É HOJE O DIA ! ! !
Moralismo popular versus política
José de Souza Martins*
O voto de uma deputada
federal desconhecida, Tia Eron, desenhará os rumos do País. Depois desse voto,
ela nunca mais será a mesma
![]() |
EDUARDO CUNHA (DEP. FED. PMDB-RJ) Retrato perfeito da amoralidade e imoralidade da política!!! |
O moralismo popular tem sido o fundamento da
precária consciência política dos que, de um lado e outro das polarizações
ideológicas, desde o mensalão e particularmente desde as manifestações de 2013,
vão às ruas e pedem a cabeça de alguns acusados de corrupção ou pedem o
reconhecimento de sua inocência. Mas o
moralismo popular colide com a política, que é amoral. E é melhor que ela seja
assim. Os que defendem os acusados e lhes reconhecem a inocência fazem-no
na concepção imoral de que é lícito usar imprópria e indevidamente o dinheiro e
o patrimônio públicos em favor de partidos que tem o presumível mandato de
beneficiar os pobres e simples, e para eles governar. O que lhes daria o
direito de recorrer à corrupção. Porém,
na cultura popular brasileira, corrupção é coisa de ladrão, ladrão é ladrão e
gente é gente.
O que marca este momento da história política
brasileira não é a suposta falta de vergonha dos acusados, mas de fato a falta de política dos acusadores.
Partidarizados, mas despolitizados, estamos em face de um enorme imbróglio que
só se resolverá com política e não com moralismo nem se resolverá com os
simplismos e deformações das ideologias. Chegou
a hora dos profissionais das instituições e terminou a hora dos amadores das
ruas. E seja o que Deus quiser.
Não é impossível que os que estão sob suspeita e mesmo
acusação sofram a metamorfose de se converterem no contrário do que são, em
nome do primado das instituições. Sem metamorfoses de consciência e de
protagonismo, dificilmente superaremos os impasses com os quais nos
defrontamos. Entre nós, as apurações da
Polícia Federal e da Justiça nos falam menos de delinquentes propriamente ditos
do que de pessoas com graves limitações de formação política, tanto na esquerda
quanto na direita, que tem uma concepção pobre, deformada e inescrupulosa de
seu protagonismo político.
As próprias instituições, cujas funções essas
pessoas desempenham, num cenário modificado pela centralidade da ética e dos
éticos que atuam nas investigações e nos julgamentos, já as estão, de vários
modos, chamando a desempenhar o papel, ainda que temporário, de funcionários do
bem. Mesmo que com o risco da má intenção de se aproveitarem da realidade
política adversa para no futuro continuarem a colher frutos das irregularidades
que são capazes de cometer. Algo como ceder os anéis para preservar todos os
dedos.
![]() |
TIA ERON (DEP. FED. PRB-Bahia) O voto dela será decisivo para que o Conselho de Ética da Câmara recomende ou não a cassação do mandato do deputado Eduardo Cunha |
A dimensão
teatral esclarecedora está no protagonismo inesperado de uma deputada
federal desconhecida, Tia Eron,
chamada a colocar-se de um lado ou de outro da disputa política. Seu voto na Comissão de Ética desenhará os
rumos políticos do País.
[Tia Eron é do PRB – Partido Republicano Brasileiro –
mesmo partido de Celso Russomanno e
criado pela Igreja Universal do Reino de
Deus a fim de ter influência no mundo político e no poder!]
Dependendo
do que decidir, o voto de Tia Eron definirá sua personalidade, nunca mais será
a mesma pessoa, encarnará para sempre o acerto ou o erro, o bem ou o mal, a
Pátria ou o fisiologismo político. Seu voto nos dirá se os
fundamentos éticos da verdadeira política, inscritos nas instituições e no que
nos resta de consciência cívica, capturaram sua personalidade ou foram
capturados por aquilo que a ética popular repudia.
Só que a boa opção da deputada se tornará,
fatalmente, a má opção da política. Sua opção ética dará ao processo político o
rumo que anulará tudo que o moralismo popular tem pretendido e também o que a
política carece, no limite com o impedimento da presidente da República que
teria administrado mal a coisa pública, violando a Lei de Responsabilidade
Fiscal. É que a trama que vitimou a
presidente, vitimou também o País e se não for desatada o País é que pagará o
preço do erro. Não é o caráter da presidente que está em julgamento, é o
ato que a definiu pelo ilícito de que é acusada. Minúcia que o moralismo
popular tem muita dificuldade para compreender.
Esse
moralismo se baseia numa pauta estreita de referências para julgar pessoas e
situações. Aprisionado entre o honesto e o desonesto, é essencialmente
incompatível com a política. Para sair da crise pela via institucional,
o País não pode varrer de vez os corruptos e a corrupção. Precisa do apoio dos
que investidos em mandatos legais e legítimos podem ou não viabilizar a
apuração de responsabilidades e decidir pelo afastamento do poder daqueles que
cometerem ilícitos e envolveram-se em irregularidades.
Porém, tudo
tem seu tempo e hora. Se todos os acusados de corrupção e irregularidades
fossem de uma só vez afastados do poder e das funções políticas que ocupam
atualmente, mesmo sendo minoria e minoria poderosa, o País provavelmente entraria
em outra crise.
O populismo que domina nossa concepção de política
não reconhece a desonestidade eventual dos pais dos pobres. A alternativa, por
outro lado, fere a consciência dos íntegros e dos que se pautam por uma sólida
moral: graduar o afastamento político de
corruptos e suspeitos que ocupam posições sólidas na estrutura de poder para
que, em face da circunstância, cumpram o dever de suas funções, removam os de
remoção prioritária e viabilizem as mudanças e reformas de que o país carece
com urgência.
*
José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de
São Paulo (USP). Possui uma ampla e notória bibliografia, dentre a qual cita-se:
A Política no Brasil: lúmpen e místico (Editora
Contexto).
Comentários
Postar um comentário