Sensacional entrevista de Papa Francisco
No retorno da visita feita à Armênia,
Papa Francisco fala do Brexit, do papa emérito,
do genocídio dos armênios, dos gays, das diaconisas...
Andrea
Tornielli
Vatican
Insider
26-06-2016
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PAPA FRANCISCO com o presidente armênio Serzh Sargsyan e o patriarca supremo dos armênios Karekin II |
«Para
mim, a unidade é sempre superior ao conflito, mas existem diversas maneiras de
estar junto. Há algo que não está bem na União Europeia, é preciso
criatividade. É necessária uma nova União». Disse Francisco dialogando com os
jornalistas no voo de retorno da Armênia.
O
Papa esclareceu o motivo pelo qual usou a palavra genocídio, como fizera no
passado, e explicou que desejou, sobretudo, sublinhar o fato que as grandes
potências olharam para o lado diante do extermínio dos armênios e daqueles de Hitler
e de Stalin.
Bergoglio
desmentiu a ideia que possa existir uma «diarquia» (dupla chefia) papal devido
a presença de um Papa emérito.
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PAPA FRANCISCO Concede entrevista aos jornalistas que o acompanharam na viagem à Armênia, durante o voo de retorno |
Eis a entrevista:
Como
João Paulo II, o senhor parece defender a União Europeia. Está preocupado que o
Brexit [saída
do Reino Unido da União Europeia] possa
levar à desintegração da Europa e até mesmo à guerra?
Papa Francisco: A guerra já está na Europa.
Além disso, há um ar de divisão, não somente na Europa. Lembre-se da Catalunha,
o ano passado da Escócia... Essas divisões, eu não digo que são perigosas, mas
é preciso estudá-las bem e, antes de dar um passo em direção à divisão, é
preciso falar e buscar soluções viáveis. Eu não estudei quais são os motivos
pelos quais o Reino Unido quis tomar essa decisão. Há decisões que são tomadas
para se emancipar: por exemplo, todos os nossos países latino-americanos ou os
africanos se emanciparam das colônias. Isso é mais compreensível, porque, por
trás, há uma cultura, um modo de pensar.
Em
vez disso, a secessão de um país, pensemos na Escócia, é coisa à qual os
políticos, dito sem ofender os Bálcãs, dão um nome: "balcanização". Para mim, sempre a unidade é superior ao
conflito, mas existem diversos modos de unidade. A fraternidade é melhor do que
as distâncias. As pontes são melhores do que os muros. Tudo isso deve nos
fazer refletir: um país pode dizer: "Estou na União Europeia, quero ter
certas coisas que são da minha cultura". O passo que a União Europeia deve tomar para reencontrar a força das
suas raízes é um passo de criatividade e também de sadia "desunião",
isto é, dar mais independência e mais liberdade aos países da União, pensar em
outra forma de união. É preciso ser criativos nos postos de trabalho, na
economia: na Itália, 40% das pessoas com
menos de 25 anos não têm trabalho. Há algo de errado que não vai bem nessa
União maciça, mas não joguemos fora o bebê com a água suja e tentemos recriar. Criatividade e fecundidade são as duas
palavras-chave para a União Europeia.
Por
que o senhor decidiu acrescentar a palavra "genocídio" no seu
discurso no palácio presidencial? Sobre um tema doloroso como esse, o senhor
acha que isso seja útil para a paz?
Papa Francisco: Na Argentina, quando se
falava do extermínio armênio, sempre se usava a palavra genocídio e, na
Catedral de Buenos Aires, no terceiro altar, à esquerda, colocamos uma cruz de
pedra recordando o genocídio armênio. Eu não conhecia outra palavra. Quando eu
chego em Roma, ouço a outra palavra, "grande mal", e me dizem que
genocídio é ofensiva. Eu sempre falei
dos três genocídios do século passado: o armênio, o de Hitler e o de Stalin.
Houve outro na África, mas na órbita das duas grandes guerras são esses três.
Alguns dizem que não é verdade, que não foi um genocídio. Um advogado me disse que é uma palavra técnica, que não é sinônimo de
extermínio. Declarar genocídio envolve ações de reparação.
No
ano passado, quando eu estava preparando o discurso para a celebração em São
Pedro, vi que São João Paulo II usou a palavra, e eu citei entre aspas aquilo
que ele tinha dito. Não foi bem recebido, foi feita uma declaração do governo
turco que chamou de volta, em poucos dias, o embaixador para Ancara, e é um bom
embaixador! Ele voltou há alguns meses. Todos têm direito ao protesto. Não havia a palavra no discurso. Mas,
depois de ter ouvido o tom do discurso do presidente armênio, e pelo meu uso da
palavra, teria soado muito estranho não dizer o mesmo que eu havia dito no ano
passado. Mas, na sexta-feira passada, eu quis sublinhar outra coisa: nesse
genocídio, assim como nos outros dois posteriores, as grandes potências internacionais olhavam para o outro lado.
Durante a Segunda Guerra Mundial, algumas potências tinham a possibilidade de
bombardear as ferrovias que levavam para Auschwitz e não o fizeram. No contexto dos três genocídios, deve-se
fazer esta pergunta histórica: por que não fizeram alguma coisa? Eu não sei
se é verdade, mas se diz que, quando Hitler perseguia os judeus, ele disse:
"Quem se lembra hoje dos armênios? Façamos o mesmo com os judeus".
Mas a palavra genocídio, eu nunca a disse com o ânimo ofensivo, mas
objetivamente.
Há
o papa e há o papa emérito. Causaram discussão as palavras do prefeito da Casa
Pontifícia, Georg Gänswein, e a ideia que ele pareceu sugerir, a de um
ministério petrino "compartilhado". Mas, então, há dois papas?
Papa Francisco: Houve uma época em que havia
três! Eu não li essas declarações. Bento
XVI é papa emérito. Ele disse claramente naquele 11 de fevereiro que faria
a sua renúncia a partir do próximo 28 de fevereiro. Que se retirava para ajudar
a Igreja com a oração. Bento está no
mosteiro, rezando. Eu fui encontrá-lo muitas vezes, falamo-nos por
telefone, outro dia ele me escreveu uma pequena carta fazendo seus votos para
esta viagem. Eu já disse que é uma graça ter em casa o avô sábio. Ele para mim é o papa emérito, é o avô sábio,
é o homem que me protege as costas e a coluna com a sua oração. Eu nunca me
esqueço daquele discurso feito aos cardeais no dia 28 de fevereiro, quando ele
disse: "Entre vocês, está o meu
sucessor: eu prometo obediência a ele". E o fez!
Depois,
eu ouvi, mas não sei se é verdade, rumores sobre alguns que teriam ido ao
encontro dele para se lamentar pelo novo papa, e ele os expulsou com o seu
estilo bávaro. Se não for verdade, está bem contado... porque ele é um homem de palavra, é reto. É o
papa emérito. Eu agradeci publicamente a Bento por ter aberto a porta aos papas
eméritos. Hoje, com esse prolongamento da vida, pode-se reger uma Igreja em uma
certa idade e com as doenças? Ele abriu essa porta. Mas há um só papa, o outro é emérito. Talvez, no futuro, poderá
haver dois ou três, mas são eméritos. Depois
de amanhã, celebra-se o 65º aniversário da ordenação sacerdotal de Bento.
Haverá um pequeno ato, com os chefes de dicastério, porque ele prefere uma
coisa pequena, muito modestamente. Vou dizer algo a esse grande homem de oração
e de coragem, que é o papa emérito, não o "segundo papa", e que é
fiel à sua palavra e é muito sábio.
O
senhor encorajou o Concílio pan-ortodoxo de Creta. Que opinião o senhor tem a
respeito?
Papa Francisco: Uma opinião positiva! Foi
dado um passo à frente, não com 100%, mas um passo à frente. As coisas que
justificaram a não participação de algumas Igrejas são sinceras, são coisas que
podem ser resolvidas: os quatro primazes
que não foram, queriam fazer o Concílio um pouco mais tarde. Mas o primeiro
passo é dado como se pode. Como as crianças, o primeiro passo, elas o dão como
os gatos, depois caminham. O simples
fato de essas Igrejas terem se reunido para se olharem face a face, rezar
juntos e falar é muito positivo. Eu agradeço ao Senhor. No próximo, serão
mais.
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MARTINHO LUTERO (1483-1546) Monge agostiniano e professor de Teologia alemão, figura central da Reforma Protestante |
Hoje,
o senhor falou dos dons compartilhados das Igrejas. Como o senhor, em outubro,
irá à Suécia para comemorar o 500º aniversário da Reforma [Protestante], acha que é o momento certo não só para
recordar as feridas de ambos os lados, mas também para reconhecer os dons e,
talvez, também, para retirar a excomunhão de Lutero?
Papa Francisco: Acredito que as intenções de Lutero não estavam
equivocadas, ele era um reformador. Talvez, alguns métodos não eram certos,
mas, naquele tempo, se lermos a história de Pastor – um alemão luterano que se
converteu e se tornou católico –, veremos que a Igreja não era exatamente um modelo a ser imitado: havia corrupção,
mundanidade, apego ao dinheiro e ao poder. E, por isso, ele protestou, era
inteligente e deu um passo à frente justificando por que fazia isso. Hoje, nós, protestantes e católicos,
estamos de acordo sobre a doutrina da justificação: nesse ponto tão importante,
ele não tinha errado. Ele fez um remédio para a Igreja, depois esse remédio
se consolidou em um estado de coisas, em uma disciplina, em um modo de fazer,
de crer, e depois havia Zwingli, Calvino e, por trás deles, havia os príncipes,
"cuius regio eius religio"
[trad.: «De quem (é) a região, dele (se siga) a religião», ou seja, os súditos
seguem a religião do governante].
Devemos nos colocar na
história daquele tempo, não é fácil de entender. Depois, as coisas seguiram
em frente. Aquele documento sobre a justificação é um dos mais ricos. Há
divisões, mas também dependem das Igrejas. Em Buenos Aires, havia duas Igrejas
luteranas, e elas pensavam de modos diferentes. Até mesmo na Igreja Luterana não há unidade. A diversidade é aquilo
que, talvez, nos fez tão mal a todos, e hoje buscamos o caminho para nos
encontrar depois de 500 anos.
Eu
acredito que, em
primeiro lugar, devemos rezar
juntos. Segundo,
devemos trabalhar pelos pobres, pelos
refugiados, por tantas pessoas que sofrem e, por fim, que os teólogos estudem juntos buscando... Esse é um caminho longo. Uma
vez, eu disse brincando: eu sei quando vai ser o dia da unidade plena, o dia
depois da vinda do Senhor. Não sabemos quando o Espírito Santo vai fazer essa
graça. Mas, enquanto isso, devemos trabalhar juntos pela paz.
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REINHARD MARX Cardeal-Arcebispo de Munique - Alemanha e membro do G8 - Grupo de 8 cardeais que assessora papa Francisco |
Nos
últimos dias, o cardeal [Reinhard] Marx, falando em Dublin, disse que a Igreja
Católica deve pedir desculpas à comunidade gay por ter marginalizado essas
pessoas.
Papa Francisco: Eu repito o Catecismo: essas pessoas não devem ser discriminadas, devem ser respeitadas e
acompanhadas pastoralmente. Podem ser condenadas, não por motivos
ideológicos, mas por motivos de comportamento político, certas manifestações
ofensivas demais para os outros. Mas essas coisas não têm nada a ver, o problema é uma pessoa que tem essa
condição, que tem boa vontade e que busca a Deus. Quem somos nós para julgar?
Devemos acompanhar bem, de acordo com aquilo que o Catecismo diz. Depois, há
tradições em alguns países e culturas que têm uma mentalidade diferente sobre
esse problema.
Eu acredito que a Igreja ou,
melhor, os cristãos, porque a Igreja é santa, não só devem pedir desculpas,
como disse esse cardeal "marxista"...
mas devem pedir desculpas também aos pobres, às
mulheres e às crianças
exploradas, devem pedir desculpas por ter
abençoado tantas armas, por não ter acompanhado
tantas famílias. Eu me lembro, quando criança, a cultura católica fechada de Buenos
Aires: não se podia entrar em casa de divorciados. Estou falando de 80 anos
atrás.
A
cultura mudou, e, graças a Deus, como cristãos, devemos pedir tantas desculpas,
não só sobre isso: "perdão,
Senhor" é uma palavra de que nos esquecemos. O padre "chefe"
e não o padre pai, o padre que bate e não o padre que abraça e perdoa... mas há
tantos santos padres capelães nos hospitais e nas prisões, mas estes não se
veem, porque a santidade tem pudor. Em vez disso, o despudor é descarado e se
faz ver. Tantas organizações, com gente boa e gente não tão boa. Nós, cristãos,
também temos tantas Teresas de Calcutá... Não devemos nos escandalizar, essa é
a vida da Igreja. Todos nós somos santos, porque temos o Espírito Santo, mas
somos todos pecadores, eu por primeiro.
Algumas
semanas atrás, o senhor falou de uma comissão para estudar a possibilidade das
diaconisas. Ela já existe? Às vezes, uma comissão serve para se esquecer do
problema.
Papa Francisco: Havia um presidente da
Argentina que dizia dos outros presidentes: quando você não quer resolver um
problema, faça uma comissão. Eu fui o primeiro a ser surpreendido por essa
notícia, porque, no diálogo com as superioras religiosas, elas me perguntaram: "Ouvimos dizer que, nos primeiros
séculos, havia as diaconisas. Isso poderá ser estudado?". Elas pediram
só isso, e eu contei que conhecia um teólogo sírio que me havia dito: "Sim, elas existiam, mas não se sabe
muito bem se elas tinham a ordenação". Certamente, elas existiam e ajudavam em três coisas: no
batismo das mulheres, nas unções pré e pós-batismais das mulheres. E no
caso em que uma esposa ia se lamentar com o bispo porque o marido lhe batia: o bispo chamava a diaconisa para ver os
hematomas no corpo da mulher. No dia seguinte, as mídias escreveram:
"A Igreja se abre às diaconisas". Eu pedi nomes para fazer uma comissão, e agora ela está lá sobre a
minha escrivaninha, estou prestes a fazê-la.
Mas
há outra coisa: um ano e meio atrás, eu fiz uma comissão de teólogas que
trabalharam com o cardeal Rylko, e elas fizeram um bom trabalho. É muito
importante o pensamento da mulher. Para
mim, a função da mulher não é tão importante quanto o pensamento da mulher, que
pensa de forma diferente do homem, e não se pode tomar uma boa decisão sem
consultar as mulheres, como eu fazia em Buenos Aires. As mulheres veem as coisas sob outra luz, e a solução, depois, no fim,
sempre foi muito fecunda e bela. Gostaria de enfatizar isto: é mais
importante o modo de entender, de pensar, de ver da mulher do que a sua função.
E, depois, repito: a Igreja é mulher, é "a" Igreja, e não é uma
solteirona, é a esposa de Jesus Cristo.
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PAPA FRANCISCO ABRAÇA O PATRIARCA ARMÊNIO KAREKIN II |
Quais
são os seus sentimentos, o estado de ânimo e as orações que o senhor faz pelo
futuro do povo armênio?
Papa Francisco: Desejo para esse povo a justiça e a paz, e rezo por isso, porque é um
povo corajoso.
Eu rezo para que ele encontre a justiça e a paz. Sei que muitos trabalham por
isso. Eu fiquei muito contente na semana passada, quando vi uma fotografia de
Putin com os dois presidentes da Armênia e do Azerbaidjão: ao menos, eles se
falam! E também com a Turquia: o
presidente armênio, no discurso de boas-vindas, teve a coragem de dizer:
coloquemo-nos de acordo, perdoemo-nos e olhemos para o futuro. Essa é uma
coragem grande, é um povo que sofreu
tanto. E, depois, o ícone do povo armênio, que me veio à mente hoje
enquanto eu rezava: uma vida de pedra e
uma ternura de mãe. Ele carregou cruzes, cruzes de pedra, mas não perdeu a
ternura, a arte, a música. Um povo que
sofreu tanto na sua história, somente a fé o manteve de pé. Foi a primeira
nação cristã, porque o Senhor a abençoou, teve bispos santos, mártires e, na
sua resistência, criou uma pele de pedra, mas não perdeu o coração materno, de
uma terra que é mãe. Eu tinha muitos contatos com os armênios em Buenos Aires,
ia muitas vezes ao encontro deles, às missas. Ia jantar com eles... e vocês
fazem jantas pesadas, hein! Para vocês, mais importante do que a pertença à
Igreja Apostólica ou à Católica, é a armenidade, o seu ser armênios.
Nesse
sábado à noite, o senhor pediu que os jovens sejam atores de reconciliação com
a Turquia e o Azerbaijão, países que o senhor irá visitar em outubro. O que se
pode fazer concretamente para ajudar nisso e o que o senhor vai dizer?
Papa Francisco: No Azerbaidjão, falarei aos
azeris da verdade daquilo que eu vi aqui e que eu sinto. Também vou
encorajá-los. Encontrei-me com o presidente azero e falei com ele. Também vou dizer que não fazer a paz por
causa de um pedacinho de terra significa algo de obscuro, mas digo isso a
todos, armênios e azeris. Talvez, eles se ponham de acordo sobre as
modalidades de fazer a paz, e será preciso trabalhar nisso. Vou dizer aquilo
que vier ao meu coração, mas sempre de forma positiva, buscando soluções que
sejam viáveis e que vão em frente.
No
memorial de Yerevan, o senhor rezou em silêncio, sem fazer discursos. Vai fazer
o mesmo quando visitar, em julho, Auschwitz e Birkenau [campos
de concentração nazistas]?
Papa Francisco: Dois anos atrás, em
Redipuglia, eu fiz o mesmo para comemorar o centenário da guerra. Com o
silêncio. Gostaria de ir para Auschwitz,
naquele lugar de horror, sem discursos, sem muitas pessoas, somente as poucas
necessárias, embora os jornalistas, certamente, estarão. Mas sem
cumprimentar este ou aquele. Sozinho,
entrar e rezar para que o Senhor me dê a graça de chorar.
Traduzido
do italiano por Moisés Sbardelotto.
Para acessar a versão original desta entrevista, clique aqui.
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