretamos de forma incorreta
as Escrituras, hoje devemos decididamente rejeitar que, do fato de ser criados
à imagem de Deus e do mandato de dominar a terra, se deduza um domínio absoluto
sobre as outras criaturas» (67). Ao ser humano cabe a responsabilidade de
«“cultivar e guardar” o jardim do mundo
(cfr. Gn
2,15)» (67), sabendo que «o fim último das restantes
criaturas não somos nós. Mas todas avançam, juntamente conosco e através de
nós, para a meta comum, que é Deus» (83).
Que
o ser humano não seja o dono do universo, «não significa igualar todos os seres
vivos e tirar ao ser humano aquele seu valor peculiar » que o caracteriza; «também
não requer uma divinização da terra, que nos privaria da nossa vocação de
colaborar com ela e proteger a sua fragilidade» (90). Nesta perspectiva, «todo o encarniçamento
contra qualquer criatura «é contrário à dignidade humana» (92), mas «não pode ser autêntico um sentimento de
união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no
coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos» (91). Necessita-se da consciência de uma comunhão
universal: «criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e
formamos uma espécie de família universal, […]que nos impele a um respeito
sagrado, amoroso e humilde» (89).
O
coração da revelação cristã conclui o Capítulo: «Jesus terreno» com a «sua
relação tão concreta e
amorosa com o mundo»
«ressuscitado e glorioso», está «presente em toda a criação com o seu
domínio universal» (100).
Terceiro
capítulo – A raiz humana da crise ecológica
Este
capítulo apresenta uma análise da situação atual, «de modo a individuar não
apenas os seus sintomas, mas também as causas mais profundas» (15), em um
diálogo com a filosofia e as ciências humanas.
Um
primeiro fulcro do capítulo são as reflexões sobre a tecnologia: é reconhecida,
com gratidão, a sua contribuição para o melhoramento das condições de vida
(102-103); todavia ela oferece «àqueles que detêm o conhecimento e, sobretudo,
o poder econômico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto
do gênero humano e do mundo inteiro» (104). São precisamente as lógicas de
domínio tecnocrático que levam a destruir a natureza e explorar as pessoas e as
populações mais vulneráveis. «O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu
domínio também sobre a economia e a política» (109), impedindo reconhecer que
«o mercado, por si mesmo [...] não garante o desenvolvimento humano integral
nem a inclusão social» (109).
Na
raiz se diagnostica na época moderna um excesso de antropocentrismo (116): o
ser humano não reconhece mais sua correta posição em relação ao mundo e assume
uma posição autorreferencial, centrada exclusivamente em si mesmo e no próprio
poder. Deriva então uma lógica do «descartável» que justifica todo tipo de
descarte, ambiental ou humano que seja, que trata o outro e a natureza como um
simples objeto e conduz a uma miríade de formas de dominação. É a lógica que
leva a explorar as crianças, a abandonar os idosos, a reduzir os outros à
escravidão, a superestimar a capacidade do mercado de se autorregular, a
praticar o tráfico de seres humanos, o comércio de peles de animais em risco de
extinção e de “diamantes ensanguentados”. É a mesma lógica de muitas máfias,
dos traficantes de órgãos, do tráfico de drogas e do descarte de crianças
porque não correspondem ao desejo de seus pais. (123)
Nesta
luz, a Encíclica aborda duas questões cruciais para o mundo de hoje. Antes de
tudo, o trabalho: «Em qualquer abordagem de ecologia integral que não exclua o
ser humano, é indispensável incluir o valor do trabalho» (124), bem como
«renunciar a investir nas pessoas para se obter maior receita imediata é um
péssimo negócio para a sociedade» (128).
A
segunda diz respeito aos limites do progresso científico, com clara referência
aos OGM (132-136), que são «uma questão de carácter complexo» (135). Embora
«nalgumas regiões, a sua utilização ter produzido um crescimento econômico que
contribuiu para resolver determinados problemas, há dificuldades importantes
que não devem ser minimizadas» (134), a partir da «concentração de terras
produtivas nas mãos de poucos» (134). O Papa Francisco pensa em particular nos
pequenos produtores e trabalhadores rurais, na biodiversidade, na rede de
ecossistemas. É, portanto, preciso assegurar «um debate científico e social que
seja responsável e amplo, capaz de considerar toda a informação disponível e
chamar as coisas pelo seu nome» a partir de «linhas de pesquisa autônomas e interdisciplinares que possam trazer nova luz» (135).
Quarto
capítulo – Uma ecologia integral
O coração da proposta da Encíclica
é a ecologia integral como novo
paradigma de justiça; uma ecologia «que integre o lugar específico que o ser humano ocupa
neste mundo e as suas relações com a realidade que o circunda» (15). De fato,
«isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma
mera moldura da nossa vida» (139). Isto vale, por mais que vivemos em
diferentes campos: na economia e na política, nas diversas culturas, em
particular modo nas mais ameaçadas, e até mesmo em cada momento da nossa vida
cotidiana.
A
perspectiva integral põe em jogo também uma ecologia das instituições: «Se tudo
está relacionado, também o estado de saúde das instituições de uma sociedade
tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana: “toda a lesão da
solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais”» (142). Com muitos
exemplos concretos, o Papa Francisco reafirma o seu pensamento: há uma ligação
entre questões ambientais e questões sociais e humanas que nunca pode ser
rompida. Assim, «a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise
dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada
pessoa consigo mesma» (141), enquanto «Não há duas crises separadas, uma
ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental» (139).
Esta
ecologia integral «é inseparável da noção de bem comum» (156), a ser entendida,
no entanto, de modo concreto: no contexto de hoje, no qual «há tantas
desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas
dos direitos humanos fundamentais» comprometer-se pelo bem comum significa
fazer escolhas solidárias com base em «uma opção preferencial pelos mais
pobres» (158). Esta é também a melhor maneira para deixar um mundo sustentável
às gerações futuras, não com proclamas, mas através de um compromisso de
cuidado dos pobres de hoje, como já havia sublinhado Bento XVI: «para além da
leal solidariedade entre as gerações, há que reafirmar a urgente necessidade
moral de uma renovada solidariedade entre os indivíduos da mesma geração»
(162).
A
ecologia integral envolve também a vida diária, para a qual a Encíclica reserva
uma atenção específica em particular em ambiente urbano. O ser humano tem uma
grande capacidade de adaptação e «admirável é a criatividade e generosidade de
pessoas e grupos que são capazes de dar a volta às limitações do ambiente,
[...] aprendendo a orientar a sua existência no meio da desordem e
precariedade» (148). No entanto, um desenvolvimento autêntico pressupõe um
melhoramento integral na qualidade da vida humana: espaços públicos, moradias,
transportes, etc. (150-154).
Também
«o nosso corpo nos coloca em uma relação direta com o meio ambiente e com os
outros seres vivos. A aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessária
para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai e casa comum; pelo
contrário, uma lógica de domínio sobre o próprio corpo transforma-se numa
lógica, por vezes subtil, de domínio sobre a criação» (155).
Quinto
capítulo – Algumas linhas de orientação e ação
Este
capítulo aborda a pergunta sobre o que podemos e devemos fazer. As análises não
podem ser suficientes: são necessárias propostas «de diálogo e de ação que
envolvam seja cada um de nós seja a política internacional» (15), e «que nos
ajudem a sair da espiral de autodestruição onde estamos a afundar» (163). Para
o Papa Francisco é imprescindível que a construção de caminhos concretos não
seja enfrentada de modo ideológico, superficial ou reducionista. Por isso, é
indispensável o diálogo, termo presente no título de cada seção deste capítulo:
«Há discussões sobre questões relativas ao meio ambiente, onde é difícil chegar
a um consenso. [...] a Igreja não pretende definir as questões científicas, nem
substituir-se à política, mas [eu] convido a um debate honesto e transparente
para que as necessidades particulares ou as ideologias não lesem o bem comum»
(188).
Com
esta base o Papa Francisco não tem medo de fazer um julgamento severo sobre as
dinâmicas internacionais recentes: «as cimeiras mundiais sobre o meio ambiente
dos últimos anos não corresponderam às expectativas, porque não alcançaram, por
falta de decisão política, acordos ambientais globais realmente significativos
e eficazes» (166). E se pergunta: «Para que se quer preservar hoje um poder que
será recordado pela sua incapacidade de intervir quando era urgente e
necessário fazê-lo?» (57). Servem, em vez disso, como os
Pontífices repetiram várias vezes, a partir da Pacem in Terris, formas e instrumentos eficazes de governança
global (175): «precisamos de um acordo sobre os regimes de governança para toda
a gama dos chamados bens comuns globais» (174), já que «“a proteção ambiental
não pode ser assegurada apenas com base no cálculo financeiro de custos e
benefícios. O ambiente é um dos bens que os mecanismos de mercado não estão
aptos a defender ou a promover adequadamente”» (190), que retoma as palavras do
Compêndio da Doutrina Social da Igreja).
Sempre
neste capítulo, o Papa Francisco insiste sobre o desenvolvimento de processos
de decisão honestos e transparentes, para poder «discernir» quais políticas e
iniciativas empresariais poderão levar «a um desenvolvimento verdadeiramente
integral» (185). Em particular, o estudo do impacto ambiental de um novo
projeto «requer processos políticos transparentes e sujeitos a diálogo,
enquanto a corrupção, que esconde o verdadeiro impacto ambiental dum projeto em
troca de favores, frequentemente leva a acordos ambíguos que fogem ao dever de
informar e a um debate profundo» (182).
Particularmente
significativo é o apelo dirigido àqueles que detêm cargos políticos, para que
se distanciem da lógica «eficientista e imediatista» (181) hoje dominante: «se
ele tiver a coragem de o fazer, poderá novamente reconhecer a dignidade que
Deus lhe deu como pessoa e deixará, depois da sua passagem por esta história,
um testemunho de generosa responsabilidade» (181).
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PAPA FRANCISCO: «Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo.» (Encíclica Laudato Si', n. 230) |
Sexto
capítulo - Educação e espiritualidade ecológicas
O
último capítulo vai ao cerne da conversão ecológica à qual a Encíclica convida.
As raízes da crise cultural agem em profundidade e não é fácil reformular
hábitos e comportamentos. A educação e a formação continuam sendo desafios
centrais: «toda mudança tem necessidade de motivações e dum caminho educativo»
(15); estão envolvidos todos os ambientes educacionais, por primeiro « a
escola, a família, os meios de comunicação, a catequese» (213).
O
início é apostar «em uma mudança nos estilos de vida» (203-208), que também
abre à possibilidade de «exercer uma pressão salutar sobre quantos detêm o
poder político, econômico e social» (206). Isso é o que acontece quando as
escolhas dos consumidores conseguem «a mudança do comportamento das empresas,
forçando-as a reconsiderar o impacto ambiental e os modelos de produção» (206).
Não
se pode subestimar a importância de percursos de educação ambiental capazes de
incidir sobre gestos e hábitos cotidianos, da redução do consumo de água, à
diferenciação do lixo até «apagar as luzes desnecessárias» (211): «Uma ecologia
integral é feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a
lógica da violência, da exploração, do egoísmo» (230). Tudo isto será mais
fácil a partir de um olhar contemplativo que vem da fé: «O crente contempla o
mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços
com que o Pai nos uniu a todos os seres. Além disso a conversão ecológica,
fazendo crescer as peculiares capacidades que Deus deu a cada crente, leva-o a
desenvolver a sua criatividade e entusiasmo» (220).
Retorna
à linha proposta na Evangelii Gaudium:
«A sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora» (223), bem como
«A felicidade exige saber limitar algumas necessidades que nos entorpecem,
permanecendo assim disponíveis para as muitas possibilidades que a vida
oferece» (223); desta forma torna-se possível «voltar a sentir que precisamos
uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo,
que vale a pena ser bons e honestos» (229).
Os
santos acompanham-nos neste caminho. São Francisco, muitas vezes mencionado, é
«o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia
integral, vivida com alegria» (10), modelo de como «são inseparáveis a
preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na
sociedade e a paz interior (10). Mas a Encíclica recorda também São Bento,
Santa Teresa de Lisieux e o Beato Charles de Foucauld.
Após
a Laudato si’, o exame de
consciência, o instrumento que a Igreja sempre recomendou para orientar a
própria vida à luz da relação com o Senhor, deverá incluir uma nova dimensão,
considerando não apenas como se vive a comunhão com Deus, com os outros,
consigo mesmo, mas também com todas as criaturas e a natureza.
ÍNDICE DA ENCÍCLICA
LAUDATO SI’, mi’ Signore [1-2] . . . 3
Nada deste mundo nos é indiferente [3-6] . .
. 4
Unidos por uma preocupação comum [7-9] . . . 7
São Francisco de Assis [10-12] . . . 10
O meu apelo [13-16] . . . 12
CAPÍTULO I - O QUE ESTÁ A ACONTECER À NOSSA CASA
[18-19]
1. POLUIÇÃO E MUDANÇAS CLIMÁTICAS . . . 18
Poluição, resíduos e cultura do descarte [20-22]
. . . 18
O clima como bem comum [23-26] . . . 20
2. A QUESTÃO DA ÁGUA [27-31] . . . 24
3. PERDA DE BIODIVERSIDADE [32-42] . . . 27
4. DETERIORAÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA HUMANA E
DEGRADAÇÃO SOCIAL [43-47] . . . 34
5. DESIGUALDADE PLANETÁRIA [48-52] . . . 37
6. A FRAQUEZA DAS REAÇÕES [53-59] . . . 43
7. DIVERSIDADE DE OPINIÕES [60-61] . . . 47
CAPÍTULO II - O EVANGELHO DA CRIAÇÃO
1. A LUZ QUE A FÉ OFERECE [63-64] . . . 49
2. A SABEDORIA DAS NARRAÇÕES BÍBLICAS [65-75]
. . . 51
3. O MISTÉRIO DO UNIVERSO [76-83] . . . 60
4. A MENSAGEM DE CADA CRIATURA NA HARMONIA DE
TODA A CRIAÇÃO [84-88] . . . 66
5. UMA COMUNHÃO UNIVERSAL [89-92] . . . 70
6. O DESTINO COMUM DOS BENS [93-95] . . . 73
7. O OLHAR DE JESUS [96-100] . . . 75
CAPÍTULO III - A RAIZ HUMANA DA CRISE ECOLÓGICA
1. A TECNOLOGIA: CRIATIVIDADE E PODER [102-105]
. . . 79
2. A GLOBALIZAÇÃO DO PARADIGMA TECNOCRÁTICO
[106-114] . . . 82
3. CRISE DO ANTROPOCENTRISMO MODERNO E SUAS
CONSEQUÊNCIAS [115-121] . . . 90
O relativismo prático [122-123] . . . 94
A necessidade de defender o trabalho
[124-129] . . . 96
A inovação biológica a partir da pesquisa [130-136]
. . . 101
CAPÍTULO IV - UMA ECOLOGIA INTEGRAL
1. ECOLOGIA AMBIENTAL, ECONÔMICA E SOCIAL
[138-142] . . . 107
2. ECOLOGIA CULTURAL [143-146] . . . 112
3. ECOLOGIA DA VIDA QUOTIDIANA [147-155] . .
. 114
4. O PRINCÍPIO DO BEM COMUM [156-158] . . . 120
5. A JUSTIÇA INTERGENERACIONAL [159-162] . .
. 122
CAPÍTULO V - ALGUMAS LINHAS DE ORIENTAÇÃO E AÇÃO
1. O DIÁLOGO SOBRE O MEIO AMBIENTE NA POLÍTICA
INTERNACIONAL [164-175] . . . 127
2. O DIÁLOGO PARA NOVAS POLÍTICAS NACIONAIS E
LO CAIS [176-181] . . . 135
3. DIÁLOGO E TRANSPARÊNCIA NOS PROCESSOS
DE CISÓRIOS [182-188] . . . 140
4. POLÍTICA E ECONOMIA EM DIÁLOGO PARA A
PLENITUDE HUMANA [189-198] . . . 144
5. A S RELIGIÕES NO DIÁLOGO COM AS CIÊNCIAS
[199-201] . . . 152
CAPÍTULO VI - EDUCAÇÃO E ESPIRITUALIDADE ECOLÓGICAS
1. A PONTAR PARA OUTRO ESTILO DE VIDA [203-208]
. . . 155
2. EDUCAR PARA A ALIANÇA ENTRE A HUMANIDADE E
O AMBIENTE [209-215] . . . 159
3. A CONVERSÃO ECOLÓGICA [216-221] . . . 164
4. ALEGRIA E PAZ [222-227] . . . 168
5. AMOR CIVIL E POLÍTICO [228-232] . . . 172
6. OS SINAIS SACRAMENTAIS E O DESCANSO CELEBRATIVO
[233-237] . . . 175
7. A TRINDADE E A RELAÇÃO ENTRE AS CRIATURAS
[238-240] . . . 180
8. A RAINHA DE TODA A CRIAÇÃO [241-242] . . .
182
9. PARA ALÉM DO SOL [243-246] . . . 183
Oração pela nossa terra . . . 184
Oração cristã com a criação . . . 185
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