Os políticos se superam a cada dia nas maracutais!
As pedaladas, as campeãs e o assalto aos velhinhos
Rolf Kuntz
Há um parentesco indisfarçável entre o projeto de poder
do PT, os desmandos na administração direta e indireta, a desastrosa política
econômica e as pedaladas fiscais
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DIRETÓRIO NACIONAL DO PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT) CERCADO PELA POLÍCIA FEDERAL Quinta-feira, 23 de junho de 2016 - São Paulo - SP |
O assalto de R$ 100 bilhões
aos velhinhos e outros clientes do crédito consignado ainda era o grande assunto
do dia, turbinado pela prisão do ex-ministro Paulo Bernardo, quando foi
noticiado o desastroso balanço da Petros, com déficit de R$ 23,1 bilhões. O buraco será coberto
pelos mutuários, pelos aposentados e pela patrocinadora, a Petrobrás, empresa
sob controle financeiro da União e, portanto, dos cidadãos brasileiros. A
conta, portanto, vai também para eles. O tamanho do prejuízo pode ser
inesperado, mas a condição miserável das
fundações de previdência das estatais é bem conhecida. Também sujeitos ao jogo
partidário, ao aparelhamento e ao loteamento, esses fundos de pensão têm
perdido bilhões em aplicações mal feitas, frequentemente orientadas pelos
interesses do grupo no poder. Exemplo: investimentos na Sete Brasil, criada
para fornecer sondas à Petrobrás, impuseram perdas a todas as grandes
fundações, assim como aos bancos federais.
Um
caso ou outro poderia ser acidente. Mas os maus negócios dos bancos, a queima
de recursos das fundações, a devastação das grandes estatais e a crise da Oi,
sem condições de pagar R$ 65,4 bilhões de dívidas, trazem as marcas de um
estilo de governo. Esse estilo foi implantado em 2003 e só interrompido, por
enquanto provisoriamente, em abril deste ano. O escândalo do crédito consignado
apenas acrescentou um toque de perversidade, um tempero especial, a uma longa
história de bandalheiras.
Os R$ 23,1 bilhões perdidos
pela Petros podem ser uma cifra assustadora, mas esse valor parece até modesto
quando se pensa no balanço da Oi. A quebra, ou quase quebra, da operadora
estabeleceu um recorde. Nenhum outro
processo de recuperação judicial havia envolvido tanto dinheiro. Mas outros
detalhes também tornam especial esse episódio. A Oi, uma das maiores empresas de telecomunicação do Brasil, é uma das
mais discutíveis criações do governo petista.
O
toque final de sua constituição dependeu de uma alteração legal promovida pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Formatada para ser a grande companhia
nacional do setor, capaz de enfrentar as multinacionais, essa operadora
resultou em mais um fracasso, mais uma prova contra a política de criação de
campeãs nacionais. Uma de suas poucas
realizações notáveis foi a instalação de uma antena ao lado do sítio do
ex-presidente Lula.
Esta antena da operadora de telefonia Oi foi instalada próxima ao sítio frequentado por Lula, em Atibaia (SP), que ele nega ser de sua propriedade. É uma tecnologia perdida em plena zona rural, que privilégio, hein?! |
A
nova ação da Polícia Federal, com prisão do ex-ministro Paulo Bernardo,
condução de seu colega Carlos Gabas e visita à sede do PT em São Paulo, foi
classificada por aliados da presidente Dilma Rousseff como tentativa de
reforçar o processo de impeachment. A manobra seria destinada, além disso, a
desviar a atenção das acusações a membros do governo provisório. Alegações como
essas poderiam ter alguma respeitabilidade em outras circunstâncias. Mas é
impossível, agora, levá-las a sério. Afinal, a Operação Custo Brasil, mais um desdobramento da Operação Lava Jato,
só escancara mais detalhes de uma enorme sequência de crimes.
Alguns
desses novos detalhes, como o desvio de dinheiro de clientes do crédito
consignado, funcionários ativos e aposentados, são especialmente hediondos.
Mas, além de mais escabrosos que outros, podem ser especialmente informativos. A denúncia vai além do assalto e aponta o
PT como um dos beneficiários do dinheiro subtraído.
Cada
novo capítulo da Operação Lava Jato confirma os vínculos entre aparelhamento,
loteamento e corrupção nos governos entre 2013 e meados de abril de 2016. Esses
governos foram guiados essencialmente por um projeto de poder. Todo o discurso a respeito de planos de
integração social e de mudança econômica nunca foi mais que um esforço de
construção de imagem. Esse esforço pode ter enganado parte do público
brasileiro e, com certeza, uma parte considerável do público estrangeiro. Mas a chamada política social do PT nunca
foi principalmente um instrumento de dominação, baseado muito mais na
transferência de renda – um mecanismo de fácil manejo – do que na efetiva
absorção dos pobres na economia moderna. Sem as transferências, a maior parte
das famílias provavelmente voltaria às condições miseráveis.
Os
aumentos do salário mínimo superiores aos ganhos de produtividade também
proporcionaram alguma melhora do consumo, mas políticas desse tipo são
insustentáveis. Depois de algum tempo, a inflação tende a anular seus efeitos.
Além disso,
nenhuma economia administrada sem disciplina fiscal, uso criterioso de recursos
e atenção ao investimento e à produtividade vai muito longe.
A
recessão brasileira, com mais de 11 milhões de desempregados, é mais uma prova
dessa obviedade ignorada pelos petistas – principalmente pela presidente Dilma
Rousseff e por seus incompetentes favoritos.
Não
há como fixar uma linha divisória entre o estilo de ocupação do governo –
aparelhamento, loteamento e apropriação partidária do Estado – e o desastre
econômico. A mediocridade do primeiro mandato, com crescimento médio anual de
apenas 2,1%, foi um claro prenúncio da recessão. Em 2014 a economia, já atolada
na crise, cresceu 0,1%, enquanto a inflação bateu em 10,67%. A piora do quadro
a partir daí foi um desdobramento normal, até porque a presidente rejeitou os
esforços do ministro Joaquim Levy de reconhecer e enfrentar os problemas.
Quem
vincula a Operação Custo Brasil ao processo de impeachment acerta, no entanto,
pelo menos num ponto. Há um parentesco
indisfarçável entre o projeto de poder do PT, os desmandos na administração
direta e indireta, a desastrosa política econômica e as pedaladas fiscais.
São estas, formalmente, a base do processo de impeachment. Mas só com muito
esforço de abstração é possível separá-las do resto. O resto inclui, entre
outros detalhes, o desemprego de mais de 11 milhões e o assalto aos velhinhos
do crédito consignado. Esse jogo político é indivisível.
União fraterna
Dora Kramer
Espírito de corpo do Senado desvia foco dos
investigados para
crítica aos investigadores!
PAULO BERNARDO E GLEISI HOFFMANN O ex-ministro petista foi detido na Operação Custo Brasil no apartamento da senadora Gleisi Hoffmann (na foto), que é sua esposa, também do PT do Paraná |
Senadores ficaram indignados
com a “batida” da Polícia Federal em um dos apartamentos funcionais da Casa,
ocupado pela colega Gleisi Hoffmann, em operação para busca e apreensão de
provas para instruir o inquérito contra o marido da senadora, ex-ministro Paulo
Bernardo,
preso preventivamente sob a acusação de crime de corrupção.
Os senadores, no entanto,
não pareceram se espantar nem a eles acometeu sentimento de indignação diante
do motivo da investigação: o desvio de R$ 100 milhões das operações de crédito
consignado, no Ministério do Planejamento, entre 2010 e 2015. Segundo os
investigadores, parte do dinheiro teria ido para Paulo Bernardo (titular da
pasta no governo Luiz Inácio da Silva) e parceiros do esquema, parte destinada
aos cofres do PT sob a gerência do notório João Vaccari Neto.
Esse
o real desvio de foco que o cinismo de uns e a apressada simplificação da
realidade de outros apontam como a motivação e/ou consequência da Operação
Custo Brasil – cria da Lava Jato – do Ministério Público de São Paulo. Segundo versão corrente, a prisão de Paulo
Bernardo teria o condão de “desviar o foco” do noticiário político policial do
PMDB para o PT levando “alívio” ao Palácio do Planalto.
Se
não é má-fé é autoengano. Mais de dois anos depois de iniciada, a Lava Jato e
seus desdobramentos chegam aos políticos com uma força que ultrapassa a tarefa
levada a cabo em Curitiba.
Evidente que a prisão de um
graúdo é um baque para o PT. Mas é só mais um. Outros piores vieram e alguns
piores ainda virão para se somar ao passivo do partido, cujo acerto de contas
se dá agora na Justiça e, logo mais, dar-se-á nas urnas.
Essa
é a fatura a ser paga pelos petistas. O que não significa que a cobrança às
contas em aberto de outros grupos políticos desapareça no turbilhão da galeria
como se fosse possível contabilizar o prejuízo alheio como benefício. Polícia
Federal, procuradores e juízes empenhados em esmiuçar o funcionamento do
aparelho corrupto de Estado já mostraram que não fazem cerimônia
ideológico/partidária.
O PMDB safou-se por ora de
ver alguns de seus ilustres na prisão. Mas os inquéritos, os processos, as
denúncias e os fatos (tanto passados quanto ainda a serem comprovados) estão em andamento e, como vemos dia sim outro também, os personagens
se revezam no infortunado destaque à medida que avançam as investigações.
Portanto, o coadjuvante de hoje pode ser o protagonista de amanhã. E
vice-versa.
De
onde não há que se falar em “desvio de foco por motivação política”. Se
tentativa de mudar de conversa há – e claramente há –, parte de suas
excelências cuja unidade de discursos ultimamente (desde o pedido de prisão
para Romero Jucá, José Sarney e Renan Calheiros feito pela Procuradoria-Geral e
negado pelo Supremo Tribunal Federal) está acima das diferenças partidárias.
A ordem da estação é a
crítica à condução das investigações. Nisso estão unidos petistas, tucanos (à
exceção do senador Aloysio Nunes Ferreira), pemedebistas e todo “arco da
sociedade” parlamentar. No pedido de prisão para os colegas mais do que encrencados,
protestou-se que Rodrigo Janot havia “extrapolado”. Agora, na visão dos
senadores, quem extrapolou foi o juiz que ordenou a busca e apreensão relativa
a Paulo Bernardo, que não tem foro especial, porque teria “violado” a
sacrossanta residência da senadora casada com o investigado.
A súbita e fraterna união
teve efeito apaziguador até na Comissão Especial do impeachment, onde o espírito de corpo achou por bem não tocar no assunto e
arquivar temporariamente os embates. Qualificou-se de “silêncio respeitoso”.
Em
contraponto, estabeleceu-se um
absolutamente desrespeitoso silêncio em relação ao desvio de dinheiro do
crédito consignado, certamente a título de pedágio por uma das grandes
obras sociais do PT.
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