Quebrando preconceitos: a política e os evangélicos
“Há cegueira da esquerda para entender a
nova classe trabalhadora”
Entrevista
com Roberto Dutra
Sociólogo
e professor da Universidade Estadual do norte Fluminense “Darcy Ribeiro” (Uenf)
André de Oliveira
Para sociólogo, cresce politização da religião, mas
vida prática, e não moral,
é fator decisivo no voto
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ROBERTO DUTRA Sociólogo e Professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense "Darcy Ribeiro" |
Compõem
hoje a maior bancada evangélica da
história do Congresso brasileiro 75 deputados federais e três senadores, o
que faz com que, cada vez mais, suas posições e acordos tenham relevância no
cenário político. Para Roberto Dutra,
doutor em sociologia pela Universidade Humboldt de Berlim e professor da
Universidade Estadual do norte Fluminense “Darcy Ribeiro” (Uenf), o posicionamento dos congressistas,
contudo, não deve ser confundido com as convicções do eleitorado evangélico
como um todo.
Em
um momento em que esse grupo político se uniu em torno do impeachment e de teses conservadoras no campo dos costumes, Dutra avalia
em entrevista ao EL PAÍS os reflexos da interferência da religião na
política e com que olhos os fiéis enxergam isso. Leia abaixo os principais
destaques da conversa.
Existem
hoje temas específicos que motivam o voto do eleitorado evangélico?
Roberto Dutra: São
vários temas, mas há dois eixos
temáticos que têm se destacado. O primeiro é a (1º)
questão da moral e dos costumes
que, contudo, até agora foi determinante apenas em eleições legislativas. Isso
não quer dizer que essa temática não possa se tornar central em algum momento
nas executivas, mas, por enquanto, ela depende muito mais da instrumentalização
política que líderes de perfil religioso têm feito dela. Falar de costumes tem
atraído um eleitorado, mas o que realmente explica as motivações do
comportamento eleitoral, não só dos evangélicos, mas de todas as classes
populares – considerando aí que a maior parte dos evangélicos pertence às
classes populares – é o eixo do (2º) bem estar social. A preocupação é muito
mais prática: saúde, educação e
programas sociais.
A
bancada evangélica votou pelo impeachment
de Dilma Rousseff e tem expressado apoio a Michel Temer. Essa adesão é
transferível ao eleitorado evangélico?
Roberto Dutra: É difícil fazer uma
previsão, mas eu acredito que há uma tendência do Governo Temer tentar usar a
pauta dos costumes para fidelizar esse eleitorado evangélico mais pobre, que,
contudo, tende a se distanciar dele na medida em que ele adotar uma política
socialmente insensível de redução do gasto social. Nós não podemos pegar um
momento como esse, em que a grande polarização ideológica e cultural leva a um
fortalecimento da pauta dos costumes, e projetar isso no comportamento
eleitoral das eleições deste ano ou de 2018. O voto religioso é circunstancial e muito mais presente nas eleições
legislativas do que nas executivas. Por isso, eu acredito que se o Governo
Temer não for capaz de fazer uma política social minimamente satisfatória do
ponto de vista dessa população, ele não vai conseguir o apoio dela.
E
por que o discurso moralista de políticos religiosos perde força nas eleições
majoritárias?
Roberto Dutra: Por razões próprias da
política. Você consegue angariar um número grande de votos para eleger um
deputado como o Bolsonaro, fazê-lo o mais votado. Mas na eleição do executivo, a maior parte do eleitorado não vota por
religião e é também alimentada com informações que servem para descredenciar o
perfil religioso do candidato religioso. Foi o caso do Marcelo Crivella
(PRB), que perdeu a eleição para Governador do Rio de Janeiro de forma
avassaladora para o Luiz Fernando Pezão (PMDB). No final, a vinculação do Crivella à Igreja Universal do Reino de Deus
atrapalhou. Tanto é que dizem por aí que o Crivella está pensando em se
desvincular do PRB, aderindo a um partido não religioso. Ao contrário do que se pensa, o eleitorado brasileiro tem bom senso.
Elegemos um presidente sociólogo, um presidente operário e uma presidenta
guerrilheira. É um eleitorado que não é tão conservador como se imagina.
De
qualquer jeito, a bancada evangélica tem crescido em número e importância nos
últimos anos. O que explica o crescimento?
Roberto Dutra: A extrema facilidade com que
os líderes religiosos pentecostais lidam com as regras da política. É a
capacidade dos evangélicos buscarem a vida política através do pragmatismo. O Edir Macedo, por
exemplo, apoiou o Governo Dilma até recentemente. Se acontecesse uma improvável
volta de Dilma daqui alguns meses, não tenho dúvidas de que ele estaria pronto
para apoiá-la novamente. Também é
importante dizer que é um equívoco falar em coesão da bancada religiosa. A
Igreja Universal, por exemplo, tem uma estratégia de atuação parlamentar bem
diferente da Assembleia de Deus. Só há união em momentos específicos, como
agora.
E
não há interferência direta de algumas igrejas no processo eleitoral?
Roberto Dutra: Hoje há, de fato, igrejas aparelhadas. São verdadeiras
redes que grandes líderes políticos, como Eduardo Cunha, oferecem como
recurso político para outros líderes. O que vemos é que o púlpito tem
fidelizado muito para o legislativo. Mas a curiosidade é que, do ponto de vista
programático, o repertório do sucesso das eleições legislativas dos evangélicos
é um repertório corporativo. É mais
algo do tipo “vote no deputado porque ele
vai defender nossa igreja” e menos “vote no deputado porque ele é contra o
aborto”. Costume e moral não são os fatos predominantes para explicar o voto. É muito mais o sentimento de corpo mesmo,
que é instrumentalizado pelos pastores. Então, o que eu arrisco dizer é que
existe, sim, um crescimento grande da instrumentalização política das igrejas, mas isso
não é uma garantia de votos e pode, em determinado momento, virar até motivo de
debandada de fiéis.
Por
quê?
Roberto Dutra: Ser evangélico não é
pré-requisito de voto para o eleitorado evangélico. As pessoas observam aquilo
que a mídia fala delas, a imagem que é projetada sobre elas. Ficam preocupadas
com a interferência de líderes evangélicos na política. Se há um movimento crescente de transformação das igrejas em curral
eleitoral, por outro lado, aumenta o sentimento de muitos fiéis de que eles
estão sendo feitos de palhaços pelo pastor. E ao mesmo tempo em que aumenta
a politização conservadora da religião, aumenta
também o sentimento de que a fé das pessoas está sendo manipulada por
interesses próprios. E aí a concorrência religiosa é fatal. O Brasil está
em plena modernidade religiosa. Caso esse sentimento dos fiéis aumente, pode
surgir uma variável de dinamização do próprio mercado religioso.
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DA ESQUERDA PARA A DIREITA TEMOS: PASTOR MARCO FELICIANO (DEP. FED. PSC-SP), JAIR BOLSONARO (DEP. FED. PSC-RJ) E PASTOR SILAS MALAFAIA (LÍDER DA IGREJA ASSEMBLEIA DE DEUS - MIN. VITÓRIA EM CRISTO) |
Você
identifica em algum grupo específico esse olhar mais crítico?
Roberto Dutra: Talvez nos jovens. Hoje há uma geração de jovens que já pode
ser chamada de “evangélicos não praticantes”. Uma coisa é você ser
convertido para uma religião evangélica, outra é você nascer nessa cultura. Aí
é natural que você olhe de modo mais distanciado. De qualquer jeito, é
importante não confundir os líderes políticos que têm um perfil religioso – ou
seja, líderes políticos que tem na religião um recurso de poder e mobilização
eleitoral – com as formas de comportamento, consciência e visão de mundo dos
evangélicos como um todo. Além disso, apesar
de óbvio, é necessário dizer que os evangélicos também são heterogêneos. De
modo que há na classe média brasileira
intelectualizada e, inclusive, de esquerda, um preconceito muito grande contra
os evangélicos. Há a premissa de que eles são burros, que eles não sabem
olhar com distanciamento a pauta política do Marco Feliciano
[Dep. Fed. PSC-SP], do Silas Malafaia [líder
do ministério Vitória em Cristo, ligado à Assembleia de Deus], do Pastor Everaldo [presidente do PSC e membro da igreja
Assembleia de Deus – Ministério Madureira], do Jair Bolsonaro
[Dep. Fed. PSC-RJ, que se batizou evangélico recentemente pelas mãos do
pastor Everaldo].
E
como esse distanciamento da esquerda aparece de forma prática?
Roberto Dutra: Ela não consegue ver a
possibilidade de disputar a fidelidade eleitoral e ideológica desse público. Dou
o exemplo mais forte. Um tema central na
vida cotidiana dos evangélicos é a FAMÍLIA, mas a esquerda taxa isso de puro
conservadorismo. A única alternativa política que tem tematizado o tema da
família é – em uma democracia como a nossa, e eu diria que em várias outras
também – a da DIREITA. Ou seja, é
justamente quem fala para os evangélicos: a família corre risco porque os
homossexuais, a ideologia de gênero e os “esquerdopatas” estão ameaçando ela.
Sem outra explicação, muitas vezes o indivíduo aceita essa mesma. Assim, a identificação dos evangélicos com a pauta
política de seus líderes vem em alguns casos por pura falta de alternativa e
compreensão dos setores ditos mais esclarecidos da sociedade que não
conseguem compreender que o tema da família não é necessariamente conservador.
E
por que esse tema tem tanto apelo?
Roberto Dutra: Por razões de classe social.
Os evangélicos se dividem, basicamente,
em dois tipos de classe, que eu e o grupo de pesquisadores em torno do
sociólogo Jessé Souza, costumamos dividir como ralé estrutural e batalhadores.
O primeiro é um público completamente excluído das principais instituições da
sociedade. Em geral, eles frequentam
igrejas evangélicas que funcionam como uma espécie de pronto socorro espiritual.
O segundo grupo tem uma vida familiar e social mais estável, com vínculos
sociais mais fortes. Há uma proteção e solidariedade com que a ralé não conta. Para os dois públicos, contudo, a ameaça
familiar é uma ameaça real e constante, seja por fatores econômicos, de
alcoolismo ou de desestabilização social, como a falta de uma moradia decente.
São problemas que as classes populares e excluídas enfrentam no mundo inteiro.
Ora, só vai considerar o tema da família
conservador quem não vê no abandono um problema cotidiano. Em resumo, os evangélicos
agem muito mais por interesses práticos e
que podem tomar rumos muito variados, de acordo com os partidos políticos que
interpretam esses interesses práticos, do que propriamente por convicções
conservadoras. Convicções que eles podem até ter, mas que não são tão claras e
fortes como se imagina.
Mas
onde entram as classes mais altas evangélicas nessa separação que você colocou?
Roberto Dutra: Elas constituem um público mais tradicional, não pertencente
historicamente às classes hegemônicas católicas brasileiras, que em geral faz
parte das chamadas igrejas protestantes
históricas ou de missão, como as
igrejas Batista e Presbiteriana que,
embora tenham copiado muitos dos ritos e das ideias das pentecostais, como
Universal e Assembleia de Deus, mantêm um estilo, digamos, mais sóbrio. O
público é formado por uma classe média ascendente com um determinado padrão de
formação escolar e nível de renda mais estável. Mas esse é um público minoritário entre os evangélicos.
Pode
resumir a diferença entre o protestantismo “clássico” e o pentecostalismo?
Roberto Dutra: Ele é uma revolução
protestante dentro da revolução protestante e surge na Igreja Metodista
Wesleyana. John Wesley é um dos grandes
fundadores do pentecostalismo, mas outros líderes menores popularizam ainda
mais essa religião entre os negros dos Estados Unidos no final do século 19,
início do 20. Ela se caracteriza por uma
crença, muito grande, na força de Deus para mudar as coisas cotidianas. É o
que podemos chamar de uma religiosidade
mágica.
No Brasil, isso chega em 1910, mas é só a partir da década de 1960, com a
urbanização da pobreza, que o protestantismo brasileiro vai tomando a cara do
pentecostalismo. Qual é a diferença básica? É que o protestantismo clássico não enfatiza tanto a presença cotidiana do Espírito
Santo para resolver os problemas cotidianos das pessoas. O protestante batista
não espera que Deus vá ajudá-lo a passar em um concurso público, já um
pentecostal crê nisso. O pentecostalismo é mais popular que o
protestantismo clássico. Por isso, com o tempo, vai virando a religião dos excluídos. Disso que nós denominamos ralé estrutural. É uma religião que oferece valor social para os excluídos: Deus tem um
projeto para sua vida, você vale alguma coisa.
Você
disse que existe um preconceito de setores progressistas com os evangélicos. Há
uma crítica de que o PT se afastou dos mais pobres nos últimos anos, perdendo
espaço para as igrejas. Você concorda com essa avaliação?
Roberto Dutra: Acredito que é uma
explicação muito reducionista. Eu concordo que o PT se distanciou dos pobres,
mas o que significa isso? O PT certamente não se distanciou dos pobres no
sentido de fazer políticas sociais para os pobres. No entanto, o PT se distanciou culturalmente dos pobres.
O PT é informado por uma visão de esquerda de que os pobres devem seguir um
modelo de ser e agir que vem dos moldes dos sindicatos. Os pobres devem ser coletivistas. Os pobres devem se enquadrar em um viés de solidarismo
anti-individualista. Toda vez que o PT encontra a valorização do indivíduo,
a valorização da autonomia do indivíduo frente às intempéries da vida, que, em
resumo, é a pregação cotidiana das igrejas pentecostais, o PT aponta o dedo
acusatório: “É a pregação do
individualismo, é a pregação do neoliberalismo dentro das igrejas”. O PT não entende essa filosofia liberal
popular e nem o valor moral do individualismo que está por trás dela.
O
que você quer dizer com “valor moral do individualismo”?
Roberto Dutra: É a ideia de que para ser alguém valoroso na sociedade é
preciso ser um indivíduo respeitado em sua privacidade, em seu projeto de vida.
De modo que há, de forma muito presente nas igrejas, essa cultura da valorização da iniciativa individual. E isso não
significa a negação da solidariedade. Acredito que há uma cegueira do PT em
compreender a alma e a cultura dessa nova classe trabalhadora que não é formada
no sindicato e que hoje é a maior parte dos brasileiros pobres e remediados do
país. Esse é o distanciamento que existe, mas ele não é exclusivo do PT. A esquerda de forma geral não entendeu que
o sonho dessa nova classe trabalhadora é, muitas vezes, ter uma empresa
própria, ser um empreendedor. Há muitas semelhanças com a população dos
Estados Unidos, por exemplo. É um
liberalismo popular que não é, necessariamente, conservador. Hoje, esses
ideais liberais de autonomia e afirmação do indivíduo estão em disputa e os
conservadores têm conseguido capturá-los com mais eficiência.
Fonte: El País – Brasil – Domingo, 5 de junho de
2016 – 19h13 – Internet: clique aqui.
VEJA ESTES
EXEMPLOS...
A fé evangélica e a política: aposta
à direita traz riscos
André de
Oliveira
Apesar do bom resultado para políticos, para parte dos
fiéis religião
e política não devem se misturar
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CAROL SANTOS - 20 ANOS |
Ela
não é o tipo de garota que, segundo o senso comum, estaria na porta de uma
igreja evangélica, numa gélida quarta-feira à noite de maio, preparando-se para
sair com sua mãe para vender balas – uma forma de arrecadar dinheiro para a
congregação – pelas ruas de São Paulo. Eleitora de Eduardo Jorge – candidato que defendeu pautas como
descriminalização das drogas e união homossexual nas eleições de 2014 –, cabelo
tingido de vermelho e estudante de cinema, Carol
Santos, 20 anos, é tudo isso e, ao mesmo tempo, também líder do grupo de jovens da pequena e recém-criada igreja que
frequenta, no bairro da Mooca, zona leste da cidade.
A aparente contradição entre
suas opções políticas, religiosas e pessoais, contudo, não passa disso: uma
aparente contradição. O estranhamento é causado pela imagem
estereotipada, aliada a certa dose de pré-conceitos, que diz que o eleitorado evangélico é tal e qual as lideranças da
bancada religiosa. Classe média, Carol votou em Dilma Rousseff no segundo
turno de 2014, posicionou-se contra o impeachment,
viu com extrema preocupação a novela do fim e reabertura do Ministério da
Cultura, concorda que parte de suas crenças são conflitantes com propostas como
as de Eduardo Jorge, mas acredita que religião e política não deveriam se
misturar. “É claro que sempre vai haver
uma influência, afinal, vivemos em uma sociedade com valores conservadores, mas
isso de bancada religiosa? Não, obrigada”.
“Nós não podemos confundir
os líderes políticos, que têm na religião um recurso de poder e mobilização
eleitoral, com as formas de comportamento, consciência e visão de mundo dos
evangélicos como um todo”. [...]
Hoje,
o Congresso conta com 75 deputados federais e três senadores evangélicos. É a
maior bancada evangélica da história. E, cada vez mais, tem chamado a atenção
de cientistas sociais e políticos em busca de alianças. Segundo Dutra, desde que teve início a crise política, que
culminou no impeachment de Dilma, o
grupo começou a se posicionar como um bloco coeso. Além de ter apoiado
maciçamente o afastamento da presidenta, votando pelo impedimento (muitas
vezes, em nome de Deus) não é de hoje
que tem defendido pautas cada vez mais alinhadas à direita do espectro
político: seja no campo dos costumes ou no de políticas sociais e econômicas.
A coesão, contudo, nem sem sempre foi a tônica. Atualmente, seguindo uma
tendência que não é apenas brasileira, parece ter encontrado na Bíblia uma
forma de seduzir um filão mais conservador da sociedade, mas que, não por isso,
representa o eleitorado evangélico como um todo.
“Eu acho que recentemente existe um uso do
cristianismo para a defesa de pontos de vista de direita. É claro que um
político evangélico vai acabar colocando em sua atuação um pouco de seus
valores, mas isso não pode ser o foco. Acho uma utopia acreditar que as
opiniões pessoais não vão influir, mas o
problema é fazer política em nome da religião”, comenta Carol. Enquanto candidatos evangélicos
se aproximaram cada vez mais da direita, Dutra avalia que partes mais
progressistas do espectro político e da sociedade se afastaram desse eleitorado
nos últimos anos – especialmente depois de enfrentamentos mais duros no
Congresso, como no caso em que o
controverso pastor Marco Feliciano (PSC-SP) presidiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
[...]
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MARIA DAS DORES CAMPOS MACHADO Socióloga (UFRJ) |
Na
fala de posse dos ministros de Michel
Temer, o presidente interino disse querer fazer um “ato religioso com o Brasil” ou uma espécie de “religação” dos brasileiros com “valores fundamentais” da sociedade.
Alguns dias antes, ainda em abril, tinha sido abençoado pelo conservador pastor
Silas Malafaia, que defende temas
como a cura gay. Além disso, tem
recebido apoio expressivo de representantes da bancada evangélica, como do
pastor Marco Feliciano. Para Dutra,
esses são indícios de que o presidente
interino pode tentar usar a pauta conservadora dos costumes, tão em evidência
entre os políticos evangélicos, para tentar fidelizar os fiéis brasileiros
– que, segundo o censo de 2010, são hoje 22% da população.
“Acredito
que essa vai ser a tentativa de Temer, mas aborto,
homossexualidade e drogas são temas menores quando comparados com os sociais.
Do ponto de vista desse eleitorado, o
que pega mais forte é mesmo a questão social: como viver o dia a dia. Ao mexer
em programas sociais, saúde e educação, ele pode ter uma surpresa negativa”,
diz a socióloga Maria das Dores Machado,
Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). [...]
Na rua Conde Sarzedas, especializada em
produtos evangélicos e distante alguns quilômetros do bairro da Mooca de São
Paulo, onde fica a congregação de Carol,
o vendedor ambulante e pastor Adoniran
Oliveira, 44 anos, é um bom exemplo da análise feita pela socióloga Maria
das Dores. À frente de uma minúscula e humilde congregação na favela Açucará, em Osasco, Oliveira é conservador nos costumes, mas
coloca à frente de qualquer questão "os degraus" que subiu durante,
principalmente, os anos de Governo Lula. “É claro que eu fico decepcionado
com o PT, votei neles a vida toda e agora não sei mais em quem votaria, mas eu
não posso negar que eu e toda minha comunidade mudamos de vida nesses anos,
nunca ninguém olhou pro pobre como eles olharam". Vestindo um terno azul
bebê e uma camisa verde limão, Oliveira diz que “é claro que eu não acho certo
dois gays se beijando, mas eu oro bastante para que eles encontrem o caminho de
Jesus, o que mais posso fazer se a vida é deles? Saúde e educação, com certeza
são mais importantes do que isso". [...]
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JENNIFER OLIVEIRA (21 ANOS) E JOÃO LUCAS (20 ANOS) |
De
volta à Mooca, os amigos de Carol, Jennifer Oliveira, 21 anos, e João Lucas, 20 anos, são menos
incisivos que a menina em temas delicados, mas também veem com desconforto a crescente interferência da religião na
política. “Por causa da importância que a bancada evangélica ganhou no
Congresso, tudo o que acontece ali está refletindo demais no nosso mundo. Fica parecendo que o político evangélico é
o evangélico e isso não tem sido bom”, comentam os dois. Para eles,
misturar as duas coisas é desrespeitar o tempo do evangelho e dos assuntos
espirituais. Segundo Maria das Dores, a preocupação é constante entre os
evangélicos: “O fato de algum político
evangélico ser corrupto ou participar de qualquer disputa polêmica traz um ônus
muito grande para eles”.
Para
a socióloga, até 2002, o discurso da ÉTICA NA POLÍTICA prevalecia
entre a maior parte dos candidatos evangélicos, mas com o envolvimento de muitos deles em escândalos, os COSTUMES se
transformaram gradativamente na principal plataforma. “Como o Eduardo Cunha [PMDB-RJ], por exemplo, pode se dizer
evangélico e participar de tantos escândalos? Ele mostra bem que pouco importa
se a pessoa é a favor ou contra o aborto, o que importa é como ela age”,
comenta Jennifer, que é estudante de
Farmácia. Envolvido em uma série de polêmicas políticas e suspeitas de
corrupção – entre elas, o fato de ser dono de uma frota de oito carros de luxo
registrados em nome de uma de suas empresas, a Jesus.com –, o presidente afastado da Câmara dos Deputados pode ser
considerado hoje o líder evangélico mais conhecido do Brasil. “Não dá pra ser evangélico e roubar.
Impossível”, conclui Jennifer.
Piercing, drogas, homossexualidade...
Qual é o lugar de cada uma dessas coisas na sociedade e como elas se relacionam
com a religiosidade? “Tudo o que eu penso e que diverge dos pensamentos
cristãos é assunto de conversa com meu pastor. A gente conversa, ele me explica
coisas do evangelho, me orienta e eu tiro minhas conclusões”, conta Carol. E a
política? Bom, já sabe. Para ela, a política deve passar bem longe disso tudo.
Segundo Dutra, o posicionamento da garota e de seus amigos será cada vez mais
frequente nas igrejas evangélicas: maior
escolaridade e o fato de os jovens já serem de gerações que nasceram
frequentando congregações com seus pais, sem terem passado pela marcante
experiência da conversão, explicam um pouco disso. Dutra conclui dizendo
que hoje está tudo em aberto: "Ao mesmo tempo em que aumenta a politização
conservadora da religião, aumenta também o sentimento de que a fé das pessoas
está sendo manipulada por interesses próprios."
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