O mundo secreto das garotas
ENTRE A BRISA E A TEMPESTADE
Mônica Manir
Elas já bebem tanto quanto eles, substituíram o cigarro
pela maconha,
vivenciam as sintéticas e ainda têm as anfetaminas
ATUALMENTE, CERCA DE 30% DAS GAROTAS JÁ FICARAM BÊBADAS ATÉ SEUS 15 ANOS DE IDADE! ANTES, ISSO ERA COMUM MAIS ENTRE OS GAROTOS, AGORA, UNIVERSALIZOU-SE! |
Sexta-feira,
11 horas da noite. Esquina da Augusta com a Paulista. Esquina do Safra. Esquina
do esquenta. Esquina do torpor. Há algum tempo o entroncamento atrai a moçada
que aguarda o horário das baladas no Baixo Augusta [São Paulo, capital]. Ou que
não aguarda nada. Estão na arquibancada, vendo o mundo passar. É o footing mais seating da cidade: todo mundo meio acocorado nos degraus. Não
avançam muito, já que o Banco Safra colocou umas grades para conter o avanço da
massa. Mas avançam nos entorpecentes e na bebida barata.
Entre
os acocorados estão muitas acocoradas. São garotas de seus 17, 19, 22 anos,
algumas saídas da aula, várias que há meses não participam de nenhuma. Dividem
copinhos de gelatina cor-de-rosa com Askov, que compraram de ambulantes. Diversas delas fumam maconha. Uma ou
outra experimenta um brownie da erva,
em versões de 3 gramas e 6 gramas, vendidas dentro de um Tupperware. Ovos de chocolate com LSD acabam de
passar. Uma moça de calça azul
cintilante distribui um pó branco [cocaína] sobre o celular e cheira a carreira de costas pra rua. Outra,
evidentemente bêbada, é sugada num beijo por um vendedor de pulseirinha hippie,
botado pra correr por umas cantoras de rap que perceberam o abuso.
Mano,
ali também é point de lúcidas batalhas de rap, uma competição de improvisos -
aliás, vencida por uma moça, Gaby, na sexta-feira em questão. Mas isso é tema
do próximo capítulo desta série sobre o mundo secreto das garotas. O que rola no episódio que aqui se
apresenta é o avanço das drogas entre elas, a começar pelo álcool.
“Cerveja é o amor da vida”, diz Ananda,
de 22 anos, que tecla um jogo qualquer no celular para tentar esquecer a dor de
cabeça da sinusite. Ela e mais duas amigas esperam uma quarta garota para
descer a Rua Augusta até a Outs, balada de rock que toca de emo
a hardcore. Todas têm o cartão fidelidade da casa, onde pagam apenas R$ 10 com
open bar se chegarem até a 1h. “Somos de
uma turma que sai pra beber, e não pra pegar todo mundo”, diz Carolyna
Daniele, de 21 anos, fazendo a ressalva.
Estatísticas
sobre o aumento do consumo de álcool pelas mulheres não faltam. Uma feita pela
Unifesp [Universidade Federal de São Paulo] em 2013 mostra que o número das brasileiras que bebem com
frequência saltou de 29% para 39% entre 2006 e 2012. O principal acréscimo se deu na faixa dos 15 aos 25 anos. Não bebem
apenas. Bebem em “binge”, ou seja,
quatro doses em duas horas, o suficiente para muito corpo feminino entortar.
Homens costumam resistir a mais uma dose.
O
psiquiatra Flávio Gikovate levanta
outros números: “Se até 20 anos atrás
apenas 3% das meninas até 15 anos tinham tomado um pileque, hoje elas chegam a
30%, mesma porcentagem dos garotos”. “Pileque” denuncia a experiência. Há
mais de 50 anos Gikovate tem consultório físico, pelo qual já passaram uns 10
mil pacientes. E há quase 9 anos responde às angústias de ouvintes da Rádio CBN. Atende, portanto, a todas as
classes, e vê esse consumo aumentar em todas. A quem diz que garotos e garotas
fazem isso para se socializar, responde com moderação: “Quem bebe muito não quer socializar, quer monologar, fala até com
poste. A droga, ao mesmo tempo que aumenta a sensibilidade, também faz o outro
perder importância, porque o outro vira menos outro.”
Por
aí segue o raciocínio de quem analisa os efeitos da maconha, cujo consumo
cresceu a olhos e, especialmente, a narizes vistos. Pelas ruas, o cheiro da
erva tem sido tão comum quanto o de tabaco. Há quem aposte que seguimos os sinais de fumaça dos EUA, onde os
estudantes do ensino médio já fumam mais maconha do que cigarro. O 2.º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas,
da Unifesp, estima que 1,5 milhão de
pessoas fumam maconha diariamente no Brasil, entre elas 300 mil adolescentes.
Mais de 20% dos jovens obtiveram a Canabis
na escola, e o índice de dependência entre os mais novos é de 10%.
“O pessoal, especialmente as
meninas, está consumindo adoidado e achando que não faz mal”, diz o hebiatra Maurício de
Souza Lima. Ele falava da maconha prensada, do haxixe e do shatter, este último com até 80% de THC (tetra-hidrocarbinol),
responsável pelos efeitos alucinógenos. “Não
é que faz mal pra todo mundo, mas, quanto mais cedo se usa, maior o risco de
dependência, porque na adolescência é que se formam novas conexões cerebrais”,
explica. Se toda droga psicoativa gera tolerância, continua, quem consome
precisa de mais para ter o mesmo efeito.
Funciona
assim com quem também está acostumado a consumir cocaína ou sintéticos como o MD, que virou trending topic nas baladas da classe alta.
Cristal com jeito de sal grosso, é uma
anfetamina de efeitos semelhantes aos do ecstasy, porém “mais puros”:
coração a mil, sentidos a mil, sede a milhões. “Quando alguém toca a gente,
parece que você vai derreter”, revela Luiza, de 23 anos. A droga é cara: 1
grama custa cerca de R$ 200, enquanto o mesmo tanto de cocaína costuma sair por
R$ 50 e a balinha de ecstasy, uns R$ 40.
Quem
oferece um cristal pra galera ganha uma fila de seduzidos. “É um bem valioso e,
tipo, o cara divide com quem não conhece, tá sendo mó brother”, diz Luiza, que
se classifica numa zona de conforto com a experiência. Mas ela já viu amiga quebrando o braço porque alucinou geral ou quebrando o
dente, tamanho o bruxismo depois do consumo.
A longo prazo, o MD pode
detonar quadros esquizofrênicos, síndrome do pânico e depressão. Depressão é palavra-chave
no universo feminino, que acrescenta um pino no quadro das drogas: o dos antidepressivos. O escritor americano
Andrew Solomon explica isso melhor na entrevista abaixo. Gikovate adiciona o
fato de Prozacs da vida tirarem o
apetite, o que engorda a dependência das garotas. Mas acha que também tem muito
garoto deprimido por aí, desorientado na transição dos costumes. “Ninguém mais quer cobrança, os moços muito
menos, só que estão folgados, perdendo o bonde.”
E
as moças? Em que pé estão?
“Have Faith in Me” [Trad.: Tenha fé em mim.]. É o que estampa a tatuagem da Carolyna
Daniele, que desce a Augusta abraçada com as amigas, safando-se todas do
temporal que lavou a esquina uma hora depois.
MARINA FILIZOLA Atriz e trapezista narra a sua experiência com drogas no livro "Leite em Pó" |
Uma vida na corda bamba
«A molecada está usando as drogas sintéticas
como se fosse Tic Tac, não sabem onde estão se metendo.” O alerta é da atriz e
trapezista Marina Filizola, que desde os 14 anos se equilibrou no mundo dos
psicotrópicos até que, um dia, faltou chão. À beira da esquizofrenia, ela
se rejuntou nos Narcóticos Anônimos para ser mãe e escrever um livro, Leite
em Pó, lançado em abril pela editora Planeta. Marina acha que as
mulheres, colocadas no bloco da delicadeza, sofrem muito mais quando se
enterram nas drogas. “Ainda choca dizer que são dependentes, há muito
preconceito.»
“MUITAS SE SENTEM SEM VALOR”
Entrevista
com Andrew Solomon
Mônica Manir
Andrew Solomon relatou uma depressão devastadora no
livro
“O Demônio do Meio-Dia”
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ANDREW SOLOMON |
Atingido
por uma depressão devastadora, da qual se ergueu usando os remédios certos e
uma rede amorosa de apoio, Andrew
Solomon relatou todo o processo em O
Demônio do Meio-Dia. Onze anos mais tarde, em 2012, ele preencheu outro
livro, Longe da Árvore (ambos da
Companhia das Letras), com a experiência de pais tentando educar filhos
“complicados”. Abaixo, Solomon junta as duas vivências para falar de
antidepressivos no mundo feminino.
As
moças estão mais propensas à depressão do que os rapazes?
Andrew Solomon: Sim. Parte disso é
biológico: elas têm uma flutuação hormonal, que pode lançá-las à depressão. Mas
parte é social. A depressão dos meninos muitas vezes se manifesta de forma
violenta, o que não é interpretado como doença. Já as meninas costumam se
retrair, e isso tem mais cara de depressão. Além disso, nesse mundo desigual,
elas muitas vezes se sentem mais desvalorizadas do que eles.
As
redes sociais podem acentuar as crises de ansiedade?
Andrew Solomon: Estamos todos vulneráveis
online. Talvez as meninas um pouco mais, porque preocupadíssimas em vender a
aparência. A autoconfiança pode ficar abalada por avaliações públicas
implacáveis. Além disso, e-mail e mensagens de texto, esses bits repentinos de
comunicação, chegam carregados de inconsistência. As mulheres se sentem
perseguidas e esquecidas, o que pode provocar muita dor.
Vê
exagero na prescrição de antidepressivos?
Andrew Solomon: Os antidepressivos são tanto
overprescritos como subprescritos. Estou mais preocupado com
o segundo caso. Tem quem os tome para fugir de problemas comuns, mas, na minha
experiência, essas pessoas acabam largando o medicamento quando percebem sua
ineficácia nessa situação. Enquanto isso, aquelas que de fato precisam do
remédio e não o tomam às vezes cometem suicídio.
Como
falar de drogas com os filhos sem parecer moralista?
Andrew Solomon: É mais fácil se comunicar
contando a história de quem teve a vida arrasada pelas drogas, por exemplo, do
que por meio de suspeitas e proibições. Ganha-se mais adeptos dessa forma. E,
para não parecer muito moralista, também pode-se dizer algo assim: “Eu sei que
você talvez queira experimentar. Eu também quis. Pode fazer parte do
crescimento. Mas a minha preocupação é que o problema das drogas virou uma
epidemia, garotas e garotos estão perdendo suas vidas por causa disso. E eu não
quero que você perca a sua – não só porque seria muito triste para mim, mas
porque seria triste demais para você. Você tem a vida toda pela frente, para
fazer diferença no mundo”.
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