Papa: oração é principal caminho para sair dos fechamentos
Rádio Vaticano
Papa presidiu, hoje, Missa na festa dos santos
apóstolos Pedro e Paulo, e destacou o poder que a oração tem de levar o homem à
abertura aos outros
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PAPA FRANCISCO Levando o Evangeliário durante a Santa Missa na Solenidade dos Santos Pedro e Paulo Basília de S. Pedro - Vaticano Quarta-feira, 29 de junho de 2016 |
O
Papa presidiu na manhã desta quarta-feira (29 de junho), à Missa da Solenidade
dos Apóstolos Pedro e Paulo – padroeiros de Roma.
Como é tradição nesta
celebração, o Pontífice abençoou os pálios dos novos arcebispos metropolitanos – dentre eles, quatro brasileiros – que serão impostos
pelos Núncios Apostólicos nas respectivas arquidioceses. Estes são os novos
arcebispos para o Brasil: Dom Roque
Paloschi (Porto Velho – Rondônia), Dom
Zanoni Demettino Castro (Feira de Santana – Bahia), Dom Rodolfo Luís Weber (Passo Fundo – Rio Grande do Sul) e Dom Darci José Nicioli, redentorista
(Diamantina – Minas Gerais).
Em sua homilia, o Papa
recordou episódios decisivos e fundamentais da vida dos Apóstolos e da
comunidade cristã para superar seus próprios egoísmos, medos e fechamentos.
“A principal via de saída dos fechamentos é
a oração... A oração, como humilde entrega a Deus e à sua santa vontade, é
sempre a via de saída dos nossos fechamentos pessoais e comunitários”, afirmou
o Pontífice.
Abertura
O
próprio Paulo, ao escrever a Timóteo
– prosseguiu o Papa – fala da sua experiência de libertação, de saída do perigo
de ser ele também condenado à morte.
“Entretanto,
Paulo fala de uma ‘abertura’ muito maior, para um horizonte infinitamente mais
amplo: o da vida eterna, que o espera depois de ter concluído a ‘corrida’
terrena”, discerniu Francisco.
Já
a confissão de fé de Pedro e a
consequente missão a ele confiada por Jesus – disse Francisco – mostra-nos que a vida do pescador galileu Simão – assim
como a vida de cada um de nós – se abre, desabrocha plenamente quando acolhe,
de Deus Pai, a graça da fé.
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PROCISSÃO COM O EVANGELIÁRIO TRAZIDO PELOS DIÁCONOS Santa Missa na Solenidade dos Santos Pedro e Paulo Basílica de São Pedro - Vaticano |
Orgulho
“E Simão põe-se a caminhar – um caminho longo
e duro – que o levará a sair de si mesmo, das suas seguranças humanas,
sobretudo do seu orgulho misturado com uma certa coragem e altruísmo
generoso”, recordou o Papa.
A oração de Jesus foi decisiva neste
percurso de libertação de Pedro: “Eu
roguei por ti [Simão], para que a tua fé não desapareça”. E, igualmente
decisivo – sublinhou Francisco – é o olhar cheio de compaixão do Senhor depois
que Pedro o negou três vezes: um olhar que toca o coração e liberta as lágrimas
do arrependimento.
“Então
Simão Pedro foi liberto da prisão do
próprio eu orgulhoso e medroso, e superou a tentação de se fechar à chamada
de Jesus para o seguir no caminho da cruz”, recordou o Papa.
Medos
Neste
ponto, ao recordar o episódio de Pedro liberto que bate à porta mas ficam com
medo de abrir porque ele é procurado, o Papa disse que o medo sempre nos paralisa, nos fecha às surpresas de Deus.
“Este
detalhe fala-nos de uma tentação que
sempre existe na Igreja: a tentação de fechar-se em si mesma, à vista dos
perigos”, advertiu o Papa.
Porém,
atrás daquela porta estavam muitas pessoas que rezavam, narra o Evangelho. E
esta é uma brecha por onde Deus pode agir, concluiu o Pontífice.
“A oração permite que a graça abra uma via
de saída: do fechamento à abertura, do medo à coragem, da tristeza à alegria.
E podemos acrescentar: da divisão à unidade”.
À frente, de mitras brancas, encontram-e os novos arcebispos que se fizeram presentes na Santa Missa para receber a bênção de seus pálios |
Abaixo
encontra-se o texto integral da homilia de Papa Francisco:
HOMILIA
Santa Missa e bênção dos pálios para os novos arcebispos
metropolitanos
na solenidade dos santos apóstolos Pedro e Paulo
Basílica Vaticana
Quarta-feira, 29 de junho de 2016
Nesta liturgia, a Palavra de Deus contém um
binômio central: fechamento/abertura.
E, relacionado com esta imagem, está também o símbolo das chaves, que Jesus promete a Simão Pedro para que ele
possa, sem dúvida, abrir às pessoas a entrada no Reino dos Céus, e não fechá-la
como faziam alguns escribas e fariseus hipócritas que Jesus censura (cf. Mt
23,13).
A
leitura dos Atos dos Apóstolos (12,1-11) apresenta-nos três fechamentos: o de
Pedro na prisão; o da comunidade reunida em oração; e – no contexto próximo da
nossa perícope – o da casa de Maria, mãe de João chamado Marcos, a cuja porta
foi bater Pedro depois de ter sido libertado.
Vemos que a principal via de saída dos fechamentos é a oração: via de saída para a comunidade, que
corre o risco de se fechar em si mesma por causa da perseguição e do medo; via de saída para Pedro que, já no
início da missão que o Senhor lhe confiara, é lançado na prisão por Herodes e
corre o risco de ser condenado à morte. E enquanto Pedro estava na prisão, «a
Igreja orava a Deus, instantemente, por ele» (At 12,5). E o Senhor responde à
oração com o envio do seu anjo para o libertar, «arrancando-o das mãos de
Herodes» (cf. v. 11). A oração, como
humilde entrega a Deus e à sua santa vontade, é sempre a via de saída dos
nossos fechamentos pessoais e comunitários. É a grande via de saída dos
fechamentos.
O próprio Paulo, ao escrever a Timóteo, fala da sua experiência de
libertação, de saída do perigo de ser ele também condenado à morte; mas o
Senhor esteve ao seu lado e deu-lhe força para poder levar a bom termo a sua
obra de evangelização dos gentios (cf. 2Tm 4,17). Entretanto Paulo fala duma «abertura» muito maior,
para um horizonte infinitamente mais amplo: o da vida eterna, que o espera
depois de ter concluído a «corrida» terrena. Assim é belo ver a vida do
Apóstolo toda «em saída» por causa do Evangelho: toda projetada para a frente,
primeiro, para levar Cristo àqueles que não O conhecem e, depois, para se
lançar, por assim dizer, nos seus braços e ser levado por Ele «a salvo para o
seu Reino celeste» (v. 18).
PAPA FRANCISCO Faz sua homilia durante a Santa Missa na Solenidade dos Santos Pedro e Paulo |
Voltemos a Pedro… A narração evangélica (Mt
16,13-19) da sua confissão de fé e consequente missão a ele confiada por Jesus
mostra-nos que a vida do pescador
galileu Simão – como a vida de cada um de nós – se abre, desabrocha plenamente
quando acolhe, de Deus Pai, a graça da fé. E Simão põe-se a caminhar – um
caminho longo e duro – que o levará a sair de si mesmo, das suas seguranças
humanas, sobretudo do seu orgulho misturado com uma certa coragem e altruísmo
generoso. Decisiva neste seu percurso de
libertação é a oração de Jesus: «Eu
roguei por ti [Simão], para que a tua
fé não desapareça» (Lc 22,32). E
igualmente decisivo é o olhar cheio de compaixão do Senhor depois que Pedro
O negou três vezes: um olhar que toca o coração e liberta as lágrimas do
arrependimento (cf. Lc 22,61-62). Então Simão
Pedro foi liberto da prisão do seu eu orgulhoso, do seu eu medroso, e superou a tentação de se fechar à chamada
de Jesus para O seguir no caminho da cruz.
Como já aludi, no contexto próximo da
passagem lida dos Atos dos Apóstolos, há um detalhe que pode fazer-nos bem
considerar (cf. 12,12-17). Quando Pedro, miraculosamente liberto, se vê fora da
prisão de Herodes, vai ter à casa da mãe de João chamado Marcos. Bate à porta
e, de dentro, vem atender uma empregada chamada Rode, que, tendo reconhecido a
voz de Pedro, em vez de abrir a porta, incrédula e conjuntamente cheia de
alegria corre a informar a patroa. A narração, que pode parecer cômica – e pode
ter dado início ao chamado «complexo de Rode» –, deixa intuir o clima de medo em que estava a comunidade
cristã, fechada em casa e fechada também às surpresas de Deus. Pedro bate à
porta. – «Vai ver quem é!» Há alegria, há medo… «Abrimos ou não?» Entretanto
ele corre perigo, porque a polícia pode prendê-lo. Mas o medo paralisa-nos, sempre nos paralisa; fecha-nos, fecha-nos às
surpresas de Deus. Este detalhe fala-nos duma tentação que sempre existe na Igreja: a tentação de fechar-se em si
mesma, à vista dos perigos. Mas mesmo aqui há uma brecha por onde pode
passar a ação de Deus: Lucas diz que, naquela casa, «numerosos fiéis estavam
reunidos a orar» (v. 12). A oração permite que a graça abra uma via de saída:
do fechamento à abertura, do medo à coragem, da tristeza à alegria. E podemos
acrescentar: da divisão à unidade. Sim, digamo-lo hoje com confiança,
juntamente com os nossos irmãos da Delegação enviada pelo amado Patriarca
Ecumênico Bartolomeu para participar na festa dos Santos Padroeiros de Roma.
Uma festa de comunhão para toda a Igreja, como põe em evidência também a presença dos Arcebispos Metropolitas que
vieram para a bênção dos Pálios, que lhes serão impostos pelos meus
Representantes nas respetivas Sedes.
Os Santos Pedro e Paulo intercedam por nós
para podermos realizar com alegria este caminho, experimentar a ação
libertadora de Deus e a todos dar testemunho dela.
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