A desigualdade matará até 69 milhões de crianças em 15 anos
ANA DIAS
CORDEIRO
Houve avanços nalguns países mas as desigualdades
continuam a ser extremas entre Estados e dentro dos próprios países entre os
mais ricos e os mais pobres, resume o UNICEF
![]() |
Criança aguarda a distribuição de alimento em campo de refugiados na Somália - África |
Os
avanços conseguidos para se alcançarem os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio
(ODM) em 2015 permitem olhar para a pobreza e níveis de desenvolvimento numa
perspectiva mais positiva nalgumas partes do planeta. Globalmente, as taxas de mortalidade de crianças até aos cinco anos
baixaram para menos de metade do que em 1990 e o total das pessoas a viver na
pobreza extrema é quase metade do que era nessa década.
Mas isso apenas nalguns
países e regiões do globo, escreve o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) no seu
relatório Uma
oportunidade justa para todas as crianças publicado hoje. Angola continua a ser o país do mundo onde
morrem mais crianças: 157 em mil com menos de cinco anos. Este país
produtor de petróleo tem assim a maior taxa de mortalidade infantil, seguido do Chade e da Somália. Também a
Guiné Equatorial, outro Estado
petrolífero e membro da Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa (CPLP) desde 2014, apresenta uma taxa elevada,
posicionando-se em 11º, logo a seguir à República
Democrática do Congo e do Níger, com 93 mortes em cada mil crianças com
menos de cinco anos.
Guiné-Bissau e Moçambique também estão na lista dos
25 países onde essa taxa é mais elevada, com
93 mortes por mil e 79 mortes por mil respectivamente, sendo os dois únicos
países lusófonos onde o UNICEF encontrou
uma carência extrema de médicos, enfermeiros e parteiras – com números
abaixo dos 10 profissionais do setor por 10 mil pessoas, sendo o nível
considerado mínimo para a Organização Mundial de Saúde de 23 profissionais de
saúde por cada 10 mil habitantes.
![]() |
ÁFRICA SUBSAARIANA É formada por todos os países localizados abaixo do deserto do Saara, no norte da África |
O
relatório identifica causas para retrocessos e exemplos de sucesso e coloca o
enfoque na igualdade, ao admitir que “os
progressos alcançados não foram uniformes nem justos”. As expectativas
negativas traduzem-se em números avassaladores no relatório e o prefácio do
diretor-executivo Anthony Lake,
alerta para isso mesmo, se nada for feito para inverter a tendência.
“O tempo de agir é agora”, escreve o responsável do
UNICEF. É urgente esbater as desigualdades “que colocam milhões de crianças em
perigo e ameaçam o futuro” num mundo onde é
dez vezes mais provável uma criança da África Subsaariana morrer antes dos
cinco anos, do que uma criança num país rico, defende.
Os Objetivos para o Desenvolvimento do Milênio
não foram atingidos entre 2000 e 2015. E
2030 passou a ser a nova meta para se alcançarem idênticos indicadores – os
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
– que introduzem, entre outras coisas, a redução
das desigualdades dentro dos países mas também entre eles.
Em
média, e tendo em consideração a dimensão da população, a desigualdade aumentou 11% entre 1990 e 2010 nos países em
desenvolvimento. E uma grande maioria de famílias, mais de 75% segundo as
Nações Unidas, vive em sociedades onde o rendimento é menos bem repartido do
que na década de 1990.
Avanços
e diferenças
No
mundo inteiro, as crianças que nascem hoje têm 40% mais hipótese de sobreviver
antes de completarem cinco anos e de irem à escola do que as crianças nascidas
no início da década de 2000, conclui o documento de mais de 180 páginas. Porém,
ao mesmo tempo que assinalam avanços, as
médias nacionais escondem disparidades flagrantes – e por vezes crescentes
– entre crianças de famílias mais pobres
e crianças de famílias mais ricas. “Não podemos deixar que a história se
repita”, assume o documento que quantifica claramente custos e consequências do
fracasso e qualifica-os de “enormes”.
O
fracasso é previsível, se as tendências
dos últimos 15 anos se mantiverem nos próximos 15 anos. Se assim for, 167 milhões de crianças poderão estar a
viver na pobreza extrema, a maioria das quais na África Subsaariana.
Estima-se igualmente que 3,6 milhões de crianças por ano poderão morrer antes
dos cinco anos, ainda e na maior parte dos casos por doenças ou causas que
poderiam ter sido evitadas se tivessem sido prestados cuidados de saúde.
![]() |
167 milhões de crianças poderão viver na extrema pobreza se a tendência atual for mantida, especialmente na África Subsaariana |
Síria
e refugiados entre as principais preocupações
A África Subsaariana,
a Síria
devido ao prolongamento e à violência da guerra, e os milhões de refugiados que
fugiram deste e de outros países são os
três focos de maior preocupação do UNICEF relativamente à pobreza infantil.
A população pobre da Síria mais do que triplicou, ao passar de 12,3% do
total em 2007 para 43% do total em 2013. Estima-se que entre os milhões de
refugiados, sobretudo sírios, mais de dois terços sejam pobres. E neste conjunto,
as crianças representam mais de metade. Nalguns casos, só há dados estatísticos
disponíveis até 2013.
O
UNICEF constata por outro lado que depois de vários anos em que a pobreza
baixou nos países do Norte da África e Médio Oriente, voltou a estagnar ou
mesmo a aumentar nalguns países. Nos
países da África Subsaariana, vive não apenas a maioria da população pobre, mas
aquela que continua a aumentar. Lê-se no relatório que, partindo das
tendências atuais, e se nada se alterar,
serão nove em cada 10 crianças a viver com menos de 1,9 dólares por dia (± 6,50
reais) em 2030 de países da África Subsaariana.
Comentários
Postar um comentário